A plenitude tecnológica em questão: Hermínio Martins e o Experimentum Humanum:
Civilização Tecnológica e Condição Humana
A plenitude tecnológica em questão. Hermínio Martins e oExperimentum Humanum:
Civilização Tecnológica e Condição Humana.
José Luís Garcia*
*ICS, Universidade de Lisboa. E-mail: jlgarcia@ics.ul.pt
ExperimentumHumanum: Civilização Tecnológica e Condição Humana1 de Hermínio
Martins é uma obra composta por 9 capítulos e 444 páginas dedicada a temas de
filosofia e sociologia da tecnologia e à compreensão dos difíceis problemas
gerados por alguns dos mais recentes resultados da potencialidade tecnológica e
industrial. Porque é que o universo científico-tecnológico se tornou, nas
últimas gerações, objeto sistemático de reflexão académica, análise sociológica
e ' devemo-lo constatar de forma desapaixonada ' de ansiedade social e, mais
ainda, de crítica? O que é que aconteceu para que a perceção moderna que tendia
a ver a ciência e a tecnologia como resposta para os nossos problemas tenha
vindo a mudar para uma outra, em que surge também como fonte de riscos,
incertezas e dilemas perante os quais é incapaz de dar todas as soluções? Como
ilustra talvez o caso das responsabilidades do mundo científico-tecnológico na
crise ambiental, mas também a possibilidade de vir a ser parte da solução se
sujeito a uma reorientação, não existem respostas fáceis a estas questões. Para
quem queira fazer um esforço em ordem a não permanecer dogmaticamente fechado
nas suas antigas convicções, encontra neste livro de Hermínio Martins
perspetivas amplamente fundamentadas em termos históricos e filosóficos,
observações sociológicas claras, argumentos desenvolvidos e respostas possíveis
(certamente geradoras de novas interrogações).
Entre os fatores de relevo que permitiram tornar o universo tecnológico num
âmbito de pensamento e investigação específicos podem ser indicados quer a
tendência moderna, inexistente nas sociedades tradicionais, para agrupar sob a
noção de tecnologia um conjunto diverso de artes, ofícios e meios, quer o
reconhecimento de um nexo entre mudança tecnológica e transformação da
sociedade. Mas foi o surgimento de uma visão cética sobre o suposto carácter
intrinsecamente benéfico ou indicador de progresso de toda a novidade
tecnológica que permitiu abrir perspetivas que romperam com a imagem redutora
da tecnologia como conjunto de simples ferramentas ou artefactos que podem ser
usados, para nossa liberdade, ao serviço de qualquer objetivo, e que não nos
produz mudanças. No domínio lato do universo da ciência e da tecnologia, as
décadas de 1960 e 1970 observaram também um acontecimento que talvez só agora
sejamos capazes de compreender satisfatoriamente: o estado de urgência em
repensar as opções da sociedade face à fusão que, após a II Guerra Mundial e no
quadro da Guerra Fria, estava a ocorrer entre a ciência, a tecnologia e o
poder. A reflexão provocada pelos desenvolvimentos tecnológicos ligados à
guerra, em particular o projeto Manhattan de construção da bomba atómica nos
EUA, o conhecimento das práticas de experimentação humana levadas a cabo por
setores da medicina durante o regime nazi e a publicação do livro da bióloga
Rachel Carson, SilentSpring, onde eram discutidos os riscos associados a
inseticidas como o DDT, abalaram irremediavelmente a conceção da simples
neutralidade valorativa da tecnologia e da própria ciência.
