Boas práticas laborais e negociação coletiva na Autoeuropa e SATA-SNPVAC
Introdução
Neste texto apresentamos dois estudos de caso que são exemplos de boas práticas
laborais no âmbito da negociação coletiva: os acordos laborais da empresa
Autoeuropa e o processo de mediação realizado no conflito laboral SATA1-
SNPVAC2.
Pensando em conflito e negociação, consideramos boas práticas aquelas em que a
conflitualidade entre as partes resulta num entendimento em que há uma solução
de negociação positiva para ambas.
Estes estudos de caso foram desenvolvidos no âmbito de dois projetos de
investigação acolhidos pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de
Lisboa (ics-ul). Um deles sobre a Globalização e as Relações Laborais,
financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. O outro sobre o
Diálogo Social e a Mudança do Papel dos Serviços de Conciliação, Mediação e
Arbitragem em Cinco Países da Europa (Portugal, França, Inglaterra, Itália e
Polónia), financiado pela Comissão Europeia e pela Universidade de Londres
(Lima etal., 2010b).
É de salientar que estes projetos de investigação não se centraram diretamente
no tema das boas práticas laborais, mas no decorrer das pesquisas estes dois
exemplos mereceram a nossa atenção, atendendo ao facto de ser uma temática
pouco estudada em Portugal (Cf. Lima, 2000; Cerdeira, 2004; Dornelas, 2006).
A indústria automóvel, tradicionalmente associada a relações de trabalho
estáveis (Lima etal., 1995 e 1996), está desde o início da década de 90 sujeita
a deslocalizações, tendo perdido 9% dos empregos entre 1998 e 2004. O
encerramento da fábrica da Opel na Azambuja em 2006 deixou cerca de 1200
trabalhadores no desemprego. Em contrapartida, na Autoeuropa houve vários
acordos baseados na lógica do compromisso de transação e em jogo de soma não
nula quando se verificou o risco de deslocalização (Crouch e Pizzorno, 1978),
que têm permitido a manutenção dos postos de trabalho. Estes compromissos podem
ser qualificados como assentes nos princípios da flexigurança.
Quanto ao caso da SATA, baseia-se numa negociação que resulta dos meios de
resolução de conflitos extrajudiciais previstos pelo Código do Trabalho:
conciliação e mediação. Na conciliação, o conciliador reúne as partes em
conflito tendo em vista o entendimento mútuo, mas sem realizar uma proposta. Na
mediação, o mediador assume um papel mais ativo, sendo responsável pela
apresentação de uma proposta para a resolução do conflito.
Depois de uma greve de três dias em 2007, e de um processo de conciliação sem
resultado, o mediador da Direcção-Geral do Emprego e das Relações Laborais, do
Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social (DGERT-MTSS) apresentou em
2008 uma proposta que foi aceite pelas partes. Esta proposta consubstanciou-se
na revisão global do Acordo de Empresa (AE), com a sua posterior publicação, e
o regresso da paz social. Importa salientar que se tratou da primeira e única
proposta de mediação aceite por ambos os parceiros sociais até hoje que teve
como resultado a revisão do AE.
Interessa sublinhar que a apatia e a negatividade figuram nas conclusões de um
estudo sobre o estado das relações laborais em Portugal, realizado pelo
Observatório Português de Boas Práticas Laborais.3 Esta pesquisa revela que dos
1714 inquiridos, 37% classificam o estado das relações de trabalho como
negativo, 34% não têm opinião e apenas 22% estão satisfeitos.
Esta constatação justifica que se analisem com maior profundidade o contexto,
os temas reivindicativos, as formas de ação e de organização dos parceiros
sociais em dois casos escolhidos pela sua exemplaridade.
Metodologia
O projeto sobre a Globalização e as Relações Laborais baseou-se no método da
intervenção sociológica concebido por Touraine (1978), no âmbito da sociologia
da ação desenvolvida no estudo sobre o movimento operário.4 O objetivo foi o de
organizar encontros de reflexão entre atores perspetivados como oponentes em
determinados contextos sociais.
Para operacionalizarmos este confronto analítico foram realizados sete
encontros entre os trabalhadores militantes de base pertencentes aos setores de
atividade económica abrangidos neste estudo5, e outros parceiros e atores
sociais (associações empresariais, confederações sindicais, desempregados e
trabalhadores precários e especialistas da temática). Os militantes sindicais
constituíram o grupo de análise presente em todas as sessões. Estes encontros
foram gravados e, posteriormente, transcritos, para se proceder a uma análise
de conteúdo temática.
Na investigação sobre os processos de resolução de conflitos laborais
(individuais e coletivos), foram realizados dois estudos de caso, de onde se
destacou o exemplo da SATA-SNPVAC. Nesta pesquisa utilizou-se uma metodologia
qualitativa, baseada em entrevistas semi-diretivas às organizações sindicais e
entidades patronais envolvidas nos conflitos.
