Babus, lokkhis e os outros: representações do corpo na imprensa diária da Índia
bengali
INTRODUÇÃO1
O sistema de significados a que recorremos para ler e inscrever o mundo que nos
rodeia serve o propósito de preservação da integridade identitária no lugar
certo do nosso sistema de ordenamento do universo, das pessoas e das coisas. E
é no campo da economia simbólica, no jogo metonímico entre a produção de
símbolos e a produção de espaços e hierarquias de visibilidades, que se
consolidam as estratégias de construção de modelos para ordenar o universo
social, o que, em última análise, se reflete na constituição de uma cultura
dominante, fruto dos posicionamentos obtidos na competição para experimentar e
controlar essas imagens e espaços.
Esta condição reflete-se num constrangimento ao nível da apropriação ou
docilização do que é olhado, representado, a construções mentais familiares
sobre os objetos, coibindo a incorporação de novos dados que possam colocar em
causa ou provocar ambiguidade na ordem do sistema em que se procura inscrever o
real. Como argumentou Mary Douglas, já em 1966, a propósito da associação
simbólica entre perigo e poluição social, são várias as maneiras de lidar com o
estranho, com o ambíguo ' o que não é facilmente inserido numa das nossas
categorias classificatórias, o que não se reconhece, o que não é familiar ' e
que incluem ignorá-lo, percebê-lo, percebê-lo e condená-lo ou enfrentá-lo e
criar uma nova ordem do real onde possa ser inserido (Douglas, 1991, pp. 53-
54). E a criação de novas ordens sociais, como é sabido, não é favorável aos
que detêm posicionamentos confortáveis no ordenamento deposto.
As imagens visuais, juntamente com outras práticas narrativas e técnicas
representacionais, concorrem para a organização dos modos de compreensão deste
ordenamento das coisas e das relações sociais. Como já foi sobejamente
descrito, o poder dos mass media, em particular da imprensa escrita, televisão,
cinema de grande difusão e internet, e por inferência, dos que detém poder na
sua instrumentalização para a fabricação de imagens e opiniões à escala global,
transcende o condicionamento óculo-cêntrico (de limitação de visibilidades)
para uma relação de controlo social, pelos efeitos associados de antecipação,
classificação, demonstração, delimitação e obliteração de possibilidades
alternativas de representação. A verdade lapalissiana usada pelos produtores
de comunicação massificada sobre os produtos que oferecem serem aqueles que são
desejados pelo seu público é suportada pela manipulação desta condição que
serve à reprodução da ordem social.
Neste contexto, as fotografias jornalísticas são particularmente importantes,
já que são frequentemente produzidas e reconhecidas como metonímicas. Enquanto
a metáfora recorre à analogia, a metonímia é transnominação: a expressão (ou
imagem) substitui-se ao referente suportando-se numa associação convencional/
comummente reconhecida a determinado significado. Segundo George Lakoff,
metonymy is one of the basic characteristics of cognition. It is extremely
common for people to take one well-understood or easy-to perceive aspect of
something and use it to stand either for the thing as a whole or for some other
aspects or part of it (1987, p. 77). A fotografia jornalística (metonímica)
não é, portanto, escolhida aleatoriamente; a sua escolha tem o propósito de ser
facilmente reconhecida pela coisa/objeto/ideia que substitui no repositório de
conhecimento partilhado pelo produtor e recetores.
Neste estudo centrar-me-ei na análise de imagens de sujeitos (corpos) adultos2
massificadamente mediatizadas no Estado de West Bengal, Índia, com vista à
identificação das estratégias de construção de modelos de ordenamento social
que, em última instância, se refletem na constituição/reprodução da cultura
dominante bengali. Tomando como ponto de partida o exame de imagens
fotográficas (apresentadas como jornalísticas) publicadas na imprensa escrita
diária, procedo à sua triangulação com imagens produzidas por outros mediadores
representacionais, obtidas em contexto de trabalho de campo nesta região. Este
método permite alargar a abrangência da análise e o reforço dos dados obtidos
pela utilização de fontes múltiplas.
CONTEXTUALIZAÇÃO DA AMOSTRA
Foi colhida uma amostra de três jornais diários de referência, de ampla
distribuição em Kolkata e West Bengal: The Times of India, The Telegraph(ambos
em língua inglesa) e o Anandabazar Patrika (em bengali), ao longo de um período
de 4 meses. Foram selecionadas 12 edições de cada um destes jornais para os
mesmos dias (3 em cada mês, distribuídas em diferentes semanas), totalizando
uma amostra de 36 jornais e 3419 fotografias submetidas a análise, entre
novembro de 2010 e fevereiro de 2011. Foram selecionadas todas as imagens
fotográficas publicadas nestes jornais, em todas as secções, exceto nas secções
de classificados, publicidade e programação de TV (por não entrarem na
categoria de imagens jornalísticas) e todas as imagens de cabeçalhos.3 A
escolha destes critérios para recolha da amostra deve-se à necessidade da sua
limitação a características comparáveis na grelha de domínios operativos
selecionados.
Estas imagens são captadas pelos repórteres fotográficos dos jornais
mencionados (todos do género masculino, segundo a informação disponibilizada)
ou adquiridas em bancos de imagens tais como o Getty Images, nomeadamente nas
situações em que a representação pretendida é a de sujeitos e lugares
estrangeiros (sobre este banco de imagens, v. Machin, 2004). Ainda que a
decisão de publicação se encontre a cargo dos editores de secção (alguns do
género feminino) e acima, de acordo com os fotógrafos locais entrevistados, as
suas imagens são submetidas previamente a diretivas de o quê e quando mas
não sobre o modo de representação. Todos declararam também nunca terem
enfrentado censura direta, impondo antes a si próprios alguns pressupostos de
circunscrição representacional: A politican is presented in a way, an
intellectual in a different one, an actor or an unknown woman in a party is
different and so, and so (fotógrafo TTI, Kolkata, 28-01-2011); we are
careful on the presentation of women. Now it is more liberal, but Indian women
are not supposed to be undressed, smoking cigarettes you know, things like
that (fotógrafo TT, Kolkata, 25-01-2011).
