Jesuítas e Inquisição: Cumplicidades de Confrontações
José Eduardo Franco e Célia Cristina Tavares,Jesuítas e Inquisição:
Cumplicidades de Confrontações,Rio de Janeiro, Editora da Universidade Estadual
do Rio de Janeiro, 2007, 133 páginas.
Juan Ignacio Pulido Serrano
Universidade de Alcalá
A obra que aqui analisamos, Jesuítas e Inquisiçãode José Eduardo Franco e Célia
Cristina Tavares, é um livro necessário e oportuno, pois propõe-nos uma
reflexão serena e matizada sobre alguns aspectos principais da nossa
modernidade num universo geográfico central como é o de Portugal e o das suas
conquistas. Aspectos e problemas da modernidade ocidental, na sua projecção
atlântica, nem sempre bem compreendidos.
O esforço realizado por José Eduardo Franco e Célia Cristina Tavares para
favorecer uma melhor compreensão destas duas instituições, a Companhia de Jesus
e o Tribunal do Santo Oficio, vem de trás, desde as suas primeiras
investigações, o que lhes permite manejar a bibliografia fundamental, as
pesquisas mais recentes, e as fontes documentais necessárias para levar a cabo
este trabalho.
O objectivo do presente estudo é a desconstrução dos mitos elaborados no
século xviii e xix, os quais forjaram uma imagem deformada da Inquisição e dos
Jesuítas e, portanto, distante da realidade. O quarto e último capítulo do
livro explica-nos, precisamente, como foi criado o referido mito na época do
Marquês de Pombal, legando à posteridade uma interpretação simplificada e
polarizada daquela realidade que chegou aos nossos dias como um sólido edifício
ideológico. Os autores, bons conhecedores do terreno que pisam, dão-nos as
chaves principais para explicar as razões e o sentido daquele mito: a suposta
cumplicidade e cooperação entre os inquisidores e os jesuítas para assegurarem
o seu domínio sobre a sociedade foram a causa do atraso secular e diferenciado
de Portugal e do Brasil perante o resto da Europa. É este o problema de fundo
que os historiadores nos apresentam. Um assunto de extraordinário interesse,
incitador de debate e de reflexão.
A análise das relações de cumplicidade e confrontação mantidas entre a
Inquisição e a Companhia de Jesus durante os séculos xvi exvii, tema que ocupa
os três primeiros capítulos do livro, pretende cobrir o vazio que deixa a
desconstrução do mito anti-jesuítico e anti-inquisitorial. Não se trata de
substituir uma imagem negativa por outra com contornos hagiográficos. O que se
procura é fundamentalmente compreender, rejeitando juízos apriorísticos. Isto
torna-se mais premente quando falamos de um tema polémico como o da Inquisição
ou o da Companhia de Jesus, pois ambas foram instituições protagonistas da
modernidade ocidental, concretamente no âmbito da catolicidade. Duas
instituições com histórias paralelas, marcadas por paradoxos e problemáticas
semelhantes.
O fenómeno religioso foi uma das chaves dessa primeira modernidade, entre o
século xv e xvi. As sociedades de então eram profundamente religiosas e regiam-
se por poderes que impulsionaram políticas confessionais com o fim de realizar
projectos político-religiosos. Mas todo este processo decorreu num contexto de
profundo e violento conflito. Neste sentido, a Inquisição e os Jesuítas foram
instituições com um alto grau de protagonismo. A elas se lhes confiou, em boa
medida, a expansão e defesa da Igreja Católica. Os Jesuítas, devotando-se à
missão de converter os não-católicos, com estratégias e meios precisos e
eficientes. Os inquisidores, empenhandose na eliminação do erro doutrinal pela
aplicação do direito punitivo e da repressão, administrando as fórmulas
necessárias para reconciliar o herege com a Igreja e, em casos extremos,
fazendo uso do fogo purificador.
Duas instituições, portanto, com procedimentos e objectivos próprios para
conseguir um fim comum. Não é estranho que na sua larga história houvesse
ocasião para a concertação e coordenação de esforços, como nos explicam os
autores neste sugestivo livro. Aconteceu nos momentos fundacionais, em meados
do século xvi, ou em espaços fronteiriços, como na Índia aquando da criação do
Tribunal da Inquisição em Goa. A cooperação conjuntural, num tempo e espaço
concretos, alimentaria o mito posteriormente construído. Mas o domínio de tal
mito sobre a nossa visão actual impede-nos, por vezes, de observar matizes e
problemáticas, as quais são resgatadas pelos autores deste livro,
transportando-nos para períodos de forte confrontação entre Jesuítas e
Inquisidores. Na verdade, os caminhos da Inquisição e da Companhia tomarão
rumos diferentes, mesmo contrários em determinadas ocasiões, como os momentos
explosivos que ocorreram durante o século xvii, a propósito do problema dos
cristãos novos.
Para concluir, esta obra conduz o leitor através de um tema fascinante, cujas
sombras marcam o imaginário colectivo como poucos outros, e contribui sem
dúvida para o necessário processo de compreensão histórica.