Entrevista a Maria Filomena Mónica: Por Luísa Schmidt
Entrevista a Maria Filomena Mónica
Luísa Schmidt*
Luísa Schmidt, socióloga, investigadora principal no Instituto de Ciências
Sociais da Universidade de Lisboa, onde coordena a linha de pesquisa
Sustentabilidade: Ambiente, Risco e Espaço. Autora de vários livros, faz
parte da equipa de investigadores que criou o OBSERVA Observatório de
Ambiente e Sociedade, que actualmente dirige.
Maria Filomena Mónica nasceu em Lisboa em 1943. Licenciada em filosofia pela
Universidade de Lisboa, 1969, e doutorada em sociologia pela Universidade de
Oxford, 1978. Actualmente, é investigadora emerita do Instituto de Ciências
Sociais da Universidade de Lisboa. Autora de artigos na imprensa periódica e de
séries para a televisão. Entre outros, publicou os seguintes livros: Educação e
Sociedade no Portugal de Salazar(1978); Visitas ao Poder (1993); Vida Moderna
(1997); Os Filhos de Rousseau (1997); Eça de Queirós (2001); Dicionário
Biográfico Parlamentar, 1834/1910, (org.) (2004); Bilhete de Identidade(2005);
D. Pedro V (2005); Cesário Verde(2007); Fontes Pereira de Melo(2009); Os
Dabney: Uma Família Americana nos Açores (org.) (2009); Vidas (2010); Os Cantos
(2010) e A Morte (2011).
Luísa Schmidt (LS) Como se consolidou do ponto de vista institucional o campo
das ciências sociais em Portugal?
Maria Filomena Mónica (MFM) Antes da institucionalização, seja o que for que
isto queira dizer, houve um homem, Adérito Sedas Nunes. O Gabinete de
Investigações Sociais, o GIS, existiu porque existia o Adérito. Tal aliás como
o ISCTE. O Adérito, como a certa altura desejou que o tratássemos, era um
economista desiludido. Licenciara-se pelo ISCEF (agora ISEG), onde, durante
anos, deu aulas, com base numa sebenta escrita por ele, sobre a história das
ideias políticas e sociais. Nesta altura, ainda o não conhecia, porque, embora
economia tivesse sido a minha primeira opção, acabei por a trocar por
filosofia, curso em que me inscrevi em 1961. Em 1969, licenciei-me e, em 1970,
entrei, como bolseira-estagiária para o Gabinete de Investigação Pedagógica da
Fundação Gulbenkian, chefiado pelo Rui Grácio. Eu queria saber que tipo de
cultura tinham os jovens de diversas classes sociais. Elaborei um formulário,
aplicado em todo o país, aos alunos do ciclo preparatório miúdos de 11 ou 12
anos com base numa amostra de 8 000 crianças. Para meu espanto, descobri que
a obra mais lida em Portugal pelos jovens escolarizados era A Rosa do Adro1, de
que nunca tinha ouvido falar. Comecei a tentar interpretar os dados, mas sobre
alguns pontos tinha dúvidas. Um amigo, o José Carlos Ferreira de Almeida, que
era sociólogo, criticou a composição da amostra, o que me levou à paralisia.
Quando expus ao Rui Grácio as minhas hesitações, este aconselhou-me a falar com
o professor Sedas Nunes, uma vez que ele não se sentia competente para me
ajudar. Pedi uma audiência a Sedas Nunes, mas recusou. Rui Grácio sugeriu-me
então que fosse estudar para o estrangeiro, com uma bolsa da Fundação. Escolhi
sociologia, uma disciplina que, à época, era proibida em Portugal. Tendo sido
admitida na Universidade de Oxford, em 1971, parti para Inglaterra, onde, em
1962, já tinha vivido. Inscrevi-me numa espécie de mestrado, o B. Phil, que
exigia uma série de exames finais, de que o mais difícil era o de estatística.