Para enquadrar esta escolha de mediadores de comunicação popular em termos de
impacto social, remeto para o estudo conduzido por Chaitali Dutta (2008) sobre
Information Literacy Competency and Readership Study of Five Specific
Localities in Urban, Industrial and Semi-Urban Areas of Kolkata Metropolitan
City. São reportados os seguintes resultados para hábitos de leitura regulares
entre a população residente adolescente e adulta (até aos 82 anos de idade):
76% para ogénero masculino e 90,19 % para o género feminino, sendo assumida a
leitura como passatempo preferencial. A leitura de ficção e bengali, tanto ao
nível da origem como da mediação linguística é a mais escolhida (dados também
corroborados pelas bibliotecas), sendo apontados como favoritos autores como
Ashapurna Devi, Mahasweta Devi e Shirshendu Mukhopadhyay, mas também, e
sobretudo entre a população feminina, clássicos dos séculos XIX e XX como
Rabindranath Tagore, Saratchandra Chattapadhyay, Bankim Chandra Chattopadhyay
ou Satyajit Ray, figuras amplamente reconhecidas como ícones da identidade
cultural bengali. Entre as restantes escolhas ocupacionais para períodos de
lazer, a televisão aparece em segundo lugar, com toda a população feminina e
92,5% da população masculina a afirmarem ver TV regularmente. Não obstante, a
partir dos 20 anos de idade, os jornais continuam a constituir fontes de
referência, sendo eleitos como os mais lidos o Anandabazar Patrika, seguido do
The Telegraph, Bartaman e The Times of India(Dutta, 2008).
Estes dados convergem para a validação da informação cedida pelas casas de
publicação e mercado de imprensa escrita na região. De acordo com a Indian
Readership Survey (IRS) sobre os índices médios de leitura de jornais relativos
ao terceiro trimestre de 2010, o Anandabazar Patrika lidera com mais de 2,8
milhões de leitores, seguido do Bartaman (diário também em bengali) que
ultrapassa 1 milhão, The Telegraph com mais de 880 000 e o The Times of India a
ser lido por mais de 0,5 milhão (IRS, 2010, Q3, disponibilizado pela agência
Exchange4media).4 Note-se ainda que no que diz respeito à leitura de revistas,
de acordo com o mesmo estudo de Dutta, as três mais lidas são comuns a homens e
mulheres: a clássica publicação literária Desh, a feminina Sananda e a
revista de generalidades Saptahik Bartaman, mais uma vez em bengali (Dutta,
2008). Expressivamente, o Anandabazar Patrika, The Telegraph, Desh e Sananda
são publicações do influente grupo multimédia bengali Anandabazar e o jornal
Bartaman e a Saptahik Bartaman pertencem ao grupo Bartaman também bengali,
sendo comum a mobilidade dos autores/colaboradores entre as publicações do
mesmo grupo. Neste enquadramento, o The Times of India, publicado pelo poderoso
grupo de comunicação multimédia de difusão nacional The Times Group, sediado em
Mumbai, emerge como único contraponto de produção não bengali com estes
elevados níveis de penetração.
Sobre os seus consumidores, clarifico que a leitura destes jornais se sobrepõe.
Por ser prática consensual manter os custos baixos e a facilitação da sua
acessibilidade aos leitores, é frequente a presença diária de 2 ou 3 destes
jornais na mesma casa e em espaços públicos de leitura. De acordo com a
National Youth Readership Survey conduzida em 2009, 15% das famílias rurais e
39% das urbanas subscrevem pelo menos um jornal, das quais 9% são famílias em
que pelo menos um membro tem educação básica e 57% em que pelo menos um membro
tem educação superior (Shukla, 2010). Por outro lado, de acordo com o
mencionado estudo de Dutta, a maioria dos inquiridos possuía qualificações de
nível superior, o que se traduzia habitualmente no domínio de várias línguas,
sendo usual a leitura de um jornal em língua vernacular e de outro em língua
inglesa. Conquanto seja conhecido que na Índia os jornais em línguas
vernaculares (e neste caso o Anandabazar Patrika) alargam mais a sua difusão à
população rural (menos exposta à ocidentalização e habitualmente descrita
como mais conservadora), bem como a uma população socioeconomicamente mais
desfavorecida e com níveis de literacia mais baixos (The National Readership
Study de 2006, disponibilizado pelo National Readership Studies Council), é
necessário salvaguardar que são várias as línguas nativas faladas entre os
residentes (bengali, urdu, hindi, etc.) e os imigrantes, independentemente do
seu estrato social e educação. A leitura mediada pelo inglês permite também,
por isso, a acessibilidade dos seus conteúdos aos que não dominam a língua
escrita bengali.
Finalmente importa dizer que ambos os diários mediados em língua inglesa
incluem suplementos direcionados para um segmento de público urbano, jovem, de
classe média e média alta, mais cosmopolita. Os seus conteúdos de
entretenimento e lazer, cultura popular de modas e tendências, enredos e
mexericos sobre celebridades, contribuíram inegavelmente para o aumento dos
seus índices médios de leitura entre este público, como atestado pelas
avaliações regulares da Indian Readership Survey e dos próprios jornais.
METODOLOGIA DE ANÁLISE
Em 1988, Patricia Albers e William James sintetizaram os modos de análise das
fotografias enquanto representações em dois grandes grupos que considero
referenciais metodológicos válidos: a análise ao nível de conteúdo, e a análise
ao nível da semiótica. Destes dois referenciais, apresento sumariamente algumas
das dimensões com pertinência direta para as opções utilizadas na condução
deste estudo.
O primeiro modo de análise incide sobre a quantificação e descrição do que é
manifesto na imagem ' temáticas (objetos), distribuição, frequência, contexto,
etc. De acordo com os objetivos do estudo, o investigador estabelece parâmetros
de análise de conteúdo e composição, ou seja, domínios operativos: quem e
quantidade de sujeitos fotografados; apresentação dos sujeitos, tipo de
enquadramento, vestuário; tipo de ambiente; distribuição e tipo de objetos
materiais presentes nas fotografias ou outros elementos que se apresentem
relevantes para a análise. A quantificação e descrição dos domínios operativos
permitem aceder a curvas de variabilidade e prevalência de elementos
pictóricos, temáticas de conteúdo e tipos de composição (Albers e James, 1988;
Henderson, 2001; Pinto-Coelho e Mota-Ribeiro, 2005; Buzinde et al., 2006). Esta
metodologia é, por isso, particularmente interessante na análise de amostras de
grandes dimensões em que se enquadra este estudo, permitindo retirar conclusões
a partir da totalidade de dados conjugados e também por publicação, consentindo
o estudo comparativo das diferentes tendências editoriais por jornal.
