O charme discreto dos concursos de beleza e o luso-tropicalismo na década de
1970
INTRODUÇÃO
Apoiado num conjunto de pressupostos históricos e lugares comuns sobre o
caráter dos portugueses, o luso-tropicalismo adaptou-se à história portuguesa e
serviu de suporte científico à chamada mística luso-cristã de integração
(Freyre, 1961). Convertido em teoria explicativa da colonização portuguesa, ou
prova abonatória da particular maneira portuguesa de estar no mundo1, o luso-
tropicalismo permeou vários campos da vida social e deixou um lastro material
da sua existência em vários lugares (Alexandre, 1993; Castelo, 1999; Léonard,
1999; Almeida, 2000; Arenas, 2006).
Mesmo quando os ventos de mudança pareciam anunciar o fim do império colonial
português e das ideologias que o sustentavam, subsistia na cultura de massas um
conjunto de espetáculos mediáticos que continuavam a reproduzir o luso-
tropicalismo (Cardão, 2012). Um desses espetáculos foi o concurso Miss
Portugal, que entre 1971 e 1974 incluiu concorrentes provenientes de todo o
império português. O concurso recriou, assim, o mapa imaginário do império
português e proporcionou uma das derradeiras encenações do denominado mundo
português.
Embora fosse visto como um mero entretenimento, anódino e inconsequente sob o
ponto vista político, o concurso Miss Portugal contribuiu para disseminar a
ideia de um Portugal maior, unido na aparente dispersão do seu território.
Não só porque envolveu concorrentes provenientes das colónias, mas também
porque suscitou uma série de comentários e discursos que aludiam ao
excecionalismo português. São precisamente esses discursos que pretendo
escrutinar neste artigo, evidenciando o modo como no início da década de 1970
eles converteram a nação num dado adquirido, com fronteiras aparentemente
inquestionáveis e evidentes. Deixando de lado a história propriamente dita dos
concursos de beleza em Portugal, um evento que importa investigar com maior
profundidade, nas próximas páginas vou assinalar como o concurso proporcionou
discursos apologéticos, convocou paixões e acenou o nacionalismo banal
(Billig, 1991). O objetivo é lançar um novo olhar sobre o luso-tropicalismo,
discutindo a sua disseminação a partir de eventos triviais, como os concursos
de beleza, que foram porventura mais eficazes para a sua propagação do que
muitas campanhas realizadas pelos organismos de propaganda oficiais. Através
deste artigo procurar-se-á ainda dar conta da historicidade equívoca do luso-
tropicalismo, mostrando como é que o concurso também refletiu as
vulnerabilidades e incertezas de um modo de imaginar a comunidade lusíada.
AS MISSES E OS TRÓPICOS
Os concursos de beleza costumam ser o parente pobre da cultura de massas.
Apesar de serem considerados espetáculos frívolos e pueris, os concursos de
beleza intersetam questões de género, nacionalismo e ideologia, além de criarem
uma poderosa imagem da feminilidade, que influencia valores, crenças e atitudes
(Weiser, 1999). Os concursos são por isso um evento historicamente singular e
merecem uma análise crítica mais aprofundada.
A expansão internacional dos concursos de beleza, e a adoção generalizada da
palavra miss, confirmou a hegemonia norte-americana na cultura de massas
(Jameson, 1992). Esta supremacia não impediu uma reterritorialização deste tipo
de eventos, que se adaptaram às circunstâncias locais e proporcionaram um
conjunto de discursos sobre aquilo que seria peculiar e único em cada país,
designadamente generalizações sobre tipos de beleza feminina, que evidenciavam
a importância mediadora da nação na imaginação da diferença através dos corpos
femininos. Ao inventarem signos palpáveis de uma suposta beleza nacional, os
concursos de beleza convertiam o género num dispositivo central para imaginar
uma comunidade.
No início da década de 1970 os concursos de beleza articularam as ansiedades do
tempo e deram origem a uma série de fantasias políticas que reforçaram algumas
representações do nacionalismo português. A inclusão de concorrentes
provenientes de Angola e Moçambique no concurso Miss Portugal de 1971 permitiu
encenar a geografia do país e banalizar a sua pluricontinentalidade. A presença
das concorrentes ultramarinas não passou despercebida na imprensa escrita,
sobretudo nas revistas ilustradas. Por exemplo, a revista Rádio & Televisão
noticiou: Este ano, a nossa Miss, vai ter dimensão verdadeiramente nacional.
