Novos tempos, novos ventos?: A extrema-direita europeia e o Islão
Introdução
A palavra islamofobia é uma palavra difícil. No entanto, ela está cada vez
mais presente nos discursos sobre a presença muçulmana no Ocidente, e
nomeadamente na União Europeia. O Observatório Europeu do Racismo e da
Xenofobia (EUMC), que em 2007 foi substituído pela Agência dos Direitos
Fundamentais da União Europeia (FRA), publicou um relatório (Report on Racism
and Xenophobia in Member States of the EU, de 2007) muito mediático sobre
discriminação e manifestações de islamofobia desde 2001. E desde o começo do
novo século que se tem assistido a uma autêntica explosão desta palavra no
vocabulário.
Existe um forte carácter de novidade na islamofobia. O documento que fundou
oficialmente o EUMC, em 19971, não lhe faz nenhuma referência, salientando
apenas o fenómeno do racismo, xenofobia, e anti-semitismo. A literatura sobre
a extrema-direita europeia acompanhou a crescente popularidade da palavra
islamofobia na esfera pública. Embora haja um debate contínuo sobre o que
significa exactamente ser um partido de extrema-direita, tem-se formado um
relativo consenso em descreve-lo como nacionalista, anti-sistémico, e
exclusivo. Jean-Yves Camus (2005), por exemplo, assinalou a emergência do Islão
como o novo inimigo no imaginário da extrema-direita. Mas o que é um facto é
que, no mundo académico, a islamofobia não era vista como uma característica
básica da ideologia da extrema-direita. É verdade que o Islão tem sido alvo de
partidos da extrema-direita, particularmente desde a década de 80. Em 1990, por
exemplo, a revista Identité, do partido Front National (Frente Nacional),
dedicou um dos seus números à reemergência do Islão2, denunciando a sua
incompatibilidade com a cultura europeia. Mas a tendência académica era a de
considerar a rejeição do Islão apenas como uma dimensão de xenofobia e de ver
as narrativas anti-muçulmanas simplesmente como uma componente do discurso
contra a imigração (v., por exemplo, Davies e Lynch, 2002, p. 162).
A situação mudou. E a partir do começo do século, e sobretudo no seguimento do
11 de Setembro de 2001, a ameaça do crescente e o espectro de uma Europa
muçulmana, tornaram-se temas prioritários no universo ideológico da extrema-
direita europeia. Assim, o conceito de Islão passou a galvanizar a acção do
grupo, e ao mesmo tempo que este prepara a defesa contra a islamização da
Europa, novos temas emergem, outros declinam, alguns objectivos partidários são
reconsiderados, e o potencial para novas alianças cresce. Assim sendo, este
estudo aceita a premissa de que a ideologia da extrema-direita não é estática
mas, dentro de certos limites, evolui e molda-se de acordo com o contexto.
Este estudo focaliza-se numa variedade de partidos políticos europeus de
extrema-direita, nomeadamente da Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Grã-
Bretanha, Holanda e Itália. A razão da escolha de partidos que têm um passado
diverso e que, até ao momento, têm tido resultados eleitorais também diversos,
serve para mostrar como, não obstante as diferenças, exibem muitas semelhanças
na maneira como lidam com o tema do Islão. Como o objectivo principal é
analisar a narrativa relativa ao Islão, a fonte primária é a literatura dos
partidos (manifestos, comunicados à imprensa, publicações e discursos), assim
como entrevistas aos líderes e membros dos partidos (conduzidas pelo autor ou
por órgãos da comunicação social). Também foram incorporadas fontes secundárias
(de jornais e da internet, por exemplo), que ajudam a compreender melhor e a
contextualizar as concepções desses partidos.
Tendo em conta que cada secção deste estudo pode servir de base para outro
artigo (ou monografia), e por isso a análise nunca pode ser total e exaustiva,
o objectivo é o de fornecer uma visão geral dos desenvolvimentos que, nesta
óptica, abrem novas possibilidades de investigação relativamente à ideologia da
extrema-direita contemporânea.
O regresso dos soldados cristãos?
Os autores de um research paper da Comissão Europeia, publicado em 1998,
argumentaram que já não era possível discutir o futuro político, sem também
discutir questões de sentido, espiritualidade e identidade cultural (Cleveland
e Luyckx, 1998). Mais de uma década depois, estas palavras são mais certeiras
do que nunca, especialmente no que diz respeito ao futuro político da Europa.
Uma das evoluções mais importantes dos últimos anos tem sido a crescente
relevância de temas cristãos na comunicação verbal e não-verbal da extrema-
direita europeia (Liang, 2007). A crescente percepção dos muçulmanos e do
Islão, em geral, como uma ameaça sinistra para as comunidades nativas é, em
grande parte, responsável por esta evolução. Nalguns casos, como o da Frente
Nacional, a maior atenção dada ao Cristianismo é uma continuação e
intensificação de uma prévia plataforma ideológica. Quando Le Pen defende a
ilegalização de grandes mesquitas por se tratar de edifícios de conquista
político-religiosa que ameaçam a identidade cristã do nosso país, ele está,
grosso modo, a reiterar um tema familiar.
Mas, noutros casos, a viragem para o Cristianismo constitui uma novidade,
implicando mesmo a rejeição de posições anteriores. Esse é o caso da Lega Nord
(Liga do Norte). Durante uma fase inicial, que durou até ao fim da década de
1990, a Igreja católica era atacada como um inimigo natural das liberdades do
Norte de Itália, devido à sua cumplicidade com as forças centralizadoras e
opressivas desde a fundação do país. A eclosão da guerra do Kosovo (vista pelo
partido como uma tentativa dos EUA de islamizarem a Europa), assim como uma
crescente ênfase na tradição (uma resposta à liberalização dos costumes e à
globalização), mudaram o discurso do partido numa direcção pró-cristã. A
orientação anti-islâmica do partido aprofundou-se a partir dos ataques
terroristas de 11 de Setembro, passando o Islão a ser sinónimo de terrorismo,
violência e morte. O partido intensificou as suas campanhas contra práticas e
políticas que, de alguma maneira, pudessem facilitar a islamização do país.
