Crise e republicanismo no discurso dos lojistas de Lisboa (1890-1910)
INTRODUÇÃO
Na década de 1890, o pequeno comércio lisboeta passou por uma crise económica,
em parte derivada das dificuldades financeiras que o país atravessou pela mesma
época, e que potenciaram o aumento de impostos, o agravamento das pautas
alfandegárias e, muito provavelmente, conduziram a uma retração no consumo. A
mesma esteve ainda relacionada com mudanças estruturais na distribuição
geográfica das lojas pela cidade, em grande medida forçadas pela tendência de
subida registada nas rendas dos imóveis, e influenciadas pela dinâmica
populacional da capital. Este quadro recessivo e de mudança, observável num
aumento de falências, trespasses e deslocalizações de lojas, visível até na
diminuição do número de licenças para a abertura de estabelecimentos
comerciais, que obrigatoriamente tinham de ser requeridas à Câmara Municipal,
não era, no essencial, muito diferente da conjuntura económica que afetou os
lojistas de outras cidades europeias, nomeadamente em França, na Itália ou na
Bélgica, na passagem da década de 80 para a de 90 do século XIX.
O facto levou, inclusive, a que os historiadores ocupados no estudo da pequena
burguesia comercial1 de finais do século XIX dispensassem uma particular
atenção à análise do impacto das crises económicas nas alterações que, por esta
altura, estavam a ocorrer no alinhamento político deste grupo social.
Efetivamente, a historiografia internacional tem dado destaque àquilo que
caracteriza como uma paulatina caminhada dos lojistas para a direita do
espectro político, para posições mais conservadoras, quando comparadas com o
que tinha sido o seu tradicional apoio aos partidos mais progressistas e
liberais, herdeiros da Revolução Francesa (Crossick e Haupt, 1984; Nord, 1986;
Morris, 1993; Jaumain, 1995). No mesmo período, contudo, os lojistas de Lisboa
estavam a evoluir politicamente em sentido oposto, dando início na década de
1890 a uma aproximação ao republicanismo, cuja face mais visível vai ser o
apoio dispensado à implantação da República em 1910, como foi já destacado por
vários historiadores nacionais (Almeida, 1991; Ramos, 1994; Valente, 1999;
Catroga, 2000).
Apesar destes testemunhos sobre o que terá sido o envolvimento dos lojistas no
movimento republicano, pouco ou nada foi investigado especificamente sobre este
grupo social que permita compreender o porquê deste caminho divergente, quando,
aparentemente, eles estavam sujeitos ao mesmo tipo de condicionalismos que os
seus colegas do resto da Europa. Pretende-se com este texto começar a preencher
essa lacuna historiográfica, apresentando os resultados de uma análise
detalhada sobre o discurso político e social dos homens do pequeno comércio de
Lisboa nas últimas décadas da monarquia, procurando demonstrar que reside na
conjuntura económica e política da década de 1890, e na força do seu
associativismo profissional, uma possível explicação para o que aqui vai ser
apresentado como um percurso de alinhamento político peculiar no quadro da
pequena burguesia comercial europeia (Alves, 2010a e 2012).
UMA CERTA IDEIA DE CRISE ENTRE OS LOJISTAS DE LISBOA
Na década de 1890, o tema da crise vai tornar-se central no discurso do
pequeno comércio lisboeta. Se até então a expressão não era praticamente usada,
nos anos que se seguiram ao Ultimatum passará a estar muito presente nos
jornais dirigidos à classe, nos relatórios anuais da direção da Associação
Comercial de Lojistas de Lisboa (ACLL) e ainda nos vários números do seu
Boletim associativo.2 Para além de ser significativo destacar a frequência
estatística da própria palavra que, de assunto quase ignorado até ao final da
década de 1880, passou a tema predominante no início da seguinte, o mais
importante será perceber o que os lojistas entendiam por crise, e as razões
que os mesmos apontavam para a sua existência.
O tema da crise entra pela primeira vez em cena, de forma destacada, no
segundo semestre de 1890 e integra-se nas ondas de patriotismo que varreram o
país após o Ultimatum de 11 de janeiro, o tratado anglo-luso de 20 de agosto, e
o Modus-Vivendi de 14 de novembro (Teixeira, 1990; Ramos, 1994, pp. 69-144). É
precisamente nos protestos que a ACLL organizou contra estes dois últimos, que
os lojistas efetuam uma primeira análise sobre o período angustioso que o
país atravessava. O quadro era pintado a traços muito negros, e todos os
setores de actividade eram caracterizados como vivendo dias difíceis, no meio
de uma decadência assustadora. Transparece algum exagero, inflacionado pelo
patriotismo do momento, mas a conclusão a que chegavam os homens do pequeno
comércio de Lisboa demonstra igualmente que estavam atentos aos sinais
financeiros da altura que prenunciavam a ruína do nosso crédito [ ] num
período que não se nos afigura muito longo!3
A crise financeira já não era novidade, e o mesmo acontecia com as
dificuldades por que passavam várias indústrias colocadas na mais desoladora e
precária situação, que acabavam por atingir sobretudo as classes pobres e as
classes trabalhadoras, pelo aumento do preço dos géneros de primeira
necessidade e pela miséria que as forçava à emigração para o Brasil. Mas
os tempos sombrios atingiam também diretamente os lojistas e, logo no ano
seguinte, as falhas na circulação monetária levavam a que os ânimos da classe
comercial começassem a ficar exaltados, tendo em conta a grave crise que
tanto afecta a todos e o facto de o comércio a retalho [ser] o que mais
sofria. O pequeno comércio que, pelo próprio discurso, se considerava, ainda,
ordeiro ou reconhecido da utilidade da manutenção da ordem, sentia-se agora
indignado contra o lamentável estado de coisas que estava afectando o país e
ameaçava com o encerramento das portas dos estabelecimentos e com inevitáveis
perturbações de ordem pública, a que a sua determinação de paralisar todas as
suas transacções acabaria por levar.4
É óbvio que as causas da gravíssima situação em que se acha o comércio eram a
crise financeira e a crise monetária, provocadas pela dificuldade em
conseguir empréstimos no estrangeiro e pelo curso forçado do papel-moeda,
instituído em 9 de julho de 1891. Crise que estava a ser acompanhada de forma
atenta e preocupada pela ACLL. A reunião da direção de 13 de maio de 1891 foi
quase exclusivamente dedicada a uma prolongada discussão [ ] acerca da crise
comercial e monetária. A forma muito negativa como estava a afetar o pequeno
comércio ficava expressa na decisão da direção em empregar todos os meios
dignos para combater o terror pânico que a todos atacara5.