As duas mais populosas províncias portuguesas do Ultramar estarão representadas
maciçamente [ ]. É, portanto, um congresso de beleza o que se realizará na
noite do próximo dia 27 de Abril, no Casino do Estoril.2 A revista
Plateiatambém referiu que o concurso seria uma espécie de reencontro de uma
família espalhada pelas várias parcelas do território português, afirmando que
ele era um elo mais a reforçar a união Metrópole-Ultramar.3
A presença das concorrentes ultramarinas comprovava a homogeneidade territorial
do país, e confirmava a sua extensão pluricontinental, que aliás saía
fortalecida com os concursos provinciais que se disputaram previamente em
Angola e Moçambique. Por exemplo, no Diário Popular dizia-se que em Moçambique
se ultimavam os preparativos da viagem à Metrópole da representação da
província do Índico, ao mesmo tempo que reinam o maior interesse e expectativa
em toda a província pela eleição da mais bela de Portugal.4
A dimensão extracontinental do evento estava igualmente presente nos
patrocinadores da iniciativa, que resultava de uma junção de vontades de várias
publicações periódicas, entre outros patrocinadores. Além de patrocinarem o
evento, a revista Notícia, de Angola; o jornalNotícias da Beira, de
Moçambique; o jornal Diário Popular e a revista Rádio & Televisão, entre
outras publicações, encarregaram-se de o reverberar, permitindo que ele
transpusesse as fronteiras continentais e ligasse as diversas partes do país.
Segundo Benedict Anderson (1991 [1983], p. 188), a imprensa produz um tempo
simultâneo que alimenta a noção de comunidade, dando a sensação de que vários
acontecimentos se desenrolam ao mesmo tempo num espaço comum. Assumindo o papel
de aglutinador e nacionalizador, a imprensa garantia que milhares de pessoas
pudessem consumir o evento em paralelo.
O concurso Miss Portugal incluía uma série de iniciativas paralelas que
ajudavam a promover o acontecimento. Uma dessas iniciativas foi a festa
organizada pelo jornal Notícias da Beira em Lisboa para a apresentação das
concorrente provenientes de Moçambique. O evento foi apresentado pelo cantor
João Maria Tudela e teve na assistência várias personalidades ligadas às
colónias, nomeadamente o almirante Sarmento Rodrigues, entre vários deputados à
Assembleia Nacional de Angola e Moçambique. O Diário Popular5 fez um relato
pormenorizado do acontecimento:
O palco do Hotel Ritz estava dominado por uma monumental fotografia
representando uma sanzala moçambicana. E foi através da porta dessa
sanzala, que as jovens começaram a aparecer: Maria do Carmo Almeida,
com o trajo de feiticeira Ronga; Ana Flora Menezes, vestida de
bailarina Ngoni; Maria Palmira Barral, com o trajo típico das Donas
da Zambézia; e Nelly Pinheiro, a jovem estrela do prometedor cinema
de Moçambique que exibiu a estilização das Capulanas, esses vestidos
longos em pano típicos das mulheres indígenas.
O desfile teatralizava a diversidade do território português, salientando os
atributos civilizacionais dos portugueses, que se distinguiam dos demais
colonizadores por respeitarem, integrarem e celebrarem as tradições africanas.6
Envolto em exotismo, que passava por decorar a sala do Hotel Ritz com flores
vindas expressamente do Chimoio7, o desfile empreendia uma domesticação da
diferença, étnica e cultural, reduzindo-a à sua capacidade de gerar espanto e
admiração. As fantasias coloniais, que funcionavam como mecanismos de tradução
cultural, marcavam presença num desfile que coreografa a diferença africana
através de artefactos facilmente identificáveis, como a sanzala moçambicana
de onde brotavam várias jovens vestindo trajes tipicamente moçambicanos.
O concurso Miss Portugal realizou-se a 27 de abril de 1971 no Casino do
Estoril. Na assistência encontravam-se alguns membros do Governo marcelista,
como o ministro das Corporações e Saúde, Baltasar Rebelo de Sousa; o secretário
de Estado da Informação e Turismo, César Moreira Baptista; e o representante da
Agência Geral do Ultramar, Cunha Leão. A presença ministerial indiciava uma
cumplicidade entre os ministros e as misses, suscitando títulos ousados na
imprensa, como As misses e os ministros, dizendo que as misses tinham sido
acarinhadas em Lisboa, mormente por parte dos meios ultramarinos e entidades
oficiais mais de perto ligadas ao Ultramar8. O Diário Populartambém destacou a
receção oficial das concorrentes das colónias pelos ministros marcelistas9, o
que indiciava uma relativização das etiquetas morais, mas também uma procura de
soluções políticas mais pragmáticas.
A ampla mediatização do concurso Miss Portugal de 1971 reforçou o impacto do
evento. Porém, a transmissão televisiva acabou por revelar os receios que o
concurso ainda provocava, especialmente no desfile das concorrentes em fato de
banho.10 Consta que o realizador da RTP foi inclusivamente proibido de efetuar
planos panorâmicos das pernas das concorrentes. Contudo, as tentativas de
dissimular a carga erótica do concurso soçobraram com o desfile em trajes
regionais, que deu azo a descrições ousadas sobre a sensualidade feminina. As
concorrentes das colónias foram especialmente visadas por essas descrições,
sobretudo devido à escolha de trajes tipicamente africanos para o desfile.