Um eurodeputado da Liga declarou durante um protesto de rua contra a burca, que
o Islão é um vírus perigoso, e nós temos de o conter porque a Padania tem de
permanecer cristã (AGI, 2006). Batalhas históricas são reinterpretadas à luz
do constante fluxo de imigração muçulmana para a Europa. Quando o parlamento
italiano decidiu remover um quadro da batalha naval de Lepanto (1571, na qual a
frota otomana foi derrotada por forças cristãs), Mário Borghezio, um dos
dirigentes máximos da Liga, reagiu indignado, dizendo que essa decisão era um
ataque contra a identidade cristã do país, [porque Lepanto] assinalava a
vitória de um Europa cristã contra a invasão muçulmana.3 Neste contexto, não
constituiu uma surpresa que o órgão oficial do partido tenha sido um dos
maiores apoiantes do papa Bentoxvi quando este referiu o papel basilar da
violência no Islão. Da mesma forma, dirigentes da Liga elogiaram o papa pelos
seus esforços para recristianizar a Europa. Nós precisamos de agradecer a
Ratzinger, declarou um dirigente, por causa dele a Igreja relembrou as suas
origens.4 O Partido Nacionalista Britânico (BNP) conheceu uma trajectória
similar. O seu líder, Nick Griffin (2005b), identificou o partido como a
vanguarda da resistência à islamização, considerando-a o problema mais
premente da primeira metade do nosso século. Tal como a Liga do Norte (Saint-
Blancat e Friedberg, 2005) o partido tem-se oposto à construção de novas
mesquitas, vendo-as como um passo rumo à colonização islâmica do país (como
por exemplo aquela que será a maior mesquita da Europa planeada para os jogos
olímpicos de 2012).5 Até um símbolo tradicional do nacionalismo inglês, como
São Jorge, é descrito como um ardente e poderoso símbolo da oposição ao
Islão6. Além disso, o BNP tem defendido o papa Bento XVI e enaltecido a sua
coragem por falar contra os perigos do Islão, criticando ao mesmo tempo a
Igreja Anglicana por não ter a determinação para enfrentar a ameaça bem real
da Inglaterra se transformar num Estado islâmico nas próximas décadas7. Não
admira que o BNP esteja por trás da criação de uma nova organização cristã, o
Christian Council of Britain8 (2007), em cuja declaração de objectivos se pode
ler que Nestes tempos de crise moral e perante a possibilidade bem real do
vazio espiritual ser preenchido por cultos e doutrinas perigosas, agora mais do
que nunca, é preciso realinhar de novo a Igreja com o seu rebanho perdido.
Quando o arcebispo de Cantuária, e líder da Igreja Anglicana, referiu que a
incorporação de alguns aspectos da sharia na lei britânica era inevitável, o
BNP reagiu afirmando que esse tipo de declarações revelavam a disposição das
classes dominantes para trair a tradição cristã do país a fim de apaziguar o
Islão9. A atenção dada pelo BNP a temas, lemas e símbolos do Cristianismo tem
sido tão visível que provocou uma contínua reacção de membros e líderes da
Igreja, os quais acusaram o partido de raptar a religião para fins puramente
políticos.
Mas esta renovada ênfase na identidade cristã das comunidades originais
europeias, ameaçadas pelo avanço impiedoso do Islão, pode ser visto um pouco em
todos os partidos de extrema-direita na Europa. A coligação de partidos de
extrema-direita no Parlamento Europeu Identidade, Tradição e Soberania (que
apenas durou de Janeiro a Novembro de 2007), tinha como princípio fundador o
empenho nos valores, tradição e cultura cristã. O líder do grupo, Bruno
Gollnisch, afirmou que um dos objectivos desta coligação era ir além de um mero
eurocepticismo. O grupo não se iria limitar a atacar a UE; também iria defender
os valores cristãos10. Durante as eleições parlamentares austríacas de 2006,
por exemplo, o Partido da Liberdade fez campanha recorrendo a uma plataforma
especificamente anti-islâmica. Num dos seus cartazes eleitorais podia ver-se a
catedral de Viena com uma lua crescente em vez da cruz, e com uma legenda em
que se lia este é o verdadeiro desejo oculto dos muçulmanos. Entre avisos
contra a iminente islamização do país, o partido flamengo Vlaams Belang assume-
se como o verdadeiro guardião do Cristianismo. Como refere um dos seus líderes,
Filip Dewinter11, Relativamente ao aborto, eutanásia, casamento gay, adopção
por casais homossexuais, valores de família, subsídios para escolas judias ou
cristãs, nós defendemos sempre o ponto de vista cristão [...] Nós somos
melhores cristãos que os chamados democratas-cristãos [ ] Muitos de nós não
somos crentes no sentido religioso do termo, mas partilhamos os valores morais
do cristianismo. Eles representam a fundação da civilização europeia.
Esta ideia de uma Europa cristã sob ameaça, enfraquecida pela secularização,
e ameaçada de morte pelo contínuo fluxo migratório de populações muçulmanas,
encontrou apoio nos avisos do papa Bentoxvi contra o vazio espiritual no qual a
Europa caiu (Ratzinger, 2007), devido ao triunfo de uma racionalismo ímpio que
nega às pessoas o papel da fé e a direcção espiritual (Shorto, 2007). A ideia
de que é imperioso defender de uma forma mais agressiva os valores cristãos, de
forma a obter uma recristianização da Europa, tem ganho terreno na hierarquia
católica, mas também em sectores protestantes. Neste cenário, não é de
estranhar que muitos partidos nacionalistas vejam nos apelos da Igreja,
nomeadamente do Vaticano, a confirmação da sua própria mensagem, e que a
encarem como um aliado contra o colapso da Europa cristã, que surge de forma
inelutável no horizonte. Kaufmann (2006) afirmou que o crescimento de uma
Europa islâmica pode levar a uma resposta nacionalista indígena, ou a uma
renovada atenção à identidade cristã [da Europa]. Mas estas variáveis não se
opõem e não se excluem uma à outra. Os mais recentes desenvolvimentos nos
partidos indígenas indicam que, particularmente em oposição a uma tomada de
poder por parte dos muçulmanos, um rumo pró-cristão já está em andamento.
Rumo ao filosemitismo?
Embora o anti-semitismo esteja ausente do discurso de alguns partidos (por
exemplo, na Liga do Norte), a desconfiança relativamente aos judeus
considerados estrangeiros, desenraizados e envolvidos em conspirações
internacionais contra a unidade da nação há muito que caracteriza os partidos
de extrema-direita europeus, de que é exemplo a Frente Nacional, em França.
Contudo, recentemente tem-se observado uma mudança no discurso de muitos destes
partidos numa direcção decididamente pró-judaica. Esta tendência, contudo, não
é uniforme, e alguns partidos, como o Partido Nacional Democrata Alemão (NPD),
permanecem decididamente leais às suas origens anti-semitas (Hentges, 2003).
Um bom exemplo é o do partido nacionalista separatista flamengo Vlaams Belang,
que tendo começado por prestar uma atenção mínima aos judeus (Mudde, 2000, p.
100), num contexto cada vez mais anti-islâmico, tornou-se um apoiante leal do
judaísmo e sionismo. Dewinter tem, em várias ocasiões, professado o seu apoio e
admiração pelos judeus, tanto nos meios de comunicação social judaicos como nos
principais media, fazendo referência às raízes judaico-cristãs da Europa e do
Ocidente. Os valores judeus são os valores europeus, afirmou numa entrevista,
e a civilização judaica é uma das raízes da civilização ocidental (Dewinter,
2007). O partido prometeu defender as comunidades judaicas dos ataques de
muçulmanos, descritos como os primeiros pogroms na Bélgica desde a Segunda
Guerra Mundial (Dewinter, 2003). Israel é igualmente elogiada como um aliado
natural da Europa, por ser considerada a única nação no Médio Oriente onde
vigora a liberdade de expressão, a liberdade religiosa, e o estado de direito,
numa região governada por ditadores sangrentos.