A superação das visões redutoras da ciência e da tecnologia possibilitou o
desenvolvimento de reflexões e análises críticas que não descurassem as
conexões das tecnologias com as intenções e os interesses ideológicos, sociais,
económicos, políticos ou profissionais dos que as produzem, implementam,
financiam e controlam. Para apresentar um exemplo muito atual, as centrais
nucleares ou as energias renováveis, tendem a articular-se com valores e
interesses muito diferentes na esfera ambiental. Que responsabilidade se
poderia atribuir aos produtores de tecnologias, aos cientistas, aos técnicos,
se as tecnologias fossem consideradas totalmente neutrais e tudo dependesse
apenas do seu bom ou mau uso? A ciência, a tecnologia e a inovação são hoje
realidades claramente relacionadas e ainda resultado de orientações de política
científica e económica. Não deverão ser submetidas à avaliação das suas
consequências, possíveis ou efetivas? Principalmente na segunda metade do
século XX, vários autores embrenharam-se na discussão sobre o significado da
ciência e da tecnologia moderna para o homem contemporâneo e as possíveis
implicações do projeto de domínio tecnológico, tendo publicado obras hoje de
referência: Herbert Marcuse, Lewis Mumford, Hans Jonas, Günther Anders, Ivan
Illich ou Jacques Ellul, apenas para citar alguns dos mais notáveis. Os ensaios
que integram ExperimentumHumanum: Civilização Tecnológica e Condição Humana
filiam-se neste tipo de interrogações e linhagem de pensamento.
Hermínio Martins interessa-se pelos problemas da filosofia da ciência, como
escreve no prefácio do seu livro, desde o período em que foi estudante na
década de 1950 de Karl Popper na cadeira de Lógica e Método Científico da
London School of Economics (LSE). Popper, como se sabe, procurou renovar o
pensamento filosófico da ciência que vinha da corrente do empirismo lógico e do
pensamento austríaco. Martins assume também a importância que teve para si,
quando era já docente na Universidade de Leeds, os trabalhos sobre história da
ciência desta universidade. A sua participação nos seminários de Imre Lakatos
na LSE é igualmente mencionada como uma importante influência. Na década de
1960, a filosofia da ciência é atravessada pela discussão em torno do célebre
livro de Thomas Kuhn, TheStructure of Scientific Revolutions, que envolveu
Michael Polanyi, N.R. Hanson, Paul Feyerabend e os já referidos Popper e
Lakatos.Em 1972, Hermínio Martins, a partir da sociologia, intervém neste
debate com o ensaio The Kuhnian revolution' and its implications for
sociology, ao que sabemos o primeiro texto sobre as teses de Kuhn publicado
por um sociólogo em língua inglesa (e no mundo lusófono). Neste texto, Martins
constatava a separação entre a sociologia do conhecimento, focalizada nos
conteúdos do conhecimento, e a sociologia da ciência filiada em Merton, que os
negligenciava, em ordem à defesa de uma sociologia do conhecimento científico
assente numa reflexão sobre as relações entre sociologia e epistemologia.
Os nove ensaios de ExperimentumHumanum: Civilização Tecnológica e Condição
Humana são parte do trabalho (porque o autor tem ainda diversos textos quer
publicados, quer não publicados, sobre a questão da tecnologia) que Hermínio
Martins realizou em cerca de duas décadas devotadas à investigação sobre a
atual civilização tecnológica. Todos os textos tinham sido anteriormente
editados em publicações académicas, sendo o ensaio mais antigo, Hegel, Texas:
Temas de filosofia e sociologia da técnica, em versão inglesa, datado de 1993,
e o mais recente, Biologia e política: Eugenismos de ontem e de hoje, de
2008. As versões constantes do livro sofreram alterações, atualizações e
sobretudo extensas ampliações que as enriqueceram significativamente. Mas é
possível ver este volume como muito mais do que uma coleção de ensaios. Apesar
de os textos terem a sua própria coerência, e ainda que Martins não se
apresente com um sistema de ideias fechado, o conjunto perfaz uma obra habitada
por perspetivas que estão bem evidenciadas e se entrelaçam com harmonia. Três
breves asserções permitem sintetizar, através de palavras que não são as do
autor da obra, a perspetiva central exaustivamente trabalhada em
ExperimentumHumanum:o mundo contemporâneo tem vindo a construir uma tecnoesfera
que envolve, implementa, constrange e em certos casos tem capacidade de
determinar âmbitos crescentes da ação humana e das realidades extra-humanas; os
desenvolvimentos tecnológicos são, portanto, um problema decisivo no mundo de
hoje e invocam reflexão, análise e avaliação; um juízo global de carácter
racional sobre o rumo e as aspirações dos desenvolvimentos tecnológicos só pode
ser crítico.