Próxima de uma geopolítica dos corpos, na reportagem publicada no Século
Ilustrado11 dissertava-se sobre o exotismo das concorrentes ultramarinas:
As metropolitanas, vestidas à moda do Minho: trajes de várias
circunstâncias, cedidos pelo museu de Viana do Castelo. As angolanas
vestem-se à mucubal, muíla e rapariga da ilha. As moçambicanas
escolhem traje chope, macua ou jovem Kani-a-Kuno. Trajes indígenas
para meninas brancas que vieram à Metrópole dizer nós somos o
Ultramar. A desvantagem para as metropolitanas começa aqui: enquanto
os fatos africanos descobrem as formas às raparigas ultramarinas, as
de cá passam despercebidas sob os pesados fatos minhotos [ ]. O
Ultramar, de resto levou a palma. É outra gente, habituada a estas
andanças, treinada a exibir o corpo, com um à-vontade e um jeito de
se mover de quem vive em pleno Verão. Elas andam, as africanas, e é
como se bailassem. Queimadas, morenas, a sua pele é já um espectáculo
para os olhos.
A avaliar pela descrição, o desfile em trajes típicos conjugava o desregramento
folclórico com a invenção de uma sensualidade exclusivamente tropical,
conquistada pelo jeito de se mover das concorrentes africanas (Watson e
Martin, 2004). Apesar de excessiva, esta caracterização tornar-se-ia uma das
imagens de marca do concurso Miss Portugal, que se ocupou em distinguir os
corpos femininos por regiões, para depois tecer considerações sobre a
diversidade de belezas existentes no espaço português. O concurso proporcionava
assim discursos inauditos sobre a sexualidade, insinuando novas formas de
encará-la, com as ultramarinas, por causa dos seus corpos descobertos, a
sugerirem uma sexualidade mais explícita e licenciosa, que as associava mais
rapidamente a objetos de desejo.
As metropolitanas, por seu turno, talvez desfavorecidas pelos trajes minhotos
que as cobriam, indiciavam uma disciplinarização mais rígida do corpo, que as
excluía dos prazeres marginais. Cobrindo-as com o traje minhoto, o concurso
parecia exaltar a mulher submissa, abnegada, fiel, carinhosa e virtuosa, que
era capaz de fazer qualquer sacrifício para agradar ao seu marido. Todavia esta
função decorativa da mulher portuguesa estava longe de ser uniforme, por muito
que a representação da minhota procurasse fazer crer.
Mesmo que a profanação do eterno feminino português ameaçasse implodir os
interditos da moral conservadora, derrubando parte dos seus tabus, o concurso
reconfigurava também as considerações sobre a mulher ideal portuguesa, tornando
plausível a imaginação da tropicalidade no nacionalismo português. A
relativização da austeridade, ou a liberalização de costumes, permitia encenar
estilos de vida mais ousados e transgressores, atualizando a imagem de Portugal
através de um espetáculo mundano, que também coreografava a sua diversidade.
Não se encaixando na imagem estática e ruralista que o regime autoritário
reproduzia do país, o concurso era um signo de modernidade que, com os seus
paradoxos e contradições, contribuía para reformular valores e atitudes, ainda
que o fizesse através da edificação de um novo objeto de desejo.
RIQUITA, DE MOÇÂMEDES COM AMOR
Os prémios mais importantes do concurso Miss Portugal 1971 foram atribuídos às
representantes provenientes de Angola e Moçambique, com a concorrente de
Angola, Maria Celmira Bauleth, mais conhecida por Riquita, a ser eleita Miss
Portugal. Além de renovar as noções sobre aquilo que constituía a mulher
tipicamente portuguesa, a vitória das concorrentes ultramarinas significou
também o triunfo da integridade territorial do espaço português. A propaganda
oficial não desperdiçou o ensejo para celebrar este triunfo da unidade, com a
Permanência. Revista de Actualidades Ultramarinas12 editada pela Agência Geral
do Ultramar, a referir:
As representantes de Angola e Moçambique conquistaram, de forma
indiscutível, as posições cimeiras. E conquistaram também: a
admiração sincera, o apoio espontâneo, a eleição pré-eleição, o
aplauso vibrante, dos compatriotas metropolitanos. Foi uma jornada de
triunfo para a juventude portuguesa de Além-mar [ ]. As moças do
nosso Ultramar compareceram e venceram.
Para a propaganda oficial a vitória das concorrentes ultramarinas era uma
demonstração inequívoca que o império português permanecia coeso, uno e
indivisível. Mesmo que a exibição de corpos femininos ameaçasse dissolver os
laços da moral conservadora, a ousadia do concurso ia sendo progressivamente
domesticada, como indiciava a leitura nacionalista publicada pela revista
Permanência. Fazendo jus à circularidade entre o universo do entretenimento e
a propaganda oficial, a tentativa de colher dividendos políticos do concurso
comprovava que este era mais do que um mero divertimento, anódino e
inconsequente sob o ponto vista político.
Riquita decidiu utilizar o traje tradicional dos mucubais, oriundos do sul de
Angola (perto de Moçâmedes), no desfile em trajes típicos. Os trajes teriam
sido emprestados pelos próprios mucubais, o que sugeria uma relação estreita
entre representante e representados. Para ser fiel a uma ideia de
autenticidade, os adereços de Riquita foram previamente untados com sebo, leite
azedo e excrementos de boi. Secundando a predisposição portuguesa para o
encontro com outros povos e culturas, Riquita contou à Revista de Angola13 como
os mucubais a elegeram sua representante em Lisboa:
Foi um batuque inesquecível. Os príncipes e os sobas mucubais
dançaram, cantaram, beberam, assaram febras, comeram e, por fim, um
homem fez um discurso para dizer que os mucubais me tinham eleito
Menina Mucubal' pedindo-me que os representasse em Lisboa e que
dissesse isso mesmo às pessoas importantes com quem falasse.