Evolução da Situação Contextual das Relações Laborais na Sociedade Portuguesa
As questões formuladas apontam para a análise das relações entre trabalhadores,
os seus representantes e o patronato, no sentido de averiguar se nas empresas
estudadas se criaram estruturas descentralizadas de repartição de poderes no
seio do coletivo de trabalhadores, ou se, pelo contrário, a tomada de decisões
pertence a um grupo restrito no qual as bases delegaram poderes. E, por
outro lado, se as práticas de oposição ao patronato foram de tipo mais
institucional (por exemplo, a negociação), ou, ao contrário, claramente
antagonistas (ações diretas antipatronais)6.
Com efeito, depois de um longo período marcado pelo regime corporativo, a fase
posterior à Revolução de 1974 é marcada por uma transformação profunda do
contexto político, económico e cultural da sociedade portuguesa.
As greves e os conflitos de trabalho sucedem-se. A sociedade produz-se a si
própria. Logo após o 25 de abril, é fixado o salário mínimo nacional, que se
aplica a cerca de 50% da população ativa por conta de outrem, o que implicará
consequências nos processos globais, quer da formação dos salários, quer de
criação e supressão de emprego. As pensões de reforma são atualizadas e inicia-
se um sistema de subsídio de desemprego. Restringem-se as possibilidades de
despedimento, quer individual, quer coletivo. Diminui-se a duração do trabalho.
No âmbito das relações coletivas de trabalho, estabelece-se o regime geral das
associações sindicais e patronais. Sucedem-se as nacionalizações de setores
importantes da economia nacional.
Numa segunda fase, compreendida entre 1976 e 1981, institucionaliza-se
progressivamente um sistema de relações industriais, implantam-se
crescentemente os sindicatos e as células partidárias, normalizam-se as
transformações da fase anterior e é reconhecido o pluralismo sindical.
Na terceira fase, entre 1982 e 1986, aumenta a crise económica, eleva-se o
nível de desemprego, dá-se a integração na Comunidade Económica Europeia e
acentua-se a competitividade entre as centrais sindicais.
Numa quarta fase, entre 1987 e 1990, verifica-se uma recuperação económica,
diminui o desemprego, o emprego precariza-se, fragmenta-se a consciência de
classe e o sindicalismo participativo reforça-se.
Na fase seguinte, a globalização económica acentua os seus efeitos, mas, a
partir da década de 80, a crise económica e a especulação financeira criam as
condições para uma expansão das políticas neo-liberais, que vêm agravar o
dualismo social entre os protegidos pelo sistema e os excluídos dos benefícios
sociais, entre os quais os precários.
As Consciências dos Trabalhadores
No que concerne ao estudo de caso da Autoeuropa, partimos da hipótese elaborada
por A. Touraine (1978), e reelaborada ulteriormente na intervenção sociológica
realizada em 1989 (Lima etal., 1992), de que as identidades e as consciências
dos trabalhadores são heterogéneas.
Nas fases mais antigas, anteriores ao taylorismo e ao fordismo, a organização
do trabalho centrava-se em pequenas equipas, em que o operário de ofício
organizava o seu próprio trabalho, mantendo uma autonomia profissional baseada
no seu saber-fazer. A consciência da sua condição pode ser definida pela
consciência positiva da utilidade social do seu trabalho.
No polo oposto encontram-se os operários sem ofício, destinados a desempenhar
os trabalhos mais penosos e que não requerem qualquer tipo de qualificação,
habitualmente com comportamentos economicistas.
A introdução da organização científica do trabalho veio alterar o modo como os
operários se relacionam com o trabalho e entre si. O taylorismo e o fordismo
submetem-nos a uma organização que lhes é cada vez mais estranha. Esta situação
é baseada nas poucas referências históricas que são feitas pelos militantes,
nomeadamente na indústria têxtil, automóvel e nas telecomunicações ou mesmo na
banca, anteriormente à racionalização e modernização ocorridas nas últimas
décadas.7
Uma vez que o taylorismo e o fordismo já se encontram num processo de crise e
mudança, podemos afirmar que as fases marcadas pelas novas tecnologias de
produção e informação dominam o grupo em análise na intervenção sociológica,
como revela o esquema da figura 1.
Figura 1
Consciência dos Trabalhadores
As intervenções de alguns militantes permitem-nos identificar novas
consciências gestionárias, que correspondem à transição para a sociedade neo e
pós-industrial, nos trabalhadores muito qualificados. Estes mostram-se
recetivos à modernização, ao sindicalismo de proposição e a temas negociáveis:
são os casos do representante da Comissão de Trabalhadores (ct) da Autoeuropa e
de outros interlocutores.
De acordo com Correia (2008, p. 157), o facto de o modelo de produção e
organização do trabalho na Autoeuropa estar baseado na flexibilidade, na
polivalência e na autonomia dos trabalhadores aproximam-no de um modelo pós-
fordista e do toyotismo concebido por Ohno para a Toyota.
Outras intervenções enquadram-se nas consciências políticas (consciências de
classe positivas), em que os temas do conflito social, da crítica ao neo-
liberalismo económico ou ao capitalismo são dominantes.
Isto não exclui que se verifique por vezes uma certa hibridez nos discursos, em
que quer a negociação e o conflito, quer o diálogo e as contestações são
defendidos consoante a conjuntura económica e política.