Farta de números e dos seminários que pouco me interessavam a sociologia
inglesa era muito influenciada pela americana pedi ao departamento para subir
um grau, passando, desde logo, ao doutoramento, o que me foi concedido. Comecei
então a investigar o salazarismo, a fim de compreender o que tinha diante dos
olhos, ou seja, o regime de Marcello Caetano. Eu não tinha uma liberdade total
de escolha do tema: segundo as regras da Fundação, a tese tinha de ser sobre
Portugal e, no meu caso, de se centrar em sociologia da educação. Foi assim
que, após descobrir que nunca entenderia o que o ministro Veiga Simão andava a
fazer sem recuar no tempo, acabei a estudar as políticas educativas de Salazar.
O departamento de sociologia de Oxford ainda torceu o nariz considerava que
aquilo era demasiado histórico mas era suficientemente flexível para me
deixar fazer o que pretendia. No Natal de 1973, depois de um ano de leitura da
bibliografia estrangeira, vim para Portugal a fim de fazer a investigação que
desejava na Biblioteca Nacional.
LS Estávamos então nas vésperas da Revolução de Abril
MFM Estávamos, mas ninguém o sabia. Lembro-me de ter ido a um jogo de futebol
um de apenas dois a que assisti com o João Cravinho e de ter visto o
estádio em pé, aplaudindo Marcello Caetano. Convenci-me de que o regime estava
para dar e durar. Sabia que, se queria fazer a tese, teria de passar um ano na
Biblioteca Nacional, mas temia que a estadia em Portugal me estragasse a
cabeça. Sem a ajuda do Adérito sem as suas conversas, sem o seu estímulo, sem
a sua disponibilidade é provável que tudo tivesse sido mais difícil.
Subitamente, a minha vida alterou-se. Apesar de mal me conhecer, convidou-me
para sua assistente no curso de sociologia que estava a preparar no ISCTE.
Disse-lhe que não tendo a tese terminada, não me sentia preparada. Da equipa
faziam parte vários amigos meus, como o Afonso de Barros e o Armando Trigo de
Abreu. Mais importante, no ISCTE estava também a ensinar o Vasco Pulido
Valente, o qual, tanto quanto me lembro, era assistente do Alfredo de Sousa. Eu
continuava a resistir. A certa altura, disse ao Adérito que não me sentia
preparada para leccionar uma cadeira chamada demografia e recursos humanos
(não se podia chamar sociologia por ser proibido). Depois, sob pressão do
Vasco, que era o meu maior amigo, acabei por aceder ao convite do Adérito. A
equipa começou a preparar as aulas em Fevereiro de 1974. Um mês antes da
Revolução, dei comigo a falar do Exército Industrial de Reserva a 20 alunos.
A coisa parecia, e era, surrealista. A certa altura, o Adérito informou-me ter
eu na aula um PIDE, mas não me impediu de mandar os alunos ler Marx, o que fiz,
em doses industriais
A 25 de Abril, chegou o golpe de Estado. Nos dias que se seguiram, viveu-se, no
ISCTE, um clima de incrível turbulência. A maior parte dos docentes era do MES
e, entre eles, havia quem tivesse relações com os militares, por isso estávamos
sempre a par de tudo o que se preparava. Criado para servir de contraponto ao
insurrecto ISCEF, o ISCTE foi a primeira faculdade do país a entrar em auto-
gestão.
No final de Abril, os assistentes invadiram o gabinete de Sedas Nunes,
declarando que não o deixariam convocar o Conselho Escolar. Pelo próprio, soube
que tinha ficado chocado que nós, o seus discípulos, pudéssemos imaginar dar-
lhe ordens. Respondi-lhe que, com os capitães na rua, era evidente que ele não
podia continuar a liderar a escola como se nada se tivesse passado. Para minha
surpresa, a minha presença entre os rebeldes não impediu a continuação das boas
relações que mantínhamos. Aliás, a invasão do gabinete cedo se revelou uma gota
no oceano. Seguiu-se uma assembleia-geral de escola, onde, em princípio, se
iriam proceder a saneamentos, mas que se limitou à inquirição de um pobre
contínuo. Fiquei enojada.
