Web social: mutation de la communication
Florence Millerand, Serge Proulx e Julien Rueff(coord.), Web social: mutation
de la communication, Quebeque, Presses de l'Universitédu Québec, 2010, 374
páginas.
Patrícia Dias da Silva
ICS, Universidade de Lisboa
Designações como web social, redes sociais online, softwaresocial ou web2.0
(bem como várias declinações desta última, como Política 2.0 ou Sociedade 2.0)
encontram-se muito presentes tanto em políticas públicas, peças jornalísticas,
quanto em trabalhos científicos que abordam os novos media. O enfoque dado é
frequentemente sobre mudanças por eles protagonizadas, em particular no que se
refere às transformações no campo da comunicação, na sua prática, nos seus
profissionais, na sua conceptualização. A escolha do título da obra Web
social: mutationde lacommunication indica uma opção que privilegia o estudo do
aspecto relacional através de um olhar sociológico, ético e político sobre as
práticas, dando menos atenção à dimensão técnica dos dispositivos (representada
pela expressão web2.0), dita dos engenheiros informáticos e gestores
comerciais.
O livro reúne um vasto conjunto de contribuições (23) que visam, a partir da
sua óptica distinta e domínio específico, cooperar para a resposta à questão
de que forma o surgimento desta constelação socio técnica chamada web social
participa de uma mutação na comunicação?, como é descrito no parágrafo final
da introdução. A interrogação tinha sido originalmente levantada no colóquio
Web participatif: mutation de la communication?, realizado a 6 e 7 de Maio de
2008, no Institut National de laRecherche Scientifique, no âmbito do congresso
da Association Francophone pour le Savoir, na cidade do Quebeque, Canadá. Este
ponto de partida reflecte-se na constituição da própria obra, que conta com
textos de investigadores que desenvolvem as suas pesquisas em universidades
francesas e no Canadá francófono, oferecendo assim uma alternativa linguística
a um tema tratado sobretudo na língua inglesa, ao nível das principais
publicações e conferências internacionais.
Focando uma multiplicidade de temas e com diferentes abordagens, apesar de
estar subjacente uma perspectiva crítica, a melhor descrição de web social
talvez seja aquela que é dada pelos próprios organizadores: uma proposta de
uma cartografia interdisciplinar de trabalhos recentes. É feita uma crítica
ao chamado tecnofilismo, o qual é considerado com um certo afastamento. Um dos
objectivos é apresentado precisamente como sendo um exame crítico à amálgama
fácil talvez sugerida entre princípios técnicos e questões sociais ligadas à
utilização destas novas ferramentas. De notar que o outro objectivo principal
da obra consiste na utilização de novas pistas de problematização suscitadas
pelas formas online para interrogar as perspectivas teóricas e metodológicas
próprias à sociologia dos usos, uma das correntes de investigação na área da
comunicação ligadas ao estudo da recepção.
A tarefa de compilação ficou a cargo de FlorenceMillerand, Serge Proulx e
Julien Rueff, co-directores e membro (respectivamente) do LabCMO(Laboratoire de
Communication Mediatisée par Ordinateur), que situam a sua pesquisa no campo do
estudo dos usos das tecnologias da informação e da comunicação. Dedicando-se ao
estudo da apropriação social destas tecnologias hámais de 25 anos, Proulx é um
autor reconhecido na área dos estudos de comunicação. O seu livro com
PhilippeBreton, A Explosão da Comunicação (Bizâncio, 1997), esgotado nos
últimos anos, constitui uma referência essencial nos cursos de comunicação.
Entre os autores dos capítulos podemos encontrar um retrato semelhante ao dos
organizadores investigadores em diferentes pontos da sua carreira científica
uma vez que incluem textos de investigadores já com um longo caminho
trilhado, e trabalhos realizados no âmbito de teses de pós-graduação, nos quais
há uma predominância de estudos de caso. Por este motivo, somado ao pendor
reflexivo e crítico dos ensaios que não analisam um tipo de plataforma
específico, a maioria dos contributos é individual, e apenas um exemplo é
assinado por mais de três autores.
Precedendo a divisão da obra em cinco partes, o primeiro capítulo cumpre uma
função de enquadramento que aponta para a multiplicidade de questionamentos que
podem ser colocados sobre a web social, tomando-a como dispositivo
socioeconómico no contexto do chamado capitalismo informacional, em termos de
apropriação democrática, nas implicações para uma ética da produção colectiva e
para uma política da cultura, e é redigido por dois dos organizadores (Serge
Proulx e Florence Millerand). Na primeira parte há um duplo enfoque político,
tanto do ponto de vista dos usos políticos, como da própria política dos
dispositivos técnicos, numa distinção inspirada no trabalho de LangdonWinner,
bem conhecida nos estudos da tecnologia. Sustenta-se uma ligação próxima entre
o social e o tecnológico, na inscrição de aspectos sociais na tecnologia,
partilhando pontos de vista como o do já referido Winner, e de Lessig(citado
por outros motivos), mesmo pretendendo-se escapar ao determinismo tecnológico
estrito.