A homenagem de Riquita aos mucubais deixava transparecer que a nova Miss
Portugal era solidária, tolerante, respeitadora da diferença e, sobretudo,
confiante no futuro africanista de Portugal. Mesmo denotando um entendimento
distorcido da diversidade, a apropriação das coisas dos outros, e a sua
posterior folclorização, caucionava as principais premissas da nacionalidade,
recobrindo-a com fantasias exóticas. Paralelamente a esta folclorização da
alteridade, o concurso também proporcionou discursos exacerbados que afirmavam
a indestrutibilidade do império português, nomeadamente na Revista de Angola14:
A Miss é nossa. [ ] É nossa porque é de Angola. E Angola, quer
queiram quer não queiram uns quantos mal avisados pedintes da
mendicidade internacional, é terra portuguesa. Continuará a sê-lo
enquanto tiver uma Riquita Bauleth para mostrar ao Mundo. E muitas
Riquitas. De todas as cores, de todos os sangues, de todas as
condições. Negras, brancas e morenas ' destas de a gente fazer fiui
fiuu uuu Quando passam na rua!
Além de nacionalizar a vitória de Riquita, a alusão a Riquitas de todas as
cores servia-se de exemplos desgarrados de corpos femininos para ilustrar o
multirracialismo português. Este comentário integrava-se numa discursificação
do sexo15, que passava por uma intensificação do erotismo na vida diária e se
desdobrava numa espécie de sensualização do poder. Aquém do triunfo da hipótese
repressiva, a discursificação do sexo evidenciava também que o complexo
cultural construído em torno da honra, vergonha, pudor, virtude e pureza
feminina tinha sido substituído pelo olhar, desejo, prazer, comentário e
fantasia.
Próximo da noção de conhecimento carnal proposta por Ann Laura Stoler (1995 e
2002) que empreende uma genealogia do íntimo, explorando como o sentimental e o
afetivo fizeram parte de uma história menos visível do colonialismo, o concurso
originava discursos que articulavam as questões de género, raça e
sexualidade, reproduzindo-os sem censuras nem denegações. Como, aliás,
confirmavam os comentários realizados a propósito das concorrentes vindas das
colónias, dizendo-se que elas andam, as africanas, e é como se bailassem.
Queimadas, morenas, a sua pele é já um espectáculo para os olhos16.
A celebração da vitória de Riquita ganhou contornos de epopeia com a receção da
nova Miss Portugal em Angola. Previamente preparada pelo Centro de Informação e
Turismo de Angola, a receção incluiu um cortejo automóvel pelas principais
artérias de Luanda e uma audiência com o governador-geral da província de
Angola, Rebocho Vaz, entre outras atividades. Segundo a revista Cartaz, a
vitória da nova Rainha foi alvo de expressiva e entusiástica homenagem por
parte dos seus conterrâneos. A Rainha é de Portugal. Nasceu e mora em Angola.
Todos nós, em todas as latitudes, estamos de parabéns17. Confirmando o poder
da imaginação nos discursos nacionalistas, a referência à geografia imperial
era essencial para reiterar a pluricontinentalidade do país.
Após um longo desfile pelas principais artérias da cidade, que foi acompanhado
por uma música do conjunto Negoleiros do Ritmo, intitulada Riquita tu és
bonita, escrita propositadamente para celebrar a sua vitória18, a nova Miss
Portugal rumou à sua terra natal, Moçâmedes, onde foi novamente homenageada,
desta feita pelos mucubais. Teatralizada em diferentes situações, a nação luso-
tropical mostrava ser um dado adquirido na vida diária.
NOS BASTIDORES DOS CONCURSOS DE BELEZA
O concurso Miss Portugal foi uma iniciativa privada que reuniu interesses
comerciais e políticos. O empresário Jorge Jardim congregou os dois,
desenvolvendo inclusivamente ações nos bastidores dos concursos de beleza para
convertê-los em espetáculos cúmplices do situacionismo colonial. Enquanto
presidente do Conselho de Administração do Notíciasda Beira, Jorge Jardim foi
responsável pela participação das concorrentes moçambicanas no concurso Miss
Portugal, tornando-se também conhecido pela sua missifilia19.
Na década de 1970, Jorge Jardim participou numa campanha publicitária de
conquista da compreensão20, que procurava promover a província de Moçambique
em Lisboa, publicitando o seu clima, estilo de vida e cosmopolitismo. Para
colher a simpatia do público realizaram-se algumas atividades recreativas, como
os concursos de beleza, que foram um dos baluartes do nacionalismo apostolado
pela simpatia.21 A propósito dos concursos de beleza, Jorge Jardim referiu nas
suas memórias:
Quando as nossas jovens, de todas as raças, arrebatavam títulos
sucessivos, poucos haviam entendido os propósitos que nos conduziam.