O segundo modelo é a análise semiótica. Baseada em modelos usados para o estudo
da linguagem, a análise semiótica de fotografias procura tratar cada imagem
como um todo, procurando padrões na relação dos elementos constituintes que se
repetem ou que contrastam com outras fotografias, relacionando-os com outras
narrativas que os acompanham. O recurso a este tipo de análise procura aceder
aos significados simbólicos e às formações ideológicas subjacentes ao
manifestoda imagem (Mauad, 1996; Clawson e Trice, 2000; Machin, 2004; Szörényi,
2006; Marques, 2009a, e 2009b).
VISIBILIDADES DE GÉNERO
Começo pela análise quantitativa das imagens publicadas pelos três jornais ao
nível do domínio operativo sujeitos humanos representados. Numa primeira
fase, foram contabilizadas as imagens que a) representam apenas adultos homens
(um ou mais), b) apenas adultos mulheres (uma ou mais), c) apenas adultos
homens e mulheres, d) sem participantes humanos ou com presença indefinida, e)
com presença de crianças (discriminando-se a inclusão de adultos por género).
Da totalidade das fotografias analisadas, apenas 13% não representam sujeitos
humanos (ou têm presença indefinida) e as crianças surgem residualmente em 3%
das restantes. O domínio da vida pública no discurso mediático da imprensa
diária em Kolkata é portanto esmagadoramente dominado por sujeitos de aparência
adulta, com 52% das imagens a representarem exclusivamente sujeitos do género
masculino, 11% a incluírem os dois géneros e 20% a representarem exclusivamente
sujeitos do género feminino.
Quando avaliada a distribuição da presença de mulheres por secções, verifica-se
ainda que mais de metade das imagens que as incluem se concentra nas secções
sociedade e arte/entretenimento (58%). Assim, a primeira das constatações é
a clara convergência das decisões editoriais de todos os jornais para uma
concentração da representação fotográfica de sujeitos adultos do género
feminino nas áreas mais ligeiras/menos valorizadas da esfera pública
associadas ao lazer e entretenimento, demarcando a sua exclusão quase absoluta
do domínio da economia/negócios (2%). O género feminino parece ser entendido
como mais apropriado para representar corpos atraentes passivos, alienados da
força de trabalho e dos meios de produção.
Quando avaliada a aparição de crianças com o propósito de discriminar a
inclusão de adultos por género na fotografia, verifica-se ainda que estas
aparecem maioritariamente acompanhadas por mulheres. No entanto, ao comparar as
diferentes tendências editoriais, observa-se que este resultado resulta da
contribuição direta dos jornais do grupo bengali Anandabazar, uma vez que no
The Times of Indiaas crianças aparecem maioritariamente acompanhadas por
adultos dos dois géneros. Assim, a tendência para representar as mulheres como
acompanhantes preferenciais das crianças, colocando a ênfase no seu papel
parental, de educador/cuidador principal, parece ainda mais forte entre os
jornais bengalis.
À semelhança dos resultados encontrados por Pinto-Coelho e Mota-Ribeiro (2005)
para a imprensa diária portuguesa, no que diz respeito ao impacto da
participação feminina na produção de informação, mesmo quando se encontra na
produção de conteúdos e em posições intermédias de decisão (como as editoras de
secção), persiste a cumplicidade na subordinação representacional ou
invisibilidade do género feminino no que é entendido como importante na vida
pública. Na Índia, e também em West Bengal, a feminização (a par da
juvenilização) da participação na produção da imprensa escrita diária terá
também ocorrido em período idêntico ao de Portugal, com um acentuado
crescimento nas décadas de 1980 e 1990. Mas de igual modo, terá persistido como
minoritária, e com a mesma tendência de limitação do acesso a posições de
decisão e gestão de topo (Dagar, 2004; Press Institute of India, 2004).5
Para um segundo nível de análise foram estabelecidos domínios operativos ao
nível do enquadramento e composição fotográfica, tendo em vista a escala dos
sujeitos adultos representados: a) grande plano (retrato), b) plano médio/
plano americano (meia-figura) e c) plano de corpo inteiro, permitindo, deste
modo, a avaliação do fenómeno da proeminência facial nos três jornais
considerados. Face-ism é um termo cunhado por Archer et al. (1983), podendo
ser definido como o fenómeno em que a proeminência facial relativa de uma
pessoa em fotografia ou noutra imagem pictórica se traduz numa avaliação mais
positiva, em associação com qualidades intelectuais, atratividade,
inteligência, ambição ou dominância, por comparação à sua representação de
corpo inteiro.6 Este fenómeno terá sido avaliado em diversos estudos para
diferentes mediadores de comunicação e países, tendo sido repetidamente
confirmado o seu uso na discriminação representacional do género feminino
versus masculino. Os homens tendem a ser representados pelo rosto e as
mulheres tendem a ser representadas pelo corpo. No caso do ocidente, este
fenómeno terá mesmo sido verificado para o desenho e pintura desde o século XV
(Archer et al., 1983; Anderson, 2003; Cooley e Smith, 2010).7
Como já reportado, quando considerada em conjunto, a imprensa diária em Kolkata
segue a tendência verificada para outros países de sobre-representação
masculina das visibilidades. Todavia, quando é avaliado o fenómeno de
proeminência facial relativa dos sujeitos adultos representados, os resultados
são menos lineares. Foram contabilizadas as fotografias que representam
exclusivamente adultos do género masculino (um ou mais) e exclusivamente
adultos do género feminino (um ou mais), tendo sido verificado que, na
globalidade, os homens tendem a ser mais representados em retrato (66%) do que
as mulheres (58%). No entanto, quando consideradas as representações de corpo
inteiro (os índices mais baixos), os valores são respetivamente de 14% para os
primeiros e de 10% para as segundas. Por outras palavras, apesar de ocorrer,
globalmente, uma sobre-representação do género masculino pelo rosto, a sua
representação de corpo inteiro também é superior. Significando isso que o
género feminino é tendencialmente representado pelo rosto ou pela meia-figura.