O Partido Nacional Britânico (BNP) constitui um exemplo paradigmático, devido à
sua tentativa de distanciamento do anti-semitismo, que tem sido uma das forças
motrizes do partido desde a sua origem. O líder do partido criticou a paranóia
anti-judaica (Griffin, 2005a), afirmando que, para o BNP, a ideia de que os
judeus são o inimigo' está absolutamente esgotada, porque o partido quer
prosseguir com as lutas reais (Griffin, 2005b). O partido anunciou que tem
seguido em frente nos últimos anos, desembaraçando-se dos grilhões das teorias
da conspiração e do anti-semitismo velado que atrasou o partido ao longo de
duas décadas. Ao invés, o partido apontou dois grupos como sendo os
verdadeiros inimigos do povo britânico: Anglo-Saxões Celtas da esquerda
liberal, nascidos no Reino Unido e a Horda do Crescente, a onda interminável
de islamistas que afluem às nossas costas com o intuito de envolver as nossas
ilhas no abraço da sua bárbara religião do deserto12. O partido tem dado
espaço às vozes que abertamente professam a sua admiração por Israel. Um
colunista escreveu contra a franja lunática do movimento nacionalista anti-
semita, elogiando a abordagem nacionalista de Israel, já que, o séculoxxi é
o século do islamismo, afirmando que se não se oferecesse resistência à ameaça
do extremismo islâmico, dentro de 100 anos o Ocidente ficaria transformado na
Eurábia (Barnes, 2006).
Em França, Marine Le Pen, a nova presidente da Frente Nacional desde Janeiro de
2011, e que jurou alterar a imagem negativa do partido, concedeu desde cedo
abertura à comunidade judaica francesa e, enquanto deputada do Parlamento
Europeu, inscreveu-se na Delegação para as Relações com Israel. Ela esteve por
detrás da decisão de enviar membros da Frente Nacional a uma manifestação em
memória de um judeu francês assassinado num crime de ódio, e disse à
comunicação social que queria pôr um ponto final numa série de mal-entendidos
entre o partido e a comunidade judaica, a qual, nada tinha a temer da Frente
Nacional13. Numa outra ocasião, afirmaria que a comunidade francesa, que é
cada vez mais vítima de ataques dos radicais islâmicos, deve poder contar com o
nosso apoio14 (Chombeau, 2007, pp. 295-297). Esta demonstração de
solidariedade para com os judeus levou a que vozes mais tradicionais a
acusassem de tentar criar, juntamente com o partido flamengo Vlaams Belang, um
eixo de aproximação com a comunidade judaica para confrontar os muçulmanos.15
Guillaume Faye, um dos principais teóricos da nova direita francesa, apoia esta
evolução e afirma que os que defendem uma identidade europeia deviam libertar-
se de um anti-judaísmo crónico e obsessivo porque o perigo real é a
colonização por parte do terceiro mundo e do Islão (Faye, 2007, pp. 240-244).
Recentemente, algumas vozes no mundo académico têm defendido que os
muçulmanos substituíram os judeus como o novo outro transnacional nos
discursos de exclusão no seio da União Europeia. Bem-vindos à Europa, onde os
judeus já não são perseguidos, mas sim venerados enquanto antepassados
cosmopolitas, observou Boyer (2005, p. 523). Para Bunzl (2007, pp. 44-45), a
forma moderna de anti-semitismo já percorreu o seu caminho histórico, e
actualmente simplesmente não há qualquer debate sobre a legitimidade da
presença judaica na Europa. Enquanto o anti-semitismo é algo do passado,
concebido para proteger a pureza do estado-nação étnico, a islamofobia é a
forma de proteger o futuro da civilização europeia. Na opinião de outros
autores, o anti-semitismo oferece um modelo real sobre a forma como, cada vez
mais, os muçulmanos são encarados como eternos estrangeiros à cultura autóctone
(Silverstein, 2005, p. 366; Kundnani, 2007, p. 30). Contudo, existem diferenças
substanciais, e óbvias, que não devem ser subestimadas, entre o tratamento e o
estatuto conferido aos judeus no passado e a situação actual dos muçulmanos na
Europa. E a verdade é que o anti-semitismo tradicional pode ressurgir noutros
termos numa forma de anti-sionismo feroz, por exemplo podendo até
manifestar-se na violência anti-judaica perpetrada por jovens muçulmanos
(observável na segunda Intifada Palestina 2000-2006. V., por exemplo, Ganor,
2011). No entanto, o reconhecimento crescente do contributo judeu para a
cultura europeia por parte de alguns partidos da extrema-direita, e o
subsequente apoio a Israel, poderão evidenciar que a demonização tradicional
dos judeus ocupa agora a retaguarda face à actual estigmatização dos muçulmanos
nos discursos de pertença e exclusão na Europa.
Para lá do nacionalismo?
Há muito que o nacionalismo tem sido considerado como cerne, e talvez como a
característica mais importante dos partidos de extrema-direita (Mudde, 2000, p.
171). Estes partidos anunciam-se com orgulho como as únicas e autênticas
forças nacionais do país, e a maioria apresenta variantes da palavra nação
nas suas designações. Tem sido observado que, no seio de alguns círculos
intelectuais, tais como os que rodeiam a nova direita europeia, o nacionalismo
estava a ficar fora de moda, tendo sido substituído por uma aliança a uma fonte
mais lata de identidade cultural, tal como a Europa. Este desenvolvimento,
contudo, não se limita a estes pequenos círculos, e o que proponho defender é
que, apesar de concordar que o nacionalismo possa ter mais do que um centro de
controlo (Eatwell, 2004, p. 9), a posição cimeira que os conceitos de Europa
e Ocidente ocupam nos discursos da extrema-direita europeia justificam um
olhar mais atento sobre a hipótese da defesa das comunidades originais por
parte destes grupos se ter alargado cada vez mais a um nível europeu, não se
restringindo às fronteiras ou territórios do país em causa.
Esta trajectória pode ser observada ao longo de todo o espectro de partidos da
extrema-direita, e intensificou-se nos últimos anos. De certa forma, este
discurso pós-nacionalista centrado nas fronteiras e tradições europeias e
ocidentais, vem complementar a perspectiva nacionalista, mas tem igualmente o
potencial de lhe fazer concorrência. A ênfase colocada numa entidade mais
alargada Europa ou o Ocidente emana tanto da necessidade colectiva de
defesa dos europeus autóctones em relação aos ataques da nova ordem mundial e
do seu ethos globalizante (que apaga tradições e raízes), como do medo e luta
contra a islamização.
O tema recorrente da transformação da Europa numa nova entidade geopolítica
dominada por muçulmanos chamada Eurábia está presente em muitos discursos. A
obra da historiadora judia Bat Ye'or (2005) assumiu-se como referência, e
conceitos como Eurábia e Dhimmitude (referindo-se ao estatuto de sujeição dos
cristãos e judeus sob governação islâmica) fazem parte do vocabulário da
extrema-direita (pode até dizer-se que penetraram também alguns sectores da
direita inserida na corrente maioritária). Quando se lhe pediu que definisse o
seu partido, Filip Dewinter, líder do Partido flamengo, replicou: Somos os
defensores da civilização ocidental, com os seus dois pilares: judaico-
cristianismo e a herança da Grécia antiga. Bat Ye'or é apontada como aquela
que foi capaz de denunciar a viragem política vergonhosa que levou as elites
europeias e árabes a congeminarem em conjunto a criação da Eurábia, e a
afirmar que os políticos europeus se ajoelham perante o Islão. Bat Ye'or
esclarece toda uma série de dinâmicas que se mantinham até então na sombra.
Dewinter (2006)16 explica-o da seguinte forma: Nunca percebi como é que os
políticos europeus podiam ter as vistas tão curtas. Parece-me tão absurdo.