Começaram a tornar-se, porém, mais patentes quando verificaram como
estavam preparadas para enfrentarem, afoitamente, os entrevistadores,
falando sobre geografia, os costumes, as riquezas e, até, sobre
política moçambicana. Impressionou ainda a disciplina que mantinham e
o nacionalismo intransigente das raparigas que sabiam representar o
seu país [Jardim, 1976, p. 150].
Jorge Jardim tinha uma agenda política para os concursos de beleza que passava
por os converter em mensageiros do ideário nacionalista. Seguindo os preceitos
de Jorge Jardim, que na época estava associado a projetos de declaração
unilateral de independência de Moçambique, as concorrentes moçambicanas
estariam incumbidas de expressar o seu nacionalismo intransigente. Jorge
Jardim comentou no Século Ilustrado22 o sucesso das concorrentes de Moçambique
no concursoMiss Portugal 1971:
Provámos ter gente descontraída e com capacidade de organização. Não
será pequena surpresa mostrar que o Ultramar atingiu já uma fase da
sua evolução que à Metrópole passou despercebida. Particularmente,
gostei muito que as raparigas de Moçambique tivessem vindo a Lisboa.
Mostramos que temos gente e não apenas no futebol. É altura que se
repare: o Ultramar existe, está crescidinho, está preparado.
Apesar da vitória da concorrente angolana no certame, Jorge Jardim afirmou que
o importante era presença afirmada pelo ultramar. Moçambique, Angola é
praticamente o mesmo23. Jardim reafirmava que as duas províncias estavam
unidas sob o mesmo ideal, e que as suas fronteiras eram invioláveis. Para
garantir boa visibilidade mediática às concorrentes moçambicanas, Jorge Jardim
recorreu aos préstimos do cantor João Maria Tudella, que foi um dos seus
colaboradores mais próximos. Movendo-se nos bastidores dos concursos de beleza,
os dois conseguiram que a concorrente de Moçambique, Ana Paula Almeida,
conquistasse o 3.º lugar no concurso Miss Mundo 19724. Segundo o historiador
José Freire Antunes (1996), João Maria Tudella realizou previamente uma
campanha junto dos intermediários do júri para promover Ana Paula Almeida:
Tudela pediu 500 contos para a operação e também filigranas e outros
presentes que queria oferecer às concorrentes de Ana Paula, J.J. fez-
lhe chegar o dinheiro e os produtos através da mala diplomática do
MNE. O cantor assinou então 75 cartões em nome da Miss Portugal e
enviou as lembranças, com o efeito óbvio de que, no dia seguinte,
havia uma simpatia geral em torno de Ana Paula. Seguiu-se o chá de
caridade, no Hotel Brittania, a favor das crianças pobres, e Tudela
mandou lá Ana Paula distribuir brinquedos, o que lhe valeu tratamento
favorável na imprensa londrina [Freire, 1996, pp. 436-437].
A operação promocional da concorrente moçambicana prosseguiu com o jantar de
honra oferecido a todas as concorrentes do concurso. Nessa ocasião, Ana Paula
Almeida apareceu vestida com uma saia curta e enfeitada com missangas, numa
ousadia tropical que não passou despercebida aos tabloides britânicos. As
manobras de bastidores acabaram por surtir efeito, com a concorrente
moçambicana a alcançar o 3.º lugar no concurso e a proporcionar vários momentos
de euforia nacional, como exemplificam as palavras de Ana Paula ao
entrevistador da TV britânica, destacadas na imprensa pela sua importância
nacionalista:
O ponto mais curioso da eleição foi quando entrevistada (Ana Paula)
para a televisão, lhe perguntaram se morava em Lisboa, e ela
respondeu que era em Lourenço Marques. Então o entrevistador disse
que já tinha estado no Algarve, mas não tinha visto Lourenço Marques.
Ela então, alto e bom som, explicou que era em Moçambique e se
tratava de uma província portuguesa.25
Embora o concursoMiss Mundo 1971 tenha ficado igualmente marcado pelos
protestos das feministas que se manifestavam contra aquilo que denominavam ser
um mercado de carne humana, a imprensa portuguesa referiu sobretudo o êxito
da concorrente de Moçambique, salientado o significado das suas palavras
patrióticas. Jorge Jardim enalteceu uma vez mais o resultado final, comparando-
o ao terceiro lugar da seleção portuguesa no Campeonato Mundial de Futebol de
1966.
O SEGUNDO CAPÍTULO DE UMA SAGA TROPICAL
Reincidindo na originalidade e na ousadia, o concursoMiss Portugal de 1972
voltou a apresentar de forma banal e rotineira os principais predicados do
luso-tropicalismo. Poucos espetáculos mediáticos terão produzido uma encenação
tão envolvente da pluricontinentalidade, sobretudo a edição de 1972, que pôde
contar com representantes oriundas de todas as colónias portuguesas: Cabo
Verde, Timor, Macau, Guiné, Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe. As
publicações periódicas que apoiavam a iniciativa voltaram a dedicar várias
páginas à cobertura do acontecimento, tendo o jornal Notícias da Beira26
aproveitado para lamentar a ausência da representação goesa no concurso de
1972:
Sabemos que o domínio do jugo estrangeiro, nas martirizadas terras de
Goa, não consente que ali se possa escolher a representação que os
nossos sentimentos desejariam ver presente em Lisboa. Mas não nos
parece que tal razão possa ser impeditiva da participação goesa na
competição juvenil que reunirá representantes de todos os demais
territórios da nossa Comunidade. Sobretudo em Moçambique e na
Metrópole existe apreciável número de famílias goesas em cujo âmbito
se poderia seleccionar aquela representação, por forma a que não se
aparentasse esquecimento ou inaceitável conformismo com a situação
imposta pela força ao Estado da Índia Portuguesa [ ]. Goa nunca
estará a mais. A menos é que não pode ser.
