Hermínio Martins, pensador da crise contemporânea
Hermínio Martins, pensador da crise contemporânea1
Viriato Soromenho-Marques*
*Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa. E-mail:
viriatosmarques@netcabo.pt
Arecente publicação da obra de Hermínio Martins, ExperimentumHumanum. Condição
Tecnológica e Condição Humana (Relógio D'Água, 2011), é um acontecimento
literário cujo significado suscita um breve comentário, que contribua para
enquadrar num horizonte mais vasto essa obra de inegável importância. As
reflexões que se seguem são encorajadas pela constatação de que estamos a falar
de um grande pensador português, ainda insuficientemente conhecido do grande
público, e mesmo ainda muito distante da familiaridade desejável por parte dos
meios académicos nacionais.
DO IMPÉRIO PARA O EXÍLIO NO MUNDO MAIS VASTO
Atrevo-me a um reparo de natureza pessoal, pois parece-me poder contribuir para
iluminar o significado do autor e do livro em apreço. Deparei-me com a obra de
Hermínio Martins apenas na década de 90. Tive ensejo de falar, quase por acaso,
com o filósofo Fernando Gil, sobre a grande impressão que o contacto com essa
obra me causara. Para minha surpresa, ele disse-me que só se havia dedicado à
Filosofia pela forte influência provocada na sua juventude por um colega
liceal, três anos mais velho: Hermínio Martins! Com efeito, ambos pertenceram a
uma brilhante geração de intelectuais nascidos em Moçambique (Martins, nasceu
em 1934, Gil, em 1937) que se destacaria, desde tenra idade, pelas atividades
culturais associativas, numa altura em que estas poderiam ser consideradas como
uma ameaça à segurança do Estado Novo. Foi, aliás, a intervenção repressiva da
polícia política contra jovens que apenas pretendiam aumentar a sua formação
cultural, que levaria Hermínio Martins, ainda na década de 50, a enveredar pelo
exílio, tornando-se num estrangeirado do nosso tempo.
Não só a sua formação académica, como depois o seu trabalho enquanto professor
e investigador se efetuaram numa atmosfera dominada pela língua inglesa, e pela
diversidade das tonalidades da cultura anglo-saxónica. O seu percurso passou
pelas Universidades de Leeds e de Essex, ambas no Reino Unido, Lecionou também
nos EUA, nas Universidades da Pensilvânia e de Harvard. Mas o essencial do seu
labor universitário decorreu, entre 1971 e 2001, no St. Anthony's College, da
Universidade de Oxford. Em Portugal, a sua atividade centrou-se no Instituto de
Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa.
UM SOCIÓLOGO DE MATRIZ FILOSÓFICA
O livro que agora chega ao leitor português reúne nove escritos de Hermínio
Martins produzidos ao longo de quase duas décadas. Alguns deles foram escritos
e publicados originalmente em língua inglesa. Todos eles foram objeto de
revisão e atualização por parte do seu autor. À semelhança de Hegel, Texas e
Outros Ensaios de Teoria Social (Lisboa, Século XXI, 1996), a obra antológica,
que lançou o nome de Martins como notável pensador junto do público português,
este novo livro ilustra bem a correção da asserção comum de que o todo é sempre
maior do que as partes. Mesmo para quem esteja familiarizado com o modo e o
método de reflexão que caracteriza a escrita de Hermínio Martins, este livro
exibe, com uma veemência que nenhum dos seus capítulos por si só permitiria, a
profunda unidade e maturidade do olhar de Martins sobre os fundamentos e o
desenho interno da civilização contemporânea.
As preocupações de Martins são pluridisciplinares. A sua vontade de saber é de
natureza enciclopédica, estendendo-se pelos domínios mais diversos do
conhecimento. Mas qual é o centro unificador destes textos, caracterizados por
uma escrita tão fluida como sólida, que exibe uma procura de transparência e
rigor, sem deixar de oferecer aos leitores o impressionante suporte de uma
exuberante erudição? O fulcro unificador da obra de Martins, evidente de modo
especial neste livro, não me parece poder ser considerado de âmbito claramente
sociológico, embora a sociologia, em múltiplas das suas abordagens, se encontre
bem presente.
Trata-se, na verdade, de uma obra profundamente filosófica sobre a vocação e o
destino tecnológicos da civilização contemporânea. Uma obra inovadora e
surpreendente, pois ousa pensar uma ampla variedade de experiências e fenómenos
da contemporaneidade à luz de um conjunto coerente e clarificador de categorias
operatórias. Tradicionalmente, a vocação da filosofia é o estudo e a
compreensão do todo. Mas sabemos como depois de Kant, e sobretudo de Hegel, a
filosofia estabeleceu uma relação progressivamente inquieta com a produção de
visões do mundo (Weltanschauungen). Com a divisão da ideia de saber em
totalidade, em dois continentes progressivamente afastados e independentes (as
ciências do espírito e as ciências da natureza, para usar apenas uma das
mais comuns caracterizações dessa cisão), a filosofia foi perdendo coragem e
ousadia, refugiando-se ora na exploração analítica do rigor discursivo, ora na
reconstrução e releitura hermenêutica dos grandes sistemas e idades da tradição
especulativa do Ocidente.