Mais uma vez, Bat Ye'or explica como é que isto encaixa num padrão mais lato
que visa a criação de uma nova entidade política chamada Eurábia. Não se
trata apenas de fraqueza ou má decisão. Forma parte de um plano. Dewinter
acrescenta que os políticos de orientação eurábica pensam que podem consolidar
o seu poder político através de uma aliança com o mundo muçulmano, vendendo a
Europa aos seus piores inimigos. Têm esperança de que uma Eurábia forte possa
servir de contrapeso ao poder dos Estados Unidos (Dewinter, 2006)17. A questão
central, aqui, prende-se com a sobrevivência da Europa, e potencialmente de
todo o Ocidente, sendo a ameaça para a comunidade flamenga apenas parte de uma
luta mais vasta à escala europeia.
O tema eurábico está igualmente a ganhar força no discurso do Partido Nacional
Britânico. Aquando da morte da jornalista e polemista italiana Oriana Fallaci,
o partido elogiou-a como tendo sido alguém que desafiou a transformação
civilizacional da Europa em Eurábia18. Segundo Nick Griffin, líder do BNP,
Estamos profundamente preocupados acerca do projecto elitista, sobretudo
francês, mas não exclusivamente, de transformar a EU, a Turquia e o Magrebe na
Eurábia. Bat Ye'or está 100% certa em relação a este ponto (Griffin, 2005a).
Num artigo sobre os motins em França, ocorridos em Novembro de 2005, Griffin
descreveu o seu partido como estando na vanguarda da luta entre o Ocidente e
o Islão, pois se o partido falhar a sua missão, a Europa deixará de o ser, e
os nossos netos amaldiçoar-nos-ão na sua condição de dhimmi enquanto prestam
eterno tributo e sofrem opressão, injustiça, humilhação e violação
intermináveis nos territórios que no passado pertenceram aos seus antepassados
livres (Griffin, 2005b). Como escreveu um colunista do BNP, trata-se, de
facto, do início da Quarta Guerra Mundial, que tem as suas raízes na vitória de
Carlos Martel sobre o Islão na Batalha de Tours em 732 DC. O Islão desperta uma
vez mais, e o Ocidente tem de acordar também (Barnes, 2006).
A Liga do Norte, em Itália, partilha uma visão semelhante relativamente à
necessidade de defender a Europa e o Ocidente dos desígnios imperialistas do
Islão. Roberto Calderoli, alto dirigente da Liga do Norte, condenando a
renúncia do Ocidente às nossas raízes, identidade e cultura cristãs, defendia
no jornal do partido a necessidade de mover contra o Islão cruzadas de povos
ocidentais que ainda se recordam da batalha de Lepanto19. Quando a ameaça
islâmica tanto em termos de colonização como de terrorismo é discutida na
literatura do partido, é tipicamente apresentada como um perigo, não apenas
para a comunidade, como para os povos europeus e ocidentais. O partido arroga-
se o papel de protector supremo do Ocidente contra o Islão. Afinal, fomos os
primeiros e lançar o alarme sobre o perigo que o Islão representa, e a sua
hostilidade inerente contra o Ocidente.20
Mogens Camre21, que foi deputado do Parlamento Europeu pelo partido
nacionalista da Dinamarca (o Partido do Povo Dinamarquês), refere igualmente
que a necessidade de combater o perigo real da islamização da Europa é a
prioridade máxima. De forma explícita, ele enquadra o discurso em termos de uma
identidade europeia colectiva, afirmando pensamos que os países islâmicos
fazem parte da Idade Média, e não consentiremos que os nossos países
democráticos sejam destruídos por pessoas que querem governar o mundo segundo
um livro escrito no Médio Oriente nos séculosvii eviii.
Relativamente ao perigo da islamização, Stelzl, um representante do Partido
da Liberdade austríaco22 falava da existência de uma ameaça real relativamente
à integridade cultural das nações e povos europeus, das suas tradições e
culturas [ ] [e] quando a islamização põe em perigo as nossas leis, normas,
hábitos e tradições, tem de ser revertida, acrescentando que os países
islâmicos têm de conceder direitos aos cristãos nos seus países, idênticos aos
que a Europa confere aos muçulmanos que integram a nossa sociedade.
Simultaneamente, quando foi anunciado um novo partido pan-europeu por quatro
líderes da direita nacionalista (da Áustria, França, Bélgica e Bulgária), a
ambição era a de salvar a Europa do duplo mal da globalização e islamização.
Patriotas de todos os países da Europa uni-vos!, exortava o líder do Partido
da Liberdade austríaco na conferência onde esses planos foram anunciados. No
cerne dos partidos políticos vulgarmente descritos como de extrema-direita, o
nacionalismo é ainda a força predominante. Contudo, é difícil não reparar na
viragem crescente rumo a dinâmicas e argumentos pós-nacionalistas no discurso
de muitos desses partidos. Os exemplos que aqui se apresentam reforçam esta
percepção. É como se existisse uma relação directa entre as suas preocupações
relativamente à comunidade islâmica (ou umma) unida pela fé e costumes, e a
necessidade de esses mesmos partidos se apresentarem como representantes e
defensores de primeira linha de uma comunidade transnacional europeia (e
ocidental), igualmente unida por uma fé e valores (cristãos) comuns.
Esta dinâmica apresenta-se de forma explícita, por exemplo, no modo como a
potencial (e cada vez mais improvável) adesão da Turquia à EU é retratada pela
extrema-direita europeia. Muitos dos materiais de propaganda contra a entrada
da Turquia, produzidos por vários partidos, representam um crescente ameaçador
pairando sobre o mapa da Europa, com o título Turquia Não! Uma das formas
utilizadas pelo Partido da Liberdade austríaco para promover uma imagem anti-
sistema nas eleições parlamentares de 2006 foi afirmar repetidamente que, ao
contrário dos partidos dominantes, se opunha à entrada da Turquia na UE (FPÖ,
2006). O projecto europeu alternativo avançado pelo ex-líder da Frente
Nacional francesa, Jean-Marie Le Pen, assenta num grupo de povos pertencentes
a uma civilização cristã [e] que partilham uma cultura comum (Le Pen, 2006b),
o que efectivamente exclui qualquer país muçulmano (como a Turquia). Erguendo o
espectro de uma verdadeira invasão islâmica da Europa na eventualidade da
adesão da Turquia à União Europeia, a Liga do Norte tem vindo a fazer uma
campanha incessante por um referendo popular que permita que todos os cidadãos
tenham uma palavra a dizer num assunto histórico que selará o destino dos
nossos povos23. Há quem defenda que o debate em torno da adesão da Turquia
transformou este país no outro em termos de auto-definição do que costumava
ser considerado europeu (Göle, 2006, p. 255). Mais precisamente, Casanova
(2006, p. 242) escreveu que depois de mais de trinta anos de imigração oriunda
de territórios fora da Europa, a questão turca faz parte de um assunto mais
vasto no qual o Islão é identificado como o outro absoluto. Contudo, a
rejeição do Islão pelos partidos de extrema-direita é desvalorizada pelo mesmo
autor como sendo meramente nativista e nacionalista (Casanova, 2006, p.
243). Tal como tentei demonstrar nesta secção, poder-se-ia acrescentar uma
terceira dimensão europeísta, independentemente do facto de esta Europa ser
muito diferente da actualmente promovida por Bruxelas.