Na parte I desta obra, intitulada Pensar a técnica: Questões preliminares
deparamo-nos com quatro ensaios, de natureza sobretudo teórica e filosófica,
que são um contributo inventivo para a compreensão dos pressupostos culturais
em que assentam os alicerces do atual poder tecnológico. Dois desses textos
(Hegel, Texas: Temas de filosofia e sociologia da técnica e Tecnologia,
modernidade e política) integravam o livro de Herminio Martins, publicado em
1996, cujo título retomava parte do mote do primeiro desses escritos ' Hegel,
Texas e Outros Ensaios de Teoria Social. A coerência desta parte da obra é-nos
dada pela caracterização realizada por Martins ao que considera serem as duas
grandes imagens que enformam o projeto ocidental moderno de domínio da
natureza: a prometeica e a fáustica. Na visão prometeica, que se pode encontrar
em alguns dos socialistas utópicos e positivistas franceses dos finais do
século XVIII e do século XIX, o domínio tecnológico da natureza tende a
aparecer subordinado ao bem humano, à emancipação da espécie no seu conjunto, e
a ser finito. Na visão fáustica, que é possível descobrir na tradição alemã de
Oswald Spengler, Ernst Jünger e Martin Heidegger, o domínio tecnológico da
natureza carece de qualquer justificação humana que não seja a própria
expressão do poder tecnológico, e consequentemente não tem qualquer limite, é
infinitista. No entanto, estas diferentes imagens da tecnologia podem observar
combinações subtis e entre estas Martins situa a versão de esquerda da visão
fáustica da tecnologia dos principais mentores da Escola de Frankfurt (Adorno e
Horkheimer).
O desenvolvimento das biotecnologias ou da engenharia biológica contemporânea é
o exemplo mais trabalhado por Martins neste seu livro no que diz respeito à
inflexão fáustica da tecnologia desde a segunda metade do século XX. Mas talvez
ainda mais importante seja a invocação, feita pelo autor, da articulação entre
a ideia fáustica do domínio tecnológico da natureza com a lógica do
capitalismo. Para tal, Martins lembra a ideia defendida por Scheler segundo a
qual existe uma afinidade eletiva entre a tecnologia fáustica ' o impulso para
a apropriação ilimitada da natureza ' e o capitalismo ' o impulso para a
acumulação ilimitada de capital. As biotecnologias associadas aos projetos de
engenharia biológica dos seres humanos seriam manifestações de uma nova época
histórica da tecnologia em que o mundo orgânico está acessível a todo o tipo de
intervenções, sob o ímpeto de empreendimentos experimentalistas e/ou mercantis
de melhoramento humano e criação de novas espécies. Contudo, no seu esforço de
compreensão da constelação de elementos que têm vindo a conformar o mundo
tecnológico contemporâneo, Martins não se detém nas relações entre a tecnologia
e a economia (capitalista), indagando também os elementos simbólico-
ideológicos, culturais. Nesta sequência recorre ao conceito de gnosticismo
tecnológico de Victor Ferkiss para colocar a hipótese de que o novo período
histórico que estamos a viver se encontra afetado pelo síndroma da tentativa de
ultrapassar os parâmetros básicos da condição humana ' a sua finitude,
contingência, mortalidade, corporalidade, animalidade, e limitação existencial
' como móbil e uma das legitimações de setores da tecnociência contemporânea.
E no princípio de Vico, segundo o qual só compreendemos plenamente o que
fazemos ou realizamos, Martins encontra o mito que atua no ímpeto demiúrgico de
muitos empreendimentos tecnocientíficos. A interconvertibilidade entre o
verdadeiro, por um lado, e o feito ou produzido, por outro, implica o
pressuposto de que não podemos compreender, não podemos ter conhecimento válido
do que não podemos produzir, refazer ou criar. Muito recentemente, o físico e
Nobel Richard Feynman fez eco desta razão viquiana ou técnica quando afirmou:
I can only understand what I can build (frase, aliás, lembrada por Martins na
epígrafe do capítulo III).