Apesar de andar entusiasmada com a Revolução, e ao contrário do que me
aconselhavam alguns amigos, não me inscrevi no MES. Inconscientemente, sabia
que não tinha feitio para militâncias. Limitei-me a ir à reunião fundadora do
Sindicato dos Professores. Mas até isto acabou por me desinteressar, uma vez
que considerei que o que se estava a passar no ISCTE era mais grave. Os alunos
elegeram, duas ou três semanas depois, uma comissão directiva, onde, juntamente
com a Miriam Halpern Pereira e o Adérito Sedas Nunes, me incluíram. Fiquei
atónita, uma vez que não tinha qualquer passado anti-fascista. Os estudantes
tinham feito uma lista com os critérios para o saneamento dos docentes ter
sido ministro, deputado na Assembleia Nacional ou procurador da Câmara
Corporativa mas esqueceram-se de fazer o trabalho de casa. Caso o tivessem
feito, teriam verificado que o Adérito fora procurador à Câmara Corporativa.
Desconhecendo o facto, acabou eleito. Mas a coisa não correu bem. Não tardou
que as minhas posições desagradassem aos alunos. Eu queria criar uma escola de
sociologia exigente, meritocrática e livre. Nada estava mais longe dos
desígnios estudantis. Estes pretendiam fazer trabalhos de grupo, reorganizar
os curricula de alto a baixo e recrutar alguns operários para a escola
(Colocando-os depois numa jaula?, questionei). Na segunda ou terceira
reunião, era já tida como uma inimiga. Comecei a ter dúvidas sobre a vantagem
de ali estar. Numa das últimas reuniões, os alunos apareceram com uma lista
idiota, composta pelos títulos dos principais livros de Álvaro Cunhal e de
Marta Harnecker. Mais do que a atitude dos estudantes, enfurecia-me a covardia
de alguns catedráticos. Em Junho, decidi abandonar a escola.
Como disse, desde 1971 que era bolseira da Fundação Gulbenkian no estrangeiro.
Dias após o 25 de Abril, escrevera ao director do meu departamento, o professor
A. H. Halsey, pedindo-lhe para me deixar ficar em Portugal, interrompendo o
doutoramento. Talvez por ter simpatias de esquerda, concordou. Também solicitei
à Fundação Gulbenkian que interrompesse o pagamento da minha bolsa. No Verão de
1974, voltei a escrever ao Serviço de Bolsas de Estudo, explicando-lhe que
desejava recomeçar o doutoramento. Expliquei ao Adérito, o qual, embora
relutantemente, acabou por aceitar. No Outono de 1975, regressei a Inglaterra.
Em 1977, acabei a tese, defendida em 1978. Como já não tinha o dinheiro da
bolsa, fui obrigada a dar aulas no ISCTE, o que me criou uma situação
engraçada, pois me apercebi que tinha muito mais poder do que antes. Continuava
a discordar de tudo da gestão, da forma como os alunos eram examinados, do
recrutamento de assistentes mas como legalmente o Conselho Científico tinha
de ter cinco doutorados, e, na área das humanidades (história e sociologia) só
havia quatro (comigo, cinco) se eu abandonasse o Conselho Científico, a
escola deixaria de funcionar. Isto era, em grande medida, fruto de alguns
catedráticos terem trocado o ISCTE alguns terão mesmo sido saneados por
outras instituições. Foi assim que nasceu a Faculdade de Economia da
Universidade Nova de Lisboa, fundada por Alfredo de Sousa.