A crise tinha começado logo no Verão de 1890, quando os regeneradores não
conseguiram um empréstimo em Paris. Para além de não arranjar dinheiro, o
Estado era obrigado a gastar muito mais no auxílio a bancos e companhias à
beira da falência. Em 7 de maio do ano seguinte, a falta de liquidez no
mercado financeiro levou o Governo a autorizar o Banco de Portugal a deixar de
converter em ouro as suas notas. Depois do curso forçado, o Governo chegou
mesmo a ter de comprar, em agosto, máquinas para cunhar moedas de trocos e
evitar a ruptura total dos pagamentos e das transacções comerciais no País
(Ramos, 1994, pp. 155-156). A crise dos câmbios fez depreciar a moeda
portuguesa e gerou uma alta dos preços dos produtos vendidos nas cidades, e que
tinham em grande medida de ser importados. Esta situação afetava os
consumidores, como alertara a ACLL, mas não deixaria de afetar também os
lojistas, pois eram estes a sentir o primeiro embate do descontentamento
popular pelo aumento do custo de vida e pela contração do consumo.
Porém, não eram só os corpos gerentes da Associação ' onde, desde meados da
década de 1880, os lojistas de tendência republicana estavam a ganhar
preponderância ' que transmitiam uma visão pessimista sobre o momento. Apesar
de periodicamente acarinhados ou criticados pelos jornais da época, a partir de
agosto de 1891, os lojistas de Lisboa passaram a contar com uma voz própria na
imprensa. No dia 14 desse mês saiu o primeiro número do jornal O Lojista. As
preocupações que expressava eram as que na altura afligiam o seu público-alvo.
A questão financeira e a crise monetária, com origem no câmbio do Brasil,
foram desde logo temas principais a explorar no primeiro mês de tiragens de uma
publicação que se dizia representante da classe. O discurso do jornal era de
tal maneira apelativo, que a própria ACLL, no final de 1891, passou a
recomendar nas páginas do Boletim a leitura deste excelente periódico6.
As características da crise eram minuciosamente apresentadas. Quando antes
comprava a prazo, podendo pagar a 3 e a 6 meses, ficando assim com tempo para
gerir melhor as suas rendas, o lojista no presente tinha de pagar adiantado as
suas mercadorias e, em consequência, era obrigado a vender mais depressa para
conseguir realizar o capital necessário para reabastecimento de stock. Para
além disso, a diferença no câmbio obrigava agora o comerciante a vender mais
caro, com manifesta indisposição do comprador. Em 1892, a situação parecia
estar pior, pois as vendas tinham baixado e, segundo o jornal, o número de
pequenos negócios que está suspendendo pagamentos é considerável, existindo
estabelecimentos onde se reduzia o número de empregados, outros onde os patrões
propunham aos caixeiros e empregados conservarem-se apenas pela
alimentação. A crise tinha começado por afetar a classe operária, argumento
em sintonia com o que a ACLL já afirmava em 1890, mas começava a seguir por
entre a pequena burguesia. Neste grupo social O Lojista incluía, obviamente,
os leitores que faziam a vida atrás do balcão e também os funcionários do
Estado que tinham sofrido desfalques nos seus vencimentos, pois esta classe
numerosa reduz naturalmente as despesas em proporção com a míngua das
receitas7
Os desfalques eram uma referência às medidas adotadas por Oliveira Martins,
ministro da Fazenda do governo de José Dias Ferreira que, em janeiro de 1892,
tinha substituído o do general João Crisóstomo de Abreu e Sousa. Oliveira
Martins, crítico da política de manutenção de desequilíbrios nas contas do
Estado, procurou debelar as dificuldades com um conjunto de medidas que não
eram novas e passavam por aumentar os impostos por forma a saldar as contas do
Estado, em vez de recorrer à emissão de mais dívida. Começou pela única fonte
de impostos imediatamente acessível e de produto seguro, os rendimentos dos
títulos da dívida pública. Era uma manobra altamente impopular (Lains, 2002,
pp. 69-70), como a ACLL fez questão de frisar no seu relatório de 1892, ao
comentar os acontecimentos associativos e políticos do ano. Nesse relatório,
ministro da Fazenda era caracterizado em tom irónico como detendo créditos de
profundo economista, ao mesmo tempo que declarava os efeitos prejudiciais das
suas medidas para o movimento comercial8
Que medidas eram essas, consideradas pelos lojistas como tendo influído
prejudicialmente na vida comercial do país e, em particular, dos seus
associados, público imediato do relatório anual? Além do aumento de impostos
cobrados sobre os juros das inscrições de dívida pública, a ACLL destacava o
cercear dos ordenados dos empregados públicos e a alteração das pautas
alfandegárias, consideradas verdadeiramente proibitivas. No fundo,
iniciativas que afetavam ou tenderiam a afetar de forma mais ou menos
significativa a atividade do comércio retalhista.
Em primeiro lugar, cortava-se nos rendimentos da própria associação que
investia regularmente os excedentes dos seus saldos anuais na aquisição de
títulos de dívida pública e obrigações várias. Sendo este tipo de investimentos
privilegiados pela associação (durante largos anos foram mesmo os únicos), não
será descabido supor que o mesmo se verificasse junto dos seus associados, que
representavam na altura cerca de 15% do total de lojistas de Lisboa. A ser
assim, era natural que aumentar para 30% o imposto que incidia sobre os juros
fosse muito impopular e colocasse uma boa parte dos pequenos comerciantes em
rota de colisão com o governo. Em última análise, eram as suas poupanças e
pequenos investimentos que consideravam estar em perigo.9
Em segundo lugar, o corte nos vencimentos dos empregados públicos era outra
medida que só poderia ser considerada como pouco simpática por parte dos
lojistas. Tendo em conta o elevado número de funcionários do Estado existentes
em Lisboa e o facto de estes serem potenciais clientes das mercearias e mais
lojas da cidade, a alusão a esta medida no relatório anual da ACLL, onde os
merceeiros ocupavam uma parte significativa da lista de sócios, não pode ser
entendida de forma inocente. Pedro Tavares de Almeida (1995, p. 274) refere a
existência de uma elevada concentração [de funcionários públicos] na capital,
sendo esta conclusão realçada também por Luís Espinha da Silveira (1998, pp.
317-333). Diminuindo o vencimento dos funcionários do Estado, diminuía
igualmente o dinheiro disponível nas bolsas na hora de se deslocarem à loja e,
em igual proporção, baixava o volume de vendas ou aumentavam as folhas nos
livros de fiados. Essas consequências eram destacadas no jornal O Lojista,
que chamava a atenção, precisamente, para o problema que constituía essa
contrariedade não menos onerosa, a dos fiados10.
Em terceiro lugar, as alterações das pautas alfandegárias, pela subida das
taxas, tinham levado ao aumento dos preços. Sobre isso não se esquecia de falar
O Lojista, referindo, em artigo de junho de 1892, que todos os géneros
alimentícios tinham sofrido aumentos em virtude das alterações das pautas e do
câmbio desfavorável. As novas pautas tinham sido aprovadas em março, fruto de
um processo negocial e de pressões económicas e políticas que vinham já de
meados da década de 1880, aparentemente numa jornada parlamentar rápida e sem
grandes discussões (Valério etal., 2006, p. 73; Santos, 2004, pp. 139-142).
