Da confusão à ironia: Expectativas e legados da PIDE em Angola
INTRODUÇÃO
Neste texto proponho uma reflexão antropológica sobre política e temporalidade
a partir dos conceitos de expectativas e legados, produzidos e negociados
em contextos de autoritarismo político, repressão e violência.1 Pretendo fazê-
lo abordando uma das suas expressões mais marcantes no que à história
contemporânea portuguesa diz respeito ' a presença do empreendimento colonial
português (e em particular da sua polícia política, a PIDE) em território
africano, e a forma como as suas colónias africanas (neste caso Angola) se
tornaram num terreno de negociação e experimentação poética (no sentido
etimológico de poiesis) de ideologias, ontologias e políticas. Tomando como
estudo de caso a ação da PIDE sobre um movimento religioso autóctone (a Igreja
Tocoista), farei esta reflexão no âmbito de dialéticas mais latas de
repressão, protesto e resistência ' nomeadamente, refletindo sobre a dimensão
conflitual da relação entre formas hegemónicas e marginais de produção de
sociedade, frequentemente mediada por determinadas expectativas e utopias, que
redundam em situações de fratura entre o Estado e a sociedade. Partindo
desta perspetiva, também proponho pensar como a repressão ' entendida aqui como
a produção de culturas de terror (Taussig, 1987), mas também como a
imposição da perceção de uma determinada e inamovível ordem naturalizada das
coisas ' pode ser em si mesma produtora de resistências, propiciando uma
dinâmica de confrontação e violência frequentemente apresentada como sendo
inevitável (ver também Blanes, 2012). É no exercício de indagação dessa
aparente inevitabilidade na produção de fraturas que proponho detetar ironias
' ou como a agência repressora, funcionando a partir de uma ontologia social
concreta, produz efeitos contrários àqueles idealizados nos seus modelos-tipo
de sociedade, nas suas utopias. Trabalharei igualmente com outros dois
questionamentos: por um lado, a relação entre lógicas autoritárias e a
produção de temporalidades (explanadas através de memórias e expectativas); e
por outro, o problema da produção da dialéctica que está presente na maior
parte das teorias políticas sobre violência, dominação e resistência.
Ao longo da história, foram vários os autores e pensadores que identificaram e
debateram estas dinâmicas de opressão (ação) e reação (negação) no contexto
político-religioso, nomeadamente nas transições entre contextos coloniais e
pós-coloniais. Dou apenas alguns exemplos que radicam na disciplina
antropológica: o antropólogo francês Georges Balandier, cuja trajetória
biográfica o levou a presenciar e participar na resistência à ocupação nazi e
nos movimentos de libertação e descolonização africana, propunha uma teoria da
turbulência e da reação para explicar o aparecimento de movimentos político-
religiosos de contestação ao sistema colonial em regiões como o Congo Belga ou
o Gabão, como resultado das características fraturantes e conflitivas do
próprio sistema social colonial (Blanes, 2009a). O resultado foi uma teoria
social da fratura e da desordem, características que ele assumia como
inerentes a toda a expressão política e social (Balandier, 1955, 1976, 1988).
Similarmente, Pierre Clastres desenvolvia uma teoria política do social que
desconstruía a irredutibilidade da relação entre sociedade e Estado,
indagando sobre discursos de poder e resistência contra projetos de controlo
estatal colonializante por parte de profetas Tupi-Guaraní na Amazónia
(Clastres, 1989 [1974]). Este debate, inserido na constituição de uma
antropologia política enquanto projeto epistemológico, também se desenvolveu
através de reflexões sobre a violência e a sua arqueologia, numa revisão da
premissa clássica e naturalizada que associava selvajaria (americana,
amazónica) à ausência de Estado e consequente permanência da violência
(Clastres, 1994). Como Balandier, Clastres também se preocupava com as
conceções histórico-antropológicas em causa no estudo da violência.
Partindo do mesmo contexto geográfico, o antropólogo brasileiro Eduardo
Viveiros de Castro viria a propor, nos seus estudos sobre cosmologia
amazónica, uma teoria política da inimizade (1992), inserida numa economia
de alteridade (2002, p. 267) específica que nos ajuda a entender políticas de
conflito. Da sua análise, retenho a discussão sobre a noção (ou experiência)
de inimizade tal como ela é partilhada entre os Araweté, que vêem os Maï
(divindades) como sendo como inimigos, e não meros inimigos (Viveiros de
Castro, 2002, p. 270). Existem nesta conceção duas sugestões que eu
identifico: a de uma incorporação corporal da alteridade no universo de
significação, através da própria ação de construção dialética; e uma dimensão
performática presente na proposição são como, que denuncia uma necessidade
de identificação do outro através de um processo expressivo, poético de
configuração.
Portanto, o que está aqui em causa é o problema antropológico clássico de
correlação entre a construção política de identidades e a identificação de
alteridades ou inimizades. O trabalho de Viveiros de Castro, desde este ponto
de vista, culmina uma tradição antropológica de estudo de processos de
autoconceção e autoconstituição (Fabian, 1983; Cabral, 1991), por exemplo desde
as teorias de configuração grupal identitária e respetivas fronteiras de Barth
(1969) aos debates de Benedict Anderson (1983, p. 141 e ss.) sobre patriotismo
e racismo, as conceções sensoriais de Taussig (1987, 1993) sobre mimese e
alteridade etc. Nestes casos, exploram-se processos políticos, simbólicos e
experienciais de identificação e diferença. Aqui, procuro uma configuração
compósita e exploro as teorias políticas da identidade em jogo, e em particular
as oposições e fricções emergidas em contextos onde essas teorias encontram
materialização e agência, se tornam operativas através de ações de repressão
totalitarizante e resistência (Comaroff, 1985). Num contexto de regime político
autoritário como o português, e no caso da polícia política e dos movimentos
religiosos autóctones em Angola, observamos estas dinâmicas em função de
lógicas de resistência.
Neste campo, inspirado em Clastres, James C. Scott (1990, 2009) também
indagaria a arte da resistência em contextos de dominação sociopolítica e
subordinação, nomeadamente no que diz respeito à governação estatal e rejeição
da mesma no Sudeste Asiático por parte de comunidades locais. Através desta
análise, Scott propõe também uma desconstrução dos processos de state-making,
através da deteção das suas contra-hegemonias ' como por exemplo os profetas
da renovação (Scott, 2009, p. 283) ou outras formas ocultas de dissidência
produzidas através da propagação de utopias.
Mas os autores acima citados também coincidem numa análise do social a partir
de uma perspetiva dinâmica, onde o conflito é inerente, obrigando assim a que
se reconheçam as distintas agencialidades e motivações por trás das
configurações políticas observadas, tanto do ponto de vista da sua manutenção e
reprodução ortodoxa, como da sua ruptura iconoclástica (Sarró, 2008). Aqui
particularmente, traduzo essas agencialidades e motivações para dois conceitos
temporalizadores: as expectativas e os legados.
