Filosofia política e democracia
Não existe filosofia política sem filósofos políticos. Mas estes vivem num
determinado espaço sujeito a uma certa forma política. Nos nossos tempos essa
forma política é democrática. É conveniente, portanto, perceber melhor que
relações se estabelecem entre a forma política democrática e a prática da
filosofia política. As ditas relações podem ser examinadas a partir de várias
perspectivas. Aqui tentaremos averiguar o que a perspectiva da própria
filosofia política contribui para essa consideração, isto é, o que resulta do
exame do feixe de relações entre a democracia e a filosofia política, operado à
luz das preocupações e categorias da filosofia política. Esperamos mostrar o
carácter complexo dessas relações e, em concreto, demonstrar que, se é certo
que têm sido historicamente benévolas para a filosofia política, não é menos
certo que contêm alguns riscos para a sua prática. Além disso, contamos ainda
clarificar os contornos básicos da tensão entre a democracia e a filosofia
política.
I
Para examinar a relação entre filosofia política e democracia teremos de
recorrer aos filósofos políticos do passado, não tanto para deles obter
respostas, mas antes para recuperar as problematizações essenciais dessa
relação. Em filosofia política, a perspectiva histórica é sobretudo um sentido
das possibilidades concretas ou virtuais. A aquisição da perspectiva
histórica, ou do sentido da possibilidade, permite a libertação do horizonte
político e linguístico actual, o que é o mesmo que dizer que permite resistir
às inclinações do paroquialismo da contemporaneidade. A filosofia política
recorre à sua própria história para ser genuinamente comparativa, para aceder
às interpretações e formulações dos problemas e das suas soluções.
A tese do fim da história de Kojève na versão de Fukuyama foi tão debatida que
até já é cansativo repeti-la. O facto é que, num aspecto crucial, a tese parece
ter sido comprovada. Claro que é preciso imediatamente acrescentar: pelo menos
no Ocidente. Para lá das fronteiras incertas do Ocidente ainda é preciso
admitir que a democracia tem concorrência ideológica credível. Mas no
continente europeu e na América do Norte o monopólio absoluto de que a
democracia enquanto regime político aceitável e desejável goza é
indiscutível. Apesar de todas as atribulações conjunturais, a essência do tema
permanece intocável: a democracia é satisfatória para os cidadãos europeus
porque os Estados europeus, na formulação de Hegel, garantem o reconhecimento
recíproco dos indivíduos, protegidos pelos mesmos Estados enquanto sujeitos de
direitos, sendo estes direitos, por sua vez, reconhecidos e garantidos
politicamente. Mais: a satisfação com a democracia não é mero contentamento,
mas a manifestação de se terem cumprido as exigências da razão. Daqui decorre
que o primeiro a se satisfazer com a realidade democrática é o homem de razão,
o filósofo. Assim, qualquer discussão da democracia que a relativize aparece
como uma intervenção desrazoável (Manent, 1993a, p. 63).
A filosofia política depara-se, então, com uma circunscrição inaudita dos seus
debates. Desde logo, o problema clássico da filosofia política qual o melhor
regime político? parece ter sido resolvido definitivamente. À pergunta qual
o melhor regime político?, a era democrática deu uma resposta filosófica: a
democracia. Admitindo o carácter definitivo da resposta, ainda restaria uma
tarefa filosófica, a saber, conhecer o regime político que satisfaz as
exigências da razão. Será possível levar a cabo essa tarefa sem prescindir de
um ponto de apoio, não necessariamente antagónico, mas exterior à própria
democracia?
II
Cícero, numa passagem que faria história, disse que Sócrates fez a filosofia
descer dos céus e colocou-a nas cidades dos homens e trouxe-a também para as
suas casas e forçou-a a falar da vida e da moral (Cícero, 1989, v. 10). A
acreditar em Cícero, Sócrates foi, portanto, o primeiro filósofo político. A
filosofia política é, no mesmo sentido, originariamente socrática; pretende
falar dos homens, da cidade, da vida humana e da moral. E fá-lo indirectamente,
isto é, através do exame do que os homens dizem acerca de si próprios, da
cidade, da vida humana e da moral (Platão, 1947b, 99e). Neste movimento,
Sócrates fixou no mundo humano o contexto mais adequado à actividade
filosófica, que é, por assim dizer, sobre-humana. E, na medida em que a
filosofia socrática pode ser descrita como a obediência ao imperativo divino
conhece-te a ti mesmo, a filosofia política corresponde ao movimento natural
do autoconhecimento, quer dizer, do conhecimento da realidade prática em que o
homem vive e age.