Numa altura de crise, esta pressão inflacionista nunca poderia ser encarada
como benéfica para a atividade de quem, atrás do balcão, tinha de explicar aos
clientes mais um encarecimento do custo de vida. O certo é que se assistiu a
uma retracção do consumo. [ ] Aqueles que viviam de ordenados e de juros da
dívida pública, tiveram de apertar o cinto (Ramos, 1994, p. 168) e para os
lojistas era claro que a diminuição das vendas era resultado da redução dos
vencimentos e dos juros11
O sentimento de crise era ainda traduzido em vários artigos e notícias
dedicados ao pequeno comércio noutros jornais da época, num processo
classificado de colecionismo jornalístico de sinais de crise (Ramos, 1994,
p. 168). Como é óbvio, numa parte dos casos estas coleções não eram isentas
de uma perspetiva puramente política, impregnada de influências partidárias
ligadas, no que aos interesses dos lojistas diz respeito, aos progressistas e
aos republicanos, mas representavam também mais um testemunho de que a quebra
que se registava nos pedidos de licenças de estabelecimentos era um reflexo das
reais dificuldades por que estava a passar o comércio retalhista de Lisboa.12
O articulado do Século, jornal republicano que com bastante frequência fazia
eco das reivindicações dos lojistas, é, neste ponto, particularmente
interessante. Num editorial de 11 de maio de 1891, intitulado A crise
monetária, o jornal deu uma atenção especial ao pequeno comércio [que] está
lutando com graves dificuldades financeiras e o dia 20 ou 25 do corrente
avizinha-se para ele como um espectro de terror, porque [os lojistas]
antecipadamente sabem que, se a confiança não se restabelecer prontamente e as
transacções comerciais não entrarem num período de normalidade, não poderão
obter dinheiro para pagar as rendas das lojas em que funcionam os seus
estabelecimentos.
Se a ideia de crise, que então se instalou, e as causas apontadas para a
mesma não estavam totalmente isentas de uma certa visão política, e denunciavam
até algum grau de comprometimento partidário que poderia levar a dramatizar
as dificuldades, a análise sobre a evolução geral do pequeno comércio feita
através da contagem do número de licenças requeridas para abrir ou manter
aberto um estabelecimento comercial não parece deixar dúvidas sobre uma real
estagnação das atividades comerciais da cidade. A crise teria sido responsável,
certamente, pela falência e fecho de algumas lojas, para além de tornar menos
atrativa esta atividade para quem estivesse a equacionar uma vida atrás do
balcão, uma vez que parecia estar a aumentar a incerteza quanto ao futuro dos
pequenos negócios. Os relatos sobre o encerramento de estabelecimentos
comerciais na cidade surgem efetivamente em grande número nesta década, com
destaque para uma afirmação sobre o fecho de 400 estabelecimentos em Lisboa
no ano de 1892, o que significa, antes de mais, que o fenómeno das falências só
nesta altura assumiu proporções que justificassem a sua inclusão no discurso da
pequena burguesia comercial lisboeta. Os lojistas pareciam estar a dramatizar,
mas era uma reação às dificuldades que estavam já a sentir.13
Inflacionada por uma retórica de crise, a afirmação denunciava, assim, um
mal-estar evidente entre os homens do comércio de Lisboa. Ao longo de 1892 e
1893 o jornal O Lojista referiu, com bastante insistência, um aumento do número
de falências. Em março de 1892 começou por afirmar que esse parecia ser um
fenómeno recorrente nos últimos tempos e centrado numa determinada atividade,
pois todos os anos são numerosas as falências no negócio de géneros
alimentícios. Nos meses seguintes, e em 1893, os relatos mantêm-se, falências
não faltam, estava a aumentar o encerramento de muitos estabelecimentos e
isso era uma prova da crise que afetava o comércio desde o Ultimatum inglês.14
Neste aspeto, e pelos exemplos detetados para o estrangeiro, a capital
portuguesa não seria um caso isolado na Europa do final do século. A chamada
Grande Depressão (1873-1896) estava a afetar lojistas também noutros países,
como na França, onde na viragem do século se assistiu a um aumento do número de
falências e trespasses entre os pequenos negócios, ou na Alemanha, que viu o
número de falências entre os lojistas crescer de forma significativa depois de
1890. O mesmo, aliás, estava a acontecer do outro lado do Atlântico, com os
lojistas do Canadá a verem chegar a falência em grande número (Blackbourn,
1977, p. 411; Denecke e Shaw, 1992, p. 85; Haupt, 1993, p. 313; Núñez Seixas,
1996, p. 24; Monod, 1996, p. 25).
Para os lojistas, fosse através do discurso oficial da sua associação
representativa, fosse através de testemunhos individuais ou de artigos de
jornais, as causas desta grave situação deviam ser procuradas mais fundo, nas
conveniências partidárias e na falta de uma administração cordata, sensata
e enérgica. Era às péssimas negociações feitas pelas câmaras e pelos
governos que se deveriam assacar as responsabilidades pelo estado desgraçado
em que se acha o comércio. Podiam mesmo ir mais além, quando a militância
republicana, que estava em crescendo desde a segunda metade da década de 1880,
se sobrepunha aos interesses de classe, contrapondo aos sacrifícios que eram
impostos ao povo os gastos feitos com a família real. A inflamada comparação
foi feita em assembleia-geral de 18 de julho de 1890, por Domingos Baptista
Cabeça, um pequeno comerciante da rua de Santo Amaro, sendo o seu discurso
calorosamente aplaudido com uma salva de palmas pela assembleia. O mesmo
lojista, um ano depois, afirmando não querer discutir a pessoa do rei,
acabava por responsabilizá-lo pelo agravamento das despesas do Estado e pelo
aumento da desconfiança15.
Também nas reuniões da direção não se perdia oportunidade para criticar aqueles
que concorreram para a situação calamitosa em que todos se encontravam, ou
seja, os sucessivos governos, como era afirmado por José Cupertino Ribeiro em
29 de julho de 1891. Era ao devaneio político que os lojistas atribuíam a
causa de todos os males. Foram os sucessivos erros económicos e
administrativos, a prodigalidade escandalosa dos gastos, a decadência, se não a
completa perversão do senso moral na gerência dos negócios públicos, no fundo,
os desatinos dos governantes que colocaram o país em dificuldades. Ainda em
1891, a crise, que prometia deixar milhares de famílias [ ] sem pão,
resultava de um orçamento sem economias e com demasiados gastos, considerados
supérfluos, com um pomposo e garrido corpo diplomático e consular, [ ]
palácios ornados com magnificência, [ ] cohortes de directores gerais, nuvens
de conselheiros superiores, avalanches de comarcas e de juízes [ ]16. Em 1892,
a situação mantinha-se, bem como as justificações e soluções. Tudo se devia, em
grande medida, à falta de moralidade, tino político e patriótico dos
governos. A solução não passava pelo exagero da tributação, que resultaria
sempre numa considerável diminuição do movimento comercial, mas sim pela
economia de 3000 contos no orçamento17.