Nesta linha, proponho que a memória, e a noção mais abrangente de
temporalidade, assumem um papel fundamental na teoria do conflito. A arte de
resistência explorada por Scott, em particular em Domination and the Arts of
Resistance (1990), desenvolvia-se através de uma noção de conduta política
fugitiva (Scott, 1990, p. 17) de grupos em situação de subordinação que
desembocava na produção de registos alternativos, contestando ordens
hegemónicas. Seguindo esta proposta, sugiro também que essa conduta fugitiva
também se encontra em determinadas culturas político-religiosas, tais como os
profetismos e messianismos, profundamente ligados à produção de memórias e
historiografias particulares (Blanes, 2011). Uma das componentes exploradas
neste âmbito tem sido a do martírio como configuração conceptual mediadora
entre a experiência da violência e repressão e a emergência de resistências. É
pelo menos o que transparece, por exemplo, em etnografias como as de Allen
Feldman (1991) ou Esmail Nashif (2008) sobre presos políticos e violência
policial, adicionando à cultura de terror onde a memória traumática se
instala (Ricoeur, 2004; Sarró, 2009; Argenti e Schramm, 2010) ' uma outra de
expectativas mais ou menos providencialistas e, porque não, esperança
(Crapanzano, 2003; Miyazaki, 2004; Zigon, 2009; Sarró, 2010).
A PIDE E A PRODUÇÃO DE INIMIGOS
No que segue proponho extrapolar esta análise dinâmica e temporalizadora para
contextos de repressão e resistência em diferentes momentos históricos em
Portugal e no espaço lusófono em geral. Talvez o exemplo mais explícito destas
lógicas de ação e reação seja o da PIDE, a polícia política portuguesa que
existiu durante uma boa parte do século XX. Sob vários pontos de vista, embora
não a única, a PIDE terá sido uma das materializações mais marcantes do regime
do Estado Novo, na medida em que representava (eufemisticamente falando) uma
instância de mediação entre o aparato governamental, a sua axiologia (Rosas,
2001; Domingos e Pereira, 2010) e os seus cidadãos. Ao longo da sua existência
entre 1945 e 1974,2 foi a instituição, a institucionalização do controlo
exercido pelo Estado (o Estado Novo e o marcelismo), materializada em
estratégias, agências, protagonismos e localidades concretas (Pimentel, 2007).
Neste sentido, a PIDE surge na acumulação de um processo de constituição legal
de aparatos de combate à dissidência e instauração e manutenção da ordem
pública em Portugal (Ribeiro, 1995; Pimentel, 2007), e remete para uma época
particular na história portuguesa que acabaria por terminar através de um
marcante processo revolucionário. Esses aparatos e dispositivos eram por norma
e sem pejo marcados pela violência como estratégia de ação prioritária (Bastos,
1997; Pimentel, 2007, p. 25) e pela configuração e identificação totalitária de
adversários ' normalmente, os comunistas ' que serviam igualmente de
justificação moral para a mesma.
Mas como sabemos, a PIDE não desapareceu do quotidiano dos portugueses: está
no corpo e mente dos portugueses e portuguesas que sofreram ou beneficiaram com
a sua existência. Também está na memória que circula de forma desigual nos
diversos meios académicos e públicos que têm vindo a trabalhar com testemunhos
e arquivos e produzindo um conhecimento renovado sobre o passado recente
português e lusófono. É o caso das antigas prisões militares da PIDE em Peniche
e no Tarrafal, hoje transformadas em museus no âmbito de projetos de memória;
de uma linha recente da história contemporânea portuguesa, que tem procurado
mapear o contexto social e político que marcou o desenvolvimento de uma
polícia política num país como Portugal (Ribeiro, 1995; Rosas, 2001; Mateus,
2004; Madeira, Pimentel e Farinha 2007; Pimentel, 2007); ou mesmo da
antropologia, que procurou ilustrar algumas das dinâmicas de opressão a partir
das ideologias de Estado e pessoa vigentes (Bastos, 1997). Mas é também o caso
da peça de teatro inspirada na vida do antigo diretor da organização entre 1962
e 1974, Silva Pais, e que foi recentemente objeto de uma ação judicial
interposta pelos seus descendentes; ou do documentário 48, dirigido por
Susana Sousa Dias e recentemente estreado em Portugal, com testemunhos de
antigos presos políticos a partir das elicitações dos seus retratos produzidos
no âmbito da sua prisão (2011). Desde esta perspetiva, a PIDE continua a ser,
usando a conhecida expressão do historiador Pierre Nora, um lugar de memória
muito particular (e por vezes incómodo) na sociedade portuguesa. A estes
movimentos não será certamente alheia a disponibilização pública, desde abril
de 1994, dos arquivos secretos da PIDE/DGS na Torre do Tombo, que vieram
inaugurar um novo campo e regime de reflexão, memória e consciência histórica
na academia e sociedade portuguesas, inserindo-se progressivamente em debates
mais abrangentes sobre transição política e políticas da memória, tais como se
desenvolvem por exemplo na América do Sul (Brito, González-Henríquez e
Fernández, 2004; Ribeiro, Santos e Maeso, 2010).
Portanto, enquanto dispositivo sociopolítico poético que agiu sobre a vida de
milhares de pessoas, a PIDE ilustra o mesmo tipo de dinâmicas de repressão e
resistência que comecei por referir. Como diria Hannah Arendt, a ambição
totalitária implica a identificação de uma antítese, de um inimigo (Arendt,
1973); mas também, em última instância, produzirá o seu próprio fim através
desse mesmo processo de identificação. Invoco aqui a noção de totalitarismo a
respeito da PIDE porque, independentemente dos resultados práticos da sua ação
(seja em Portugal ou Angola), esta instituição enquadrava-se um projeto
ideológico, político e pragmático de controlo autoritário sobre a vida pública
e privada dos cidadãos (Pimentel, 2007), em favor de um bem comum superior -
a ideia de nação portuguesa, cristalizada na recorrente formulação a bem da
nação, repetida em toda e qualquer correspondência produzida no seu seio.
Neste contexto, a ambição da PIDE era totalitarizante, e prevalecia sobre
qualquer ideia de autonomia, pluralismo e soberania individual dos cidadãos
objeto do seu escrutínio.
Assim, um primeiro ponto que procuro seguir é o de que a PIDE, enquanto
entidade politicamente agente, participou, voluntária ou involuntariamente, na
produção dialética de inimizades, de tal maneira que pode ser interpretada '
não sem polémica, admito ' como parte ativa na queda do sistema que a própria
procurava defender (cf. por exemplo, Cardina, 2010). Vou procurar explorar esta
possibilidade a propósito do contexto angolano, onde a PIDE esteve presente
aproximadamente vinte anos, desde meados da década de 1950 à saída do
território em 1974-1975 (Mateus, 2004; Bender, 2009 [1978]), no âmbito da
política colonial estabelecida pelo Estado Novo no pós-guerra (Rosas, 1998, p.