Quando comparadas as diferentes tendências editoriais por jornal, revela-se
ainda uma inversão de tendência representacional de género por parte do jornal
Anandabajar Patrika. Ao contrário dos dois jornais em língua inglesa, este
diário não apenas representa o género feminino com os índices mais elevados de
proeminência facial relativa, como também apresenta a maior divergência na
representação entre géneros: 81% das mulheres são representadas pelo rosto
versus 68% de homens. Ou seja, o Anandabajar Patrika, o jornal diário mais lido
em West Bengal, contraria as tendências representacionais de proeminência
facial relativa de género verificadas para os seus congéneres de língua inglesa
e, de acordo com os estudos referenciados, para largas dezenas de outros
jornais em diferentes países.
De acordo com a fundamentação teórica do fenómeno, esta estratégia
representacional conduz a avaliações positivas do género feminino, predispondo
os leitores para associações cognitivas destes sujeitos com qualidades
intelectuais como inteligência, ambição ou liderança. Todavia, eu sugiro que
esta estratégia deve mais aos conceitos de exposição pública dos corpos e ao
ideal de conduta e virtude dos corpos femininos nos espaços sociais, em que a
cultura bengali conservadora é dominante. Esta sugestão será desenvolvida
adiante quando forem incluídos os resultados sobre quem são estes corpos
visíveis.
IMAGENS VERBAIS SOBRE IDENTIDADES MÚLTIPLAS
Porque esta é uma nação secular, de universos linguísticos, culturais e
religiosos múltiplos, engloba, para além das inúmeras comunidades incluídas no
que vulgarmente se designa como hinduísmo, várias comunidades islâmicas,
tribais, nómadas, budistas, cristãs, judaicas,sikh, jain, parsi, nepali, etc.
De acordo com o projeto People of India (POI) terão sido identificadas neste
país 4693 comunidades distintas, das quais mais de 170 estarão representadas
em West Bengal (Singh, 2003). Na Índia independente, as estratégias de
reorganização do ordenamento do real social da nova nação partiram de muitos
dos pressupostos representacionais eficientemente implantados ao longo de dois
séculos de colonialismo britânico. Pelo que algumas dessas categorizações
servem ainda de base a recenseamentos e suportaram, por exemplo, o
estabelecimento de critérios de discriminação constitucional de determinados
grupos populacionais por relação à dominância da perspetiva nacionalista
hindu. Ainda que esta discriminação seja enquadrada legalmente com o
propósito de alcançar o direito à igualdade: prohibition of discrimination on
grounds of religion, race, caste, sex or place of birth (The Constitution of
India, 1949, art.º 15), a categorização de inúmeras comunidades em scheduled
castes (SC), scheduled tribes (ST) e other backward classes (OBC), com vista à
promotion of educational and economic interests of [ ] weaker sections(art.º
46), ao basear-se ainda nos velhos termos race, caste, tribe e backward,
denuncia a apropriação dos seus significados essencializadores de
objetificação categórica, e a desigualdade e inferioridade entre os seus
membros.8
Em West Bengal, a cultura dominante é bengali hindu, e a sua influência e
impregnação no universo social parecem também ser determinantes para a
(re)configuração das várias unidades sociais que integram o território. Assim,
a representação dominante utilizada como referente nós para diferenciação dos
outros é a do corpo bengali hindu, confundindo-se, quando utilizada de modo
metonímico (porque é aqui dominante), com aparentemente indiano hindu. Ainda
assim, como será antecipável, existem diferenças entre este nós.
Relativamente ao uso de termos como urbano e moderno, quando aplicados
entre si, são sujeitos a diferentes classificações em função do género, classe,
geração e associam-se com frequência a um duo gradativo de ocidental
indianizado e de indiano ocidentalizado. Assim, para os corpos masculinos,
no espaço público e local de trabalho em ambiente secular, vestir calças de
alfaiate e camisa (ocidental indianizado) constitui uma marca distintiva da
cultura dominante em ambiente urbano, sendo a indumentária mais comum. No
entanto, é conotada como conservadora por oposição ao prêt-à-porter, jeans e
shirt(indianizado ao estilo de Bollywood)9 ou à kurta menos longa (com
correspondência na kamize menos longa para o género feminino), a que são
atribuídos significados de juventude, rebeldia e modernidade, e usados
frequentemente pelos dois géneros. As indumentárias salwar-kamize ou churidar-
kamize (com dupatta) e sari são as mais comuns entre a população feminina,
sendo, sobretudo, os tecidos utilizados e os adornos, variantes de padrões,
cor, forma e modos de usar que servem as estratégias de distinção. A primeira é
conotada genericamente com indumentária indiana moderna e a segunda com
indiana tradicional.10
Notavelmente, este termo tradicional fica reservado para os itens que invocam
um passado mais ou menos partilhado/nacional, a que são atribuídas qualidades
de herança cultural (dominantemente hindu, ecoando os discursos românticos
orientalistas sobre a Índia) e nunca os termos étnico ou tradicional são
usados para conotar a roupagem de um estrangeiro ocidental. A sua
estereotipação em termos absolutos na categoria de modernidade assim o parece
impedir. Já o termo étnico é aplicado do modo descrito por Joanne Eicher e
Barbara Sumberg: often known as traditional, ethnic dress brings to mind
images of coiffure, garments, and jewellery that stereotypically never change
[ ] There are several other words that fall into this category, such as folk,
peasant, tribal (1995, pp. 300-301). É usado em referência a especificidades
de roupagem que indexam aqui como marcas distintivas de algumas comunidades
indianas folk, peasant, tribal, ora conotadas com ruralidade e atavismo
quando usadas neste contexto, ora com atributos de modernidade, quando
incorporadas com outras peças de vestuário urbano por outros indianos.
Western, European, (ou firangi/firingi)11, designações utilizadas de
modo intercorrente para o estrangeiro ocidental, são utilizadas nesta região
com o sentido de definitely non Indian. A sua representação limita-se a pouco
mais do que uma imagem economicamente centrada, e mais ou menos vaga de
ocidental-europeuou ocidentalizado(também metaforizado frequentemente em
indiano urbano, materialista e moderno), enquadrada por uma retórica difundida
pelo Ocidente sobre si próprio, que nos é familiar. Como sintetizado por
Alistair Bonett, ocidental sintetiza a social, political and ethnic
designation designed to evoke those values, practices and people that are, in
other contexts, described as one of the following: democratic, capitalist,
free, modern, developed, Christian, white (2003, pp. 332). No que se refere à
aparência visual destes corpos, em Kolkata, o ocidental é genericamente
associado ao uso de vestuário de estilo prêt-à-porter globalizado;
pontualmente estereotipado como very tall, big (significando estatura
física elevada e frequentemente com excesso de peso) e, em tom jocoso, com tez
de pinkish/reddish colour, literalmente pele avermelhada, em referência à
aparência adquirida por insolação da pele com pouca melanina perante as
condições climatéricas da região. Não é evidente a sua conotação com white,
termo que nunca ouvi ser utilizado fora dos meios intelectuais, a não ser que
expressamente introduzido por mim em conversa (para mais sobre representações
de ocidental e bengali, v. Marques, 2009b).