Houve autores que chegaram a falar em neo-corporativismo e em nova classe
operária, a propósito de trabalhadores com um estatuto, nível de instrução,
integração no mercado de trabalho, qualificação e nível de remunerações
superiores aos médios. É a esse propósito que se fala cada vez mais em
segmentação do mercado de trabalho e na separação entre trabalhadores
protegidos e desprotegidos.
De uma maneira geral, também o sindicalismo de serviços (apoio à assistência
médica, aos fundos de pensões, aos tempos livres, ao aconselhamento jurídico,
técnico, financeiro e económico aos associados) encontra em geral defensores,
não havendo ninguém que se lhe oponha, embora seja nos setores bancários e da
aviação civil, nomeadamente no pessoal de bordo (como é o caso da SATA), que se
verifica mais frequentemente, bem como nos militantes de sindicatos não
filiados em nenhuma central sindical. Aplica-se à SATA um conjunto de
características que revelam bem o poder significativo dos tripulantes de cabina
inscritos no SNPVAC que nos conduz à sua qualificação de consciências neo-
corporativas.8
As entrevistas realizadas em profundidade a representantes da direção da SATA e
do SNPVAC confirmam a qualificação da consciência neo-corporativa do pessoal de
bordo. Os salários, o nível de instrução, a qualificação, o poder e o saber-
fazer são consistentes com o conceito.
Estudos de Caso
A autoeuropa
Aquando da sua implementação em Portugal, a Autoeuropa, no âmbito da negociação
coletiva, poderia optar pela sua integração na associação patronal do setor, e
seguir as regras estabelecidas no Contrato Coletivo de Trabalho (cct), ou
negociar um acordo de empresa com os sindicatos. Segundo Correia (2008, p.
131), a adesão ao cct possuía a vantagem de evitar o desgaste e a
conflitualidade associados aos processos negociais, mas também tornava mais
difícil desenvolver um dos objetivos primordiais da empresa: criar uma
política laboral assente na flexibilidade. A negociação de um AE com os
sindicatos faria com que a empresa possuísse uma maior liberdade de ação para
empreender a estratégia traçada para o campo das relações laborais, mas possuía
os inconvenientes de uma maior instabilidade devido à negociação com as
organizações sindicais e nomeadamente com a cgtp9
A empresa aderiu ao cct criado para o setor automóvel, embora tivesse a
intenção de não cumprir o conjunto total de cláusulas estabelecidas, que a
impediriam de conduzir as políticas da flexibilidade. Inicialmente, a
Autoeuropa pressionou a associação patronal com o objetivo de modificar algumas
cláusulas do cct. Uma das alterações mais importantes verificou-se ao nível das
categorias profissionais.
De acordo com Correia (2008, p. 135), a adesão do Estado português à Carta
Social Europeia permitiu às empresas, no espaço nacional, realizarem acordos
informais ao nível da negociação coletiva. Desta forma, do ponto de vista
legal, o processo negocial adotado pela empresa não pode ser perspetivado como
ilegítimo. A adesão da Autoeuropa ao cct criado para o setor automóvel
constituiu-se como meramente formal.
Desde 1994 que a Autoeuropa tem vindo a fazer negociação interna de acordos
informais com a ct, no seu conjunto 10 acordos, que se tem caracterizado por
uma prática de negociação repetida.
Assim, após a primeira revisão salarial, a Autoeuropa começou a negociar
diretamente com a ct. No que diz respeito às relações com as organizações
sindicais, foram apenas cumpridos os requisitos mínimos exigidos por lei e
tentou-se diminuir as suas bases de apoio no interior da empresa. O facto de a
empresa privilegiar a negociação direta com a ct e de tentar fragilizar as
representações sindicais era fundamental para o pleno desenvolvimento dos seus
objetivos negociais (Correia, 2008, p. 136).
Segundo Correia, até 1997, a empresa manteve relações privilegiadas e próximas
com a ct, exercendo uma enorme influência sobre as suas decisões. Esta situação
alterou-se a partir do momento em que a cgtp começou a estar mais representada
na ct. Nesta altura, começou a aumentar exponencialmente o número de
trabalhadores sindicalizados: em 1994, o total dos trabalhadores sindicalizados
era apenas de 7,5% e em 2006 passou a constituir 48%. Do conjunto dos
trabalhadores sindicalizados, 74% pertencem ao stimms10, 23% ao sindel11 e 7%
ao sima12 (Correia, 2008, p. 141).
Este autor (Correia, 2008, p. 141) defende ainda que o facto de a cgtp possuir
o maior número de trabalhadores sindicalizados não impediu a empresa de levar a
cabo a estratégia de flexibilidade laboral e de cumprir a paz social.
Os acordos laborais celebrados entre a administração e a ct têm sido
considerados como inovadores e como exemplo de boas práticas no âmbito da
negociação coletiva no setor automóvel. Assentam na procura de um consenso na
estratégia de relações laborais, tendo em vista a negociação da melhoria das
condições laborais e a manutenção dos níveis de competitividade da empresa, e
constituem o resultado de negociações ponderadas e persistentes, dentro de um
espírito de compreensão mútua. É de destacar o importante papel que a ct da
empresa assumiu em todo esse processo e que foi decisivo para a obtenção do
consenso desejado.