Francis Bacon, ao indagar as origens da filosofia política na interpretação que
oferece do mito de Orfeu, sugere outro movimento generativo da filosofia
política. Orfeu produzia música de dois tipos: a que apaziguava os poderes
infernais e a que atraía e seduzia os animais e as árvores. A primeira, diz
Bacon, corresponde à filosofia natural e a segunda à filosofia política.
Inconsolável com a morte da sua mulher, Eurídice, Orfeu resolveu descer aos
infernos para a resgatar. A sua música, como seria previsível, persuadiu os
poderes infernais a devolverem-lhe Eurídice, na condição de que não olhasse
para ela que seguiria atrás dele até chegarem ao mundo dos vivos. Como se
sabe, Orfeu não resistiu ao desejo de rever a sua amada, o que tudo deitou a
perder. Desiludido, Orfeu levou uma vida solitária, percorrendo os desertos
apenas com a sua música. Porém, essa mesma música atraiu os animais, incluindo
os animais selvagens, que, esquecendo a sua selvajaria e os seus instintos
predadores, se dispunham harmoniosamente a escutar a melodia de Orfeu. Até as
árvores e as pedras se reuniam ordeiramente em seu redor para o ouvir. Segundo
Bacon, Eurídice simboliza a humanidade e, tacitamente, insinua que a temperança
ou mesmo um certo ascetismo no amor pela humanidade são cruciais nas
inclinações do filósofo. Por outro lado, guiar a humanidade das trevas da
caverna infernal até à luz do sol pressupõe paciência e não apressar um
processo que tem o seu próprio tempo e ritmo. O filósofo não se pode perder nem
por amor pela humanidade, a mais doce das tentações. Mas para Bacon foi a
frustração com o fracasso do resgate de Eurídice (inicialmente bem sucedido
através do uso da filosofia natural) que desviou Orfeu para o cuidado com os
seres particulares do seu mundo, para os objectos humanos, para o ensinamento
do amor à virtude, equidade e concórdia, para levar multidões de pessoas
para uma sociedade, torná-las sujeitas às leis, obedientes ao governo, em
suma para pensar e exortar, recorrendo à persuasão e eloquência, à ordem
política. Mas a história de Orfeu teve um fim trágico. Algumas mulheres
trácias, possuídas pelo espírito de Baco, com os seus gritos, sufocaram a
música da cítara de Orfeu. Como a harmonia circundante dependesse dessa música,
o resultado foi a desordem e a dilaceração do corpo de Orfeu às mãos das
trácias furiosas. Assim, parece que a filosofia política é menos poderosa do
que inicialmente se supunha. Está indefesa perante as ameaças da fúria e da
embriaguez (Bacon, 1991, pp. 228-231).
A dúvida que subsiste, pois Bacon não a esclarece nesse texto, é se a reflexão
sobre os perigos que rodeiam a filosofia política, se a relação de inimizade
que a fúria tem com ela, não é também uma consideração filosófica. Mais: se a
reflexão abrangente sobre o significado da filosofia indica o desdobramento em
filosofia política e se indica igualmente que o filósofo se relaciona com seres
que o podem amar, assim como odiar e desejar a sua destruição, então Bacon
parece sugerir que a filosofia é sempre filosofia política. Se tomarmos o
pensamento de Bacon como um todo, percebemos que a intenção que está por detrás
do seu retrato de Orfeu como o filósofo consiste em mostrar que a correcção de
Orfeu abre o caminho para a perfeita consciência filosófica da realidade. O
filósofo perfeito é, portanto, um novo Orfeu que reflecte sobre a experiência
paradigmática do antigo Orfeu. Podemos até sugerir que o aviso de Bacon
encontra o paralelo mais adequado na persistente reflexão da filosofia política
sobre a experiência de Sócrates (Platão, 1947b, 96a-100a) e o seu destino,
tanto no que este tem de trágico como de cómico (Strauss, 1989b, pp. 105-106).
Omitindo o problema de como domar os poderes infernais, por pertencer ao
domínio da filosofia natural, podemos pelo menos dizer que é tarefa urgente
da filosofia política prevenir e domar as paixões dionisíacas desenfreadas, o
que não custa aceitar que se trata de uma tarefa política da filosofia. E é
importante sublinhar que Bacon compara a filosofia a uma pessoa; é a pessoa de
Orfeu que oferece uma descrição singular da filosofia.