É no espaço doméstico e em situações públicas ostensivamente formais
(cerimoniosas) que ainda prevalece para muitos o uso da indumentária entendida
como tradicional, e usada do modo convencionado nas suas especificidades aos
vários níveis de diferenciação identitária. Para a adscrição identitária
hindu (sendo a bengali dominante nesta região), refere-se comummente a
roupagem não talhada e não cosida, como são o dhoti, o lungi ou o chador (para
o género masculino) e o sari (para o género feminino). Todavia, a incorporação
de vestuário sincrético, por exemplo, ao estilo mughal ou ocidentalizado foi,
desde há muito, amplamente realizada pelos dois géneros, como é evidente pela
sua extensa utilização e adoção como vestuário tipicamente indiano: kurta-
pijamaou kurta-dhoti, salwar-kamizeouchuridar-kamize,o uso de dupatta, saiae
blouje, do topi, dos casacos sherwani, achkan e Nehru com e sem mangas, etc.
(sobre o vestuário indiano e a sua história, v. Bayly, 1988; Bean, 1989; Tarlo,
1996; Cohn, 2001).12
VISIBILIDADES E ALTERIDADE
Para aceder aos conteúdos latentes e formações ideológicas de alteridade
subjacentes às representações dos corpos adultosmanifestosnas imagens destes
jornais, os dados foram organizados em várias unidades, sob domínios operativos
para adscrição identitária. Estas unidades emergiram ao longo do trabalho de
campo continuado, recorrendo a uma aproximação multi-method de escrutínio
consecutivo das fotografias e de imagens verbais mediadas por narrativas orais
e outras fontes, tais como as descritas acima. A distribuição foi então operada
através da combinação sucessiva de elementos que incluíram marcas identitárias
exteriores de reconhecimento imediato neste universo sociogeográfico (aparência
do corpo, vestuário, adornos, decoração, etc.), referências textuais de
identificação e nomeação dos corpos representados, contexto situacional em que
aparecem (atividade/trabalho, pose/lazer) e ambiente envolvente (público,
doméstico). A este nível, foram procurados padrões de repetição e contraste na
relação dos elementos constituintes das fotografias de meia-figura e corpo
inteiro, procedendo à distribuição dos sujeitos em categorias largamente
inclusivas, tais como aparentemente indiano hindu, indiano não hindu,
ocidental, não ocidental e não indiano e não ocidental.
Começo por assinalar que da totalidade dos corpos adultos representados em
meia-figura ou corpo inteiro nos três jornais, apenas 1% surge em ambiente
doméstico. O domínio do interesse público para a imprensa diária em Kolkata
surge, deste modo, no sentido muito europeu quinhentista do latim publicus ' o
que diz respeito a todos e que remete para tornar público (publicare) '
evitando a exposição dos corpos no domínio da casa. Para esta homogeneidade
nas decisões editoriais não será alheio o enquadramento jurídico das atividades
de comunicação social e de publicação. Ao contrário da Constituição portuguesa,
que confere o direito à privacidade e à imagem, a Constituição indiana não
inclui qualquer disposição direta neste sentido, e a sua regulação é feita com
base nas interpretações da jurisprudência. Todavia, as decisões do Supremo
Tribunal tendem a impor aos mediadores de comunicação um código de conduta
bastante restrito relativamente à exposição dos assuntos domésticos, como se
pode verificar através deste exemplo:
The right to privacy is implicit in the right to life and liberty guaranteed to
the citizens of this country by Article 21. It is a right to be let alone. A
citizen has a right to safeguard the privacy of his life, family, marriage,
procreation, motherhood, child-bearing and education among other matters. None
can publish anything concerning the above matters without his consent, whether
truthful or otherwise and whether laudatory or critical. If he does so, he
would be violating the right to privacy of the person concerned and would be
liable in an action for damages [R. Rajagopal versusState of Tamil Nadu, 1994,
Supreme Court in Singh, 2010].
De todos os corpos representados, 80% são aparentemente indianos hindus. Ou
seja, a esmagadora maioria dos corpos que compõem a paisagem social de
interesse público têm aparência indiana hindu, revelando a sua preponderância
na hierarquia da organização social. Esta aparência (masculina e feminina)
domina as visibilidades em todas as esferas da vida pública, ocupando também o
espaço dos corpos mais bem-sucedidos, ilustres e belos. Homens aparentemente
ocidentais surgem em apenas 9% das fotografias e mulheres aparentemente
ocidentais em 6%. Os corpos menos visíveis são os de aparência indiana não
hindu ou aparentemente não indianos e não ocidentais, compreendendo somente
5%. Para a imprensa diária em Kolkata, parecem ser estes os corpos menos
representativos da paisagem social de interesse público, quer em termos
nacionais quer internacionais. Sendo ainda mais notável o desinteresse quase
absoluto pelos corpos femininos deste tipo: apenas 16 das 1440 ocorrências (1%)
de todos os corpos adultos em meia-figura e corpo inteiro.
Por outro lado, observa-se que 62% destes corpos de aparência indiana não
hindu ou não indiana e não ocidental aparece com vestuário ocidental,
sendo a inclusão nesta categoria dependente da sua identificação e de
referências textuais que acompanham as fotografias. Contam-se aqui corpos de
anónimos referenciados por nacionalidade, e de celebridades artísticas,
desportistas e políticas, de origem chinesa, egípcia, iraquiana, japonesa,
nigeriana, palestiniana, o casal Obama (categorizados no seu país de origem
como biracial African-Americans), etc. As restantes aparições contam com
imagens unidimensionais de alguns corpos masculinos indianos sikh, todos com
vestuário misto de fato de calça e camisa com turbante e barba completa, com
exceção do primeiro-ministro da Índia Manhoman Singh, igualmente de turbante e
barba completa, mas vestindo a tradicional indumentária política de kurta-
pijama e casaco Nehru, e alguns corpos identificados pela sua identidade
religiosa, como os monges budistas (com variantes de longas túnicas de cor
açafrão ou carmesim escuro, cabeça e cara rapadas) ou um imam (túnica longa,
tupi e barba sem bigode). Um punhado de corpos em representações folk,
étnicas, identificados como músicos bengalis baul (com variantes de longas
kurta de cor açafrão ou alaranjadas com ou sem patchwork sobre lungi e cabelo
comprido), performers paquistaneses, uma bailarina nooritailandesa e uma
japonesa de quimono. O primeiro-ministro nepalês Jhalanath Khanal, usando dhaka
topi; alguns corpos egípcios masculinos de galabeya (túnica mais longa e larga
do que a kurta) e um feminino, vestido com casaco comprido e lenço a cobrir a
cabeça e o pescoço, completam as aparições nesta categoria.