Não se julgue, porém, que o verdadeiro crescendo deste discurso contra a classe
política, os privilegiados e, em última análise, contra o monarca, era um
exclusivo da ACLL ou dos lojistas de Lisboa, apesar de aqui ser visível um tom
mais radical. O mesmo se passava na segunda cidade do país, o mesmo sentimento,
e iguais responsabilidades eram descritas numa representação que o Centro
Comercial do Porto enviou ao monarca, em maio de 1891, secundada pela ACLL que
a publicou no seu Boletim. Eram precisas severas economias nos serviços
dependentes do Estado para conseguir tirar o país da terrível crise, cuja
responsabilidade assentava em parte no descrédito do sistema parlamentar que
tinha regido os sessenta anos de liberalismo já vividos.18 No fundo, a
política e os políticos, o Estado e o seu peso, os ricos e os seus privilégios,
eram considerados como a verdadeira causa da crise vivida por esta pequena
burguesia.
Para a esconjurar era destacada a importância do movimento associativo,
considerado como decisivo para repor as condições de confiança dos agentes
económicos e da população em geral, uma vez que os governos não conseguiam
cumprir uma obrigação que era sua. A ACLL tinha em vista precisamente estes
aspetos ao referir como determinante a propaganda que tinha levado a cabo em
1891 para desvanecer a desconfiança e o terror gerados pela crise monetária,
e ao lamentar que a situação do país, resultante da instabilidade dos poderes
nestas sucessivas mutações políticas, tivesse chegado ao ponto de levar à
necessidade da intervenção directa das colectividades19.
Estas demonstravam serem necessárias, ainda, para despertar do indiferentismo
e unir a classe dos comerciantes a retalho com o objetivo de denunciar e
combater as difíceis circunstâncias em que se encontrava. Era isso que a
levava a apoiar as iniciativas e representações do Centro Comercial do Porto, a
congratular-se pela fundação de uma instituição [ ] irmã, como era a
Associação Comercial de Lojistas do Porto, criada em maio de 1892, ou a
declarar que não havia melhor oportunidade de destacar o verdadeiro papel
da associação do que quando se estava na presença de umas poucas de crises:
crise financeira, política e social20. Esta vaga de criação de associações
ligadas aos lojistas estava em sintonia, aliás, com o que se passava no resto
da Europa, no final do século XIX (Blackbourn, 1984, p. 35).
UMA ABORDAGEM COMPARATIVA AOS EFEITOS DA CRISE
A forma como os lojistas foram construindo uma certa ideia de crise, que
associava as dificuldades económicas à instabilidade e incapacidade do sistema
político monárquico, obviamente por influência de um republicanismo que se ia
afirmando, leva à elaboração de uma hipótese que pode ajudar a explicar o que
se considera ter sido um peculiar posicionamento político dos lojistas de
Lisboa, por comparação com alguns casos no estrangeiro. Tendo em conta o facto
de o número de licenças para estabelecimentos ter começado a subir após 1900 e
até 1910, parecendo significar o fim das dificuldades para o pequeno comércio,
tal poderá contrariar, em parte, o que Vasco Pulido Valente (1999, p. 52) supõe
ter sido a chave para a compreensão da súbita ressurreição do PRP depois de
1903: o facto de, entre o fim dos anos 90 e 1910, as condições económicas das
pequenas empresas ' tanto industriais, como comerciais ' [terem] sofrido uma
certa deterioração, sendo esta suposta crise a explicação para a militância
política, entre outros, dos lojistas. Ora, não só a suposição de Pulido
Valente parece assentar em pressupostos que não se verificam, pelo menos no que
às pequenas empresas comerciais diz respeito, como a cronologia fundamental
para a explicação dessa militância parece estar desfasada, devendo recuar
para meados da década de 1890.
Contudo, a noção que tendia a ver nos políticos e, em última análise, na
monarquia, a causa das dificuldades que afetavam os lojistas, não derivava
somente das condições concretas da economia ou da influência do discurso
crítico dos republicanos, mas era igualmente influenciada por um outro conjunto
de fatores, uns com pouca relevância na elaboração da perceção de crise que os
lojistas estavam a construir, outros mais determinantes nesse processo, mas
todos importantes para se perceber a ligação privilegiada que vão desenvolver,
a partir daquela altura, ao republicanismo e a diferença que essa ligação vai
representar em relação ao que pela mesma altura estava a ser a tendência de
alinhamento político entre os lojistas de vários países europeus. As próximas
páginas vão constituir uma análise sobre esses fatores, numa perspetiva
comparativa com o estrangeiro, procurando explicar que apesar de a crise
económica ser um fator comum aos lojistas lisboetas e aos seus congéneres além-
fronteiras, os efeitos produzidos foram distintos.
Pelo que foi possível apurar através de dados recolhidos no Anuário
Estatístico,o número de lojistas existentes em Lisboa em 1890 correspondia a
cerca de 13% do total do continente, valor praticamente idêntico ao de 1900 e,
muito provavelmente, ao que se registava em 1910. Este facto, associado ao
crescimento das licenças, poderia apontar, à primeira vista, para uma
superabundância de lojas na capital, de que fala Vasco Pulido Valente ao
referir a existência em Lisboa de uma camada de lojistas, pequenos
comerciantes e donos de oficinas anormalmente numerosa (Valente, 1999, pp. 46-
48). Na sua interpretação, essa superabundância estaria a provocar uma crise de
concorrência entre os lojistas, criando ou agravando uma crise económica no
seio da pequena burguesia comercial lisboeta, sendo essa a explicação para o
seu republicanismo. Ora, acontece que não só é discutível que os primeiros anos
do século XX tenham sido uma época de excesso de concorrência ou, pelo menos,
de agravamento da mesma entre o pequeno comércio, como se procurará justificar,
como é precisamente a ausência desse fenómeno que, em parte, ajuda a explicar
que os lojistas de Lisboa tenham caminhado para a esquerda do espectro
político, para uma visão progressista e radicalmente liberal da sociedade e da
política, quando a tendência geral numa parte significativa dos lojistas
europeus era precisamente a contrária.