LS Nessa altura, o Sedas Nunes já tinha saído do ISCTE
MFM Sim, o Sedas Nunes tinha saído para a Universidade Nova, que ainda estava
em fase de instalação. Aliás, tanto eu como ele, legalmente pertencíamos ao
quadro da Universidade Nova, e estávamos emprestados ao ISCTE
No Verão de 1976, quando vim de férias a Lisboa, encontrara um Adérito
singularmente desiludido. Após o 25 de Abril, tinham ocorrido divisões entre
ele e os seus amigos, como o Francisco Pereira de Moura e o Mário Murteira. Na
altura, nada me dissera, mas depois contou-me que pensara em emigrar, tendo
chegado a escrever nesse sentido a Alain Touraine. Mas acabou por ficar, e o
GIS, criado com o apoio financeiro da Fundação Gulbenkian, voltou a ser a
menina dos seus olhos.
Tendo-lhe dito que não tinha um local onde trabalhar, ofereceu-me um cubículo,
num dos claustros do ISCEF, onde estava guardada a biblioteca do GIS (a
instituição mantinha laços com a faculdade por onde o Adérito se licenciara).
Fui então ocupar um corredor húmido, mas que me dava o que, para mim, era
importante: silêncio. Guardo aliás desse tempo óptimas recordações. Mas o
Adérito considerava que aquele buraco fazia mal à saúde. Passado algum tempo,
disse-me para vir para um gabinete na Rua Miguel Lupi, que passei a ocupar de
parceria com o João Ferreira de Almeida. Só agora noto que estou aqui há trinta
e três anos!
Muito se passou pelo meio no que diz respeito a instalações, mas, como se vê,
resisti, com sucesso, à transumância. No início da década de 1980, o Adérito e
a maior parte dos colegas, especialmente os que ensinavam no ISCTE, mudaram-se
para a Avenida das Forças Armadas e, mais tarde, já depois de o Adérito ter
morrido, no início de 2000, para o actual edifício, na Avenida Professor Aníbal
Bettencourt. Expliquei então, por escrito, ao Conselho Directivo do ICS na
altura era assim que se chamava que, se me obrigassem a ir para a cidade
universitária, seria forçada a deixar de ler 145 livros por ano um número
obviamente inventado , o que me prejudicaria e indirectamente a instituição.
Ainda fui ver, ao novo edifício, o luxuoso gabinete que me estava destinado,
mas nada me demoveu. Não queria passar horas no trânsito, sem que ninguém, nem
eu, disso beneficiasse. Foi aqui, onde me estão a entrevistar, que acabei por
passar o resto da minha vida académica.
Vi sempre com bons olhos a ideia de manter o GIS como uma instituição exclusiva
de investigação e pós-graduação, o que era difícil, por não haver um precedente
no país. Devo dizer que, se para mim, me era igual pertencer ou não a um
quadro, o Adérito não pensava assim. Mais velho, e sobretudo mais realista do
que eu, sabia que as aventuras são mais aprazíveis na juventude do que na
velhice. Quanto entrei, não havia, como disse, formalidades. Quem decidia tudo
era o Adérito, um déspota esclarecido, na melhor acepção da palavra; se não
fosse ele nenhum de nós teria tido a carreira que hoje tem.
LS Entretanto, o GIS também se institucionalizou.
MFM Em 1979, o Adérito foi nomeado ministro da Coordenação Cultural e da
Ciência. Odiou o posto tanto quanto antes detestara a presidência da Junta
Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Por boas e más razões, não
gostava de luta política nem do quotidiano da alta administração. Aquilo que,
de facto, apreciava era ficar de manhã em casa, a ler, e à tarde de vir até à
Rua Miguel Lupi. No final da sua estadia no governo de Maria de Lourdes
Pintassilgo que durou nove meses decidiu elaborar um decreto
institucionalizando o GIS.
Quando, pouco depois, Sá Carneiro chegou ao poder, determinou a anulação dos
decretos publicados nas últimas semanas, pelo que o GIS voltou ao seu ambíguo
estatuto. Só em 1982, o Adérito conseguiria aquilo por que, ao longo dos anos,
tinha sonhado.
