Changing Bodies. Habit, Crisis and Creativity
Chris Shilling,Changing Bodies. Habit, Crisis and Creativity,Londres, Sage,
2008, 216 páginas.
Vitor Sérgio Ferreira
ICS, Universidade de Lisboa
Nesta obra Chris Shilling prossegue o seu propósito de encarnar a sociologia
(cf. Embodying sociology: retrospect, progress and
prospects,Malden, Blackwell, 2007), desta vez com uma proposta analítica sobre
a temática dos corpos em mudança. O gerúndio do título não é inócuo ou
meramente estilístico. De facto, não se trata de mais um estudo sobre técnicas
e tecnologias de modificação corporal voluntária, tema popular numa certa
sociologia contemporânea do corpo. Ampliando a problemática e o universo do seu
objecto de estudo, Shilling aborda sociologicamente, aqui, as formas como os
indivíduos encarnam vários tipos de mudança aos quais são sujeitos ou se
sujeitam, considerando a articulação recíproca entre as capacidades,
potencialidades e constrangimentos inscritos nos contextos de existência dos
indivíduos.
Ao longo do livro, o autor concretiza esse objectivo através da apresentação de
seis estudos de caso, ilustrativos não só de determinadas modalidades
voluntárias de transformação do corpo, mas também de modificações nas
circunstâncias que lhe são exteriores, mas às quais ele terá de se adequar.
Nesse exercício, e a propósito de cada caso, Shilling explora a forma como as
transformações do corpo e no corpo interagem com as propriedades materiais e
sociais que as enquadram, prolongando a sua análise nos processos de reacção
individual e colectiva à transformação dessas mesmas circunstâncias, focando-se
nos respectivos impactos identitários e sociais.
Os estudos de caso apresentados examinam a experiência de mudança corporal dos
indivíduos em contextos muito contrastantes, quer altamente incitadores da
transcendência das potencialidades internas do corpo (a experiência dos corpos
desportivos em contextos de alta competição; a experiência da modificação de
sexo/género; ou a experiência de algumas práticas corporais new age que
migraram do Oriente para o Ocidente), quer em contextos profundamente
constrangedores das respectivas capacidades e propriedades (a experiência de
corpos em mobilidade forçada, como a dos emigrantes, exilados ou refugiados;
a experiência de padecimento na doença; ou a experiência de sobrevivência nos
campos de concentração nazis ou nos gulags soviéticos).
Em qualquer desses casos, porém, o corpo não é linearmente apresentado como
lugar activo de superação de limites ou lugar passivo receptor de efeitos.
Segundo Shilling, em todos os contextos, sejam eles mais instigadores ou
coercivos, a acção encarnada é susceptível de manifestar esquemas corporalmente
reprodutores da ordem institucionalizada, mas também de potenciar no corpo
novas necessidades, capacidades e competências geradoras de mudança nas
identidades, relações e processos sociais. Esta é a tese central desta sua
última obra, recuperada das fundações teóricas da filosofia pragmatista
(representada por figuras como John Dewey, George Herbert Mead ou William
James), bem como da prática de pesquisa da escola de Chicago.
É, efectivamente, junto destas tradições de pensamento e de pesquisa empírica
que Shilling encontra os suportes epistemológicos e metodológicos que julga
necessários para densificar e sofisticar a sua proposta de realismo corporal
(The Body in Culture, Technology & Society, Londres, Sage, 2005, pp. 12-
16), ou seja, uma abordagem sociológica que tenta capturar o corpo na sua
substancialidade ontológica, enquanto matéria viva, vivida e em devir nas suas
propriedades, sejam elas necessidades, potencialidades ou limitações de vária
ordem (morfológicas, fisiológicas, neurológicas, motoras, sensoriais ou
outras).
Considerando a necessidade de prosseguir a produção sociológica sobre o corpo
para além de paradigmas analiticamente esgotados e reducionistas, desde o seu
início que o trabalho de Shilling enveredou por uma via que evita, quer o
retorno do corpo a essencialismos e naturalismos biologicistas, quer a
dissolução da sua carnalidade em construtivismos extremos. Na linha de autores
como Ian Burkitt, Arthur W. Frank, Nick Crossley ou Loïc Wacquant, Shilling
assume que o corpo não se trata apenas de uma fundação natural, mas tão-pouco
se reduz a mera superfície de inscrição social ou discursiva, realidade
simbólica e socialmente construída, determinada por sistemas sociais de
significação cultural, como defendia uma certa tradição associada à emergência
da sociologia do corpo nos anos 80.
Desmistificando a tão aclamada novidade da temática corporal na sociologia
contemporânea, Shilling dedica então a primeira parte deste livro à recuperação
da fisicidade da acção humana tal com foi analiticamente desenvolvida pelos
teóricos pragmatistas e empiricamente investigada pela escola de Chicago na
primeira metade do século xx em pesquisas sobre mobilidade, raça ou desejo,
por exemplo.
Nessa sua viagem a um passado que se havia subsumido na tradição sociológica, o
autor redescobre premissas e conceitos, fórmulas de pensar e de fazer uma
sociologia que reconhece na acção humana a inscrição de propriedades
simultaneamente pertencentes ao mundo natural (físico e orgânico) e social.