O passo de Cícero e o comentário de Bacon descrevem movimentos diferentes. Mas
os seus pontos comuns permitem tirar algumas conclusões. Primeiro, na medida em
que a filosofia é o desejo ou o amor pela sabedoria, pelo conhecimento
articulado do todo, a filosofia é também o amor pelo conhecimento da realidade
prática; a filosofia é também filosofia política. É igualmente necessário
sublinhar que a filosofia é uma forma de vida, um modo de existência, e não um
corpo doutrinal, uma teoria, nem sequer uma forma de adquirir conhecimentos. No
discurso que produz sobre si, a filosofia justifica-se a si mesma como a melhor
vida para o homem e, portanto, não deixa de se comparar com as outras formas de
existência. De entre as várias possibilidades de existência, o filósofo escolhe
uma, a que lhe permite satisfazer o seu desejo de sabedoria. A dedicação é
incompatível com outros modos de existir. Mas os outros modos de existir o do
religioso, o do hedonista, o do político podem ser formulados de uma forma
que ponha a vida filosófica em questão. Essa confrontação reforça a necessidade
de uma reflexão não só sobre a vida individual, mas também sobre a vida
colectiva, isto é, sobre a comunidade política, a começar pela relação da
filosofia com a comunidade política. E donde parte a filosofia quando procede a
esse exame? Das opiniões da cidade, da esfera política ou pública, rumo ao
conhecimento ou à ciência. A filosofia não pode evitar o envolvimento com a
política nesta tarefa autenticamente científica (Strauss, 1989a, pp. 74-76).
Porém, a vida política é controvérsia; as possíveis respostas que emergem das
controvérsias políticas são ambíguas. E o filósofo não tem outra alternativa
senão interferir nessas controvérsias, articular os argumentos das partes em
conflito e clarificar, tanto quanto possível, a natureza das respostas.
Contudo, estas primeiras observações, por serem provisórias, podem ser
enganadoras. De modo a dissiparmos equívocos gerados por conclusões apressadas
é preciso dizer que a filosofia política não é democrática. Com isto não se
pretende dizer que a filosofia política seja inimiga da democracia. Repete-se
apenas um lugar-comum, a saber, que, apesar da proficuidade da absorção da
experiência política democrática nas origens da filosofia grega, a filosofia
política não é um produto da democracia. Num entendimento socrático de
filosofia política, por contraposição à versão hegeliana, ou mais
rigorosamente kojèviana, nunca se anula a distinção radical entre as condições
de compreensão e as suas fontes, entre as condições para a existência e
prossecução da filosofia [ ], por um lado, e as fontes do conhecimento
filosófico, por outro (Strauss, 1991, p. 212). No fundo, esta é uma
reformulação da exposição de Heidegger na Introdução à Metafísica, onde o
filósofo insiste na extemporaneidade da filosofia. Todo o questionar essencial
da filosofia permanece necessariamente extemporâneo. E isto é assim porque a
filosofia ou se encontra projectada muito para além do seu respectivo presente,
ou religa o presente ao seu passado originário (Heidegger, 1997, pp. 16-17).
Daqui decorre que o filósofo político não desenvolverá relações incondicionais
de lealdade com este ou aquele regime político ou com o destino histórico de um
povo. O filósofo político não tem um domicílio fixo no mundo. A sua lealdade
para com a filosofia não lhe permite criar essas raízes ou dependências
especificamente políticas. Mas o adjectivo político impede que o filósofo se
distancie absolutamente do tempo presente. Com o envolvimento na realidade
política e, principalmente, com um modo político de introduzir a filosofia, vem
também alguma consideração pelos tempos ou pela situação histórica. Em tempos
democráticos, a filosofia política fala de, e com, uma humanidade distinta
(Tocqueville, 2002, II.iv.8).
Ora, quando se tenta averiguar a relação entre a filosofia política e a
democracia e se aceitam as propostas de Cícero e de Bacon, cabe perguntar se a
democracia é boa hospedeira dessa forma filosófica de viver e se todos os
elementos que transmigram da experiência democrática para a actividade
filosófica têm o carácter benéfico que vimos.
Perante o desafio de responder à pergunta o que é a filosofia política?,
James Tully decide-se por considerar que não há uma única reposta definitiva.