Quando viu a sua decisão ser anulada, ficou imensamente triste. Farto de
conselhos de ministros que se arrastavam pela noite dentro, decidira fugir,
tendo-se refugiado em Tróia. Acabei por lá ir, a fim de discutir o futuro do
GIS. Mas as nossas visões nem sempre coincidiam. Para mim havia um risco que,
para ele, não contava: o da burocratização.
Lembro-me de, uma vez, já ele regressara à Rua Miguel Lupi, lhe ter feito uma
partida. Os membros do GIS tinham de preencher anualmente um formulário, com os
projectos que tencionavam fazer, o andamento dos trabalhos anteriores e as
verbas de que carecíamos (naquela altura, irrisórias). Intitulei o meu
projecto: Um estudo de caso: a burocratização do GIS. Depois, coloquei no
papel todo o jargão sociológico que conhecia, acrescentando, como bibliografia,
as obras de Max Weber, em alemão. O Adérito não achou graça à brincadeira, mas
não se zangou comigo (o formulário deve estar algures no arquivo do GIS). Outra
divergência dizia respeito à massificação do futuro instituto. Para ele, quanto
mais gente melhor desde que fosse ele a escolher enquanto para mim, o ideal
era um organismo pequeno, onde pudesse existir um contacto íntimo entre os
investigadores.
Em data que já não sei determinar, decidiu-se constituir um grupo de trabalho
informal para analisar a questão. Percebia a sua preocupação, a de que nós, os
investigadores, tínhamos de ter garantia de trabalho, mas temia que o preço a
pagar fosse demasiado elevado. Contactámos várias pessoas. Lembro-me do Afonso
de Barros, do Alberto Romão Dias, do Luís Moniz Pereira, do António Barreto e
do Vasco Pulido Valente, o qual, depois da morte de Sá Carneiro, estava
disponível para voltar à carreira universitária. Depois de uma maratona, com
uma minoria ou com o grupo no seu pleno, acabámos por agregar duas pessoas, o
Manuel de Lucena, em quem eu tinha enorme confiança, e o então reitor da UL,
Raul Miguel Rosado Fernandes, cujo contributo foi decisivo. Para que se criasse
o instituto que desejávamos, este teria de ficar albergado numa universidade.
Por várias razões, de entre a qual a mais importante era a resistência das
faculdades, que viam com inveja um instituto sem alunos de licenciatura, as
universidades as três que existiam em Lisboa ofereciam resistência à
novidade e foi Rosado Fernandes quem impôs às faculdades a criação do Instituto
de Ciências Sociais. Valeu a pena.
Outra questão, debatida ainda antes da queda do governo Pintassilgo, foi a
proposta de lei da Dedicação Exclusiva da Carreira Universitária, igualmente
elaborada pelo Adérito. Mais uma vez, houve divergência de pontos de vista,
entre mim e ele. A mais relevante dizia respeito a uma alínea, que ele teimava
em introduzir e que permitia, a quem optasse pela dedicação exclusiva num
instituto de investigação, dar até quatro horas semanais de aulas numa
faculdade. Eu era contra, entre outras razões porque muitos dos meus colegas do
GIS davam aulas no ISCTE, o que considerava minar a personalidade da primeira
instituição. Ainda lhe lembrei o bíblico argumento, Não se pode servir bem a
dois senhores, mas o Adérito era teimoso. Até que, ao fim de muitos debates,
descobri o que estava por detrás da sua obsessão: ele queria continuar a ser
professor. Eu achava que a medida iria dar mau resultado, como depois se veio a
verificar: ninguém cumpria a dedicação exclusiva e continuava-se a fazer
investigação e a dar aulas ao mesmo tempo
LS E o teu percurso científico no ICS?