436 e seguintes; Castelo, 2005). Como descreve Dalila Mateus (2004, p. 23 e
ss.), a Delegação de Angola da PIDE foi formalmente constituída em território
angolano em 1954, mas a sua presença foi mais ou menos residual até 1957,
altura em que se começou a efetuar transferência de pessoal do corpo da PSP
(que até então era quem cumpria as funções de vigilância e controlo) e se
cumpriam funções de polícia judiciária no aeroporto e porto de Luanda. A partir
de 1961, com a eclosão do conflito armado no território, as medidas de controlo
aumentaram com a multiplicação de delegações, subdelegações e postos em vários
distritos do território, e com a criação dos Serviços de Centralização e
Coordenação de Informações de Angola (SCCIA), que complementava a pesquisa
empírica da PIDE com a centralização e processamento de informações, estudos,
estatísticas e relatórios, encaminhados superiormente. Esta multiplicação
institucional, respondendo à situação de conflito emergente, implicou um
alargamento substancial da rede de produção de informações (nomeadamente
através da rede de informadores), e consequentemente o desdobramento de
intervenientes, documentos e teorias, nem sempre no mesmo sentido.3
No âmbito desta atividade de contra-espionagem, investigação e vigilância nos
territórios ultramarinos, num contexto internacional marcado pela progressiva
independência política das antigas colónias africanas, de crescente contestação
internacional contra o projeto imperial português, e pelo contínuo combate em
territórios internacionais contra os movimentos comunistas (Pimentel, 2007), as
colónias portuguesas transformaram-se paulatinamente em campos de batalha '
simbólica e, a partir de 1961, física. Nas páginas que se seguem, exercitarei
uma simulação do ambiente político e ideológico da época, através de uma
pequena etnografia arquivística, procurando captar as sensações e ideologias
que marcavam a ação da PIDE no território angolano.
PROFECIA E CONSPIRAÇÃO EM ANGOLA
Neste artigo estou a pensar em particular nos membros de um movimento religioso
angolano que se tornou num dos alvos preferenciais das políticas de
securitização, defesa e repressão promovidas pelo aparato policial português: a
chamada Igreja Tocoista, que herda o seu epíteto do seguimento ao seu profeta
fundador, Simão Gonçalves Toco (1918-1984).4 Este movimento, tal como é
retratado em Angola nos dias de hoje, é visto como um dos símbolos máximos da
resistência à opressão colonial, sobretudo pela história de repressão e
resistência que marcou a sua existência em território angolano, e pelo impacto
do seu discurso anti-colonial e libertário entre os autóctones angolanos nas
décadas de 1950 a 1970.5Deste ponto de vista, a história do tocoismo confunde-
se em vários aspetos com a do próprio país.
Nascido numa aldeia remota da região de Maquela do Zombo no distrito do Uíge,
Toco cresceu e estudou numa missão baptista local (Kibokolo), antes de em 1942
decidir emigrar, como muitos seus conterrâneos à época, para Leopoldville
(hoje Kinshasa), no então Congo Belga. É nesta cidade onde, poucos anos mais
tarde, viria a emancipar-se dos baptistas e iniciar o seu próprio movimento
cristão, combinando predicamentos reformistas e convicções milenaristas, com
uma forte componente emancipatória e autonomista, que rejeitava a opressão
colonial e a colonização espiritual, e predicando entre a então grande
comunidade de zombos, migrantes seus conterrâneos da Maquela naquela cidade.
O impacto público do movimento no quartier indigène de Leopoldville (que por
aquela época começava a conhecer os primeiros movimentos políticos de
libertação, e que já conhecera outro movimento semelhante, o kimbanguismo)
levou a que as autoridades belgas, suspeitando do seu caráter subversivo,
prendessem Toco e as centenas de seus seguidores, para, em janeiro de 1950, os
entregarem no posto de fronteira de Nóki (província do Zaire) às autoridades
portuguesas. É a partir deste momento que este grupo de centenas de indígenas
é inserido no sistema ideológico e político do projeto colonial português, que
terá violentas repercussões a nível prático.6 A ação das autoridades, executada
consecutivamente pela PSP, pela PIDE e ainda pelos SCCIA, repercute-se em três
estratégias principais: a prisão ou deportação dos elementos mais perigosos
para localidades como São Nicolau (Moçâmedes), ou mesmo São Tomé; a fixação
de residência (e consequente proibição de circulação no território) dos
membros da seita, tanto em bairros indígenas de urbes como Luanda ou
Benguela, como em colonatos agrícolas tais como os de Caconda ou Vale do Loge;
e a vigilância e controlo dos seus protagonistas, através de informações
recolhidas por informantes ou pela interceção de correspondência entre os
seguidores.7 Estas políticas visavam, por um lado, provocar o desaparecimento
do movimento através da sua dispersão, e por outro estudar o impacto da
liderança do seu profeta fundador. O próprio líder passará por vários destes
processos e destinos (Vale do Loge, Luanda, Caconda, Jáu) antes de ser
finalmente fixado como ajudante de faroleiro em Ponta Albina, no deserto do
Namibe, no sul da província.
Os primeiros relatórios produzidos para a PSP sobre o movimento de Simão Toco
procuram confirmar as influências comunistas e correspondente potencial
subversivo na sua ideologia (uma conjunção inédita e irónica de utopias).
Vários agentes e interlocutores (desde polícias a chefes de posto, cipaios,
professores e padres católicos) passam a produzir proto-etnografias desta
seita, e a identificar os seus elementos subversivos, num crescente contexto
de suspeita e contra-informação sobre movimentações indígenas contra o projeto
colonial, contribuindo para a acumulação de um acervo de estudos sobre os
tocos. Ao confrontar estas teorizações com os resultados no arquivo da PIDE,
não há uma conclusão visível sobre este questionamento, mas antes uma
acumulação de interpretações frequentemente contraditórias entre si sobre se
este movimento era de facto uma ameaça à segurança nacional. Frequentemente
observam-se informações divergentes oriundas de informantes e interlocutores
diferentes, ora mostrando uma atitude colaboracionista, ora revelando intuitos
terroristas e anti-patrióticos:
[ ] Depois perguntei-lhe qual era o fim que tinham em professarem
aquela religião; responderam-me que [ ] o seu chefe Simão Toco os
ensinara a orarem a Deus e a respeitarem todos os brancos [ ]; que
respeitassem as autoridades e acatassem sempre com respeito as suas
ordens e que se alguém lhes batesse que pedissem perdão, mas que não
odiassem.[Relatório de Averiguações, 03-07-1957].8
Qual é o [movimento religioso na região] mais importante?