O conceito de identidade europeia alargada que vai além da mera ligação aos
países de origem partilhado por estes partidos, está seguramente associado ao
papel de destaque que o Islão desempenha como o outro nos discursos
contemporâneos sobre o que significa ser-se europeu no séculoxxi.
Da periferia para o centro?
A questão da adopção pela direita dominante ou mainstream de temas que
previamente pertenciam aos partidos da extrema-direita (tal como os que dizem
respeito à lei e à ordem pública, ou imigração, por exemplo) tem sido tratada
com alguma regularidade pela literatura sobre a extrema-direita (Hossay e
Zolberg, 2002, pp. 305-313). Hainsworth publicou um livro sobre estes partidos,
com o revelador subtítulo Das Margens para a Corrente Maioritária, no qual
conclui afirmando que numa variedade de situações, influenciaram as agendas,
políticas e discursos dos principais partidos e governos (Hainsworth, 2000, p.
14).
Nesta secção, descreverei as formas como a crescente importância do assunto do
Islão trouxe efectivamente para a corrente principal opiniões e políticas
previamente encaradas como excessivamente extremistas e relegadas para a
periferia do espectro político pelos partidos do centro.
Mas antes de ilustrar e discutir este ponto, incidirei sobre outra consequência
de extrema importância que esta ênfase no Islão teve para a extrema-direita.
Com efeito, nos últimos anos temos assistido a uma assimilação crescente por
estes partidos de um número de assuntos que são respeitáveis, moralmente
convincentes para uma maioria substancial da opinião pública, e que assentam em
atitudes e formas de pensar relativamente consensuais. Em resumo, a extrema-
direita tem cooptado temas em relação aos quais a grande maioria dos políticos
pertencentes ao mainstream, tanto da esquerda como da direita, tem dificuldade
em discordar. Este desenvolvimento dificultou a distinção entre o que constitui
a corrente dominante e o que deveria ser categorizado como extremo,
tornando-a, por vezes, irremediavelmente turva.
A situação das mulheres nas comunidades muçulmanas e o tema dos direitos das
mulheres em geral ilustra bem este ponto. Quando se discute a situação das
mulheres no Islão, a extrema-direita europeia avança argumentos que, num
passado não muito distante, seriam considerados exclusivos dos grupos
progressistas femininistas do Ocidente. A extrema-direita tem estado
activamente visível na sua rejeição de várias práticas culturais associadas ao
Islão desde a utilização do véu islâmico, aos casamentos forçados, passando
pelos crimes de honra e à mutilação genital feminina, recorrendo a argumentos
semelhantes aos esgrimidos pelos grupos pertencentes ao mainstream, que
denunciam desigualdades e discriminação contra as mulheres. Esta evolução está
presente em todo o continente. Mogens Camre24, do partido nacionalista
dinamarquês, afirmou que os véus islâmicos e as burcas discriminam as
mulheres. O seu efeito real é manter as mulheres afastadas da sociedade e
impedi-las de obter liberdade e igualdade. Nenhuma sociedade se pode
desenvolver sem que haja igualdade e liberdade para as mulheres. Um dos livros
mais populares na Dinamarca, intitulado Islamistas e Ingénuos, foi escrito em
co-autoria por duas figuras da corrente principal política do país (ambos
sociais-democratas, uma delas feminista), e denuncia os impulsos totalitários
do Islão e a sua reivindicação em controlar todos os aspectos das vidas dos
seus apoiantes, especialmente das mulheres. Como observava um dos autores Se
uma mulher não usar o véu, os islamistas exercerão uma pressão máxima e
recorrerão à violência para assegurar que ela o usa. É essa tentativa zelosa de
aplicar os princípios islamistas que o torna tão autoritário como o nazismo ou
o comunismo (NPR, 2006).
Nos últimos anos, o tema da opressão das mulheres no seio do Islão tornou-se
um dos principais temas da literatura da Liga do Norte. Para a Liga, a condição
das mulheres muçulmanas é um sinal revelador do atraso do Islão, e é
incompatível com os costumes e atitudes morais de uma civilização ocidental
superior que se bate pela igualdade dos géneros. Um deputado do partido
observava que o estilo de vida ocidental assenta em [noções de] democracia
civilizada e respeito pelos outros [ ] enraizadas no ADN de cada cidadão,
enquanto o estilo de vida no Islão se baseia em tradições bárbaras tais como a
sharia, a pena de morte, a lei de talião [ ] infibulação, poligamia, a ideia de
que no seio das famílias os homens são superiores às mulheres.25 Quando o
parlamento italiano se recusou a tomar uma decisão relativamente a uma moção
apresentada pela coligação Liga do Norte sobre violações contra a liberdade
das mulheres em nome da religião, uma deputada do partido demonstrou o seu
ultraje declarando que para não ofender susceptibilidades islâmicas o
parlamento decidiu ignorar o facto de no nosso país existirem mulheres e
crianças que são escravizadas' ou sujeitas a restrições pessoais ou forçadas
[a aceitarem] a poligamia em nome de uma crença religiosa que não reconhece o
princípio da igualdade entre homens e mulheres (Lussana, 2007).
O Partido Nacional Britânico interveio igualmente a favor dos direitos das
mulheres, especificamente no contexto dos relatórios na comunicação social
sobre a criação de tribunais sharia e a existência de um sistema legal
bipartido no Reino Unido.26 O BNP27 acusou a comunicação social,
particularmente a BBC, de ignorância face ao abuso que as mulheres e as
minorias sofrem às mãos das leis sharia no mundo inteiro, acrescentando que
as mulheres são espancadas, violadas, assassinadas, mutiladas e oprimidas pela
cultura' muçulmana e a lei inglesa nunca deveria voltar as costas a estes
membros vulneráveis da sua sociedade. Tal como a Liga do Norte, o BNP sublinha
a igualdade de géneros na sua denúncia do Islão. O partido avisa que se o
governo não conseguir impedir que a lei islâmica se imponha, tal constituirá
uma aleivosia e uma refutação directa da moral ocidental, que prevê que todos
os indivíduos sejam iguais e tratados em pé de igualdade aos olhos da lei.