MFM Antes de entrar para o GIS, formara-me em filosofia. Foi com um pé já cá
dentro que acabei o doutoramento em sociologia. Quando regressei de Oxford,
tinha uma interrogação na cabeça: o que teria ficado no espírito dos miúdos que
haviam sido sujeitos à dieta ideológica do Estado Novo? Que teriam absorvido
dos valores Deus, Pátria e Família que o regime pretendera inculcar? E nos
meios com uma cultura própria, como os operários, como se olhara a escola? Foi
a partir destas perguntas que decidi estudar a classe operária. Havia ainda
outra razão de peso: a Revolução supostamente feita em nome do proletariado.
Fui viver, durante um período, para a Marinha Grande, o símbolo por excelência
de uma comunidade operária. Mas, quando ali cheguei, em vez dos operários de
boina, montados em bicicletas, apenas vi rapazes de casacos de coiro a conduzir
Toyottas. Falei com vários operários mais velhos que tinham participado no 18
de Janeiro (a sublevação de 1934), mas a maioria dos trabalhadores do vidro
que entrevistei nas fábricas não sabia sequer o que isso era.
A minha primeira obra histórica foi sobre a classe operária no século xix.
Depois, estudei os patrões, primeiro os de Oitocentos, o que deu origem a um
artigo na Análise Social e, mais tarde, a seguir à adesão do país à CEE, os
empresários, um trabalho que acabaria por desembocar no meu livroOs Grandes
Patrões da Indústria Portugueses.
Na década de 1990, a Assembleia da República encomendou ao ICS um trabalho
interessante, a elaboração de umDicionário Biográfico Parlamentar [reunido em 5
volumes]. Eu fiquei com a coordenação do período entre 1834 a 1910 (3 volumes).
Com cerca de quarenta autores, que não entregavam as biografias a tempo, ia
dando em louca. Foi o trabalho mais custoso da minha vida, mas provavelmente
será o único que ficará para a posteridade.
LS Como tens visto a evolução, o crescimento e percurso das ciências sociais
e respectivas instituições faculdades e centros de investigação?
MFM Bem, mas com riscos. O principal problema deriva do crescimento,
demasiado rápido, alimentado pelos fundos europeus. As instituições que crescem
a uma velocidade acelerada correm o risco de perder a personalidade. Ao
atribuir às faculdade e aos centros verbas percapita, ou seja, em função do
número de alunos, a Europa estimulou a mediocridade. Isto permitiu que entrasse
muita gente na universidade que não devia lá estar. O dinheiro, em vez de
melhorar as instituições, piorou-as. Mas não quero ser demasiado crítica. O que
se passa, em Portugal, é idêntico ao que acontece na maior parte dos países
europeus e nos EUA. O mundo, também aqui, está globalizado.
LS E a questão da interdisciplinaridade ao nível das ciências sociais?
MFM Gosto de um tipo de ciências sociais que possibilite a mistura entre a
história, a sociologia, a economia e a antropologia. O homem é uno, e por isso
temos de usar a imaginação sociológica para citar o título do famoso livro
de C. Wright Mills. A especialização mutila a realidade. Acabo de chegar de
Florença, portanto não se admirem que pense em gente como Leonardo da Vinci ou
Maquiavel, que se uniram para conceberem um plano, que acabaria por não se
concretizar, a construção de um canal que ligasse aquela cidade ao mar. Nem um
nem outro se interessavam apenas por quadros ou livros, mas por tudo o que os
rodeava. As coisas não poderão ser agora como eram no Renascimento, mas devemos
pensar as humanidades como um todo, porque, se não o fizermos, corremos o risco
de acabarmos a estudar um canteiro seco. Por exemplo, faz-me impressão que
muitos sociólogos, como aliás outros académicos, não leiam ficção. Convencidos
de que lhes confere status, há jovens que preferem colar um rótulo na testa. É
um erro, pois a especialização precoce faz mal à cabecinha.