O tocoismo.
A que causas atribui a formação destas religiões?
Influências do protestantismo, deformadas pelo comunismo.
São perigosas social e politicamente?
Sim.
[Relatório da Intendência do Congo, 13-11-1957].9
Recolhiam-se igualmente notícias contraditórias sobre os efeitos da estratégia
da PIDE:
Quanto ao movimento de Simão Toco no distrito, julgo que o isolamento
em que se encontra o seu chefe ' que suponho ser agora relativamente
eficiente [ ] ' está produzindo os seus efeitos no sentido da
desorganização e desorientação dos adeptos da seita. [Relatório do
governador de Moçâmedes, 06-03-1957].10
Em primeiro lugar deve notar-se que a seita Tocoismo, segundo
informações, está lançada em todos os pontos principais desta
província, especialmente nas cidades e vilas principais, ignorando-se
se existem elementos em Silva Porto (Relatório, circa1957).11
Os agentes coloniais da época, perante o tipo de informações que iam
recolhendo, pareciam não saber lidar com as múltiplas instâncias de
resistência, tanto individual como coletiva, nem sempre organizada, reações aos
processos de repressão hegemónica por parte de um movimento religioso que
seguia uma cartilha cristã e não política ou militar. Um bom exemplo dessa
confusão é o que acontece em 1961-1962, quando eclodem as ações de guerrilha na
região do Uíge, perto da fronteira com o ex-Congo Belga: após os primeiros
ataques aos colonos, muitos indígenas, preocupados com a reação militar
portuguesa, fogem para o refúgio nas matas e para o outro lado da fronteira.
Numa tentativa de repor a normalidade, e de eliminar o crescente controlo que a
UPA exercia nas matas, as autoridades portuguesas trazem Simão Toco do sul da
província para a região, e utilizam-no enquanto líder local para chamar os
seus conterrâneos de volta para as suas aldeias. Toco vai então percorrer as
zonas fronteiriças acompanhado por elementos do governo português, munido de um
altifalante. Muitos acabam por voltar a atravessar as fronteiras, mas não tanto
para regressar às suas condições de origem, mas antes para seguir o profeta.12
Portanto, persiste a suspeita de que Toco aproveitava estas expedições para
fazer proselitismo e reorganizar o seu movimento, tendo em vista a futura
criação de uma Igreja Tocoista. É assim que acaba por ser novamente enviado em
1963 para um segundo exílio, desta vez na ilha de São Miguel, nos Açores, onde
permanecerá até à retirada portuguesa de Angola.
Mas, num contexto nacional marcado pelo consumar da violência, pela emergência
dos movimentos de auto-determinação e progressivo isolamento político português
no sistema internacional, não havia lugar para a incerteza; havia uma
necessidade de objetificar um inimigo, concluindo-se com a recomendação,
recorrentemente repetida, de submeter o movimento a uma apertada vigilância e
tomar as ações necessárias para impedir o seu desenvolvimento. Multiplicam-se
ofícios como este:
[ ] Tem este Governo-Geral vindo a receber fotocópias de originais de
cartas trocadas entre tocoistas e Simão Toco, que se revelaram um
precioso meio de melhor se conhecer a seita. [ ] Tendo em atenção que
o tocoismo está sofrendo uma evolução orientada para a
clandestinidade, o conhecimento do teor de toda a correspondência
reveste-se agora de mais importância do que nunca, pelo que solicito
a Vossa Excelência que se digne mandar providenciar no sentido de
que: [ ] seja recomendada intensa vigilância sobre a correspondência
trocada entre Simão Toco e os seus sectários [ ] [Ofício do Gabinete
de Negócios Políticos, 31-03-1967].13
Consequentemente, em 1963 estuda-se a possibilidade de aplicar a medida de
proscrição ao tocoismo, tal como fora aplicado à Watch Tower e ao movimento
Baha'i, com a seguinte sustentação:
[ ] a) O Tocoismo é inconveniente e a sua expansão deve ser
contrariada; b) Os chefes e adeptos mais extremistas devem ser
detectados, expurgados e exilados para zona a determinar, sendo
aconselhável que estes indivíduos sejam denunciados publicamente por
chefe da seita influente; c) Aos chefes colaborantes e moderados será
concedido auxílio para a educação dos seus filhos; d) Aos
missionários será concedido apoio para acção apostólica junto dos
sectários de Simão Toco [Ofício Governo Geral Angola (SCCIA), 16-06-
1964].14
Eventualmente, após a instalação da situação de conflito bélico, os relatórios
da PIDE e dos SCCIA na Torre do Tombo, após os primeiros anos em que produzem o
estudo detalhado do tocoismo, passam então a ser também de controlo e
operacionalização, fichando as suas principais figuras, que assim se
transformavam em suspeitos, e controlando as suas atividades através da
vigilância in loco, da recolha de informações por informantes e, especialmente,
pela análise da correspondência postal que o líder Simão Toco estabelecia com
os seus seguidores em Angola ao longo das décadas de exílio que sofreu no
deserto do Namibe e na ilha de São Miguel. Esta correspondência atingiu ao
longo dos anos os milhares de cartas (Blanes, no prelo) e, como se depreende da
citação acima, rapidamente se transformou num dos principais mecanismos de
controlo e vigilância do movimento tocoista,15 ao mesmo tempo que se erguia
como principal eixo de interação entre o líder e os seus seguidores '
conscientes mesmo assim de que as suas epístolas eram objeto de controlo alheio
(idem).
Por tê-lo feito noutro lugar (Blanes, no prelo), não vou aqui elaborar uma
análise do acervo epistolar, que hoje constitui um centro de memória muito
particular no tocoismo, na medida em que constitui uma concentração em acervo
da sua produção, que de outra maneira seria inexistente, continuando até aos
dias de hoje a ser descoberto pelos crentes do movimento. Mas invoco-o porque
constituem um dos exemplos de como a repressão da PIDE produziu, ad hoc,
ironias no que diz respeito às expectativas com que se movia e à sua
frustração.