Considerando que também em 76% das fotografias que representam (um ou mais)
homens com a aparência dominante indiana hindu, todos os seus corpos surgem
com vestuário ocidental, pode concluir-se que de acordo com a imprensa diária
em Kolkata, a paisagem dos corpos masculinos em espaço público secular é
largamente representada por uma exterioridade ocidentalizada. O uso normativo
de vestuário de calças e camisa, fato completo em situações mais formais ou
prêt-à-porter, com jeans e shirtpara os mais jovens, éreforçado pela dominância
do uso de cabelo curto, rosto barbeado ou com bigode e ausência de brincos e
decorações na pele. Residualmente aparecem alguns corpos com vestuário misto,
combinando o uso de shirt com lungi(indumentária comum para trabalho manual)ou
Kurta longa comjeans.
A minoria de corpos masculinos de aparência indiana hindu, que encontra lugar
na imprensa usando vestuário não ocidental (apenas 16%), surge com variantes
de vestuário tipicamente indiano como foi descrito acima. Destaca-se aqui que
em cenários da política nacional e internacional, o khadi branco é ainda o
produto têxtil de eleição para a manufatura das indumentárias tradicionais
de kurta-pijama ou kurta-dhoti, usadas cerimoniosamente pelos políticos.
Registou-se ainda uma ocorrência de um corpo masculino identificado como sadhu,
termo usado frequentemente em substituição de sannyasi (renunciante hindu)13
ou, como me parece ter ocorrido, enquanto categoria genérica que inclui as
muitas variantes de aparências conotadas com os ascetas, iluminados,
místicos errantes, yogis, etc. A sua aparência é marcada pela aproximação a
uma das representaçõesmasculinas da divindade Shiva: despojamento de vestuário,
com genitais cobertos, uso de rudraksha mala (cordão de sementes de rudraksha)
e cabelos em longas jata (rastas). É significativo que este tipo de aparência,
repetidamente fotografada por visitantes internacionais enquanto corpos
icónicos da Índia, e bastante visível em espaços urbanos durante a época
festiva de Inverno compreendida nesta amostra, se encontre ausente quase em
absoluto da imprensa local.
Quanto à representação dos corpos de (uma ou mais) mulheres da mesma categoria,
a distribuição equivalente é a seguinte: em 54% das fotografias todos os seus
corpos surgem com vestuário não ocidental, em 40% ocidental e em 6% surgem
representações com um e outro tipo de vestuário. Em contraste com o corpo
masculino, a representação da aparência do corpo feminino hindu é
maioritariamente não ocidentalizada, surgindo com variantes da roupagem
entendida como indiana, anteriormente descrita. Esta aparência é reforçada
pela rejeição do uso de sapatos fechados, dominância dos cabelos negros longos
(lisos ou ondulados), maquilhagem e uso de adornos e decorações indianas de
adscrição identitária distintiva, sendo as mais evidentes as definidoras de
estado civil (ou estádio de ciclo de vida e que variam em função do grupo de
pertença).14 Mais uma vez, uma única ocorrência de dois corpos femininos
identificados como sannyasini (renunciantes) regista um desvio a esta
representação normativa da aparência indiana hindu. Vestem
despojadamentesari com anchal/pallu (a extremidade) não ornamentado e preso à
cintura, mala(cordão de contas) e cabelos em longas jata.
Acrescento aqui que mesmo quando estes corpos são representados em versões de
aparência mais ocidentalizada, não foi registada nenhuma ocorrência de
cabelos de outras cores ou o uso de calções. Porém, enquanto na representação
do homem de aparência indiana hindu não ocorrem diferenças significativas entre
os três jornais, na representação deste corpo feminino identifica-se uma
fratura importante estabelecida pelo The Times of Indiarelativamente à imprensa
bengali. Este jornal apresentou uma ocorrência de mulheres manequins em
biquinie uma atriz aparentemente coberta apenas com um xaile. Este tipo de
representações do corpo feminino indiano, mesmo em número tão residual e
confinado a mulheres claramente identificadas em categorias menos
respeitáveis, é ainda assim uma nota de transgressão de origem externa neste
universo bengali. Veja-se o comentário de uma estudante universitária bengali
hindu, que se assume como rebelde e cosmopolita, habitualmente vestindo ao
estilo indiano ocidentalizado:
Imagine that! You are not supposed to step out of your house in shorts. Showing
your legs like that. In the West, boys and girls can wear shorts together,
right? In gyms, and all, and taking shower together? We cannot think of that.
And in India, going around naked is like you put yourself at your most
vulnerable point: you'll never do it! Just like guys are never supposed to cry,
never, ever, at least in public. That's why those actresses who wear skin
revealing clothes are not admired at all, generally speaking [ ] Now you can
also see the deep back cleavages in the blouje, a huge U, but many women think
that those women are not really respectable or something [ ] I also don't wear
my blouje like that, they are all very decent like 9 inches or something! [ ]
And yes, people expose a lot through sari but, then, it is a different thing:
you are wearing a sari! [AM, Kolkata, 22-01-2011]
Esta demarcação inequívoca dos corpos femininos ocidentais é claramente
evidenciada pela imprensa diária em Kolkata. 70% das ocorrências de mulheres
ocidentais surgem em situações de pose/lazer para contemplação, um número
muito superior aos 52% de corpos femininos aparentemente indianos hindus e
aos 25% da categoria aparentemente indiano não hindu/aparentemente não
indiano e não ocidental. Habitualmente célebres na indústria global do
entretenimento (atrizes, modelos, cantoras), estes corpos femininos de
aparência ocidental são assumidos pelos jornais como os mais apropriados a
representações transgressoras de corpos-objetos para sedução sexual, com maior
exposição de áreas do corpo desnudadas e poses explicitamente erotizadas. O
Anandabajar Patrika, em língua bengali, é mais uma vez a exceção, não incluindo
qualquer representação do corpo feminino deste tipo.