Talvez pensando no facto de a história da filosofia política ser também a
história das respostas a essa pergunta, Tully reformula-a: Qual é a diferença
comparativa que faz estudar a política desta maneira em vez daquela? (Tully,
2002, p. 533). A hesitação de Tully tem méritos evidentes, a começar porque nos
elucida quanto à complexidade da actividade da filosofia política, bem como
quanto à complexidade do seu próprio objecto. Se as diferentes concepções da
filosofia política podem resultar de uma atenção particular a um aspecto, ou a
um conjunto de aspectos que caracterizam, mas não esgotam, o mundo político,
então talvez sejamos autorizados a inferir que as configurações concretas do
mundo político podem contribuir para definir a filosofia política como
actividade. Dito de uma maneira mais simples: se esta relação for aceitável na
tarefa de auto-interpretação do filósofo político, as condições políticas do
exercício da filosofia, que lhe conferem um universo variável de objectos,
interferem na concepção de filosofia política que se acolhe. Esta relação de
interferência resulta até da sensibilidade à prática, dir-se-ia mesmo à
primazia da prática, que a filosofia política necessariamente tem (Tully,
2002, pp. 534-535). Não é, portanto, inócuo averiguar quais as relações que se
estabelecem entre, por um lado, as condições políticas contemporâneas de
exercício da filosofia política a que chamarei genericamente democracia
e, por outro lado, uma concepção de filosofia política que pelo menos deseje
não ser serva da realidade política do seu tempo.
III
Vários comentadores já observaram que a prática da filosofia recolheu da
experiência democrática certas referências inconfundíveis. John Dunn, por
exemplo, coloca o problema que pode servir de ponto de partida para toda uma
investigação. Sugerindo as ligações entre a experiência democrática ateniense e
o pensamento grego, Dunn assinala que, não obstante a possibilidade de os
gregos terem assimilado muitos recursos intelectuais de outros povos com outras
experiências, na realidade essa apropriação e reunião assumiu formas novas, ao
ponto de gerar um estilo grego de cognição, e que não foram independentes da
vida democrática em que o processo de assimilação decorreu. As afinidades entre
as práticas políticas e as instituições democráticas, por um lado, e as
inclinações intelectivas e discursivas da filosofia grega, por outro, são, para
Dunn, evidentes: a discussão pública, a troca de argumentos, o comandar e ser
comandado alternadamente, a decisão sem a sombra da autoridade, a estrutura
política publicamente responsável, encontram paralelos nos desenvolvimentos das
técnicas filosóficas gregas. Apesar de Dunn conceder que muitos dos filósofos
gregos se distinguiam por uma condescendência política aristocrática, que
gerou uma certa animosidade e a desconfiança mútua permanente entre a
investigação filosófica ou científica e a autoridade democrática, acaba por
insistir em que ambas radicaram na mesma experiência social colectiva (Dunn,
2002, pp. 261-262).
Entre as práticas cívicas e culturais que perpassaram para a actividade
filosófica é habitual incluir, para além das que já foram mencionadas, as
orações fúnebres públicas, assistir activamente aos concursos teatrais e a
ética da parrhesia(ðáññçóßá). Veja-se, a título de exemplo, o caso do cidadão
(e do filósofo) como parrhésiastés. A Atenas democrática não dotava a cidadania
activa apenas de isegoria, isto é, do privilégio legal de tomar a palavra na
assembleia; a plena cidadania tinha outro requisito de ordem moral, o de que
cada cidadão fosse um parrhésiastés. Parrhesiasignifica, literalmente, dizer
tudo, falar com franqueza, dizer a verdade como quando alguém nos desafia
a não escondermos nada. Na prática discursiva da parrhesia integra-se a
franqueza, porém não num sentido equivalente à sinceridade ou à transparência
dos sentimentos de quem fala; a coragem, já que o parrhésiastés corre o risco
de punição ou, pelo menos, de incorrer no desagrado do interlocutor por lhe
dizer a verdade inconveniente; e, evidentemente, a crítica, que adquire um
sentido até mesmo de admoestação (merecida) e que radica na consciência
patriótica de que o melhor amigo da cidade é o que lhe diz a verdade para
melhor a aconselhar a abandonar os maus modos. Esta prática discursiva
sustenta-se numa ética, na medida em que evidencia a força do carácter
doparrhésiastés, disciplina os poderes públicos (denunciando as suas faltas) e
o discurso público (contrastando com as hipocrisias e com as retóricas
demagógicas). É parte integrante da vivência mais plena da liberdade e da vida
cívica democrática, pois decorre da abertura tipicamente democrática ao
confronto de opiniões e à disponibilidade comunicacional para ouvir o que, por
vezes, é doloroso. O que é curioso é que em Platão acedemos a uma crítica
bastante dura daquilo a que poderemos chamar parrhesia pervertida, ao mesmo
tempo que é feita a identificação do parrhésiastés autêntico com o filósofo. A
democracia ateniense promove a parrhesia pervertida, sintomática da liberdade e
da abertura democráticas, que fomentam a fragmentação das existências e
cultivam a ignóbil indiferença entre o nobre e o vil. Mais: o que a democracia
chama parrhesianão é mais do que a insolência, a calúnia, as tolices, em suma a
anarquia discursiva que se sobrepõe à desordem mais fundamental no domínio dos
costumes. A apropriação filosófica da ética da parrhesia, a consequente
apresentação de Sócrates como um parrhésiastés e a introdução da parrhesiacomo
condição elementar da dialéctica exigem, porém, que se regre ou oriente a
parrhesia pela discriminação do que é bom e mau, do que é belo e feio, do que é
melhor e pior. Exigem ainda que o discurso franco seja também orientado pela
responsabilidade. De um ponto de vista meramente político, a apropriação
filosófica da parrhesia privatiza esta prática discursiva, tornando-a mais
eficaz, mas igualmente menos danosa para a cidade (Scarpat, 1964; Monoson,
2000; Foucault, 1983).