Mesmo sem poder contar com uma concorrente goesa, os concursos provinciais
encarregaram-se de exibir os aspetos mais pitorescos de cada província
portuguesa, com dezenas de jovens a exibirem os trajes típicos de cada
distrito. Os concursos regionais encenavam as principais fantasias da
nacionalidade, mostrando a natureza exótica, convivial e patriótica do evento.
Um patriotismo trivializado em vários momentos, como na visita efetuada pelas
representantes de Moçambique aos militares das Forças Armadas feridos na
guerra colonial, que, segundo o jornal Notícias da Beira, teria sido a
primeira iniciativa realizada pelas misses moçambicanas quando chegaram a
Lisboa.
Fazendo jus a uma imagem idílica e pacífica do país, realizou-se uma festa em
homenagem às concorrentes do concurso Miss Portugal 1972, um momento que foi
aproveitado para consensualizar pertenças e generalizar compromissos. Comparada
ao clima de amizade que reinava entre todas as concorrentes, a festa
carnavalizava as especificidades de cada província portuguesa. Segundo relatou
a imprensa, a Miss Guiné aproveitou essa festa para dançar a tabanca e
oferecer colares típicos da sua província natal à assistência; já a Miss Cabo
Verde entusiasmou a assistência com as suas coladeras; a Miss Madeira dançou
o bailinho da Madeira; a delegação de Angola apresentou o merengue; a
delegação de Moçambique dançou várias marrabentas; e, por fim, até as
metropolitanas, numa atitude que a assistência premiou com grandes ovações,
apresentaram danças típicas e populares como o vira Minhoto e o vira da
Nazaré.27
A festa celebrava a proveniência pluricontinental das misses, bem como as
expressões musicais de índole portuguesa, com as marrabentas, coladeras,
merengues, ou os viras metropolitanos a traduzirem a diversidade cultural
do império. A coreografia de dançastípicasencenava de forma prosaica aquilo que
era supostamente autêntico e original em cada província portuguesa, operando
uma teatralização constitutiva da nacionalidade que era consentânea com a
alegada predisposição dos portugueses para o encontro de outros povos e
culturas. A ratificação dos aspetos mais pitorescos da diversidade permitia
encontrar naquilo que era culturalmente diferente algo de familiar e
reconhecível, com o qual se podia facilmente identificar.
Tal como tinha acontecido no concurso de Miss Portugal de 1971, alguns
ministros voltaram a receber as misses nos seus gabinetes. Em prol do consenso
e dos interesses comuns, o institucional aliava-se ao mundano, possibilitando
que o subsecretário de Estado da Administração Ultramarina, Sarmento Monteiro,
acompanhado por Cunha Leão, afiançasse que o concurso era um pretexto para
mais uma grande confraternização entre jovens de todas as parcelas do mundo
português.28
O concurso Miss Portugal de 1972 teve novamente uma enorme repercussão
mediática, tendo a imprensa escrita contribuído para o fenómeno através do
recurso a uma adjetivação engrandecedora. Por exemplo, no Diário Popular29
dizia-se:
Quem de boa fé, pode negar que o Casino voltou a ser o cenário de uma
deslumbrante manifestação de beleza, de cor e de juventude? Quem pode
esquecer a majestade de Gabriela, com o seu trajo de princesa do
Suai, a região mais do interior da sua ilha de timorense? A riqueza
da cor do trajo típico de Mucubal, o mais antigo povo do Norte de
Moçâmedes? E quem pode esquecer outro trajo típico de Angola, o que
trazia Maria Lídia Ferreira ' o trajo típico de Vacuroca, povo já
quase completamente extinto, que habita a região do Sul de Moçâmedes
nas margens do rio Curoca até ao rio Cunene? E aquela alegre ceifeira
alentejana que era Maria Lurdes Tomé Valente? E o fato típico sanguê
que fica tão bem na beleza morena da Miss S. Tomé? E o trajo típico
Bijagós, que caía como uma luva nas linhas harmoniosas de Miss Guiné?