BABUS E LOKKHIS
Mencionei anteriormente que a literatura bengali, tanto ao nível da origem como
da mediação linguística é a mais escolhida, sendo extremamente influentes,
sobretudo entre a população feminina, clássicos dos séculos XIX e XX de figuras
amplamente reconhecidas como ícones da identidade cultural bengali. É
necessário adicionar aqui o motivo por que assim são considerados. Nas várias
formas de expressão (narrativa, teatro, sátira, música, pintura), um largo
número destes autores (figuras masculinas e femininas) terá desempenhado um
papel fundamental no movimento pró-independência e no debate e construção
ideológica do movimento reformista da identidade indiana pós-colonial, que
marca distintamente as referências de bom gosto (Bourdieu, 1984) utilizadas
na identidade bengali da atualidade. São as referências incorporadas pelo
estereótipo do bengali babu e da sua contraparte feminina bhadramahila,
idealizados como os modelos conservadores do refinamento distintivo da sua
classe média e média alta.15 OAnandabajar Patrika, impresso pela primeira em
vez em 1922, é associado a este universo, contando com inúmeros ilustres
revolucionários bengalis na história dos seus fundadores, autores e editores
(Mukherji, 2009).16 Este facto torna expectável que corresponda ao peso da sua
história, dando continuidade, nas palavras de uma professora reformada bengali
hindu, to those references of good taste that are quintessentially bengali
(ARC, Kolkata, 28-12-2010).
Este projeto de construção nacionalista da Índia terá encontrado a conciliação
entre a preservação da sua singularidade identitária e a imersão na modernidade
através de um princípio ideológico de seleção reificado sobre a diferença dos
corpos femininos e masculinos. Os primeiros passam a ser conceptualizados como
repositórios da espiritualidade essencialmente indiana, e os segundos como
repositórios da materialidade apropriada do ocidente. Como descreve Partha
Chatterjee:
The new norm for organizing family life and determining the right conduct for
women in the conditions of the modern world could now be deduced with ease.
Adjustments would have to be made in the external world of material activity,
and men would bear the brunt of this task [ ] No matter what the changes in the
external conditions of life for women, they must not lose their essentially
spiritual (that is, feminine) virtues; they must not, in other words, become
essentially Westernized. There would have to be a marked difference in the
degree and manner of Westernization of women, as distinct from men, in the
modern world of the nation [Chatterjee, 1989, pp. 626-627].
Significando isso que os corpos femininos passam a ser submetidos a uma nova
ordem patriarcal (entendida como superiormente refinada e emancipadora),
distanciada da ocidental e da indiana anterior. Mas como descreve a autora
Himani Bannerji:
Women shared with the male reformers the criteria for reform, which were framed
within the colonial class discourse of civilization, improvement,
utility, and progress, as contrasted with savagery, barbarism,
indecency, irrationality, and backwardness. The notion of an
appropriately reformed female subjectivity was conceived within these criteria
and with reference to gender and family relations arising in the new context of
colonially inflected social relations of classes [Bannerji, 1994, pp. 173-174].
Ou seja, os fundamentos para esta nova identidade feminina encontram-se num
discurso importado do ocidente vitoriano, depois reinventado com uma roupagem
adequadamente nacionalista, transfigurada em tradicional indiana sob a égide
de conceitos associados a valores morais de uma Índia imemorial: sabhyata
(civismo), sobhanata(decoro, decência) e lajja (vergonha, modéstia). As
mulheres devem então ser educadas para a modernidade e para a participação na
esfera pública, mas preservando as imemoriais virtudes espirituais de
cuidadoras, de castidade, de pudor, submissão, autossacrifício, compaixão,
gentileza e paciência, que se refletem na sua discreta visibilidade,
exterioridade física, modos de comer e uso do corpo, devoção à família e
religiosidade. A distanciação do ocidente na identidade indiana moderna
será assim assegurada pelos seus corpos femininos, através das marcas
espirituais de conduta e aparência, claramente distintas da figura
(materialista e indecorosa) da memsaheb (mulher ocidental). E tal como é
evidenciado pelos resultados apresentados, são os arquétipos destes corpos que
dominam as visibilidades femininas na imprensa em Kolkata.
É interessante notar que a respeitabilidade, configurada em função da unidade
social de pertença e de forma multidimensional (território de origem, religião,
casta, clã, tribo, idade, género, posição na célula familiar, etc.), é
reforçada nas relações interpessoais em espaço público através do uso da língua
(em bengali e noutras línguas usadas no território). E, em West Bengal, o termo
de tratamento para mulheres (casadas ou não) em profissões respeitáveis
exercidas fora do domínio da casa (professoras, investigadoras, jornalistas,
advogadas, etc.) é mem(diminutivo de memsaheb), denunciando assim a ambiguidade
que prevalece relativamente à sua posição social e à conotação pejorativa da
aproximação à imagem de mulher ocidental.Além disso, após o casamento, é
esperado que sejam mães (e chamo a atenção para o facto de que as mães bengalis
suportam a hierarquia patriarcal de controlo, mas o seu poder advém de uma
progénia masculina), abandonando imediatamente o trabalho que possam ter
exercido na esfera pública, retomando o papel ideal de educadoras e cuidadoras
no domínio da casa (Donner, 2008).
Nesta região da Índia, é atribuído um elevado valor à educação, ao
intervencionismo social, político e cultural, o que se reflete no elevado rácio
F/M de literacia (posicionado como o 3.º melhor Estado a nível nacional desde a
década de 1970), qualificações de nível superior (Bagchi, 2005) e participação
feminina significativa na esfera da política. Contudo, apesar do esforço
colocado na educação das suas filhas de classe média e média alta, o modelo da
figura feminina ideal é ainda representado pela divindade Lakshmi, aqui
denominada Lokkhi. Diz o provérbio: choto khato, lokkhi monto, pequenina
como a deusa Lakshmi:
The goddess lokkhi is considered the ideal woman: she is very quiet, calm, she
knows how to handle everything, she is the one who brings in prosperity, so
the ideal women should be like her: short and should have short steps fair,
small feet, well kept, well made it married lokkhi likes silence, likes
everything cool and calm. And if she goes away from the house, if she leaves
the household, all prosperity goes with her [SB, Kolkata, 15-02-2011].