A REPRESSÃO E AS SUAS IRONIAS
Os métodos empregues pela PIDE e restantes autoridades para terminar com o
movimento tocoista, foram, sabemo-lo hoje, um rotundo fracasso do ponto de
vista estratégico. Vários relatórios produzidos na década de 1960 confessam o
fracasso da política instituída:
A anexa informação, que respeita à evolução da seita tocoista e às
suas correspondentes e ulteriores atividades, verificadas após a
fixação de residência em Ponta Albina, do seu fundador Simão
Gonçalves Toco, parece ter um interesse especial em dar-se a conhecer
ao pessoal desta Polícia, muito especialmente ao que presta serviço
em Angola. Esta nossa opinião baseia-se na circunstância, não só por
muitos elementos não terem tido ainda contactos com assuntos
relacionados com a seita, mas também para esclarecer outros tantos
funcionários que dela pouco ou nada conhecem além do é toco, sem se
aperceberem do que é a seita, quais são os seus antecedentes, o
progressivo desenvolvimento da sua atividade, que se reconhece
estarem a degenerar e a denunciar propósitos político-subversivos [ ]
[Relatório PIDE, Evolução da seita Tocoista desde 1961 a 1965, 08-
05-1966].16
Nas páginas que se seguem, vou descrever e analisar outros dois exemplos de
ironias resultantes de uma ação repressiva motivada por uma expectativa, e
que se repercutiu em posteriores legados ou regimes de memória e recordação
presentes hoje no seio do universo tocoista. Estes legados resultam de um duplo
exercício de recordação: aquele que é mantido e circula sob a forma de história
oral e depoimentos escritos no seio das igrejas tocoistas em Angola, entre os
sobreviventes e descendentes dos protagonistas das resistências acima
descritas, alguns dos quais pude conhecer e entrevistar; e aquele que emerge no
acervo da PIDE em Angola, que produz um conhecimento historiográfico particular
no que diz respeito à compilação, organização e apresentação de materiais
outrora pertencentes aos próprios tocoistas ou produzidos na sua interação com
as autoridades coloniais.
Até recentemente, estes dois regimes não se cruzaram, pela mera circunstância
de que poucos membros desta igreja tiveram oportunidade de visitar e pesquisar
nos arquivos em Lisboa, e com eles produzir conhecimento partilhado no universo
institucional e intelectual do movimento (exceção feita a Kisela, 2004). E esse
encontro entre registos de memória está a acontecer no preciso momento em que
se escrevem estas linhas,17 e configuram o tocoismo como um espaço
particularmente relevante para compreender a história tanto da própria igreja e
do seu líder, mas também da própria Angola.
IRONIA NÚMERO 1: DO DESTERRO À RE-TERRITORIALIZAÇÃO
Como referi acima, uma das estratégias assumidas pela polícia portuguesa em
1950, perante as oleadas de indígenas que regressavam deportados (ou
voluntariamente) aos postos fronteiriços, foi a da disseminação territorial,
pela qual os seguidores de Simão Toco eram divididos em pequenos grupos (nem
sempre respeitando lógicas familiares) e espalhados por distintos locais da
província: zonas de fixação de residência em áreas urbanas (Luanda,
Benguela, Moçâmedes, etc.) e em zonas rurais como o Ambrizete (Zaire), Vale do
Loge (Uíge), Caconda, etc.
E assim foi que os tocoistas, originalmente um pequeno grupo de zombos de
etnia bakongo do norte de Angola, passaram a ser dispersos por todo o
território. Mas, não obstante as restrições de mobilidade a que estavam
sujeitos, os seguidores de Toco aproveitariam para fazer proselitismo em redor
dos campos e centros onde se encontravam recluídos, e eventualmente
transformaram o seguimento de Simão Toco num movimento multiétnico, de alcance
nacional angolano, lusófono. Isto, como comecei por propor, apenas foi
possível graças à estratégia da própria polícia portuguesa que, apostando na
separação e disseminação dos seus membros, os levou pela colónia fora, servindo
de veículo de transporte. Como me dizia um dos atuais líderes da igreja: se
Simão Toco chegou ao sul do país (Angola), foi porque viajou nas próprias
carrinhas da PIDE (Entrevista, dezembro de 2007). Criaram-se, portanto, novas
territorialidades tocoistas através de processos de deportação, exílio e
fixação. Já na década de 1950, falava-se no seio do tocoismo de três
centralidades: Vale do Loge, Luanda e Benguela, e poucos anos depois a própria
PIDE reconhecia a dispersão de núcleos desta seita por todo o território,
detetando núcleos da igreja relevantes nas províncias do Zaire, Congo (Uíge),
Quanza Sul, Luanda, Benguela, Huambo, Huíla, Moxico e Moçâmedes (Blanes, no
prelo). Este processo terá repercussões inevitáveis na própria formação e auto-
conceção do movimento, que se viu obrigado a reestruturar, tanto do ponto de
vista ideológico como pragmático, e material, em função da sua nova condição
multi-étnica (Blanes, no prelo).
Um dos episódios mais marcantes neste processo de re-territorialização foi o
ocorrido no Vale do Loge, na região do Bembe (Uíge), um local de uma beleza
natural extraordinária mas de difícil acesso e virtualmente desabitado até à
chegada dos tocoistas ao local. Em janeiro de 1950, após a entrega dos
deportados na fronteira de Nóki, um grupo de aproximadamente 250 pessoas, entre
as quais Simão Toco, é encaminhado, junto com dois técnicos portugueses, para
esta região, para depois servirem de mão de obra para o desenvolvimento de um
colonato agrícola idealizado pela Junta de Exportação do Café, no âmbito das
políticas de povoamento e desenvolvimento agrário promovidas pelo Governo Geral
de Angola (Castelo, 2005). Apesar da inicial escassez de recursos, os regentes
agrícolas europeus e os tocoistas conseguiram paulatinamente transformar o
local numa exploração de café (mabuba) bem sucedida, chegando a exportar
anualmente mais de 5 toneladas de café, mesmo tendo em conta que o ciclo de
produção dos cafeeiros não atingira o seu pique durante a sua estadia no
colonato (Estudo de Planeamento do Núcleo de Povoamento Agrário do Vale do
Loge, 1970).18 Graças à sua postura de submissão voluntária ao trabalho
agrícola, o grupo de deslocados conseguiu, evitando situações de violência
extrema,19 coexistir com as autoridades coloniais, que por sua vez os
autorizavam a praticar as suas atividades litúrgicas (embora sob um forte
controlo). O facto de terem sido relegados para um lugar remoto, onde a
própria PIDE não permanecia, também terá ajudado à emergência dessa situação de
paz negociada e colaboração. No entanto, com o eclodir das ações de guerrilha
nesta região em 1961, os tocoistas fugiram em debandada para as matas e para a
fronteira com o Congo, escondendo-se assim das tropas portuguesas. Interrompia-
se assim um período particular de trabalho e resistência pacífica para muitos
tocoistas, que não mais voltariam ao Vale do Loge.20
Durante as minhas visitas ao vale e aos bairros do Palanca e Terra Nova em
Luanda, conheci e entrevistei alguns dos tocoistas que fizeram parte desta
história de deslocação. V., por exemplo, recorda-se que quando chegaram dormiam
ao relento no capim, usando a sua própria roupa para fazer de cama e se
protegerem dos bichos. P. contava que os colonos permaneciam isolados no
colonato, proibidos de contactarem e interagirem com as populações vizinhas.