Neste ponto, é importante introduzir uma referência à população da capital. Se
em 1890 os lojistas de Lisboa correspondiam a 13% do total do país, e serviam
cerca de 6% da população (percentagem da população portuguesa que vivia em
Lisboa), 21 anos mais tarde, continuavam a representar pouco mais de 13%, mas a
clientela subiu para quase 8% do total dos portugueses. Entre 1890 e 1911, a
população da capital cresceu de 298903 para 435359, sendo que a TCAM entre 1900
e 1911 foi de 2%, ou seja, o dobro da taxa de crescimento registada para os
lojistas, se adotarmos o número de licenças pedidas à Câmara Municipal como um
indicador do número de pequenos comerciantes.21 Apresentando as contas de outra
forma, no ano do Ultimatum cada loja contava hipoteticamente com cerca de 28
clientes, o que em parte pode até ajudar a explicar o sentimento de crise que
então se começou a viver entre o pequeno comércio da capital, como se viu, na
medida em que o número de potenciais clientes parece relativamente reduzido, em
comparação com números de outros países. Porém, o valor subiu para os 38 em
1911, altura em que, de acordo com os totais de licenças e a sua conversão para
um número aproximado de lojas, a capital contaria com 11373 estabelecimentos, o
que representou uma variação positiva de quase 36%, e terá implicado, como se
pretende destacar a seguir, um alívio da pressão económica sobre os lojistas
lisboetas.
A pergunta que se impõe a seguir a estes cálculos é se fará sentido a obtenção
destes valores médios, que mais não representam do que tendências gerais num
grupo social caracterizado, apesar de tudo, por alguma heterogeneidade (Alves,
2010a e 2010b)? A resposta é positiva, e justifica-se pela necessidade de obter
um conjunto de valores comparáveis com o que foi possível encontrar em diversos
estudos sobre a evolução quantitativa, a caracterização socioeconómica, e o
posicionamento político dos lojistas em vários países. Efetivamente, tendo em
conta o que se apurou nessa bibliografia, não só faz sentido essa estimativa,
como ela permite, pela comparação com as conclusões que são avançadas pelos
restantes estudos, formular uma hipótese explicativa sobre a influência da
crise económica ou da sua ausência no processo de republicanização da pequena
burguesia comercial de Lisboa.
Para se compreender melhor a hipótese a formular a partir da análise da
informação do quadro_1 é necessário começar por destacar uma das ideias mais
correntes na maior parte da historiografia que se tem dedicado ao estudo dos
lojistas na transição do século XIX para o século XX: a de que existiu uma
correlação entre desenvolvimento urbano e crescimento da pequena burguesia
comercial, e que tal terá levado a um aumento do número de oficinas e pequenos
comércios, inclusive, superior proporcionalmente ao crescimento demográfico
(Crossick e Haupt, 1995, pp. 6-7; Núñez Seixas, 1996, p. 24).
Pela observação do quadro verifica-se que, com exceção de Lisboa, da Inglaterra
e Gales, e do Canadá (mesmo os casos destes dois países têm de ser
contextualizados, como se verá de seguida), um pouco por todo o lado o fenómeno
era idêntico, apesar de se apresentar com ritmos diferenciados. O pequeno
comércio, aproveitando o desenvolvimento industrial e urbano de finais do
século XIX, estava a crescer mais do que a população, o que é ainda reforçado
pelo facto de no caso dos totais de lojistas, para alguns países, se estar a
lidar com dados parcelares ou estimativas. Significa isto que o estímulo do
crescimento demográfico levava, num primeiro momento, ao desenvolvimento dos
pequenos negócios, mas também quer dizer que, mantendo-se esse desenvolvimento,
mais cedo ou mais tarde, se chegava a uma situação de superabundância de
lojas, de excesso de concorrência. É a conclusão a que chegam vários trabalhos
sobre países como a Alemanha ou a Inglaterra, mas também sobre cidades como
Paris ou Milão (Blackbourn, 1977, p. 421; Winstanley, 1983, pp. 40-41; Nord
1986, pp. 198-200; Morris, 1993, pp. 132-136).
Refira-se que a comparação entre áreas urbanas e exemplos nacionais, apesar de
à primeira vista parecer desadequada, faz sentido se tivermos em linha de conta
que o ritmo de crescimento do pequeno comércio, já elevado nos países
destacados, aparentemente estava a ser ainda mais rápido nas respetivas áreas
urbanas. O caso do Canadá vale a pena ser realçado, pois, apesar de os números
em termos nacionais contrariarem a tendência geral, alguns estudos com um
enfoque mais urbano tendem a apontar para um incremento muito significativo do
número de pequenos negócios, como no caso de Toronto ou de Kingston (Benson,
1992, p. 95). Algo de semelhante pode ser afirmado para a Grã-Bretanha onde,
entre 1851 e 1911, houve um aumento geral do número de lojistas por 1000
habitantes, sendo que este crescimento foi mais notório em zonas densamente
povoadas (Phillips, 1992, p. 71). Mesmo o caso espanhol, não incluído no quadro
por falta de valores efetivos, parece estar em sintonia com o que se passava
nos restantes países, pois o crescimento urbano e o aumento do nível de vida
registados em Madrid na segunda metade do século XIX terão favorecido uma
expansão muito rápida do pequeno comércio (Núñez Seixas, 1996, p. 33).
O evoluir do fenómeno em Lisboa era claramente diferente, como se depreende da
comparação entre a capital e o resto do país, e da confrontação com os dados
dos outros países. Os lojistas lisboetas podiam até representar uma classe
anormalmente numerosa quando se chegou às vésperas da República, e podiam
estar a crescer desde o princípio do século, sendo óbvio que isso tinha
implicações no número de clientes por loja. Contudo, não só estes valores não
estavam muito afastados do que eram as médias indicadas para outros países ou
cidades, como em alguns casos chegavam mesmo a ser superiores. Em Milão, em
1901, a média era de 34 habitantes por loja e a tendência era para a descida
desses quantitativos, como se pode ver pelo índice de população/lojistas do
quadro_1. A mesma tendência estava presente na Bélgica, com 64 habitantes por
loja em 1911, mas onde a série dos lojistas não inclui todas as categorias
possíveis. Na Inglaterra, o rácio era de uma loja para cada 59 habitantes, em
1911, mas igualmente com tendência para descer. No Canadá, apesar de uma
evolução geral positiva, a região de Ontário, para a qual é possível fornecer
números mais precisos, também sofreu uma diminuição do número de pessoas por
loja. Finalmente, a tendência mais pronunciada para um aumento excessivo de
lojas é a da Alemanha que, em 1907, apresenta um valor de 30 habitantes por
loja, que podia ainda ser mais baixo em determinadas regiões, como na Saxónia,
onde em 1895 o número de habitantes por loja era de apenas 16 (Morris, 1993,
pp. 13, 26, 33 e 89; Jaumain, 1995, pp. 37-38 e 307-308; Winstanley, 1983, pp.
40-41; Phillips, 1992, p. 71; Monod, 1996, p. 26; Denecke e Shaw, 1992, pp. 83-
84).