A avaliar pela descrição, o concurso Miss Portugal 1972 foi uma das
coreografias mais verosímeis do mundo português e proporcionou uma das
ramificações mais ousadas do luso-tropicalismo na cultura de massas. Este
mosaico da nacionalidade dispunha de uma galeria de retratos típicos, que
representava de forma abreviada cada província portuguesa. A par de encenar a
diversidade e a plasticidade do país, o desfile em trajes típicos parecia
excluir o racismo do espaço público, ao mesmo tempo que engendrava um ethos
português da generosidade. A celebração da vocação transeuropeia, plástica e
tolerante de Portugal e dos portugueses também chegou à revista de propaganda
oficial Permanência30, que vislumbrou nas concorrentes de além-mar casos de
flagrante luso-tropicalismo:
Aquelas mocinhas que representaram as províncias de Além-Mar
encantaram os olhos e ganharam os corações! Lusitaníssimas no seu
todo, embora neste ou naquele caso demonstrando flagrante luso-
tropicalismo ' como diria Mestre Gilberto Freyre ' deram testemunho
vivo de que, no Além-Mar, a gente jovem portuguesa conquista
semblante desanuviado, se torna mais afoita, dir-se-ia encontrar,
ali, a sua atmosfera mais propícia.
O repórter da revistaPermanência contrariava o tom mais melodramático da
ideologia oficial, que dispunha de infinitas variações em torno da ideia de
pátria ameaçada, para estabelecer um vínculo inédito entre um evento mundano
e o luso-tropicalismo. Comprovando a circularidade entre o universo do
entretenimento e a propaganda oficial, a revista Permanência mostrava como um
evento de massas, supostamente anódino e banal, também podia ilustrar o
excecionalismo português. Um punhado de jovens provenientes de várias parcelas
do território português, ditas lusitaníssimas no seu todo, oferecia uma
gratificação imaginária da nacionalidade e servia de pretexto para acenar o
luso-tropicalismo banal.
De um modo rotineiro, persistente e comum, o concurso Miss Portugal 1972
encenava a integridade geográfica e a diversidade cultural da nação,
proporcionando uma das narrativas mais envolventes da nacionalidade. Os prémios
principais do concurso desse ano voltaram a ser atribuídos às concorrentes
ultramarinas, entre as quais se contava uma concorrente da Guiné, outra da
Madeira, Macau, Angola e três concorrentes provenientes de Moçambique. A
concorrente Íris Maria, proveniente de Porto Amélia, Moçambique, foi eleita
Miss Portugal. A revista Rádio & Televisão celebrou a sua vitória
publicando um poster da nova Miss usando trajes africanos, com o título
belamente exótica.
O quadro harmonioso que habitualmente caracterizava o concurso foi todavia
perturbado em 1972 por uma manifestação feminista, com cerca de meia dúzia de
manifestantes a empunhar cartazes que diziam: não queremos este tipo de
promoção, ou as raparigas não são mercadoria turística, ou ainda não à
coisificação da mulher.31 A pequena manifestação feminista não pôs em causa,
nem impediu a reafirmação da geografia imperial, com o segundo grande sucesso
das concorrentes ultramarinas a propiciar uma das encenações mais verosímeis da
comunidade lusíada.
Para que o resultado corresse de feição às concorrentes de Moçambique, a dupla
Jardim/Tudella voltou a operar nos bastidores do concurso.32 Estas manobras
evidenciavam a importância geopolítica do concurso de beleza, com a comitiva
moçambicana a obter um tempo de antena precioso no programa Movimento, de
Fialho Gouveia, transmitido em horário nobre na RTP. Nesse programa, as misses
moçambicanas juntaram-se a João Maria Tudella para cantar a cantiga
Moçambique, uma canção que reafirmava a matriz lusa daquela província do
Índico, afirmando: Moçambique é com certeza uma expressão nacional. A palavra
é portuguesa. E quer dizer Portugal.33
No regresso à sua terra natal, as misses moçambicanas foram recebidas por
milhares de pessoas que transportavam dísticos dizendo: A Beira escolheu.
Portugal elegeu e Moçambique venceu. Posteriormente, as misses seguiram em
cortejo automóvel até ao Hotel Moçambique, onde entoaram novamente o refrão da
canção Moçambique. Já a novaMiss Portugal, Íris Maria, foi novamente
homenageada na sua terra natal, Porto Amélia, sendo referido no Diário
Popular34
que:
Em avião particular, pilotado pelo Eng.º Jorge Jardim, chegou ontem,
Íris Maria Rosário dos Santos [ ]. Flores e papelinhos de cores
garridas eram lançados sobre Íris Maria e cartazes com mais variados
dísticos sobressaíam no mar imenso de gente de todas as raças,
credos, e condições sociais, que não se cansavam de aclamar a Miss
Portugal 1972. No monumento a Jerónimo Romero, e acompanhada pelo
mais velho habitante de Ibo e Porto Amélia, Íris Maria depôs um ramo
de flores.
Os últimos cerimoniais associados ao concurso eram aproveitados para realizar
mais um ritual patriótico, que assegurava pretensamente os laços culturais e a
união entre todos os portugueses. O vigor com que se insistia nas coisas
moçambicanas ' o uso de trajes típicos, as provas de afeto aos anciãos locais,
o respeito pelas danças tradicionais, etc. ' dava autenticidade ao
multirracialismo português, que através destes rituais parecia ser genuíno e
inquestionável (Edensor, 2000).
