Marcas que demarcam. Tatuagens, body piercing e culturas juvenis
Vítor Sérgio Ferreira,Marcas que demarcam. Tatuagens, body piercing e culturas
juvenis, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2009, 343 páginas.
Ricardo Campos
Universidade Aberta
O livro Marcas que demarcam. Tatuagens, body piercing e culturas juvenis,
editado em 2009 pela Imprensa de Ciências Sociais, constitui uma contribuição
de relevo para o panorama dos estudos juvenis em Portugal. Esta obra, da
autoria do sociólogo e investigador do ICS Vítor Sérgio Ferreira, resulta de
uma pesquisa desenvolvida no âmbito do seu programa de doutoramento em
Sociologia.
Os estudos juvenis têm representado em termos internacionais uma área de
investigação sólida e importante no contexto das ciências sociais, nomeadamente
na disciplina sociológica. Tal facto deve-se, em grande medida, à relevância e
visibilidade que esta categoria social e etária foi adquirindo ao longo da
última metade do século passado, sendo um alvo fácil de discursos mediáticos e
políticos. Muitos dos fenómenos sociais e culturais mais marcantes do século xx
ocidental foram protagonizados por determinadas culturas juvenis. A capacidade
para questionar e afrontar a ordem parece ser, desde há longa data,
característica visível (porque mediatizada) de movimentos sociais e culturais
conotados com os jovens. Oshippies, os punks, os okupas, os graffiti-writers,
entre outros, fazem parte de um longo rol de agentes culturais que habitam o
nosso imaginário e que servem para a edificação de uma certa imagem de
juventude. A necessidade de conhecer em pormenor um grupo etário que foi sendo
socialmente representado, a diversos níveis, como problemático e turbulento
justificou e promoveu o interesse científico devotado a esta temática. Às
ciências sociais tem cabido a tarefa de desconstruir esta juventude fabricada
ao sabor das lógicas mediáticas (e mercantis), aprofundando muitas das matérias
que tão superficialmente são trazidas a debate público.
A tatuagem corporal e o body piercing, embora correspondendo a práticas
ancestrais, dificilmente escapam aos olhares dos mais atentos como elementos
cada vez mais assíduos nos corpos que vislumbramos na paisagem urbana
contemporânea. Não há, por isso, como escapar à questão: que razões têm levado
jovens (e menos jovens), nos últimos anos, a recorrer a estes procedimentos
como forma de ornamentação corporal e, necessariamente, de enunciado simbólico?
A pesquisa realizada pelo autor, com o recurso a um programa metodológico de
cariz qualitativo, procura, precisamente, dar resposta a estas questões. As
opções metodológicas foram justificadas pelo propósito em captar os contextos
subjectivos que fundamentam o uso do corpo como lugar de expressividade
identitária e simbólica. Os estúdios de tatuagem e body piercing funcionaram
como local privilegiado de observação in loco e de articulação entre muitos dos
protagonistas, que contribuíram com a sua voz para a construção de uma
representação sociológica do fenómeno. A realização de entrevistas aprofundadas
a consumidores e profissionais deste tipo de práticas foi acompanhada por uma
observação de inspiração etnográfica aos diferentes espaços reais (estúdios de
tatuagem) e virtuais (internet) onde ancoram estas manifestações corporais.
A estética e a visualidade têm sido recorrentemente reconhecidas por diferentes
investigadores como elementos cruciais para a forma como os jovens e as
culturas juvenis constroem identidades pessoais e culturais, sendo a imagem
cada vez mais usada como expediente comunicativo. Esta não é uma condição
recente, pois a própria emergência das culturas juvenis enquanto fenómeno
social está grandemente associada ao uso estratégico de um campo de
visibilidade. Basta recordar muitas daquelas que ficaram conhecidas como as
subculturas juvenis na segunda metade do século xx e que tinham como elemento
fundamental de diferenciação e afirmação identitária uma imagética grupal
fortemente vincada. O estilo é, ainda hoje, componente de distinção grupal,
servindo para enquadrar os indivíduos nas diversas categorias simbólicas que
compõem a juventude contemporânea. O corpo e os seus adornos, articulados com
competências adquiridas na arte da performance, correspondem, por isso, a
utensílios primordiais no jogo de edificação das arquitecturas de sentido que
nos permitem localizar as pertenças e vínculos sociais. A própria noção
profusamente empregue de tribo juvenil, tão polémica quanto sedutora, parece
estimular no nosso imaginário uma ideia de exuberância e exotismo à qual a
juventude não consegue escapar. A excentricidade de corpos e rituais que se
impõem pela diferença e que parecem habitar mundos indecifráveis.