L., que era apenas um bebé quando foi deportado com os seus pais para o Vale,
conta também como foram distribuídas alfaias agrícolas a todos os homens e
mulheres presentes no grupo - uma catana, um machado, uma enxada, uma
picareta, uma pá e uma alavanca-, e organizados turnos de trabalho duríssimos
para desbravar a mata (capinar) e cavar covas para plantação das ramas de
café, enquanto construíam paulatinamente as suas próprias casas de madeira e
capim com os recursos disponíveis no próprio vale. N. também explicava como
cada trabalhador recebia um salário de 75 angolares (no caso dos homens) e a
comida era centralizada num armazém e distribuída por cubata ou unidade
familiar. Também se lembram das restrições de movimentos impostas, que os
impediam de se deslocarem para além de 8 quilómetros a leste e oeste do
colonato, sem serem acompanhados por um oficial do governo (as únicas
deslocações autorizadas eram para o posto de saúde do Bembe, em caso de
doença). Mas igualmente se falou na greve de braços caídos promovida pelos
colonos como protesto pela proibição momentânea dos cultos religiosos,
provocada por desentendimentos no seio dos tocoistas (Relatório da Junta de
Exportação de Café, 1956). Neste sentido, apesar do sofrimento imposto pelo
trabalho forçado e pela privação de liberdade, persiste nas memórias de muitos
tocoistas a ideia de que a estadia no Vale do Loge não se restringia apenas a
traumas motivados pela repressão, mas também à recordação de momentos de
organização coletiva, resistência, colaboração e crescimento institucional e
espiritual.
Quando no início de 2012 visitei o vale pela primeira vez com o meu colega Abel
Paxe e amigos da igreja tocoista, pude ver no terreno as histórias recolhidas
em Luanda e imaginadas em modo remoto: subi os montes que rodeavam o colonato,
onde Simão Toco, ainda em 1950, promovera uma oração a Deus para solicitar a
ajuda dos antigos profetas na sua tarefa de relembramento do cristianismo;
visitei as ruínas da igreja católica que os tocoistas se recusaram a visitar
aquando da visita do Bispo para a sua inauguração, em 1958; pisei o chão do
local onde permanecia a primeira igreja tocoista, construída de raiz em
madeira no mesmo ano, e onde começou a operar o chamado tabernáculo (Blanes,
2009a; no prelo). Também apreciei como, apesar do estado de ruína em que se
encontra a maioria das estruturas do tempo em que o colonato funcionou no seu
esplendor, e apesar da sua localização remota, o Vale do Loge continua a ocupar
um lugar central na memória e historiografia tocoistas, e por essa mesma razão
está a ser alvo de um processo em curso de recuperação e patrimonialização,
tanto pelos habitantes locais que professam o tocoismo, como pelos antigos
colonos que trabalharam na exploração do café. Estas iniciativas passam pela
recuperação das antigas casas dos colonos, e também pela reativação da
atividade agrícola em escala comercial.
O caso do Vale do Loge é ilustrativo da forma como a história do tocoismo foi
propagada através de movimentos e deslocações involuntárias (Blanes, 2009b),
produzindo assim processos inesperados de associação à terra motivados pelas
trajetórias particulares tanto do seu líder fundador, como dos seus seguidores
(Blanes, no prelo). Essa deslocação, como vimos, foi imposta exogenamente pelas
autoridades portuguesas, que impuseram um ethos de deslocamento na
experiência tocoista (ver nota acima sobre os ngunga nguele), produtor de
territorialidades inéditas.
IRONIA NÚMERO 2: DA TORTURA AO MARTÍRIO
Um dos materiais mais marcantes dos arquivos da PIDE, embora disperso e
provavelmente sobrevivente a um expurgo individual e institucional ao longo dos
anos ' para além de estar sujeito a um enquadramento jurídico particular de
proteção da privacidade ' é o ficheiro de interrogatório. Não necessariamente
pelo seu conteúdo ' destinado a produzir uma informação estratégica ', mas mais
pelos dispositivos e práticas associadas ao mesmo, envoltas numa dinâmica de
violência e extorsão. Temos algumas referências sobre como eram praticados os
interrogatórios pela PIDE em Angola (Mateus, 2004, p. 107), para além de alguns
testemunhos recolhidos entre pessoas que passaram por essa experiência. Um
exemplo é o de V., uma mãe tocoista que entrevistei, e que partilhou comigo
os distintos momentos de interação com as autoridades coloniais portuguesas.
V. foi, tal como Simão Toco, deportada do Congo Belga, mas insistindo: não
houve qualquer crime, só a Palavra de Deus. Depois, passou pelo Vale do Loge,
antes de ser deportada com o marido para São Tomé. Depois de um desentendimento
entre o seu marido e o capataz do vale, foi decidida a sua deportação do vale.
Ao ver chegar o carro que ia levar o seu marido, V. pegou nos seus três filhos
e entrou para dentro da viatura, exigindo ser levada junto com o seu marido.
Após um tempo em Carmona, Vila Salazar (hoje Ndatalando), Catete e Luanda, V. e
a sua família são deportados para São Tomé e Príncipe, onde permanecerão sete
anos e conhecerão grande sofrimento, dadas as surras a que eram submetidos
nas roças pelas autoridades. Muitos homens acabariam por morrer lá. O
sofrimento não tem medida, até comíamos as folhas que não davam (venenosas).
No entanto, a fé de V. reafirmava-se com o símbolo do tocoismo que ela
carregava consigo (uma estrela branca de oito pontas sob um fundo vermelho).
Ela sofria muito com os trabalhos que o marido era obrigado a fazer (subir às
palmeiras, por exemplo), e armava confusão cada vez que ele demorava a chegar
do serviço. Mas ao mesmo tempo, recordava-se da máxima partilhada pelo próprio
Simão Toco, que recomendava sempre precaução em todos os contactos que
mantivessem com as autoridades. Eventualmente, V. terá conseguido regressar com
a sua família para Luanda, onde se encontra ainda hoje.
Para além destas narrativas biográficas que vamos recolhendo, resta-nos o
material de arquivo. Um exemplo de como os serviços de inteligência embarcavam
numa produção repressiva de conhecimento é, por exemplo, o do indígena
moçambicano Alberto Cosse. A sua é uma das poucas transcrições de
interrogatório ' neste caso produzido pelos Serviços de Centralização e
Coordenação de Informação de Moçambique ' completas a que podemos ter acesso na
Torre do Tombo. Através dele ficamos a saber que aderira ao seguimento de Simão
Toco quando se encontrava deportado em São Tomé, a trabalhar numa roça, onde
fora parar depois de preso em Lourenço Marques por vadiagem e vários furtos
e fugas da cadeia. Fora deportado, de acordo com o relatório policial, com o
objetivo de se obter a sua regeneração. Cosse terá sido autorizado a
regressar a Moçambique, mas foi rapidamente preso para interrogatório pelos
SCCIM após se ter dirigido às autoridades para pedir licença para viajar para
Luanda, e assim se juntar à seita. Vários objetos e pertences seus foram
apreendidos: um emblema em pano encarnado bordado a branco representando uma
estrela de oito pontas, uma lista da Direcção dos Irmãos de Cristo de Angola,
cartas manuscritas, folhetos com títulos como A Vindoura Regeneração do
Mundo, etc.