O rumo negocial que tem sido desenvolvido pela administração e pela ct conduz
Correia (2008) a concluir que o estado das relações laborais passou de uma
estratégia competitiva para uma estratégia de maior cooperação.
Este processo de negociação entre a Autoeuropa e os trabalhadores é considerado
pelo representante da ct como um exemplo único no campo das relações laborais
em Portugal:
Nesta empresa há uma prática de diálogo social e de co-gestão completamente
diferente das outras empresas. Fora daqui temos o patrão típico. Por isso a
grande conflitualidade também que existe por esse país fora. E a falta de
diálogo.
De acordo com um membro de um sindicato afecto à ugt (sindel), esta prática de
diálogo entre a Autoeuropa e a ct deveria ser seguida e reiterada no seio do
tecido empresarial português:
Veja-se a prática que inclusivamente existe dentro da empresa de respeito para
com as estruturas sindicais, digamos que isto não é uma prática portuguesa isto
é uma prática tradicional dos países da Europa Central, dos países nórdicos, em
Portugal nunca houve muito respeito quer os sindicatos pelo patronato, quer o
patronato pelas estruturas sindicais. E isso não ajuda a encontrar soluções e a
encontrar caminhos que permitam acordo, o que leva a que as partes se tornem
quase inflexíveis [ ] Portanto, quando se diz que a Autoeuropa é um exemplo, é
um exemplo interno, é um exemplo que era bom que os outros seguissem e que as
outras empresas também seguissem, nomeadamente pelo respeito que têm para com
os trabalhadores.
Inicialmente, quando a empresa se encontrava na fase de lançamento, de
estabelecimento e consolidação de processos de modo a garantir a longo prazo a
produtividade e o melhoramento contínuo, os acordos laborais realizados
centraram-se em matérias como os aumentos salariais, a redefinição do pagamento
de horas noturnas nos subsídios de férias e de Natal, a otimização dos horários
de trabalho (introdução de um regime de trabalho por turnos, horário de
laboração contínua, redução do horário para os trabalhadores do turno central
com 44 horas de trabalho por semana), o funcionamento do refeitório e a
conversão de contratos temporários em contratos permanentes (Autoeuropa, 1994,
1995, 1996-1998).
Na base dos acordos 1998-1999, 2000-2002 e 2002-2003 estiveram os aumentos
salariais baseados na avaliação de desempenho, o prémio de objetivos sujeito à
obtenção de resultados coletivos e individuais, e o compromisso de converter os
contratos temporários em contratos permanentes de acordo com o volume de
produção, a situação de mercado e os indicadores financeiros.
Em 1998 foi introduzido o reconhecimento do princípio da flexibilidade como
modus operandi de grande importância para o funcionamento da empresa.
No ano de 2003, tendo em consideração o cenário económico internacional, o seu
impacto negativo na indústria automóvel e a consequente situação da economia
nacional, tornou-se inevitável a subscrição de um acordo que permitisse
ultrapassar momentos menos prósperos, marcados pela significativa quebra na
produção, sem recurso a despedimentos coletivos. Nesse ano, para uma produção
de cerca de 109 000 unidades estavam previstos 16 dias de paragem de produção,
esperando-se um cenário mais negativo no ano seguinte com o agravamento da
situação de mercado, com uma previsão de produção de cerca de 95 000 unidades e
35 dias de paragem de produção.
Foi assumido entre as partes o compromisso de discutir e desenvolver um esquema
de organização do tempo de trabalho que permitisse a troca de dias de paragem
por motivos de falta de encomendas por sábados e feriados, com o objetivo de
garantir a manutenção do maior número de postos de trabalho.
A proposta em cima da mesa de negociação era a seguinte: 51 dias por ano de
paragem de produção na fábrica de Palmela ou o despedimento de 570 dos seus
3200 trabalhadores efetivos. Devido a alterações nos mercados e ao tempo de
vida dos modelos, as exigências da produção alteram-se, sendo que as paragens
de produção permitem o ajuste do volume de produção às necessidades do mercado.
Em junho de 2003 foi celebrado um acordo, considerado histórico (Autoeuropa,
2003), entre a administração e os trabalhadores (acordo de reorganização do
tempo de trabalho), em que foi introduzido o conceito de conta de tempo para
proteger a manutenção dos postos de trabalho. Este acordo teve a aprovação de
78,1% dos trabalhadores.
Os trabalhadores abdicam de 3,3% do seu aumento salarial em 2003 e convertem-no
em 10 dias não trabalháveis por ano e marcados junto a fins-de-semana,
feriados, folgas ou períodos de shutdown. Foi acordado que estas paragens
poderiam fazer-se em anos de baixo volume, sendo compensadas a posteriori.
Com a celebração deste acordo, reconheceram as partes estar a dar um passo
marcante para possibilitar a manutenção dos postos de trabalho. Por outro lado,
através deste acordo, a Autoeuropa demonstrou estar preparada para enfrentar os
desafios futuros, uma vez que tem mão-de-obra qualificada, capacidade instalada
e capacidade de adaptabilidade às flutuações de mercado.
Segundo o representante da ct, este acordo constituiu-se também como uma forma
de enfrentar os possíveis processos de deslocalização:
A questão da deslocalização é hoje em dia, ou se previne ou não se evita!