O debate em torno do uso do véu islâmico nas escolas públicas francesas
constitui exemplo de um tema que combina as questões aliadas à separação entre
Igreja e Estado com as da igualdade de géneros, e que mobilizou numa frente
comum forças distintas do espectro político, desde a extrema-direita aos
feministas e progressistas. Por exemplo, uma das apoiantes mais fortes da
abolição do hijab foi uma destacada feminista, Elisabeth Badinter, que
denunciou o lenço como símbolo da opressão de um sexo, incompatível com a
tradição ocidental de emancipação da mulher (Fekete, 2006, p. 17). Um
socialista e antigo presidente do SOS Racisme defendeu uma política de esquerda
de quotas de imigração, e a imposição, a título de pré-condição para potenciais
imigrantes, de respeito tanto pela laïcité[secularismo] como pela igualdade de
géneros (Caeiro, 2006, p. 206). Assim, não nos devemos surpreender quando
Jean-Marie Le Pen, nos seus discursos, apelava repetidamente à necessidade de
aplicar o princípio da separação entre a Igreja e o Estado, ao mesmo tempo que
condenava as medidas adoptadas pelo governo francês (assim como por outros
governos) para institucionalizar o Islão no país (Laurence, 2006). Estas
medidas, afirmou Le Pen, assinalaram o fim do princípio da laïcitée a fase
inicial do financiamento oficial do Islão em França sob a pressão exercida pela
sua florescente força demográfica e migrante (Le Pen, 2006a). A necessidade
de manter uma neutralidade religiosa e cultural nas escolas públicas foi
igualmente avançada pelo Partido da Liberdade na Áustria como motivo para banir
o uso de lenços, tanto por professoras como por alunas (IHF, 2005, p. 35). O
Partido do Povo dinamarquês esteve por trás de uma proposta que pretendia banir
adereços de cabeça culturalmente específicos, excepto no caso de
manifestações culturais que reflectissem uma origem judaico-cristã (IHF, 2005,
p. 56). Já a Liga do Norte lidera, em Itália, a luta contra qualquer tentativa
de remoção de símbolos cristãos das escolas, defendendo ainda que a
constituição italiana devia reforçar, de forma explícita, a identidade cristã
do país, como forma de impedir a ocupação muçulmana das instituições
públicas.28
A crescente atenção política em relação ao Islão tem-se manifestado igualmente
na oposição feroz ao ritual de abate de animais particularmente a produção de
carne halal,a únicapermitida pela lei sharia , um tema de destaque nos
discursos da extrema-direita. Nesta oposição, estes movimentos têm-se juntado
frequentemente aos grupos defensores dos direitos dos animais no protesto
contra a comida halal, acusando-a de fomentar um método de abate desumano e
bárbaro. O Partido Nacional Britânico tem estado activo nesta frente, chegando
até a anunciar, em primeira mão, que a carne halal era servida em muitas
escolas do país devido a um número crescente de alunos muçulmanos. O partido
citou um relatório elaborado por um grupo de defensores dos direitos dos
animais, argumentando que este método causava grande sofrimento aos animais. O
partido afirmou mesmo que não só este é um assunto que tem a ver com o bem-
estar dos animais, mas também que os pais têm o direito de saber se os seus
filhos estão, sem o saberem, a ser alimentados com carne proveniente de animais
abatidos em rituais29. Da mesma forma, também o Partido do Povo dinamarquês
lançou uma campanha com o objectivo de banir o abate halal porque qualquer
consideração sobre as minorias religiosas não se deve sobrepor às considerações
acerca dos animais (IHF, 2005, p. 59). Acusações semelhantes, tanto por parte
da extrema-direita, como por parte das organizações protectoras dos animais
sobre o abate ritualizado, foram reportadas na Áustria (IHF, 2005, p. 37),
Itália (Guolo, 2000, p. 898), e em França (IHF, 2005, p. 74). Nos Países
Baixos, em Junho de 2011, o Partido pelos Animais viu a sua proposta de
proibição do sacrifício ritual dos animais para consumo humano aprovada pelo
parlamento, contando, entre outros, com os votos favoráveis do partido da
extrema-direita, o Partido da Liberdade, liderado por Geert Wilders.
Simultaneamente, devido à pressão exercida pela questão islâmica nas
sociedades contemporâneas, os partidos no governo canalizaram políticas
públicas e orientaram discursos para posições que, anteriormente, teriam sido
vistas como extremistas e exclusivistas. A título de exemplo, veja-se a
importância crescente que as normas e valores culturais detêm nas discussões
sobre imigração, identidades nacionais e sentido de pertença nacional em toda a
Europa. Nos últimos vinte anos, tem sido defendido que os partidos
contemporâneos de extrema-direita já não mantêm as posições racistas clássicas
nas suas atitudes discriminatórias e exclusivistas relativamente a outros
indivíduos e comunidades. Taguieff (1994, pp. 96-106) descreveu esta
transformação no seio da extrema-direita, que passou do racismo biológico
(baseado na desigualdade e hierarquia das raças) para uma nova forma de racismo
diferencialista, em que a exclusão assenta nas diferenças culturais. Este
novo racismo cultural defende o direito à diferença dentro do qual as distintas
culturas, encaradas como totalidades incomensuráveis, precisam de ser
preservadas e separadas de forma a não se corromper a autenticidade e
integridade de cada uma. Este ponto de vista encara os grupos culturalmente
distintos como estrangeiros, cuja absorção atribui à sociedade predominante uma
tarefa inglória e potencialmente desastrosa. A distinção que Taguieff introduz
tem sido amplamente utilizada nos estudos sobre a extrema-direita na Europa e
fora dela (Hainsworth, 2000; Johnson, Patten e Betz, 2005). De forma
semelhante, Stolcke (1999, p. 30) acrescentou a noção de fundamentalismo
cultural ao debate sobre grupos racistas e anti-imigrantes. Esta forma the
exclusão baseia-se na assunção de que as culturas são incomensuráveis, com a
ressalva de que, por contraste com as teorias racistas, o fundamentalismo
cultural tem uma certa abertura que deixa espaço a que os imigrantes que assim
o desejam possam viver no nosso seio, e assimilarem a nossa cultura (Betz e
Meret, 2009, pp. 316-319). Gündüz (2010, pp. 40-45) chama-lhe justificação
cultural, a primazia da cultura como categoria analítica de compreensão dos
imigrantes e dos problemas que os afectam.
Contudo, à medida que o século xxi avança, não pode deixar de se observar a
revitalização cultural que tem vindo a tomar conta das principais correntes
políticas europeias. Apesar da existência anterior de uma ênfase nos aspectos
culturais (veja-se, por exemplo, a relutância da Alemanha, durante muitos anos,
em conceder cidadania aos gastarbeiter, muitos dos quais são Turcos), esta tem
sido a partir da década de 90 particularmente conspícua, tanto ao nível das
principais políticas como nos discursos sobre a imigração. Num artigo publicado
em 1997, o politólogo Giovanni Sartori chamou a atenção para os desafios que a
imigração em massa colocava às comunidades europeias, especialmente as
provenientes dos países islâmicos. Numa referência ao perigo que os
culturalmente estranhos representavam, Sartori (1997, pp. 68-69) escreveu que
os estranhos que não estão dispostos a dar em troca o que recebem, que decidem
permanecer estrangeiros' ao ponto de desafiarem as leis dos países que os
acolhem, arriscam-se a ser alvo de medo, rejeição e hostilidade.
Estes argumentos têm sido reforçados após os ataques terroristas dos
extremistas muçulmanos, tanto na América como na Europa. Modelos de integração
muçulmana desde os multiculturais (no Reino Unido e nos Países Baixos) aos
centralizados na assimilação (tal como acontece em França) têm sido postos em
causa e reprovados devido à realidade inevitável do aumento crescente de
comunidades separadas que não se integram, e que muitas vezes se recusam a
fazê-lo, chegando a mostrar-se manifestamente hostis às normas e valores da
sociedade mais alargada.