A segunda parte concerne a participação dos utilizadores na cultura, focando
não só actores institucionais e o recurso que fazem aos novos media, mas também
formas de produção cultural descritas como próprias do novo ambiente
tecnológico. Assim, são abordadas as opções de entidades como as instituições
museológicas e igualmente o conjunto de criações interactivas que compõem o
que é definido como net art, assim como práticas como o podcasting. Começando
com uma introdução às dimensões económicas deste tema, termina com uma nota
breve sobre a participação online.
A terceira parte recorre a exemplos específicos para debater questões mais
amplas, e recentra a discussão na vertente relacional, partindo da construção
da identidade individual até ao funcionamento de comunidades, discutindo-se
temas como o reconhecimento e a natureza da participação dos utilizadores
nesses colectivos.
Na quarta parte, descrevem-se as situações de uso, passando pelo meio
empresarial, universitário, médico, dos media e da própria internet. A última
parte é apresentada como conclusão crítica, focando questões que cada vez mais
se tornam alvo de polémica, como a protecção da vida privada (basta-nos
recordar a controvérsia em torno das predefinições de plataformas como o
Facebook ou o Buzz (do Google), os discursos ideológicos que perpassam a web
social e a sua relação com as indústrias culturais, o estatuto de novidade de
certos modos de participação online, e a necessidade de moderar algum
entusiasmo referente a estes novos meios.
A base analítica de cerca de metade destas pesquisas é empírica, observando
diversos tipos de plataformas, através da utilização de metodologias
predominantemente qualitativas, com destaque para abordagens de recorte
etnográfico. São incluídas redes sociais como o já referido Facebook, jogos
virtuais multi-jogadores, motores de gestão de blogues, plataformas de ensino,
aplicações de podcasting, mensagens instantâneas (também designadas pela sigla
inglesa IM, sendo o Windows Live Messenger e o Google Talk dois dos serviços
mais conhecidos), serviços de indexação, fóruns, sítios que recorrem a
ferramentas interactivas, e o mais famoso de todos os sistemas colaborativos
wiki, a Wikipédia. Esta última foi considerada um objecto de estudo relevante
segundo três ângulos distintos, mas complementares: a tomada de decisão, as
características da participação dos utilizadores neste contexto, e a descrição
do processo de construção de conhecimento. Contudo, esta parte da cartografia
mais narrada não deixa de ser sustentada em bases teóricas, partindo de autores
como Goffman, Weber, Wittgenstein, Benjamin ou MarcelMauss, apesar de a grande
maioria da bibliografia ser relativa aos últimos dez anos de investigação, em
particular no domínio dos estudos dos ambientes online. Há um esforço de
conceptualização de uma proposta teórica sólida, diligência difícil dada a
fluidez dos objectos de estudo, e que procura escapar a duas armadilhas
frequentes nos estudos sobre novos media: por um lado a transposição
irreflectida de conceitos para este domínio, por outra a criação de neologismos
mais próximos da linguagem do marketing do que da ciência.
Seguindo o caminho de autores como Michel de Certeaue a sua análise das
práticas quotidianas que é, aliás, citado pela relevância do seu conceito de
pratiquant bricoleur , é afirmada a oposição a uma concepção das práticas
realizadas por via das plataformas de web social como revolucionárias. Assim,
defende-se uma evolução progressiva, reconhecendo continuidades, e colocando a
origem de comunidades online nos primórdios da internet. É oportuno lembrar
que esta expressão, de facto, já se encontra presente em artigos como
Thecomputeras a communication>device, escrito por Licklidere Taylor em 1968.
Tal não impede que os autores destaquem algo inteiramente novo nas práticas
sociais online mais recentes, que passa pela noção de uso contributivo,
conceito que procura criar uma unidade entre os diferentes trabalhos, e que
assume um papel central na investigação em curso de muito dos investigadores.
Pela abrangência da análise, e pela sua vertente crítica e reflexiva, mesmo nos
capítulos mais empíricos, esta obra apresenta-se como um contributo importante
nos estudos sociais das práticas online, contrabalançando a tendência para
trabalhos estritamente descritivos, a que por vezes se assiste neste campo de
investigação. Trata-se, todavia, de um livro que não permite o conhecimento
aprofundado sobre cada tema ou objecto empírico específico. Fornece, assim,
mais pistas do que respostas consolidadas, o que se justifica também dada a
juventude deste campo de trabalho.