Depois o que se entra é num campeonato de ver qual é a associação sindical que
melhor, mais indemnizações consegue para os seus associados. Eu penso que não é
por aí que vamos lá, não é esse campeonato que eu quero jogar, nem os
trabalhadores da Autoeuropa têm jogado e nem foi esse o campeonato que jogaram
em 2003, foi o campeonato da prevenção. E a prevenção em relação a essas coisas
faz-se efetivamente olhando para a Europa, verificando o que se passa na Europa
e tentando na medida do possível adaptar Portugal, neste caso a Autoeuropa a
essas questões.
O acordo 2003-2005, que contou com a aprovação de 62,3% dos trabalhadores,
anulou a proposta de despedimento de cerca de 850 trabalhadores dos 3300 postos
de trabalho levada para a mesa das negociações pela administração, atendendo à
redução da produção em mais de 40 000 unidades, num cenário de crise profunda
no mercado automóvel, fruto da recessão que afeta todas as economias.
Os trabalhadores abdicaram de dois anos sem aumentos salariais, pelas seguintes
garantias: impossibilidade de despedimento coletivo até 2005, manutenção de
dois turnos rotativos, aquisição de mais doze dias vitalícios (ficando com um
total de vinte e dois dias para enfrentar paragens anunciadas), pagamento a
cada trabalhador do 15.º mês assim que os volumes de produção regressassem ao
normal (que segundo as previsões da administração aconteceria em 2006 com o
início da produção de um novo modelo), pagamento a cada trabalhador de um
prémio especial de 550 para enfrentar o período de outubro de 2004 a dezembro
de 2005; melhoria dos dias de férias (23 dias para todos, 24 dias para quem
tenha até 24 h de ausências e 25 dias para quem tenha 8 h de ausências), prémio
de trabalhador estudante (de 180), aumento do seguro de vida.
Ambas as partes demonstraram com a negociação deste acordo que é possível
encontrar alternativas flexíveis para fazer face às adversidades.
O representante da ct afirma que este tipo de negociação baseado nos acordos de
soma não nula tem permitido quer o sucesso da empresa, quer a manutenção dos
direitos laborais dos trabalhadores:
Como costumamos dizer Ganhar-Ganhar e não Ganhar-Perder, resultados de um a
zero nas relações laborais são muito complicados, seja para que lado for! Penso
que os melhores resultados são os empates.
Apesar dos progressos dos últimos acordos no que diz respeito à flexibilidade,
a empresa considerava urgente prosseguir com melhorias adicionais.
O acordo 2005-2006, reflete o entendimento da empresa e dos seus trabalhadores
sobre a forma de como tornar a empresa mais competitiva, melhorando as
condições de compensação dos trabalhadores e contribuindo para a manutenção e
criação de emprego. Neste período, a prioridade da empresa consistia na
conquista de novos produtos para garantir a manutenção do emprego.
Este acordo, aprovado por 76,8% dos trabalhadores, previa os aumentos
salariais, a compensação adicional a todos os trabalhadores como forma de
reconhecimento do seu nível de envolvimento na fase de lançamento do modelo
Eos, prémio de objetivos, acréscimo de um dia de férias, continuação da
conversão de contratos temporários em contratos permanentes, garantia de
emprego e de não ocorrência de despedimentos coletivos.
Por outro lado, ficou também definida a redução no pagamento do trabalho
suplementar, válida enquanto não se concretizasse nenhum despedimento coletivo.
A resposta encontrada foi a de, mais uma vez, preservar os postos de trabalho,
manter a exigência dos aumentos salariais e procurar pontos comuns que, embora
contendo cedências, nomeadamente no preço das horas extraordinárias,
possibilitassem uma solução menos desfavorável para os trabalhadores.
No ano de 2006 estava por decidir a localização da fábrica que iria receber o
sucessor do modelo Sharan. Para além disso, estava delineado o lançamento de
vários produtos da marca Volkswagen. A atribuição de novos modelos à Autoeuropa
consistia numa questão de extrema importância para o futuro da fábrica de
Palmela.
Neste contexto, a administração da empresa defendia a necessidade de introdução
de medidas que permitissem otimizar a capacidade instalada, fortalecer a
capacidade de produção, flexibilizar a estrutura de custos e de reação às
exigências cada vez mais competitivas do mercado.
A perda de direitos dos trabalhadores para garantir a competitividade da
fábrica e a produção de novos veículos e impedir despedimentos constituiu a
base do acordo 2006-2008. Com a sua assinatura, que contou com a aprovação de
62,2% dos trabalhadores, foi garantida a não concretização de despedimentos
coletivos na empresa até dezembro de 2008.
Este acordo contemplou o aumento salarial de 4,5% por dois anos (aumento médio
de 3% ao ano), a atualização das tabelas salariais em 1% no final do acordo, a
gratificação excecional por adaptabilidade a novos produtos (para premiar a
adaptabilidade laboral) que corresponde ao pagamento mínimo de 1200 num máximo
de 1,2 salários, o pagamento do trabalho extraordinário aos sábados e feriados
a 200% em dinheiro e 25% em tempo compensatório, a rotatividade dos
colaboradores distribuídos por todos os modelos (formação + plano de turnos), a
continuação da conversão de contratos a termo para contratos sem termo e a
passagem de contratos temporários para contratos a termo com a Autoeuropa.