Alberto Cosse não é uma figura central na historiografia tocoista, nem sequer
nos ficheiros da PIDE. Representa, aliás, uma experiência de certa forma
marginal do tocoismo, na medida em que era de nacionalidade moçambicana e
aderira ao movimento em São Tomé, portanto longe dos cenários principais onde
se desenvolvia a história tocoista. Mas é-nos relevante em primeiro lugar
porque ilustra o alcance da ação e repressão policial, e os seus efeitos no
espaço atlântico colonial; em segundo lugar, porque reforça a ideia da
constante ' embora não necessariamente organizada ' preocupação por parte das
autoridades relativamente à expansão da seita; em terceiro, porque contribui,
mesmo que involuntariamente, para o mapeamento do movimento tocoista;21 e
finalmente, porque é um indicador das dinâmicas de repressão e resistência
através das quais o tocoismo operou. Em primeiro lugar, na surpresa e tentativa
de compreensão do fenómeno:
P [ ] Mas esse Simão Toco Gonçalves donde é que ele vive?
R Simão Toco Gonçalves vem de Angola.
P Vem de Angola? Mas não está em São Tomé? Vai São Tomé, vai
Angola?
R Ele a São Tomé veio só uma vez [ ].
P Mas em Angola são brancos ou são pretos?
R Angola são pretos.
P São pretos? Mas como é que se chama essa Igreja?
R Essa Igreja do Simão Toco?
P Sim.
R Esta Igreja de Simão Toco é Igreja Protestante Evangélica, mas é
ele tem cor da estrela. A cor quer dizer que ele é caçador das
instruções de religiões de Jesus de protestantes.
P Ele é quê?
R Ele tem cor de estrela.
P Que é isso, que é isso? [ ]22
A esta tentativa de compreensão seguia-se uma outra de demarcação de
motivações, procurando identificar por que é que pessoas como Cosse optavam por
aderir a um movimento com as características do tocoismo, quais os critérios
pessoais e políticos.
P Mas como é que Tu eras da Igreja Evangélica, não eras?
R Era. Sou. Primeiro fui baptizado, eu sou, fui baptizado na
Missão do Simão Toco da Estrela [ ].
P Mas como é que tu entraste para a Igreja de Simão Toco?
R É que ele vem também. Quando ele vem já, chegou lá, diz que essa
religião que eu tem é religião da Estrela. Agora nós queremos entrar
na Igreja dele, porque somos cantores, somos cantores dos livros. Ele
escolheu qual era o rapaz mais esperto para cantar [ ].
P Mas porque é que pediste para ser baptizado com Estrela e não
pediste para ser baptizado com o [missionário protestante] Carvalho?
R Coração chegou, Senhor Administrador!
P Mas como é que é essa coisa, coração, oh Alberto? Deus mandou,
não é? [ ] Mas o que é que o teu coração também está a pensar? Largar
a tua família, largar tudo aqui e ir para Angola?
R Sr. Administrador, é só coração!
P Mas porquê?
R É Deus que está a chamar.23
Depreendia-se também a notoriedade que a figura de Toco detinha entre as
comunidades indígenas, não só no contexto angolano, mas também no espaço
colonial atlântico ' o que por sua vez prefigurava uma proto-sociologia do
rumor e da sua circulação, muito para além do registo oficial.
P [ ] Simão Toco o que é que ele faz?
R Ele está a andar todas terras [ ].
P E Simão Toco não tinha lá gente dele?
R Tem muita gente dele da Estrela que está e outro está na Luanda.
P Não, em São Tomé?
R Em São Tomé tinha poucos de Estrela, não era muito, não. Era
pouco.
P Então todo gente anda com essa Estrela, assim, encarnada, na rua
e tudo?
R Na rua de Luanda, tudo na rua anda assim [ ].24
O exemplo de Cosse, tal como o de V., é particularmente interessante, porque
ilustra os retratos heterogéneos e compósitos que se podem construir a partir
deste momento histórico: através de uma narrativa pessoalizada, proferida de
forma involuntária e sob coação (interrogatório), reconstrói-se, mesmo que
parcialmente, e com as devidas ressalvas, uma história pouco conhecida até
agora do tocoismo ' a sua implantação fora do contexto angolano, no contexto da
política colonial portuguesa ', ao mesmo tempo que se materializam histórias
orais e rumores em documentos aos quais se acede de forma ad hoc. Neste
sentido, opera-se em crentes tocoistas, como Cosse, um processo de
personalização da repressão, uma identificação corporalizada do martírio da
experiência tocoista através da sua sujeição ao poder policial. Se tal prática
com um tocoista em Lourenço Marques aparecia como una novidade, em Angola fazia
parte do quotidiano, em que os principais líderes e protagonistas eram
invariavelmente chamados aos postos de polícia para prestarem declarações ou
receberem instruções das autoridades, com variáveis níveis de imposição.
Neste contexto, para além do registo da biografia profética (Blanes, no
prelo), experiências como a de Cosse também refletem a emergência pública de
uma história personalizada e anónima do tocoismo, que hoje contribui, qual
mosaico, para a acumulação histórica que se opera por trás deste movimento.
Através da sua emergência documental, Cosse transformou-se num lugar de memória
disponível para os tocoistas, no âmbito da sua própria reconstrução histórica
(idem).
MEMÓRIAS EM TRANSIÇÃO: REPRESSÕES E IRONIAS NO CONTÍNUO HISTÓRICO
A relocalização do Vale do Loge e a sua inserção na trajetória
historiográfica tocoista, assim como a reconstituição de registos de repressão
e resistência como o de Alberto Cosse, representam um aspeto central na
experiência e no ethos de qualquer tocoista: a importância da memória e a sua
cultivação através de diversos métodos de recolha, registo e transmissão
(Blanes, no prelo). Esta cultivação da memória, por sua vez, produz um sentido
de resiliência (Paxe, 2009) que circula de forma ativa entre os membros ' a
ideia de que apesar do sofrimento e da perseguição (Blanes, 2009c) a igreja
continua de pé. O que se sugere aqui, portanto, é a ideia de que o legado
disponível entre os tocoistas está diretamente relacionado com as
expectativas dos agentes, ideólogos e executores da PIDE, impostas sobre as
próprias utopias dos crentes angolanos.