Lakshmi, que é descrita nos Vedas como a divindade da riqueza, fortuna, poder e
beleza (associada habitualmente à flor de lótus), é pequena e curvilínea, de
cabelos negros, longos, lisos ou ondulados, podendo ser representada com
coloração escura, rosada, dourada ou branca. Mas usa sempre as marcas
exteriores da mulher casada hindu (é consorte da divindade masculina protectora
Visnu),e em West Bengal é considerada filha do casal de divindades na forma de
Durga e Shiva e irmã de Saraswati (feminina), Ganesha e Kartik (masculinas). Ou
seja, é uma deusa poderosa, porque é filha, irmã e esposacompetente; bela,
porque édócil, silenciosa e submissa: pequenina, com pés e passos delicados
(quase imperceptíveis), e independentemente da coloração da pele, possui os
longos cabelos negros (nunca rapados, curtos, de outra cor, frisados ou em
jata). Garantindo a prosperidade e fortuna da família pela sua omnipresença na
casa como cuidadora.
CONCLUSÃO
Embora tenham sido sempre apresentadas conclusões parciais ao longo do processo
expositivo de análise, cabem aqui algumas considerações finais. Na Índia, o
estabelecimento de dialéticas dicotómicas positivo/negativo entre nós e os
outros é dissuadido oficialmente. O artigo 19.º, 1- a) da Constituição indiana
garante a liberdade de expressão, mas com várias restrições:
Nothing in sub-clause (a) of clause (1) shall affect the operation of any
existing law, or prevent the State from making any law, in so far as such law
imposes reasonable restrictions on the exercise of the right conferred by the
said sub-clause in the interests of the sovereignty and integrity of India, the
security of the State, friendly relations with foreign States, public order,
decency or morality, or in relation to contempt of court, defamation or
incitement to an offence.
Esta declaração de reserva permite a intervenção oficial nos vários mediadores
de comunicação massificada, impondo, por exemplo, uma autorregulação ética e
moral à imprensa e a outros órgãos mediáticos, bem como a censura regular na
publicação e exibição de audiovisuais (como o Cinema e TV), através do Central
Board of Film Certification (CBFC).17 Significando isso a impossibilidade ou
limitação de exibir visualmente um manancial variado de temas como determinadas
formas de violência e tensões políticas, descriminação negativa de castas ou
etnias, sexo e nudez (se entendida como erótica), imagens potencialmente
obscenas, ofensivas, difamatórias ou invasivas da privacidade e hostilidade
figurada por não indianos.
Efetivamente, a expressão de hierarquias de importância representacional e
discriminação dos inúmeros outros por referência à clara dominância cultural do
corpo indiano hindu é conseguida, pela imprensa diária em Kolkata, não tanto
pela seleção qualitativa de conteúdos e composição narrativa, mas pelo controlo
das visibilidades. Através das decisões editoriais de (sobre-, sub- e in-
) visibilidades de determinados corpos, a imprensa instrumentaliza assim os
recursos de expressão imagética de que dispõe para reprodução dos modelos
dominantes para normalização e discriminação da alteridade.
Observa-se também um domínio claro da representação de secularidade e da
aparência laica dos corpos que compõem a paisagem social, contrariando a
imagética internacionalmente difundida de impregnação de marcas de
religiosidade no espaço público desta nação. Inequivocamente, o corpo
masculino indiano hindu (em West Bengal, confundindo-se com o bengali babu)
domina a hierarquia de visibilidades sendo posicionado como o referente nós
para adscrição identitária dos outros, mas é a representação da sua aparência
ocidentalizada, com ausência de marcas religiosas exteriores diferenciadoras,
que o define como o corpo metonímico indiano neste universo sociogeográfico. A
espiritualidade essencialmente indiana, sendo remetida para o corpo feminino,
passivo e submisso à ordem patriarcal, no domínio da casa, marca, portanto, a
sua conspicuidade pela discreta visibilidade pública.
Poder-se-ia pensar que a procura de afirmação identitária hindu se apoiaria
primariamente na demarcação face a uma identidade islâmica (ideia consolidada
na célebre History of British India de James Mill), mas, de acordo com este
estudo, no que se refere à imprensa diária em Kolkata, não é essa, de todo, a
demarcação relevante. Os corpos indianos aparentemente islâmicos são submetidos
categoricamente à quase invisibilidade, do mesmo modo que o são todos os outros
que aparentam ser indianos não hindus ou não indianos e não ocidentais.
Mesmo quando observamos a discriminação representacional do género feminino e
dos modelos usados como normativos para referenciação identitária, sóo corpo
feminino de aparência ocidental parece adquirir visibilidade significativa no
estabelecimento de dicotomias de composição representacional. Por um lado,
consentindo a expressão do preconceito da sua menor respeitabilidade
relativamente a todas as outras categorias consideradas e, por outro,
reafirmando o arquétipo da memsaheb como referência de imagética a opor para a
representação de corpos de identidade essencialmente indiana.
Finalmente, ainda assinalável é a continuidade da importância dos literati de
Bengala dos anos de 1800 e início do século XX na reinterpretação das conceções
vernaculares de existência social e do ideal identitário bengali
contemporâneos. Sobretudo quando mediadas pela sua língua, as imagens
associadas aos modelos idealizados do refinamento distintivo dos valores e
corpos bengali (incorporados pelas suas classe média e média alta) prevalecem.
Num espaço sociogeográfico que partilham, desde há muito, com universos
linguísticos, culturais e religiosos múltiplos, sob a presente influência da
globalização de informação e mercados, a afirmação da sua singularidade (e
superioridade em relação aos inúmeros outros) mantém-se escorada na constância
dessas references of good taste that are quintessentially bengali.
O que melhor define, hoje, os meios de comunicação e os jornalistas, dizem
Félix Ortega e María Luisa Humanes, é a capacidade de tornar visível a
sociedade (2000, p. 63). Com este estudo, espero ter contribuído para
demonstrar como este poder de instrumentalização das visibilidades se traduz na
capacidade de tornar invisíveis ou unidimensionalmente visíveis inúmeros
actores da sociedade.