Neste acordo, mantém-se o prémio de objetivos, o subsídio trabalhador-
estudante, as férias e os feriados.
Atendendo ao agravamento da situação de fragilidade da economia mundial, com
repercussões na confiança do cliente final, a Autoeuropa, que continua a
produzir abaixo da capacidade instalada, vê-se, mais uma vez, confrontada com a
necessidade de otimização da produção para responder de forma flexível às
oscilações do mercado.
O representante da ct considera que este acordo foi inovador porque se norteou
pelo estabelecimento de princípios diferentes dos estipulados no cct do setor.
O último acordo, esse sim foi bastante inovador. Eu diria que roça, de certa
maneira, alguma ilegalidade contratual, só justificada segundo alguns
professores de direito laboral porque foi votado pelos trabalhadores, mas que
não limpa a ilegalidade da questão, embora seja moralmente justificável, porque
nós reduzimos o custo do trabalho extraordinário que em Portugal é de 300% para
200%. Toda a gente sabe que em termos da legislação e da Constituição da
República só aos sindicatos é permitido fazer cct. E o cct do setor estipula
que as horas extraordinárias dos trabalhadores do setor são pagas a 300%. E o
que nós acordámos foi que pagando 1,2 salários a cada trabalhador, no mínimo 1
200, as horas extraordinárias passam a ser pagas a 200% em vez dos 300%.
Afirma também que só o estabelecimento deste acordo permitiu a produção de
novos modelos e a manutenção dos postos de trabalho:
Eu próprio fui chamado à Alemanha, estive com o diretor de Recursos Humanos e
com o diretor da Produção, e foi medonha a forma como as coisas foram colocadas
em cima da mesa: o alemão ganha 50% a um sábado e o português ganha 300%, isto
em percentagem. Mas nós levámos as contas feitas em dinheiro e mesmo com essas
diferenças em termos de dinheiro ficava tudo igual. E eles disseram logo: Mas
se eu quisesse pagar o mesmo tinha construído a fábrica na Alemanha e não em
Portugal!
Eu voltei a Portugal com as informações, reunimos a ct e partimos para a
negociação. Fomos então buscar os tais 1 200 como contrapartida, que eles não
queriam dar. E colocámos o acordo à votação dos trabalhadores. Votaram 88% dos
trabalhadores e quase 70% estavam a favor do acordo.
Mas nós reconhecemos que é um acordo inédito em Portugal, em que uma empresa
internamente discute o melhor para os trabalhadores e para a empresa.
No acordo 2008-2010, aprovado por 70,3% dos trabalhadores, é mantido o
compromisso de prevenção de despedimentos, comprometendo-se a empresa a não
concretizar despedimentos coletivos até dezembro de 2010. Fica, no entanto, a
ressalva de que no caso de o cenário económico se alterar significativamente e
o volume de produção diminuir devido a reduções nas encomendas, a administração
e a comissão de trabalhadores iniciariam negociações para encontrar soluções.
No que diz respeito à organização do tempo de trabalho, este acordo estabelece
que os 22 dias úteis de não produção (downdays), adquiridos no acordo 2003-
2005, serão utilizados para fazer face ao volume de produção.
No ano de 2009, com o agravamento da conjuntura económica mundial, a empresa
Autoeuropa passou também a viver momentos de incerteza devido à diminuição do
número de encomendas e consequente decréscimo nas unidades produzidas. Estes
fatores conduziram a empresa a propor um pré-acordo tendo em vista uma nova
organização do tempo de trabalho, nomeadamente uma maior flexibilidade laboral
nos tempos de crise. Os trabalhadores votaram desfavoravelmente este pré-acordo
entre a Comissão de Trabalhadores e a administração da empresa, com 51% de
votos contra. No entanto, apesar disso, houve posteriormente um esforço comum
no sentido de evitar despedimentos em troca da flexibilidade de horário anual
(banco de horas).
No âmbito da responsabilidade social, a Autoeuropa tem realizado algumas ações
junto da comunidade local ' oferta de carros para instituições de bombeiros e,
entre outras, doações de computadores para instituições de solidariedade
social. No plano ambiental, tem construído equipamentos ecológicos que a
transformam, a nível mundial, numa das empresas da indústria automóvel que
mantém um dos mais baixos níveis de poluição (Correia, 2008, p. 155).
SATA/SNPVAC
O processo de mediação laboral entre a SATA e o SNPVAC constitui igualmente um
exemplo de boas práticas no contexto da negociação coletiva.
Em 2006 foi feita a denúncia, por ambas as partes, do AE em vigor. A empresa
pretendia adaptar o AE ao novo Código do Trabalho e o sindicato perspetivava um
acordo melhor, semelhante ao da empresa TAP.