A percepção crescente do perigo que o extremismo islâmico representa para as
sociedades civis da Europa criou uma necessidade política de intervenção, em
nome da segurança nacional. Assim, dentro deste revivalismo cultural, residem
preocupações não só sobre o desaparecimento cultural da Europa, mas também
sobre a necessidade premente de fazer face à actividade de células terroristas
islâmicas em solo europeu. Este constituiu o ponto de partida para uma vaga de
novas políticas em relação aos imigrantes e recém-chegados que emergiu em toda
a Europa, e não só exigiu, mas muitas vezes impôs, a obrigatoriedade de
integração e de aceitação das normas e valores autóctones como condição
para ingressar ou permanecer no país. Estas políticas estão intimamente
associadas a uma tónica mais acentuada na identidade nacional e nos valores
aos quais os imigrantes têm de demonstrar a sua lealdade. Esta reafirmação
apressada da identidade nacional e dos valores liberais não só proveio dos
conservadores (Fukuyama, 2006, pp. 12-19), como permeou todo o espectro
ideológico. O progressista David Goodhart (2006, p. 13) defende que a esquerda
deve abandonar a falácia que o nacionalismo e o sentimento nacional são apenas
e necessariamente forças beligerantes e xenófobas. Esta questão tem óbvias
consequências para os regimes democráticos. Até porque nos países onde existe
uma desconexão entre a percepção popular da identidade nacional como
hereditária (descendência, nascimento no país, etc.) e políticas governamentais
que facilitam a obtenção da nacionalidade, a confiança no sistema político
diminui consideravelmente (McLaren, 2011).
Deste modo, é verdade que as políticas de integração cívica adquiriram uma
natureza (coerciva) de obrigatoriedade (Joppke, 2007, p. 5). Os Países Baixos
iniciaram este processo através da revisão de uma lei de integração já
existente, e avisando os recém-chegados de que deviam conhecer os valores
holandeses e acatar as normas do país. Os imigrantes são actualmente obrigadas
a passar um teste de imigração que inclui um DVD que mostra homossexuais e
mulheres nuas (Fekete, 2006, p. 4). Esses testes de cidadania, desconhecidos na
Europa durante muito tempo, estão a tornar-se norma. Na Dinamarca, o website do
Ministério da Integração dá instruções aos potenciais cidadãos para trabalhar,
pagar os impostos, não agredir as crianças, e demonstrar respeito pela
igualdade de direitos entre os sexos (Fekete, 2006, p. 3). O Reino Unido
introduziu uma cerimónia de cidadania de tipo americano, e começou a utilizar
testes de cidadania. Estas medidas foram precedidas por um debate vigoroso,
durante o qual os políticos pertencentes à corrente dominante, tanto da
esquerda como da direita, defenderam a necessidade de uma afirmação mais
assertiva dos valores nacionais essenciais. O antigo ministro da
Administração Interna, David Blunkett, jurou proteger os direitos e deveres de
todos os cidadãos e confrontar as práticas e crenças que os limitam, sobretudo
as mulheres. A esquerda tem que ser coerente na sua defesa dos valores
essenciais, em vez de se recolher num relativismo moral quando o seu
compromisso é posto em causa (Blunkett, 2001). Num editorial, o conservador
David Davis, na altura ministro-sombra da Administração Interna, colocava a
questão: será que vamos estabelecer os compromissos necessários para preservar
as liberdades, a tolerância, o dar e receber, que caracteriza a sociedade mais
aberta, vital e criativa da história? Ou iremos permitir a fragmentação de
lealdades, a divisão de comunidades, que corroerão os alicerces dessa mesma
sociedade? (Davis, 2006). Tem havido uma crescente discussão pública sobre
práticas que não fazem parte da cultura britânica, como por exemplo os
casamentos forçados (particularmente entre primos direitos muçulmanos), e um
membro do governo trabalhista lançou o alarme sobre os perigos genéticos da
endogamia.30
A França, sob iniciativa do então ministro do Interior, Nicolas Sarkozy,
adoptou um contrato de integração social obrigatório (com o objectivo de
combater a endogamia étnica) para todos os novos imigrantes. Para além disso,
antes de se candidatarem a um visto de residência permanente, os imigrantes em
França têm de provar que estão bem integrados na sociedade francesa, o que,
entre outras coisas, significa que o candidato precisa de agir em conformidade
com os princípios da República Francesa (Joppke, 2007, pp. 9-12). Como sinal da
mudança dos tempos e do que é agora aceitável propor relativamente às políticas
de integração para os imigrantes na Europa, Sarkozy prometeu (e cumpriu),
durante a campanha para as presidenciais em 2007, criar um Ministério para a
Imigração e Identidade Nacional. Isto fez com que Jean-Marie Le Pen o acusasse
de exercer proxenetismo nos terrenos da Frente Nacional.31 A primeira lei
apresentada pelo novo ministério tinha por alvo os estrangeiros que queriam
reunir-se às suas famílias, e introduziu testes para determinar o conhecimento
da língua francesa, da história e dos valores republicanos dos futuros
imigrantes.32E desde o início do seu mandato como presidente que a questão da
identidade nacional francesa (ou seja, do que significa ser francês) tem
estado na primeira linha, nomeadamente através do lançamento de debates
públicos sobre o tema por todo o território nacional. Dentro desta evolução não
constitui uma surpresa que, em Setembro de 2010, a França se tenha tornado no
primeiro país europeu a interditar, de facto, o véu integral em espaços
públicos.
Estes exemplos demonstram a mudança clara ocorrida nos últimos anos no discurso
e políticas relativos à imigração. A mudança tem sido conduzida pela
importância que o Islão, enquanto ameaça para a segurança e valores europeus,
tem adquirido junto da opinião pública. Para além disso, o debate sobre os
novos modelos de integração de imigrantes está associado a narrativas culturais
(um facto que nem sempre é reconhecido pelos dirigentes políticos), e à
necessidade de as comunidades cujos costumes culturais se opõem aos da maioria
da população autóctone, se adaptarem e ajustarem. Existe uma justificação
cultural subjacente que permeia as novas reformas de cidadania e de contratos
de integração impostos aos recém-chegados. É verdade que a tónica está na
integração, e estas novas medidas oficiais revelam, em si mesmas, a crença na
possibilidade de integração de imigrantes provenientes de culturas distintas,
como é o caso dos muçulmanos. E também é verdade que este optimismo
praticamente não se faz sentir nos discursos da extrema-direita, que defendem a
impossibilidade dessa integração, e a necessidade de separação. No entanto, a
tendência em direcção às justificações culturais como forma de decidir ou
determinar um sentido de pertença à comunidade há muito considerada uma
característica da extrema-direita é clara. Esta evidência leva à questão da
maleabilidade do conceito de extremismo, variando conforme as circunstâncias
e os políticos que estão por detrás dos discursos e das políticas. Assim, o
rótulo de extremismo depende do mensageiro, e não da mensagem (Burleigh,
2007, p. 479).
Existem, contudo, diferenças. Enquanto os discursos mainstream sobre a
imigração muçulmana tendem a ser subtis em termos do diagnóstico e das proposta
de solução, a posição da extrema-direita caracteriza-se pela adopção de um
cenário do uma-coisa-ou-outra (assimilação ou expulsão) e pelo tom
apocalíptico (o advento da Eurábia, a extinção dos povos europeus, etc.).
Pode igualmente defender-se que a extrema-direita, ao promover os valores
ocidentais e democráticos como forma de oposição ao Islão, está acima de tudo a
lutar pela legitimidade, ao vacinar-se a si própria contra acusações de racismo
e de xenofobia, ao mesmo tempo que persegue o seu sonho máximo de homogeneidade
étnica (Betz, 2007, pp. 46-51).
A extensão e o grau de influência que a extrema-direita exerceu, especialmente
após o 11 de Setembro, sobre o establishement (inserindo as suas posições no
seio das correntes dominantes), ao mesmo tempo que foi influenciada por um
ambiente anti muçulmano favorável (levando-a a cooptar temas), merece
certamente uma investigação qualitativa e quantitativa mais aprofundada.