Nesta postura epistemológica vê uma forma de superar o reducionismo
sociologista da acção social, como emanação de sujeitos incólumes aos contextos
propriamente materiais em que vivem. Mas, simultaneamente, vê também a
possibilidade de uma aproximação conceptual e empírica à acção humana, que a
tome no conjunto das interacções e transacções que ocorrem entre os seus meios
externo (contextos sociais e ambientais) e interno (organismo humano).
Nesta perspectiva, Shilling propõe que nenhum desses meios sobredetermina ou é
sobredeterminado pelas propriedades do outro. Se o meio social é vital no
enquadramento externo da acção humana, ele terá de ser considerado em
articulação recíproca com o quadro de constrangimentos e oportunidades também
proporcionados pelo meio ambiente e orgânico a que cada um se ajusta ou se
propõe transcender. Colocando as propriedades do meio interno em relação mútua
com o meio ambiente e social externo, a acção humana é reconhecida como acção
inevitavelmente encarnada e, por consequência, epistemologicamente admitido o
papel das necessidades e potencialidades do organismo físico nos esquemas de
acção social.
As acções do corpo e no corpo desenvolvem-se, assim, em articulação com os
constrangimentos combatidos e potencialidades cultivadas nos meios físico e
social, e não necessariamente no sentido da adequação e/ou reprodução de
esquemas corporais prévios. Enquanto sujeitos sempre activos e portadores de
corpos cujas propriedades os habilitam a intervir criativamente nos seus meios,
a acção encarnada pode ser orientada no sentido da transcendência das
circunstâncias ambientais, sociais e orgânicas que a enquadram.
Considerando os pressupostos pragmatistas da acção encarnada, nesta obra
Shilling propõe-se analisar as mudanças do corpo e no corpo à luz de três
conceitos centrais naquele paradigma: hábito, crise e criatividade. O conceito
de hábito pressupõe um relativo equilíbrio na relação estabelecida entre meio
social, ambiental e orgânico (necessidades biológicas e potencialidades
corporais). Traduz-se em modos de agir rotineiros que, colectivamente, ajudam
os indivíduos a gerir corporalmente o mundo à sua volta sem que se reflictam em
cada gesto que fazem com ou sobre o corpo. Sempre resultantes de aprendizagens
adquiridas e incorporadas, os hábitos informam as deliberações dos sentidos,
moldam as reacções musculares ao meio externo e, como tal, são uma das
fundações da construção identitária. Na medida em que sintetizam capacidades
individuais com experiências sensoriais e sociais, os hábitos unificam de forma
particular o corpo, o mundo natural e o mundo social, sendo neles produzidos e
reproduzidos e, simultaneamente, estruturando esses mundos.
Existem, contudo, situações em que a manutenção de determinados hábitos é
limitada por certos conflitos, obstáculos ou contradições existentes entre os
meios externos dos indivíduos e as suas necessidades e potencialidades
corporais. Nessas ocasiões, a acção tomada como natural pelo sujeito é posta
em causa. Quando a acção habitual se demonstra impossível ou inadequada para a
resolução de determinada tarefa, quando a consciência prática acumulada
enfrenta sucessivamente o falhanço, então o hábito, segundo Shilling, enfrenta
um estado de crise. Este estado disruptivo, quando continuado, pode desafiar a
estrutura da identidade pessoal e social do indivíduo e destruir a confiança no
seu próprio corpo e no mundo em que (sobre)vive.
Mas a situação de crise pode também ser um momento para encetar começos,
encorajando o indivíduo a descobrir novos campos de possibilidades. É aí que,
para o autor, emerge a acção criativa, soluções encontradas para reparar ou
repromover as capacidades e necessidades da acção encarnada. São acções que, no
fundo, refundam novos hábitos, em ordem a restabelecer a confiança do sujeito
em si próprio e no mundo.
As fases da acção encarnada ilustram a preocupação de Shilling em evitar o
cartesianismo invertido, tantas vezes característico dos estudos sobre o
corpo. A acção humana não é reduzida às suas fundações biológicas, também não
confluindo totalmente no determinismo do ambiente externo. Se a acção humana é
sempre situada em determinado contexto social e ambiental, caracteriza-se
igualmente por necessidades e potencialidades encarnadas que, activa e
criativamente, dão forma a esses mesmos contextos.
Os fundamentos pragmatistas revelam-se úteis na forma como o autor
conceptualiza a relação entre corpo, identidade e acção social, desenvolvendo
sobre esta uma compreensão analítica e heuristicamente mais fecunda, abrangente
e dinâmica do que as abordagens construtivistas, estruturalistas ou
racionalistas. Mais do que construir uma visão reificada, totalizadora e
unificada daquela relação, o autor vê no pragmatismo uma forma processual de
abordar sociologicamente o modo como os indivíduos ajustam e integram, com
coerência, na sua identidade e na sua vida quotidiana, os constrangimentos
combatidos e as potencialidades cultivadas nos seus meios orgânicos, ambientais
e sociais, através de respostas não raras vezes exploradas e promovidas no
quadro de acções colectivas.