De acordo com o responsável pela área de Recursos Humanos,
O sindicato fez a denúncia do acordo com a perspetiva de conseguir um acordo
substancialmente melhor, copiado da tap. E nós fizemos a denúncia do acordo
também para procurar acertar algumas cláusulas que não teriam corrido bem
naqueles dois anos de vigência [acordo anterior], para procurar adaptá-las mais
ao que era entretanto também já a experiência do Código do Trabalho (ct).
Já o representante do SNPVAC refere:
Fizemos o primeiro AE com a SATA em 2004. Era um livrinho assim muito
pequenino. E passados dois anos de vigência iniciámos as negociações para outro
acordo. [ ] A empresa não cumpria em 70% o acordo. Não cumpria os tempos de
descanso. Não cumpria as tripulações-tipo. Não cumpria o que tinha a ver com o
clausulado geral. Não cumpria as férias. Não cumpria as trocas. Não cumpria as
folgas. [ ] Nas negociações diretas goraram-se aqui as expectativas porque não
fomos capazes de nos entender.
As negociações diretas começaram em janeiro de 2007, e ao fim de quatro
reuniões o SNPVAC abandonou a mesa das negociações, alegando má fé negocial por
parte da empresa e a inexistência de vontade em atingir um acordo. Por seu
turno, a SATA afirmava ter sido criado pelo sindicato um clima reivindicativo
desfavorável, que poderia colocar em causa a viabilidade económica da empresa:
Ao fim de quatro reuniões de negociação os delegados sindicais abandonaram a
negociação. [ ] Invocaram falta de respeito por parte da SATA e falta da
resposta às suas propostas, mas na realidade até usaram na altura um pretexto
prático Numa reunião pediram o Manual de Operações de Voo, que é uma coisa
inusitada porque numa negociação não se está a discutir o Manual de Operações
de Voo, mas sim as leis do trabalho. E as pessoas que representavam a SATA no
dia seguinte não levaram o manual e eles abandonaram a negociação dizendo que
a outra parte nem sequer os seus pedidos atendia e abandonaram. E depois
escreveram várias cartas à SATA a dizer que houve falta de respeito e
incumprimento de algumas cláusulas, foram criando um clima reivindicativo.
Em maio de 2007 o conflito agravou-se e foram suspensas as negociações diretas.
O SNPVAC emitiu um pré-aviso de greve, que se veio a concretizar. Segundo o
interlocutor da SATA,
[ ] depois da entrega do pré-aviso de greve houve imensas reuniões de tentativa
de conciliação, [ ] desde logo para estabelecer os serviços mínimos, mas também
para tentar um acordo. E foram conseguidos dois acordos. E [ ] quando vieram
com os acordos à Assembleia de Trabalhadores, como eles dizem, em ambos os
casos os acordos foram chumbados. [ ] A proposta para o segundo acordo já
continha um esforço bastante grande pela nossa parte e deixámos fazer a greve.
Mas foi um drama, porque chegou até a haver alguma selvajaria aqui no
aeroporto. Foi preciso chamar a polícia! Foi uma coisa rara, porque hoje em dia
as greves fazem-se fazem-se piquetes de greve e há umas regras civilizadas [ ]
E neste caso aqui foi uma surpresa para nós porque se organizou aí um grupo
deles de 20 ou 30 que andavam aí à solta no aeroporto a ameaçar os colegas. Foi
muito difícil! Muito difícil!
Num clima de acentuada conflitualidade, em junho de 2007, as partes requereram
o processo de conciliação junto da Direcção-Geral do Emprego e das Relações de
Trabalho, do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social (DGERT-MTSS).
Nessa altura a empresa entendeu
[ ] pedir uma conciliação, porque era uma sede em que podia haver mais uma
testemunha, mais do que a influência do Ministério do Trabalho, a conciliar
ativamente, era estarmos na presença de uma outra entidade em que as partes
tinham que ter pelo menos uma justificação para abandonar as negociações, por
exemplo, ou para vir com uma proposta que fosse completamente desrazoável.
Ao fim de um ano as partes continuavam ainda em desacordo relativamente a
certas matérias consideradas vitais para a celebração de um acordo, pelo que
decidiram recorrer à mediação, dando ao representante da DGERT um papel mais
ativo, assumindo a responsabilidade de apresentar uma proposta para a resolução
do conflito.
Na perspetiva do interlocutor da SATA:
Foi um processo bastante difícil. Como aquilo se prolongou sem e caía-se de
impasse a impasse, na altura, com algum cuidado, para não provocar mais um
conflito a dizer que estávamos a fazer manobras dilatórias, propus ao
sindicato que se passasse para a fase da mediação, para permitir ao conciliador
ser mais ativo, digamos assim, e fazer propostas. E foi o que aconteceu.
Por outro lado, de acordo com o representante do SNPVAC,
Na primeira fase houve muitas tentativas para chegarmos a acordo, mas não
conseguimos. [ ] Nas negociações diretas goraram-se as expectativas e não fomos
capazes de nos entender. [ ] Fomos obrigados a pedir ao representante do
Ministério do Trabalho que fizesse a parte dele e que apresentasse ao sindicato
e à empresa uma proposta onde pudéssemos chegar a um entendimento.
Atendendo às matérias em conflito (carreiras, prestação de trabalho e tabela
salarial) o mediador reuniu separadamente com a empresa e com o sindicato,
apresentando uma proposta de mediação que foi aceite pelas partes, que se
consubstanciou na revisão global do AE.