Porém, além da observação do ponto de chegada, importa acima de tudo destacar o
caminho, ou seja, a diferença de tendências na evolução daqueles rácios, e, em
especial, a perceção ou o sentimento que dessa mesma evolução tinham certamente
os homens do pequeno comércio, pois ela é fundamental para se perceber que,
comparativamente, o indivíduo que vivia por trás do balcão em Lisboa estava em
média, nos últimos anos da monarquia, mais próspero, provavelmente mais
confiante, e menos preocupado com a concorrência do que tinha estado 10 ou 20
anos antes. É precisamente este fator que, em conjugação com a ausência de
outros perigos, vai contribuir para que o lojista de Lisboa, ao contrário dos
seus colegas europeus, estivesse na disposição de manter ou até reforçar a sua
tradicional ligação aos ideais políticos progressistas, transferindo-a agora
para os republicanos que se apresentavam cada vez mais como os seus principais
arautos. Em 1891, o seu Manifesto-Programa vai incorporar muitas das
principais reivindicações dos lojistas, senão mesmo todas as que ocupavam
relatórios, boletins e imprensa do pequeno comércio no final da década de 1880
e início da de 1890. Além do problema fiscal e da questão dos monopólios, o
programa republicano vai defender a revisão das pautas, num sentido livre-
cambista, a não concorrência do Estado com as indústrias particulares e,
fundamentalmente, a liberdade de trabalho e indústria e a regulamentação do
inquilinato, duas áreas fundamentais e transversais no discurso dos homens que
trabalhavam atrás do balcão (Alves, 2012, pp. 226-227 e 301-302).
No estrangeiro, a evolução traçada estava a criar desequilíbrios no seio do
pequeno comércio, aumentando o sentimento de insegurança e instabilidade, ao
mesmo tempo que contribuía para um despertar da consciência política entre os
lojistas. É o que se nota na Alemanha, onde o agravamento da concorrência terá
sido responsável pela exigência de medidas reguladoras da atividade económica a
partir de 1890. O mesmo parece ter acontecido com os lojistas ingleses, apesar
de tudo menos propensos a olhar para o Estado como uma entidade salvadora ou
reguladora. Em Paris, a crise originada, entre outros fatores, por uma
superlotação de lojas gerou igualmente um sentimento de amargura e
frustração, que levou à mobilização política e associativa dos lojistas. Na
Bélgica, apesar de uma desconfiança inata em relação ao Estado, os lojistas em
estado de choque, pressionados pela excessiva concorrência, começaram a
reclamar uma intervenção direta e maior regulamentação. No fundo, um aumento do
número de estabelecimentos, se à partida poderia ser encarado como um reflexo
de uma maior prosperidade, tinha como resultado final a diminuição do
rendimento médio, o aumento da precariedade e um sentimento de inquietude
entre os lojistas (Denecke e Shaw, 1992, p. 86; Winstanley, 1983, pp. 80 e 90-
92; Nord, 1986, pp. 200-204; Jaumain 1995, pp. 39 e 65).
Neste quadro de recessão, os lojistas no estrangeiro viravam-se contra aqueles
que consideravam ser os fatores responsáveis pela sua crise interna: os novos
métodos de distribuição, as cooperativas de consumo, e as grandes lojas de
venda a retalho. Mesmo que em alguns casos esses não fossem efetivamente os
fatores mais importantes, como procurou demonstrar Philip Nord em relação a
Paris e aos grandes armazéns, o certo é que a evolução destes novos fenómenos
do comércio de retalho estava a ser muito rápida, acabando por funcionar como
bodes expiatórios para as debilidades do pequeno comerciante (Nord, 1986,
pp. 60-82 e 99; Crossick e Jaumain, 1999, pp. 3-9). Em Milão, a tónica das
críticas dos lojistas não se centrava tanto nos grandes armazéns, mas mais nas
cooperativas de consumo, estas sim funcionando como scapegoat[s] for the
depression (Morris, 1993, p. 154). No caso alemão, o ataque dos lojistas aos
grandes armazéns e às cooperativas de consumo mais não era do que uma
escapatória que negligenciava o verdadeiro problema, a existência de apenas uma
minoria de lojistas verdadeiramente independentes (Blackbourn, 1977, p. 422).
Um pouco por todo o lado, os lojistas eram vistos como vítimas da competição
em larga escala levada a cabo pelas cadeias comerciais e pelos grandes
armazéns (Shaw, 1992a, p. 178; Blackbourn, 1984, p. 41). Estas duas novas
formas de concorrência comercial começaram a expandir-se a partir de 1860 em
França e desde 1865-1870 nas grandes cidades inglesas e alemãs. Ao mesmo tempo,
deu-se a expansão de novos métodos de venda e a criação de cooperativas de
consumo um pouco por toda a Europa industrializada, com início também em 1860,
mas com a sua época de maior desenvolvimento a começar em 1880 (Núñez Seixas,
1996, p. 26; Monod, 1996, p. 116; Jefferys, 1954, pp. 1-39; Shaw, 1992b, pp.
140, 153 e 155; Scott, 1997, pp. 5-8; Shaw 1992a, pp. 167-169 e 173).
O que se passava em Portugal? O principal a destacar é que não só a cronologia
de criação e expansão dos grandes armazéns é mais tardia em Portugal, como o
fenómeno das cooperativas de consumo não assumiu a mesma importância. Outro
aspeto diferenciado em relação ao resto da Europa diz respeito à ausência de
preocupação dos lojistas no que concerne os novos métodos de venda. Sobre este
aspeto, apesar da falta de monografias que permitam ter uma ideia mais clara
acerca da sua evolução em Portugal, no final do século XIX, pela análise de 40
anos de atas de reuniões, tanto de direção, como das assembleias-gerais, de
outros tantos relatórios anuais, e de 15 anos de boletins da ACLL, assim como
da leitura dos jornais, mesmo os exclusivamente dedicados aos lojistas, é
possível afirmar que estes problemas nunca foram vistos como verdadeiras
ameaças pelo pequeno comércio de Lisboa na fase final da monarquia.
A questão das monstershops, na versão inglesa, esteve mesmo praticamente
ausente das publicações oficiais da ACLL até março de 1907, altura em que o
Boletim publicou um artigo sobre os Grandes Armazéns do Chiado. Mesmo aqui, a
tónica não era a da ameaça, bem pelo contrário, era de profundo elogio aos
tenacíssimos esforços dos Srs. Nunes dos Santos & C.ª, nossos antigos e
benquistos associados. Esse grandioso estabelecimento era, inclusive, bem-
vindo numa lógica de enriquecimento da capital, e por isso merecia uma
referência de louvor no órgão oficial da Associação dos Lojistas. O mesmo
aliás acontecia com Francisco Grandella e com as novas instalações dos Grandes
Armazéns Grandella, inauguradas a 7 de abril do mesmo ano. Uma notável
iniciativa, assim era descrito o novo estabelecimento deste negociante
inteligente, probo e dotado de uma rara actividade23.
