Être ecrivain. Création et identité
Nathalie Heinich,Être ecrivain. Création et identité, Paris, Éditions La
Découverte, 2000, 368 páginas.
Teresa Duarte Martinho
Observatório das Actividades Culturais (OAC)
Être ecrivain é um livro que contribui para ampliar o conhecimento de um grupo
particular de autores, os escritores, e que desenvolve o interesse da socióloga
Nathalie Heinich por questões relacionadas com a identidade profissional e o
estatuto do autor. A obra contém uma abordagem mais invulgar na área da
pesquisa sociológica e, por isso, como a própria autora anuncia, pode ser vista
como distinta e complementar do que designa por sociologia estatística da
profissão de escritor esta com foco na caracterização sociodemográfica e na
análise das condições de vida e da prática profissional.
A investigação de que resultou Être ecrivain decorreu em 1989-1990 e assentou
na realização de entrevistas a cerca de 30 escritores, num conjunto
diversificado quanto a características sociográficas, género praticado, número
de publicações e grau de notoriedade. As perguntas abordaram dimensões como a
relação com o estatuto (representações associadas à palavra escritor), com o
meio literário (pares, editores, críticos) e com os outros (da família aos
leitores), outras actividades e projectos futuros. As questões foram enunciadas
de modo a obter, por parte dos entrevistados, um registo narrativo, centrando-
se na descrição de experiências por si vividas, e não normativo, em torno do
que entendiam dever ser uma experiência.
Quando lhe perguntam o que faz na vida, o que é que responde? esta pergunta
inicial revelou-se especialmente rica, segundo Heinich, pelos desenvolvimentos
que gerou. Ela é já demonstrativa do empreendimento que anima este livro:
compreender em que condições pode alguém dizer eu sou escritor, o que entende
por tal, o que torna possível que seja entendido pelos outros como escritor. E,
tendo em conta o objectivo implícito de perceber onde reside a especificidade
da actividade da escrita e da criação em geral, importava, de acordo com
Heinich, não apenas descrever a multiplicidade de posições a partir da maior
diversidade de casos, mas também explicitar a sua coerência interna (Heinich,
2000, p. 12). A autora procurou, pois, reconstituir lógicas, e não encontrar
explicações que servissem para desmistificar ou negar supostas ilusões dos
entrevistados. Refira--se que para a especificidade desta análise contribui
muito a importância dada às representações, pela sua função de poderoso
agenciador da experiência e motor para a acção, constituindo, portanto, um
elemento essencial na definição de uma pessoa, a par da sua situação real
(Heinich, 2000, p. 14).
O primeiro capítulo deste livro é dedicado a mostrar a maior complexidade dos
trabalhos na área da criação, irredutíveis a um funcionamento que opõe,
designadamente, profissionalismo e diletantismo. Com efeito, as várias
maneiras de ser escritor denotam diferentes relações com recursos tão
essenciais como o tempo e o dinheiro. Considere-se, por exemplo, a
pluriactividade ao longo da vida ou numa época em que marca alguns casos de
escritores entrevistados: se para alguns autores, os que a criticam, é vista
como falta de exigência e mesmo desinvestimento na escrita, para outros
significa o caminho que lhes permite a não dependência do trabalho literário e
o evitar dos constrangimentos que associam a tal situação.
Se múltiplos são os modos de ser escritor, em todos a tendência para a
indeterminação surge, de acordo com a autora, como o factor mais constitutivo
da sua identidade, levantando Heinich as seguintes interrogações: deve-se
considerá-la [a indeterminação] um indicador de uma falta de racionalidade das
condutas, levantando obstáculos ao investigador, que deveria então racionalizá-
las e reduzi-las a determinações ocultas? Ou deve considerar-se a
indeterminação dotada da sua própria racionalidade, ou seja, de sentido e
coerência? (Heinich, 2000, p. 62). Fazendo sua a segunda opção, Heinich
percorre os vários níveis onde paira a indeterminação, entre os quais figuram
os seguintes:(i) tornar-se escritor:não havendo uma formação específica para
ser escritor, as fontes da competência para a escrita literária (uma disposição
interior ou um trabalho pessoal?) são de difícil objectivação; (ii) ser
reconhecido como escritor: a prova da publicação (bem como a sua quantidade e
regularidade) não é um critério de apuramento de um verdadeiro ou grande
escritor; (iii) acabamento da obra: à incerteza do momento em que a obra
começa, acrescenta-se a indeterminação quanto à altura em que a obra está
pronta o que leva a autora a ver no escritor, ao trabalhar na elaboração da
sua obra, tanto a figura do jogador como a do árbitro.