A revitalização da filosofia tem vindo das suas margens. Lembremo-nos de
Nietzsche (um filólogo de formação), de Husserl (um matemático), de
Wittgenstein (um engenheiro), ou de Leopold (um silvicultor). De certo modo,
Hermínio Martins segue esta senda da fecundação da filosofia a partir do seu
percurso próprio pela sociologia da ciência (onde se deve destacar a sua
meditação sobre Thomas S. Kuhn), entre outros interesses que incluem o estudo
das ideias federais em Portugal, ou os trabalhos sobre o regime do Estado Novo,
que foram coligidos no livro Classe, Status e Poder e Outros Ensaios sobre o
Portugal Contemporâneo (Lisboa, ICS, 1998).
CRISE DA NATUREZA, CRISE DA HUMANIDADE
Sem querer subestimar as imensas e ricas mediações do seu pensamento, a tese
central da reflexão de Hermínio Martins sobre a tecnologia poderia ser resumida
na ideia de que aquela nunca poderá ser lida como um mero instrumento, como uma
panóplia de utensílios revestidos de uma certa neutralidade axiológica. Ao lado
de autores como Hannah Arendt, também Martins perspetiva a tecnologia por
dentro do núcleo do projeto mais profundo, onírico e perturbante da
modernidade. A tecnologia, ou melhor, a unidade profunda entre técnica e
ciência, nunca foi um puro processo de emancipação da humanidade em relação a
uma submissão incondicional aos determinismos da Natureza, na linha dos
pensadores que se ergueram sob o signo de Prometeu, como foi o caso de Comte ou
de Marx. Ou, em certa medida, e numa expressão de elevada espiritualidade, a
riquíssima e pioneira meditação de Jacques Ellul sobre técnica, condição humana
e sentido da história. A tecnologia trazia, sob o entusiasmo prometeico, as
sombras de um pesadelo fáustico, de um impulso cego de domínio puro, de
afirmação de um poder que não tinha outra agenda senão o seu próprio incremento
e exercício indefinidos, como é claramente evocado nas obras de um Spengler ou
de um Jünger, bem como sugerido no importante ensaio de Heidegger Die Frage
nach der Technik (1958). Vocação fáustica levada ao nível de uma quase
grosseira caricatura na provocadora conferência de Peter Sloterdijk, proferida
em 1999: Regelnfür den Menschenpark.
Nessa medida, Hermínio Martins pode ser considerado como um dos pensadores mais
profundos da crise ambiental. Tal como Ulrich Beck (1986), Martins surpreende a
inevitabilidade da sociedade de risco, contida nas promessas do processo
tecno-industrial que constituem a matriz da nossa modernidade. Contudo, Martins
vai mais longe do que Beck na compreensão da lógica interna, potencialmente
demencial, que anima a modernidade. Com efeito, a tecnologia transformou-se
numa espécie de estrutura transcendental da modernidade, um a priori do operar
teórico-prático moderno. A crise ambiental seria o efeito visível de uma
produtividade tecnológica percorrida pelo princípio da plenitude. Pelo sonho,
não apenas de modificar a natureza, mas de a reconstruir radicalmente. O
delírio de ultrapassar a barreira da Natura naturataem direção a uma Natura
naturans. A redução do Outro natural a uma variante antropogénica de um Eu,
mais do que humano.
Nesse rumo, apenas possível de identificar por dentro do projeto tecnológico da
modernidade, esconde-se a força crescente das biotecnologias. Martins é desde
há muito um pioneiro no estudo da arqueologia onírica e fantástica onde
mergulham as raízes da biotecnologia hodierna. Ninguém melhor do que ele soube
resgatar a grandeza filosófica em autores, aparentemente marginais, como J.D.
Bernal ou J.B.S. Haldane. Também aqui, a condição humana, como a conhecemos,
não é entendida como um limite, mas como um alvo, como matéria-prima em direção
a uma pós-humanidade, visando o processo de uma nova hominização de base
tecnológica. Se um dia a Natureza, como a conhecemos, perecer completamente,
talvez lhe sobreviva o pós-humano, o trans-humano. Como caricatura e pesadelo,
deixados a título de herança pela breve passagem da aventura humana por este
planeta.
Nota
1
Uma outra versão deste comentário foi publicada no Jornal de Letras, Artes e
Ideias, n.º 1064, de 13 a 26 de Julho de 2011, pp. 28-29.