Para além disso, é necessário contextualizar um pouco o que representavam os
grandes armazéns em Lisboa. As listas das indústrias colectadas no Anuário
Estatístico referem estabelecimentos em grande de venda a retalho, categoria
que sofreu uma quebra na década de 1890, passando de 33 para 26 em 1900.
Exemplo desta crise, que parece não ter poupado nem as grandes lojas ao estilo
do Printempsde Paris, era o facto de a Companhia dos Grandes Armazéns do
Chiado, criada em 1894, ter sido forçada a interromper a sua atividade em 1897,
em boa medida por causa da concorrência do próprio Grandella (Serra, 2000, p.
18). Apesar da recuperação posterior, no início da República essas lojas não
representavam mais do que 0,6% do total.24 Contudo, o facto de merecerem
rasgados elogios do Boletim da ACLL e serem vistas com orgulho [pel]os que
lamentavam a tardia modernização de Lisboa, atesta efetivamente que eram uma
novidade e estavam, provavelmente, muito acima do que era o típico grande
estabelecimento de venda a retalho, ou seja, constituíam uma exceção ao que
seria o panorama dos pequenos grandes armazéns de Lisboa.
Compare-se ainda o número de empregados dos Grandes Armazéns Grandella, mais
de 500 empregados efectivos, cerca de 1913, com os quase 7000 que em 1907
trabalhavam no BonMarché de Paris (Serra, 2000, p. 36; Miller, 1994, p. 46).
Como medida de comparação, ainda que rudimentar, observe-se que a população de
Paris em 1911 equivalia a cerca de 7 vezes a de Lisboa, no mesmo ano, mas que o
tamanho de um dos seus mais emblemáticos armazéns, medido apenas pelo número de
empregados, superava em 14 vezes o do seu congénere lisboeta. Refira-se, por
fim, que dos três armazéns efetivamente grandes existentes em Lisboa no final
da monarquia, o do Chiado, o Grandella e o Ramiro Leão, todos, sem exceção,
apareciam nas listas de sócios da Associação dos Lojistas, que incluía ainda
donos de outras lojas designadas como Grandes Armazéns.
Igualmente longe do centro das preocupações associativas, a questão das
cooperativas de consumo surgiu nos registos da ACLL apenas em atos isolados. Em
1892, em plena crise, o assunto foi abordado em assembleia-geral por Sebastião
Correia Saraiva Lima, republicano e membro dos corpos gerentes da Associação,
referindo-o como de vida ou morte, mas apresentando-o como um perigo
futuro, ao qual a ACLL deveria prestar mais atenção, pois se a situação ainda
não era grave, podia amanhã tornar-se perigosa. Porém, a questão não parecia
ser ainda muito relevante, como tinha acabado por admitir não só Saraiva Lima
em discurso direto, mas também a própria Associação de forma indireta, pois
durante o ano de 1892 nunca as atas das reuniões da direção se referem ao
assunto, e o mesmo é totalmente ignorado no relatório anual da gerência.25
Uma intuição semelhante, aliás, tinha Magalhães Lima, um propagador das
vantagens das cooperativas. Em janeiro de 1894 decorreu o congresso das
cooperativas com a representação de vinte e seis delegações e o apoio
explícito do jornalista republicano. Apesar disso, como reconhecia, o seu
crescimento era incipiente e em 1892 existiriam apenas trinta cooperativas
civis (seis de produção e vinte e quatro de consumo e crédito) (Garnel, 2004,
p. 71)26. Os números da adesão a este congresso remetem precisamente para a
mesma ideia: estas sociedades, que eram encaradas pelos lojistas europeus como
ameaças à sua sobrevivência, não representavam motivos de preocupação para os
lojistas de Lisboa, mais desassossegados com o aumento da contribuição
industrial, que acabou por gerar um conflito grave com o governo Regenerador e
levar à dissolução da ACLL, em conjunto com a Associação Comercial e a
Associação Industrial.27
Independentemente de o seu número ser ou não uma real ameaça para os mais de
10000 lojistas que povoavam as ruas de Lisboa por volta do ano de 1893, o certo
é que a sua existência era geradora de um sentimento de injustiça e
desigualdade nos pequenos comerciantes independentes, essencialmente fruto das
suas isenções fiscais e não pela concorrência real que representariam. O
Lojista foca precisamente esse ponto, e aos sócios da ACLL não passou
certamente despercebido o facto de, na nova postura municipal sobre as licenças
para estabelecimentos, elaborada em 1886, se definir uma isenção do pagamento
de licença precisamente para as cooperativas de consumo que só vendam aos
seus associados28.
A reforçar a ideia de que o combate às cooperativas de consumo passava mais por
um sentimento de injustiça fiscal e de concorrência desleal do que por um real
perigo económico, atente-se nas palavras de Pinheiro de Melo, presidente da
mesa da assembleia-geral, em agosto de 1893, ao afirmar que como sociedades
livres e perfeitamente estranhas à protecção do Estado, o comércio não as
combaterá, embora possa encontrar nelas um terrível inimigo. No fundo, os
lojistas, certamente convencidos que a sua concorrência não era desmedida,
consideravam desnecessário levar a luta contra as cooperativas para além dos
limites da legalidade. Neste sentido, será interessante frisar que a única
referência direta a este tipo de preocupação registada nas atas da direção
surge apenas em setembro de 1903, sem que o assunto tenha merecido qualquer
desenvolvimento, e não voltando a ocupar os trabalhos da direção até ao final
da monarquia.29
CONCLUSÃO
É importante destacar a pouca relevância que as cooperativas e os grandes
armazéns estavam a ter no discurso dos lojistas lisboetas, e conjugar esse
fator com a evolução positiva do pequeno comércio da capital, pois entre os
lojistas estrangeiros eram precisamente aqueles elementos que estavam a gerar
uma forte instabilidade, eram eles os principais catalisadores da sua
mobilização associativa e, em última análise, constituíam um tipo de
ressentimento que parecia grandemente responsável por uma tendência quase
geral: o facto de os lojistas passarem do radicalismo liberal-democrático de
1848 ao conservadorismo social em 1914 (Núñez Seixas, 1996, p. 28).