NOVAS ALEGORIAS DA NACIONALIDADE
Após o êxito dos concursos Miss Portugal 1971 e 1972, os concursos de beleza
realizados em 1973 e 1974 revelaram as incertezas e vulnerabilidades de um modo
de imaginar a comunidade lusíada. O concurso Miss Portugal de 1973 contou
pela primeira vez com concorrentes vindas das comunidades portuguesas
espalhadas pelo mundo. Designadamente da comunidade emigrante do Brasil, da
França, mas também do Canadá, Inglaterra e Bermudas. O concurso incluiu também
três concorrentes de Cabo Verde, uma da Madeira, e outra de Timor.
Apesar do alargamento às comunidades emigrantes, o concurso não conseguiu
colmatar a ausência das concorrentes de Angola, Moçambique, Guiné e São Tomé e
Príncipe. A falta de patrocínios e a incúria na organização dos concursos
provinciais ditou a sua ausência. A ausência das concorrentes ultramarinas
significou uma diminuição substancial das extrapolações sobre a natureza
pluricontinental e multirracial do concurso, bem como uma perda significativa
da sua importância económica e mediática, uma vez que as publicações
ultramarinas não apoiavam a iniciativa. Para colmatar a ausência das
representantes provenientes das colónias, o concurso inventou uma nova forma de
encenar a portugalidade, desta feita caucionada pela presença de concorrentes
que tinham ancestralidade portuguesa. A par das concorrentes que tinham nascido
no território português, de aquém e de além-mar, eram também consideradas
portuguesas as concorrentes cuja genealogia era portuguesa. As concorrentes
luso-descendentes garantiram assim uma nova figuração da nacionalidade,
proporcionando uma celebração da nação além-fronteiras.
O concursoMiss Portugal realizou-se a 1 de maio de 1973 e voltou a estabelecer
uma relação entre representação, desejo e fantasia, reinventando o espaço
político da nação através do desfile em trajes regionais. Nesse desfile, os
apresentadores do concurso leram um texto alusivo às especificidades de cada
província portuguesa, que foi acompanhado por trechos musicais representativos
de todas as províncias, indo do malhão ao corridinho.
Apesar da ausência das concorrentes ultramarinas ter impedido algumas
coreografias da nacionalidade, a atribuição dos melhores prémios a várias
concorrentes luso-descendentes mostrou que concurso era pródigo em produzir
novas alegorias da nacionalidade. A concorrente metropolitana, Carla Luísa
Barros, foi eleita Miss Portugal, e os restantes prémios foram entregues à Miss
Comunidade Portuguesa no Estrangeiro,Miss Portugal-Canadá, Miss Comunidade
Luso-Brasileira, Miss Cabo Verde. Dispondo de um pódio proveniente dos quatro
cantos do mundo, o concurso engendrou novos modos de imaginar a nacionalidade,
aludindo desta feita à grandeza espiritual de Portugal além-fronteiras.
DEPOIS DO ADEUS
O concurso Miss Portugal foi provavelmente o último espetáculo mediático a
abandonar as ficções que caucionavam a comunidade lusíada. Mesmo envolto num
mar de contrariedades, o último concurso Miss Portugal realizou-se a 16 de maio
de 1974. Condicionado pelo tempo e pelas circunstâncias, o concurso efetuou-se
à porta fechada num hotel de Lisboa, não teve repercussão mediática, com a nova
direção da RTP a cancelar a sua transmissão televisiva, nem o apoio de
patrocinadores, visto que o seu patrocinador oficial, o jornal A Capital, se dissociou do evento após o 25 de abril de 1974.
Uma vez que era preparado com meses de antecedência, e os seus organizadores
não podiam adivinhar o futuro, o concurso preparava-se para encenar de novo a
integridade territorial da comunidade lusíada, contando para o efeito com
concorrentes oriundas de três continentes: oito da metrópole, quatro do
ultramar (Angola, Moçambique) e seis das comunidades portuguesas espalhadas
pelo mundo (África do Sul, Estados Unidos da América, Canadá, Bermudas e
França). Num tempo de incertezas, o concurso Miss Portugal de 1974 foi ganho
por uma concorrente de Angola, e os restantes prémios foram atribuídos às
concorrentes da África do Sul, dos Estados Unidos da América, da França e a
outra concorrente de Angola. Embora o país tivesse adotado outro léxico
político, o concurso voltava a premiar concorrentes oriundas de várias
localidades, elegendo inclusivamente uma concorrente de Angola, pouco tempo
antes da sua independência.
Resumindo: os rituais associados ao concursoMiss Portugal contribuíram para
banalizar o luso-tropicalismo, sobretudo com a presença massiva das
concorrentes ultramarinas nos certames de 1971 e 1972. Articulando as
ansiedades e fantasias do nacionalismo português no início da década de 1970, o
concurso Miss Portugal expôs a força, mas também as vulnerabilidades e
incertezas, de um modo de imaginar a comunidade lusíada. Nesse sentido, o
concurso apresentou-se como um meio especialmente produtivo para captar na
exposição decorativa do que se dá como evidente o abuso ideológico que nele se
esconde (Barthes, 1997 [1957], p. 5), oferecendo um olhar historicamente
singular sobre os últimos anos de uma ideologia colonial.