Pelo seu percurso académico, o Adérito Sedas Nunes conhecia a bibliografia de
várias áreas. Era culto, escrevia bem, e tinha uma capacidade espantosa para
analisar a sociedade portuguesa. Um dia, critiquei-o por ele ter deixado de
escrever, e ele respondeu-me: Há uma coisa que a Mena tem de perceber: a
criação não se faz só através da escrita, pode igualmente concretizar-se a
nível institucional. E adiantou, com orgulho: Nos últimos anos, dediquei-me a
criar esta instituição e não estou arrependido. Embora tenha pena que não
tivesse redigido o livro que ele desejava intitular Livres e Iguais estou-lhe
grata por nos ter legado o ICS.
LS E como vês a interdisciplinaridade com as outras ciências, as naturais?
MFM As pessoas que estudam humanidades deveriam saber mais sobre as ciências
exactas. Contra mim, falo. Até já me esqueci da fórmula do oxigénio! É uma
vergonha. De certa forma, houve uma inversão. Depois de séculos, em que as
ciências exactas eram o paradigma da ciência, por vezes há uma atitude de
superioridade por parte das ciências sociais: nós, os da parte mole da
barricada, desprezamos as ciências exactas. Exceptuando a matemática, achamo-
las simplórias. Já dei comigo a pensar se a medicina é uma ciência, uma vez que
apenas aplica os conhecimentos adquiridos na biologia.
LS E não achas que essas ciências também têm um desprezo pelas ciências
sociais?
MFM Sim, mas não tanto quanto há um século.
LS Naactual conjuntura de crise e de restrições orçamentais, verifica-se na
Europa uma tendência de diminuição de apoios à investigação na área das
ciências sociais
MFM Ao contrário do que por vezes se apregoa, a ciência não é (não pode ser!)
um instrumento que sirva apenas para o desenvolvimento tecnológico das
sociedades. Uma universidade é um centro de saber, não um departamento de um
ministério... Ninguém definiu melhor o que é uma universidade do que M.
Oakeshott: para ele, a universidade era uma conversa entre pares. Não existe
qualquer outra justificação para uma universidade a não ser a de aumentar o
saber. As universidades não têm que ter um objectivo derivado. É evidente que,
ao descobrir-se o DNA, as sociedades retiraram do facto benefícios. Mas isso
não significa que as universidades tenham de ajudar os países na competição
tecnológica. Talvez seja essa a missão dos politécnicos. Das universidades, não
o é certamente. Atenção, não estou a dizer que o Estado não deva financiar o
saber, o que estou a dizer é que o saber é um fim em si próprio e não um meio.
Sou favorável a que os cursos de humanidades tenham o patrocínio do Estado, mas
este não pode nem deve exigir nada em troca. Claro que se pode aproveitar uma
ou outra encomenda, mas não demais. Uma instituição que recebe mais de metade
do seu orçamento para investigações aplicadas está condenada. Os centros de
investigação têm de pensar sobre o que é que vem ligado ao investimento para
determinados estudos. É por isso que estou contra alguns dos chamados
Observatórios, por estarem demasiado condicionados pelos desejos dos governos.
LS E o futuro das novas gerações de cientistas sociais portugueses?
É negro. Há três anos, pela primeira vez na minha vida, dei um 20 a uma aluna;
hoje, ela ainda está no desemprego. Por mais cultos, por mais viajados, por
mais trabalhadores que sejam, os jovens não arranjam lugar nas universidades
portuguesas: não têm onde ensinar, nem conseguem fazer a investigação que
desejam. Que futuro têm os jovens que mandámos lá para fora e bem a fim de
se doutorarem? E isto nem é o pior, porque, a outro nível, houve promessas
criminosas. Os executivos deram a entender aos pais que se os filhos se
licenciassem teriam um futuro glorioso. Pessoas humildes convenceram-se de ser
isto verdade e fizeram sacrifícios impensáveis para mandar os filhos para a
universidade. No final, verificaram muitos deles que eles só arranjam emprego,
quando arranjam, nos callcenters
LS Mas sem educação também não se vai a lado nenhum; ela não é sempre
fundamental?