A este nível, o representante do sindicato refere que
O MT ainda insistiu em mais reuniões. E aí, de alguma maneira, houve também uma
boa disposição por parte do sindicato, e também por parte da empresa, para
aceitar aqui alguns aspetos fundamentais. A empresa também teve alguma atenção
noutros aspetos que nós pedimos, como os seguros de saúde e outros aspetos
fundamentais para nós, como as folgas e os fins-de-semana.
Os tripulantes de cabine estão numa posição estratégica que lhes permite fazer
greves e/ou ameaças de greve que podem ser muito prejudiciais para a companhia.
Acrescem a juventude, os elevados níveis de instrução e qualificação e a
influência exercida por outras empresas com características semelhantes, como a
tap e a Portugália.
A justificação do representante da empresa resume-se desta forma:
Em relação ao pessoal de cabine, só para vos explicar porque é que demorou este
tempo todo, e porque é que foi tão difícil chegar a acordo, foi porque são
pessoas muito novas que copiam modelos sem uma direção efetiva e sem uma
disciplina de reivindicação, o que acaba por ser uma situação em que era
desejável haver um interlocutor forte e organizado que disciplinasse a classe.
Importa salientar que assinado o AE, depois da greve, onde se assumiram
compromissos e cedências recíprocas nas reivindicações, foi possível alcançar a
paz social na empresa. A leitura do AE converge no mesmo sentido: atividade dos
tripulantes, mobilidade funcional, direitos, deveres e garantias das partes,
formação profissional contínua, compensação das interrupções do trabalho,
regime de faltas, normas da maternidade e paternidade, estatuto do trabalhador
estudante, segurança social e benefícios complementares, importância do risco e
da segurança, higiene e prevenção, saúde no trabalho, tempos de repouso,
escalas, polivalências e evolução na carreira profissional.
Deve também sublinhar-se a excecionalidade da importância da intervenção da
DGERT. Num sistema de relações laborais em que as mediações do Ministério são
muito raras, as pressões para se chegar a um acordo são notórias.
As afirmações do interlocutor do SNPVAC apontam nesse sentido:
O Ministério do Trabalho, na pessoa do [conciliador/mediador] teve um papel
fundamental na apresentação das propostas que fez, o que levou a que a partir
das suas propostas se conseguisse chegar a um entendimento entre ambas as
partes. Esgrimiram-se ali mais alguns pontos, mais umas coisinhas que ficam
sempre por alinhavar nesta parte da aviação comercial; é um setor muito
particular, que tem umas leis muito picuinhas, desculpem-me a expressão. Mas
pronto, depois acabou e culminou na assinatura do AE e penso eu que será caso
único.
Conseguimos assinar o acordo em Assembleia-Geral, onde foi votado
favoravelmente, porque a direção não está legitimada segundo os estatutos deste
sindicato para assinar por si só. Portanto, as pessoas ficaram satisfeitas e
neste momento existe aqui alguma paz em relação a este aspeto.
O AE está em vigor e até ao momento ainda não há grande polémica entre as
partes. Há já aqui alguns desentendimentozinhos, mais isso tudo faz parte
dessa coisa entre sindicatos e empresas.
Considerações Finais
A evolução do setor automóvel continua a seguir a tendência da conjuntura
internacional e da situação da atividade de produção automóvel ao nível
mundial. Nos últimos anos, devido à diminuição geral do número de encomendas,
as fábricas a operar em Portugal registaram fortes decréscimos no número de
unidades produzidas, com a suspensão temporária da atividade e dos
trabalhadores e a consequente redução de postos de trabalho.
Mesmo neste contexto de crise económica, a empresa Autoeuropa tem procurado a
manutenção dos postos de trabalho, através da negociação de acordos baseados na
lógica do compromisso da transação (Pizzorno, 1971). Estes acordos têm sido
uma referência no diálogo social e nas práticas laborais no setor automóvel,
embora não sejam praticados por outras empresas.
Uma boa prática associada à empresa é a tentativa de alcançar acordos sem
qualquer recurso à greve.
É necessário também considerar que os trabalhadores da Autoeuropa se
diferenciam dos trabalhadores da indústria transformadora, por serem
detentores de níveis de escolaridade, formação e de qualificações
profissionais superiores. Estes fatores, juntamente com a cultura desenvolvida
pela empresa, podem condicionar um melhor entendimento entre as partes
(considerar os colaboradores como a chave do sucesso, grande investimento na
formação profissional dos trabalhadores, contribuição para o desenvolvimento
económico da região).
O exemplo da SATA é igualmente demonstrativo da procura de entendimento entre
os parceiros sociais no âmbito da negociação coletiva. Fracassadas as
negociações diretas entre a empresa e o SNPVAC, e após a realização de uma
greve, as negociações foram retomadas com o auxílio de uma entidade externa,
que conseguiu conciliar as partes e obter uma revisão global do AE. Estes
processos extrajudiciais de resolução de conflitos de trabalho são pouco
requeridos para estes fins, sendo este o único conflito com resultados
positivos na regulamentação das relações laborais na sociedade portuguesa.