Nas partes II e III de ExperimentumHumanum: Civilização Tecnológica e Condição
Humana, respetivamente intituladas Do trágico tecnológico e Passagem para o
pós-humano, encontramos um tratamento conceptual e analítico, de cunho
sobretudo histórico e sociológico, das encruzilhadas que estamos a viver num
contexto dinamizado nas últimas quatro décadas pela globalização, emergência de
novas áreas tecnocientíficas (tecnologias da informação, biotecnologias,
nanotecnologias ) e aceleração tecno-económica.Os ensaios destas duas secções
do livroestão atravessados pela tese do contraste agudo entre, por um lado, a
potencialidade tecnológica que é exercida sobre a natureza, a condição humana e
as sociedades e, por outro, a dificuldade de compreender o que estamos a fazer
e a antecipação das suas consequências. Trata-se de uma ideia que Martins
claramente partilha com autores como Hannah Arendt, Günther Anders e, na
atualidade, Jean-Pierre Dupuy. Martins expõe como, no mundo contemporâneo,
através das nossas ações mais banais, que são hoje implementadas ou sujeitas
aos condicionamentos dos mais diversos meios e sistemas tecnológicos, ou
através da tomada também banal de decisões por parte das elites do poder
(políticas, económicas, financeiras, científicas, tecnológicas), se joga todos
os dias a exploração e destruição sem limites da natureza; o aumento dos
cenários de catástrofe ecológica, das incertezas radicais e das formas de
vulnerabilidade; as escolhas trágicas derivadas das potencialidades das
engenharias biológicas; a precarização e instabilidade permanente dos sistemas
de profissões, das éticas profissionais, dos modos de vida, e do universo
académico por via das dinâmicas favoráveis à plenitude tecnológica e da
tendência atual para um quase monismo ou totalismo de mercado.
Os estudos sobre ciência e tecnologia conseguiram tornar-se um campo
suficientemente delimitado e vigoroso. Fazem parte dele diversos estilos de
investigação, subdisciplinas e áreas que, sem pretensão de sermos exaustivos,
aparecem geralmente sob as designações de filosofia da tecnologia,
sociologia da tecnologia e, num âmbito mais marcado pela
interdisciplinaridade, estudos sociais da ciência e da tecnologia ou
ciência, tecnologia e sociedade. Neste universo, encontra-se uma grande
variedade de contributos de historiadores da tecnologia, filósofos, sociólogos,
estudiosos da comunicação e de outras ciências sociais que abrangem também uma
ampla diversidade de tópicos: estudos históricos da cultura tecnológica;
reflexão conceptual e epistemológica sobre a definição de tecnologia e a sua
relação com a ciência; análises sobre as implicações e problemas políticos da
tecnologia moderna; estudos sobre os riscos e incertezas associados à relação
das tecnologias com a natureza; questões éticas ligadas aos limites ao
crescimento tecnológico em função dos valores humanos que se desejam preservar
e se consideram ameaçados por aquele; análises à inter-relação da tecnologia
com a economia ExperimentumHumanum: Civilização Tecnológica e Condição Humana
representa um trabalho incessante para pensar os problemas da plenitude
tecnológica e que nos coloca diante das consequências plausíveis se se
realizarem os possíveis tecnológicos. Esta obra pode também ser lida em chave
cívica: os problemas da sociedade e do mundo contemporâneo estão intensamente
ligados às opções da política científica e tecnológica. Hermínio Martins
designa o seu trabalho por sociologia filosófica da tecnologia, mas o seu
pensamento oferece-nos contribuições valiosas para a meditação sobre a condição
humana da nossa época, para uma teoria sociológica da ação social a partir das
noções de risco e incerteza, entre muitas outras. No cosmos da língua
portuguesa, ExperimentumHumanum: Civilização Tecnológica e Condição Humana pode
ser considerado o primeiro tratado crítico sobre a tecnologia contemporânea.
Martins não delineia cenários sombrios para nos assustar, mas para nos tornar
mais responsáveis na afirmação da nossa liberdade. É uma obra de grande
significado para uma corrente de estudos que, no Brasil e em Portugal, conta
já com publicações académicas de referência ' é o caso da Revista
ScientiaStudia ' e livros e ensaios publicados e escritos em português por
autores das principais universidades e centros de investigação nestes países.
Notas
1
ExperimentumHumanum: Civilização Tecnológica e Condição Humana, Lisboa,
Relógio D'Água Editores, 2011.