MFM Claro, mas nem sempre pelos motivos invocados. Na altura em que se
alargou o numerus claususteria sido melhor avisar a população de que os estudos
são importantes, por si só, mas que não garantem um emprego. A situação é mais
grave nas humanidades do que, por exemplo, nas engenharias, porque se é
evidente que é preciso reparar as pontes, o mesmo não acontece quando se fala
de pôr um jovem a dissertar sobre Cícero.
LS Qual é a tua avaliação sobre as linhas de força teóricas e empíricas que
emergiram nas ciências sociais portuguesas nos últimos anos?
MFM
Não me interessa a conversa sobre linhas de força teóricas. Para mim, a
sociologia assemelha-se ao papel de James Stewart no filme de Hitchcock, A
Janela Indiscreta. Devemos colocar-nos a uma janela e observarmos o que se
passa à nossa volta. Devemos ajustar a nossa máquina intelectual com o zoom
necessário para o que pretendemos e sermos persistentes. Gradualmente, isto
conduzir-nos-á às questões que se puseram os pais fundadores da sociologia,
Marx, Durkheim e Weber. Um sociólogo tem de ter as ideias arrumadas, os olhos
abertos e os ouvidos à escuta.
LS De certo modo, os pais fundadores anteviam uma ruptura social e
económica que seria induzida pelo capitalismo, e mantêm-se actuais
MFM Mantêm-se. Eles assistiram ao nascimento da Revolução Industrial. Nós
estamos a assistir ao seu fim na Europa, mas não no mundo. Veja-se o que está a
acontecer na China e na Índia. Assistimos ainda ao fim do comunismo, mas isso
não nos impede de nos interrogarmos sobre que tipo de capitalismo estamos a
forjar. Porque há muitos: basta olhar a Suécia e a China. O Estado Social é um
bem que a Europa foi capaz de criar, mas que tem de ser repensado, porque a
estrutura social mudou enormemente desde o final da Segunda Grande Guerra. Não
é tanto de um apocalipse que tenho medo, mas sim das tendências populistas que
podem surgir dos movimentos de rua. Especialmente se violentos, estes podem
levar à emergência de ditadores. Se as pessoas não perceberem para que votam,
se não perceberem o motivo das crises que atravessam, se não entendem o que
representou a reunificação da Alemanha, corremos o risco de começar a pedir um
salvador que nos garanta a estabilidade. A falta de conhecimentos históricos
leva a atalhos perigosíssimos.
LS Sempre fizeste o que quiseste no ICS?
MFM A minha liberdade foi sempre total. Nunca senti a menor pressão, nem por
parte dos colegas, nem do director.
LS Era um ambiente especial
Era uma ilha de excelência. E isto deve-se, como disse, a um homem, Adérito
Sedas Nunes. Se calhar, era ele quem tinha razão, quando me dizia que a criação
institucional era mais importante do que a escrita. De cada vez que entro neste
andar, tenho saudades dele, o que não posso dizer de muitas das pessoas com
quem convivi na universidade. Os jovens que hoje estão no ICS não sabem o que
custou transformar o frágil GIS numa instituição sólida. Alguma coisa se terá
perdido pelo caminho. Mas se hoje há um quadro, um vínculo e orçamentos
plurianuais, e se podemos conferir os graus de mestre e de doutor, isso deve-
se, em grande medida, ao temperamento do fundador do ICS. Um obsessivo crónico,
Adérito Sedas Nunes não parecia interessar-se por mais nada. Os seus anos
finais foram difíceis, mas nada pode apagar o facto de me ter deixado, a mim e
aos meus colegas, uma instituição de que nos podemos orgulhar. Não é pouco.
Notas
* Com a colaboração de Nuno Gonçalo Monteiro, investigador coordenador do
Instituto de Ciências Sociais.
1
Romance da autoria de Manuel Maria Rodrigues (1847-1899).