A propensão para a indeterminação representa uma consequência directa do regime
vocacional, o qual caracteriza, segundo Heinich, as actividades de criação a
partir da segunda metade do século xix desde então, defende a autora, é a
vocação que está no centro das condições necessárias para a prática artística,
esta sendo encarada como lugar de um investimento total da pessoa. O regime
vocacional, distanciando-se da arte como profissão, evidencia as
particularidades laborais do mundo da criação, onde, no caso dos escritores,
acontece escrever ainda que não haja remumeração e até escrever tendo de pagar
para mostrar (editar) o trabalho. Neste regime, a pluriactividade torna-se uma
circunstância mais expectável do que estranha.
A segunda parte deste livro dedicada aos argumentos que sociólogos,
historiadores, críticos, leitores e autores desenvolvem para relativizar as
representações do escritor é ocasião para debater palavras fortes na história
das actividades de criação, como inspiração, uma experiência que assume a
centralidade (por reconhecimento ou rejeição) nos discursos dos entrevistados,
mesmo quando não a nomeiam directamente. Ao analisar as críticas dirigidas à
inspiração, Heinich distingue três categorias, que podem coexistir num mesmo
indivíduo: (i) crítica racionalista: opõe-se à inspiração em nome da razão,
considerando o apelo à inspiração um gesto irracional; (ii) crítica política: à
luz de uma lógica de distribuição democrática dos recursos segundo os méritos,
os valores associados à inspiração e à vocação não têm cabimento; (iii) crítica
artista: caracteriza-se, paradoxalmente, pela desconstrução dos estereótipos
do senso comum quanto à figura do escritor, em nome de uma singularização mais
radical.
Être ecrivain de que ficaram expostas algumas ideias principais é um livro
exigente e profundo, com vários méritos.
Em primeiro lugar, contribui para abrir uma fresta num painel que, no que
respeita ao estudo das profissões artísticas, tem sido quase exclusivamente
preenchido por análises focadas em caracterizações sociodemográficas e nas
condições de exercício da profissão; estas, sendo úteis e valiosas, não esgotam
o conhecimento do estatuto de artista.
Em segundo lugar, é de destacar o tipo de atenção manifestada por Heinich ao
longo do livro concentrada na relação entre representações e coerência
interna, e não na verificação da veracidade das representações , que lhe
permite demonstrar como a expressão ganhar a vida pode significar, para os
que têm na escrita literária o centro da sua ocupação, dar sentido à sua
existência (Heinich, 2000, p. 124). Tal fica especialmente evidente quando
aborda a tensão, com que os escritores continuamente se confrontam, entre os
imperativos de singularidade e de comunidade dois sistemas de valores e de
representações, e não duas categorias de acção. Ganhar a vida alude ainda,
nesta e noutras actividades de criação, à possibilidade de ultrapassar a
contingência da existência biológica, uma vez que a realização de uma obra,
através da assinatura, permanece fortemente unida ao autor ao contrário, como
nota Nathalie Heinich, do que sucede com outros legados: se filhos há,
autonomizam-se; se fortuna existe, transmite-se. Como diz o escritor Vergílio
Ferreira no romance Até ao Fim, quando entrevistado por Clara: Mas a arte é
diferente. Por que escrevo? Porque gosto de fazer, de me realizar numa obra, de
haver futuro para mim, de visitar o encantamento, de descobrir o mistério do
real (Ferreira, 1992, p. 213).