Em Paris, a principal associação ligada ao pequeno comércio fez da luta aos
grandes armazéns o seu cavalo de batalha mais forte. Apesar de esse combate e
da mobilização por ele gerada terem sido, durante muito tempo, enquadrados
pelos políticos da esquerda progressista, o certo é que na viragem do século a
solicitude dos movimentos de direita conservadora em procurar resolver alguns
dos focos de ansiedade dos lojistas, nomeadamente a questão fiscal relativa
aos grandes armazéns, levou a que passassem a contar com o apoio dos homens do
pequeno comércio parisiense (Gaillard, 1983, pp. 63-64; Nord, 1986, pp. 266-275
e 465-477; Mazgaj, 1987, pp. 311-314). Na Alemanha, foi também a crise,
atribuída aos mesmos fatores, que acabou por mobilizar os lojistas,
encaminhando-os para a direita à medida que as forças conservadoras e
católicas, em maioria no parlamento nas duas últimas décadas do século,
impuseram um conjunto de medidas que supostamente os beneficiava, como
restrições ao comércio ambulante e às cooperativas de consumo, e um regime
fiscal diferenciado para os grandes armazéns, o alvo preferido dos
comerciantes de retalho (Winkler, 1976, p. 2; Blackbourn, 1977, pp. 425-426 e
432-433; Blackbourn, 1984; Blackbourn, 1991, p. 29). Na Bélgica, o percurso e
os atores foram semelhantes, com o Partido Católico a patrocinar, inclusive, a
criação e o desenvolvimento das associações de pequenos comerciantes, entre
outras medidas concebidas para ajudar os lojistas (Jaumain e Gaiardo, 1988,
pp. 442-456; Jaumain, 1995, pp. 99-159). Nestes países, a crise e o
ressentimento dos lojistas, gerados pela superabundância de estabelecimentos,
tendiam a ser atribuídos pelos próprios às inovações da distribuição comercial,
nomeadamente às cooperativas de consumo e aos grandes armazéns, encaminhando-os
para posições políticas conservadoras (Haupt, 1993, p. 318).
Neste ponto, cabe destacar o caso espanhol, em que a pequena burguesia tinha,
aparentemente, um nível de ansiedade ou ressentimento menor relativamente a
outros países, em grande medida fruto de uma mais fraca industrialização e
concentração empresarial, do tardio e limitado desenvolvimento dos grandes
armazéns e das cooperativas de consumo e de um também mais tardio
desenvolvimento do movimento operário, que só terá efetivamente arrancado nos
primeiros anos do século XX. Se isto justificou, para o caso espanhol, uma
bipolarização da pequena burguesia, com uma parte, no final do século XIX, a
seguir opções políticas progressistas, e outra uma via mais conservadora (Núñez
Seixas, 1996, pp. 31-32), é perfeitamente aceitável pensar-se que no caso
português, em que aqueles fatores sofreram um desenvolvimento ainda mais lento
e débil, eles não terão constituído elementos perturbadores do natural
radicalismo pequeno-burguês, levando deste modo os lojistas de Lisboa a uma
colagem aos republicanos, depois de terem passado primeiro pelo reformismo, e
mais tarde pelo apoio ao Partido Progressista.
Além disso, apesar de Lisboa estar a sofrer alguma industrialização, no final
do século XIX e na primeira década do século XX, tal não foi certamente
suficiente para levar os lojistas da capital a sonhar com um regresso aos
valores do passado, para contrariar as forças da modernização. A crise do
pequeno comércio de Lisboa ocorreu na década de 1890, mas na década seguinte os
seus efeitos estavam já a ser ultrapassados e os lojistas pareciam estar a
viver uma tendência de melhoria das suas condições, contrariamente aos seus
pares um pouco por toda a Europa.
A este percurso económico inverso, correspondeu um movimento político
diferente. A última década do século parece ter representado um salutar
corretivo ou a sobrevivência dos mais aptos, mas representou também ' (i)
pela relativa melhoria das condições económicas, (ii) pela ausência de um
conjunto de fatores concorrenciais ou potencialmente ameaçadores para a
sobrevivência do pequeno comércio, (iii) pela falta de resposta das forças
políticas mais conservadoras aos problemas que verdadeiramente preocupavam os
lojistas, os impostos e o inquilinato, (iv) pela atratividade do discurso
republicano e, por fim, (v) pelo ainda diminuto significado da questão social
no final da monarquia ' uma época de reforço da sua identidade, da sua noção de
independência e do seu radicalismo, apontado não contra os grandes armazéns, as
cooperativas de consumo, o socialismo, ou os judeus, que constituíam os escapes
da maioria dos lojistas europeus, mas sim contra o Estado, por causa dos
impostos e dos desperdícios, contra os políticos monárquicos, por causa dos
escândalos e dos direitos cívicos coarctados, e contra os ricos e
privilegiados, por causa das dificuldades em garantir estabilidade no negócio
ou um direito de propriedade que levasse em conta aquele que era o principal
aspeto realçado na construção ideológica do que era ser um lojista, o seu
trabalho, o seu esforço.
O sentimento de crise, real ou percecionada, dos lojistas passava precisamente
por estes últimos aspetos, determinantes na modulação de uma postura
definitivamente radical face à sociedade e à política. Com o tempo, essa
atitude de contestação aos governos e aos políticos haveria de evoluir para uma
contestação ao regime político, neste caso já devidamente enquadrada por uma
propaganda republicana cada vez mais apelativa e coerente para um conjunto de
indivíduos que moldavam o seu sentimento de pertença a um grupo ou classe, não
só por uma experiência de vida e negócio comuns, mas essencialmente pela imagem
do cidadão contribuinte, do indivíduo honrado e trabalhador que, pelo seu papel
de intermediário na sociedade, por um lado, e de contribuinte líquido para o
Estado, por outro, tinha todo o direito e mesmo o dever de intervir
politicamente nessa mesma sociedade e junto dos representantes desse Estado.
A crise dos anos 90 não matou o merceeiro lisboeta ' como era vaticinado em
18 de agosto de 1902 pelo TheTimes a propósito do grocer inglês. Constituiu
antes um momento de renovação do pequeno comércio que, depois da tempestade
da última década do século XIX, terá aproveitado a bonança de um crescimento
demográfico espetacular. Os lojistas eram mais, é certo, mas a concorrência não
era vista como um mal, pois a cada um cabia agora uma fatia maior do bolo, numa
tendência oposta ao que acontecia um pouco por todo o lado, onde a pequena
burguesia comercial via diminuir de dia para dia a quota de mercado disponível.
É nestas diferentes visões sobre a evolução do mercado de consumo e as ameaças
que essa dinâmica perspetivava, entre um futuro que parecia estar a melhorar, e
outro onde a luz ao fundo do túnel parecia ficar cada vez mais ténue, que se
pode encontrar uma das justificações para a manutenção de uma ideia
progressista da sociedade e da política que ajudou a impulsionar os lojistas de
Lisboa para o republicanismo. Não era tanto a suposta crise económica que os
assustava e criava ressentimento, nem uma improvável revolução vinda de baixo
que lhes metia medo, num país onde o anarquismo, o socialismo e a classe
operária tinham, no final da monarquia, e por comparação com o estrangeiro, um
fraco desenvolvimento; o que efetivamente os preocupava e encaminhava para um
maior radicalismo era o facto de, social e politicamente, a monarquia não lhes
permitir evoluir, nem lhes deixar margem para uma intervenção política que
fosse o espelho efetivo do seu papel social, real ou idealizado.