O espírito da decadência desloca-se para o centro?
Contudo, há uma outra questão sobre a qual é importante reflectir. Uma das
forças motrizes da ideologia da extrema-direita é a ideia de declínio, seja da
nação, ou, cada vez mais, da Europa. Num contexto em que existe a percepção de
que os sinais irreversíveis da decadência estão por todo o lado, os líderes
de extrema-direita retratam os seus grupos como os últimos defensores das
suas comunidades perseguidas, cuja identidade cultural, autenticidade, e
independência se encontram ameaçadas pelas forças nacionais e globais. O
desaparecimento ou morte da comunidade é, nestes discursos, uma
possibilidade real que se agiganta num horizonte próximo. O patriarca da
extrema-direita europeia, Jean-Marie Le Pen, avisou repetidamente que a França
e a Europa, devido à imigração massiva e à queda demográfica, estão a viver
como que no arame. A sua filha Marine Le Pen33 defende que a continuarmos
assim, a Europa deixará de ser a Europa [mas] tornar-se-á uma República
islâmica, acrescentando que estamos num ponto de viragem, e se não
protegermos a nossa civilização, ela desaparecerá. Para o líder do Partido
Nacional Britânico, o que está em causa é a sobrevivência da Europa, por causa
da imigração massiva ininterrupta e da elevada taxa de nascimento dos
muçulmanos, aliada à nossa taxa suicidamente baixa (Griffin, 2005b).
Especialmente desde a última década, esta ideia de decadência, outrora encarada
como sendo periférica e marginal, deslocou-se para o centro e é cada vez mais
adoptada pelas vozes conservadoras do mainstream. Tanto autores reputados, como
muitos comentadores dos dois lados do Atlântico têm, nos últimos anos, redigido
o guião dos últimos dias da Europa, segundo o qual, devido ao colapso
demográfico, políticas multiculturais auto-destrutivas e imigração desregrada,
proveniente sobretudo de países muçulmanos, a Europa atravessará mudanças
drásticas que a transformarão para sempre. Em 2007, o historiador Bernard
Lewis34 defende que devido à desistência da Europa na batalha pelo controlo
cultural e religioso, a única questão que permanece relativamente ao futuro da
Europa é se teremos uma Europa islamizada, ou um Islão europeizado. Walter
Laqueur (2007, p. 19) escreveu o epitáfio por um velho continente, defendendo
que devido à imigração descontrolada, às políticas multiculturais mal
orientadas, que produziram sociedades paralelas, agravadas pela auto-imposta
guetorização dos imigrantes muçulmanos e por um severo problema demográfico, a
Europa se apercebeu tardiamente de que o continente enfrentava problemas
enormes que ainda não tinha conseguido resolver, e que a questão não era mais a
emergência ou não de um super-poder dominante, mas sim a sua sobrevivência.
O tema da decadência europeia encontra-se igualmente presente na obra de Niall
Ferguson (2006), que defende que o Islão, por razões demográficas, tem uma
vantagem a longo prazo relativamente à Europa (e ao Ocidente), pois uma
sociedade jovem ao Sul e a Leste do Mediterrâneo está a colonizar
silenciosamente, no sentido original do termo, um continente envelhecido e
secularizado que lhe fica a Norte e a Ocidente. O Ocidente está em decadência
[ ] já deu o que tinha a dar, está velho e esclerótico, referiu o escritor
espanhol Arturo Pérez-Reverte35, acrescentando que o Islão vai ganhar a guerra
e merece ganhá-la. De forma significativa, a obra de Edward Gibbon sobre a
História do Declínio e Queda do Império Romano (1776) é frequentemente citada
como um aviso agoirento sobre o declínio e queda em curso da Europa e do
Ocidente (v. Steyn, 2006, p. 123).
Já outras vozes conservadoras, envolvidas no debate público, são mais
dramáticas e prevêem um futuro de guerra para a Europa, com violência
generalizada provocada por uma reacção autóctone contra os muçulmanos. É
difícil imaginar outro cenário futuro para a Europa, que não a sua islamização
ou uma guerra civil, segundo um comentador (Prager, 2006). Steyn pensa que um
cenário futuro de guerra na Europa é provável, como resultado do declínio e
distúrbios civis que estes factores económicos e demográficos trarão: assim
como [trarão] a conquista a recolonização da Europa por parte do Islão
(Steyn, 2006, pp. 108-109), enquanto o colunista Ralph Peters36 avisou que
longe de gostarem da ideia de conquistarem a Europa pelo número de filhos que
têm, os muçulmanos da Europa vivem na corda bamba [ ] não tenho qualquer
dificuldade em imaginar um cenário de navios americanos ancorados, com marines
dos EUA a desembarcar em Brest, Bremerhaven ou Bari para garantirem a evacuação
segura dos muçulmanos da Europa.
Este cenário sombrio para os muçulmanos na Europa é partilhado por vozes à
esquerda, como a revista New Statesman37, que publicou uma história de primeira
página sobre O próximo holocausto (dos muçulmanos na Europa), em que colocava
a pergunta retórica os novos pogroms estão no horizonte?. Estas profecias,
contudo, ainda são contrabalançadas na esfera pública por aqueles que vêm na
Europa um paraíso mais do que um inferno (Rifkin, 2006; Leonard, 2006).
A louvável e respeitável adopção por parte da extrema-direita de assuntos
que reúnem um consenso relativamente alargado na Europa (a emancipação das
mulheres, por exemplo), assim como a viragem cultural nas políticas de
integração, corroboram a hipótese da cada vez maior indefinição das fronteiras
entre os discursos classificados como razoáveis e extremistas. E o assunto fica
ainda mais nebuloso porque a extrema-direita usa o Cristianismo como escudo
ideológico, e muitas vozes conservadoras disseminam igualmente o tema
catastrófico do declínio e queda das nações europeias sob a dupla pressão da
imigração e da demografia.
Conclusão
Tentando prever o futuro, Peter Jay e Michael Stewart (1987) descreveram um
cenário pós-milénio no qual, num contexto de colapso económico, um partido pan-
europeu, o Europe First Movement, conseguiu superar as divisões entre partidos
nacionalistas, tomou o poder e lançou-se numa missão de tornar a Europa livre
de influências estrangeiras. Apesar de nesta previsão o tema do Islão estar
ausente, existem tendências na Europa que, se não confirmam propriamente o
apocalipse descrito pelos autores, dão credibilidade a um eventual cenário no
qual movimentos extremistas pan-europeus, alegando serem a última esperança de
uma civilização em declínio, podem consolidar-se. E a realidade é que, pela
Europa fora, estamos a testemunhar em diferentes partidos da extrema-direita o
crescimento de dinâmicas pós-nacionais, o fortalecimento de uma identidade
cristã, a rejeição de passados anti-semitas, e a crescente respeitabilidade de
algumas das suas posições no debate público sobre o papel do Islão na Europa
(Betz e Meret, 2009; Gündüz, 2010). Estes novos tempos e novos ventos trazem,
desta maneira, novos desafios não só para a literatura sobre a extrema-direita
contemporânea, como para futuras reflexões sobre o papel e o significado de
sociedades liberais e democráticas no século XXI.