Nesta obra o autor pretende abordar a relação dos jovens com o corpo, tomado
enquanto matéria passível de exploração pelo sujeito na produção de um sentido
identitário. Se nas sociedades tradicionais o corpo modelado é uma expressão de
domínio do social sobre o individual, na sociedade ocidental contemporânea, que
promove a maior plasticidade corporal e identitária, a forma como o corpo é
vivido e projectado é inteiramente distinta. No Ocidente a tatuagem e o body
piercing inscrevem-se numa genealogia de gestos e enunciados semióticos
marginais, tendo sido historicamente forjados como etiquetas de estigma. Estes
símbolos de alteridade foram, ao longo da segunda metade do século xx,
adoptados por determinados universos juvenis como enunciados subversivos,
claramente divergindo da imagem corporal dominante. Recentemente, à semelhança
daquilo que acontece com muitas das insígnias de desconformidade e antinomia
apropriadas por círculos sociais periféricos, estas expressões corporais foram
sendo assimiladas pelo mercado e por diferentes indústrias culturais, tendo, de
alguma forma, perdido parte da sua aura marginal. Todavia, a popularização
destas práticas não invalida que se detectem formas díspares de uso do corpo e
dos seus ornamentos em contextos juvenis, exigindo uma prospecção mais profunda
das constelações de representações e experiências associadas a este fenómeno.
As marcas corporais estudadas pelo autor são entendidas como práticas
ornamentais do corpo que têm a particularidade de, literalmente, o encarnarem e
de, deliberada e indelevelmente, marcarem a sua superfície, com recurso a um
complexo e diversificado conjunto de objectos materiais e de técnicas de
aplicação [...] sendo as mais recorrentes, actualmente, no mundo ocidental as
que se socorrem de formas mais moderadas de perfuração epidérmica, como a
tatuagem e o body piercing (Ferreira, 2008: 33). O autor não se debruça,
contudo, sobre a totalidade das manifestações corporais passíveis de serem
identificadas neste universo. Distingue, por isso, duas constelações simbólicas
associadas a modalidades de consumo dissemelhantes. Por um lado, identifica uma
modalidade de apropriação consumista, ligada a uma exploração mais volátil e
superficial das marcas corporais como acessório de moda, e, por outro lado,
assinala uma modalidade de apropriação identitária, vinculada a formas não
massificadas e padronizadas de exploração do corpo e tendencialmente
relacionada com uma mobilização de ordem projectual. Os corpos extensivamente
marcados que servem de objecto à análise inscrevem-se nesta última modalidade.
O autor da obra entende os corpos extensivamente marcados como o resultado de
uma operação individualizante do sujeito que, desta forma, converte a matéria-
corpo numa vigorosa articulação semântica de natureza projectual e
autobiográfica. Na índole radicalizada do discurso estético vislumbra-se uma
objecção aos figurinos corporais predominantes. Neste sentido, o corpo oferece
ao sujeito um campo óbvio para a afirmação da sua diferença. E o que inscrevem
os jovens no corpo? A pele torna-se um mapa biográfico, historicamente cunhado,
através do qual é possível ler a singularidade do seu detentor. Mas a pele é
também uma tela que progressivamente pode ser tomada como recurso para
desígnios corporais mais densos e reflexivos. Um projecto de corpo transforma-
se, assim, num projecto de ser. Neste caso, os consecutivos actos de marcação
corporal resultam numa densificação semântica que opera a vários níveis:
estético, identitário e político.
Esta é uma problemática que se enquadra num paradigma que encara os jovens
enquanto agentes activos na formulação de quadros simbólicos e de acção que não
são necessariamente determinados por estruturas objectivas. O usufruto do corpo
configura-se como acto de soberania, de apropriação do único recurso resistente
e duradouro num contexto social fragmentado, de múltiplas ameaças e
inseguranças. Daí que o autor fale de uma política de existência, uma
possibilidade de expressão e de construção subjectiva, onde o corpo se
apresenta como espaço liso', disponível à projecção, à celebração e à luta
pelo reconhecimento de uma identidade imaginada como singular (ser diferente')
e autêntica (ser eu próprio'), estendida e celebrada num estilo de vida que se
pretende escapatório às fórmulas estilísticas e itinerários sociais
normativizados (Ferreira, 2008, p. 299)
Estando a falar de uma manifestação eminentemente visual, o livro teria sido
enriquecido se às vozes dos entrevistados tivessem sido acrescentadas imagens
fotográficas. Em algumas passagens sente-se a necessidade de explorar
visualmente a riqueza semiótica destas expressões, de forma a articular os
discursos dos sujeitos com os seus empreendimentos estéticos. Todavia, a
ausência de imagens em nada afecta a elegância da escrita e a clareza do
discurso científico. Esta é uma obra que concilia eficazmente a actualidade do
objecto de estudo com a pertinência científica de uma abordagem que, em muito,
contribui para o património de estudo sobre as culturas juvenis contemporâneas.