Mas por outro lado, também persiste a recorrência do conflito como dimensão
aparentemente inerente à sua existência. Apesar de ser um movimento
crescentemente notório no espaço angolano, visto como uma resposta autóctone de
caráter emancipatório, esta não encaixava na lógica de violência dialética que
se foi acumulando entre o aparato colonial e os autóctones, e transformou-se
involuntariamente num dos polos da oposição binária produzida pela lógica de
violência e confrontação. Aqui, revela-se uma teoria política da inimizade tal
como nos falava Viveiros de Castro: o tocoismo transformou-se numa
corporalização autóctone das ansiedades e axiologias do aparato colonial, que
ensaiava a identificação dos seus inimigos. Esse ensaio, interessantemente,
assentava numa teoria proto-antropológica da liderança profética, vista como
sendo necessariamente subversiva, sem no entanto questionar ' como fizera por
exemplo Balandier ' os contextos sociais e políticos que facilitavam essa
emergência. A produção académica para comprovar essa teoria (por exemplo,
Cunha, 1959; Estermann, 1965), apenas fazia parte da self-fulfilling prophecy.
Mas o devir dos acontecimentos acabou por ultrapassar o autoritarismo binário
da PIDE: não só não impediu o desmoronar do projeto colonial, como tão pouco
impediu o crescimento do movimento tocoista, que se serviu da dispersão pelos
campos de trabalho para construir uma igreja pública, de alcance nacional. Em
agosto de 1974, nas vésperas da saída de Portugal do território, o líder
religioso é autorizado a regressar do exílio, assiste-se àquilo a que os
jornais da época chamaram regresso triunfal de Simão Toco à chegada ao porto
de Luanda, perante o júbilo de milhares de tocoistas e angolanos (Diário de
Angola, 31-08-1974). Pouco tempo depois, seria recebido pelo então Alto-
Comissário em Angola, o almirante Rosa Coutinho.
A reversão das lógicas de poder, mediada pela retirada dos portugueses de
Angola, provocou, para além de todas as mudanças societais e políticas em
Angola, uma reconfiguração da memória e narrativa historiográfica no seio desta
igreja em particular. A sobrevivência à agência repressora da PIDE
possibilitou, nos anos que se seguiram, o desenvolvimento de uma ideologia de
sofrimento, martírio e providência que encaixava perfeitamente na teologia
messiânica com que a igreja se fundara décadas antes: uma ideologia de
libertação espiritual e política. Toco constituiu-se assim, para muitos
angolanos, um mártir e um herói dos tempos coloniais. É verdade que o que
aconteceu nas mais de três décadas a seguir à independência angolana também
afetou, mediou essa memória (Blanes, no prelo). Seja como for, o discurso
sobre o martírio colonial mantém-se muito vivo nos dias de hoje entre os
membros da igreja.
Mais ainda, a partir de 1994, com a abertura dos arquivos da PIDE e já depois
da inauguração da primeira Igreja Tocoista em Lisboa (1992), inaugurou-se um
novo regime de memória, e os próprios tocoistas procuram consultar os arquivos
e prosseguir o seu processo de revisão histórica. Aqui descobre-se, do ponto de
vista tocoista, um regime historiográfico inédito, na medida em que se acumula
e concentra uma multidão de textos, documentos e objetos produzidos ou
confiscados pelas autoridades portuguesas a propósito deste movimento religioso
' nomeadamente, dezenas de milhares de páginas de correspondência pessoal entre
o líder e os seus seguidores. Este processo de revelação, apenas possível
graças à ação repressora da PIDE, está ainda em curso, na medida em que estes
arquivos (na Torre do Tombo e no Arquivo Histórico Ultramarino, sobretudo)
acumulam dezenas de milhares de folhas, e nem todos conseguiram aceder-lhes; no
entanto, já permitiu o aparecimento de uma produção endógena de historiografia
tocoista, estruturada sobretudo em torno da biografia do profeta e da sua
correspondência (ver, por exemplo, Kisela, 2004).
CONCLUSÕES
Pretendi neste texto pensar o exemplo tocoista através de uma interseção mais
abrangente entre ideologia, ação e momento histórico: o reconhecimento coletivo
de uma fratura entre a sociedade e o Estado, mediada pela crescente sensação de
inevitabilidade da dicotomia repressão/resistência ' sensação que nos obriga a
olhar com atenção para os distintos sentidos que estes conceitos podem assumir
em diferentes contextos geográficos e históricos, e para as subsequentes
expectativas que são colocadas nos distintos campos de ação. Os resistentes
tocoistas, embora lutando fisicamente contra o opressor, faziam-no apenas
contra a sua vertente executora (a polícia, num sentido lato) e não a sua
totalidade (os promotores da ação opressora). Por outro lado, para os agentes
da polícia política, o tocoismo simbolizava (embora não de forma exclusiva) o
tipo de inimigo que se procurava identificar; neste contexto, o exemplo aqui
apresentado é apenas um dos vários que se poderiam explorar para o caso
angolano.
Seja como for, no caso que apresentei aqui, tanto o governo português como o
movimento tocoista tinham, no seu horizonte de expectativas, uma noção de
tempo messiânico, a ideia de um futuro mais ou menos concreto onde se
concretizariam os seus projetos de sociedade (Benjamin, 1968; Jameson, 2005).
Agiam ora reprimindo, ora resistindo, em função de uma ideologia e de uma
expectativa ' uma determinada conceptualização histórica, como diria
Koselleck. Se para os tocoistas ' e para muitos angolanos ' esse tempo
messiânico chegou sob a forma de mudança política, por um lado, e confirmação
providencial divina, por outro, para os antigos agentes da PIDE ter-se-á
verificado uma sensação inversa, em que a expectativa se transformou em
frustração e nostalgia. Neste contexto, não deixa de ser irónico que aquilo que
a PIDE produziu no âmbito da sua estratégia repressora ' o tal arquivo
secreto ' sirva hoje como fonte de memória e confirmação de expectativas.
Nesta perspetiva, a Angola tardo-colonial foi também um campo de experimentação
poética: por um lado, no ensaio da naturalização de uma determinada ontologia
social (totalitarizante, conservadora, imperialista) ' que viria posteriormente
a ser contestada através de uma reação; e por outro, de uma experiência de
temporalização determinada por utopias contrastantes. A arte da resistência
tocoista idealizava uma nova soberania assente na libertação espiritual, o que
por sua vez contrastava com o próprio providencialismo da ideologia e praxis da
PIDE; posteriormente, após a independência, a igreja veria essas utopias
traduzidas em inscrições de memória como as que descrevi aqui. Faltará ainda
conhecer essas inscrições do lado de quem promoveu a repressão.