Neste sentido muito concreto, a filosofia, em geral, e a filosofia política, em
particular, parecem estar em dívida para com a democracia e, mais importante do
que isso, parecem reproduzir na sua actividade traços e referências
originariamente democráticos.
Em contrapartida, ninguém precisa de ser recordado de que existe uma tensão
entre a filosofia e a política, ou entre o filósofo e a cidade. Mas não é menos
verdade que nem todas as cidades são iguais. Em grande parte, a filosofia
política moderna procurou conciliar a filosofia com a cidade, percebendo que
para tal seria necessária a transformação da cidade pela filosofia, pelo menos
num aspecto crucial (mas que tem implicações indirectas sobre tantos outros): a
liberdade. Assim, à primeira vista, não há qualquer problema a resolver. O
regime que resulta da tentativa moderna de transformação da cidade, o regime
democrático, o regime das liberdades, o regime que protege a liberdade de
pensamento e de expressão, é o mais amigável em relação à filosofia política.
De facto, se atentarmos nas primeiras defesas da liberdade de expressão,
reparamos que pelo menos algumas tinham como propósito fundamental a prioridade
filosófica da procura da verdade. É o caso de John Milton, para não mencionar
outros pensadores tão diferentes como John Stuart Mill ou Immanuel Kant. Em
Milton, que nem pode ser considerado um autor democrático (Morgado, 2008a),
essa preocupação é perfeitamente evidente. Antes de ser um direito humano
inalienável à pura expressão do sujeito, a liberdade de expressão aparece como
o corolário de uma recomendação filosófica quanto aos melhores meios de se
procurar e esclarecer a verdade sobre as coisas e de eliminar o erro ou as
opiniões pouco fundamentadas. Não se pretenderem negar os argumentos políticos
e morais avançados por Milton. Mas estes têm uma natureza polémica, ao passo
que o argumento filosófico é, por assim dizer, puro. A censura imposta por
qualquer ortodoxia é sempre essencialmente antifilosófica, não tanto por ser
uma medida repressiva, mas porque aniquila a procura da verdade e perpetua as
ilusões ou as opiniões erróneas. Até porque a justificação tradicional da
censura tinha também uma natureza filosófica ou educativa: prevenir a difusão
do erro, proteger a verdade. A descoberta da verdade e o assentimento
voluntário e convicto que o triunfo da verdade sempre requer dependem de um
exercício, de uma progressão, de um confrontocom as múltiplas teses que se
desenvolvem a respeito das várias questões que vão surgindo. O contrário desta
técnica do entendimento consiste na aceitação passiva da autoridade. Porém, a
aceitação da autoridade, por mais que corresponda provisoriamente à aceitação
da verdade, gera, de forma inevitável, o ócio do pensamento e amolece a
convicção (Milton, 1999, pp. 34-35). Só a concorrência de várias propostas
públicas de verdade solicita o uso da razão. E só o uso da razão nos dá razões
para assentirmos numa proposição racional. Ora, sem liberdade de expressão e de
publicação, um dos bens do regime democrático, é a razão que definha, é a
filosofia que, em última análise, é posta em causa.
Quando se examina a liberdade de expressão deste ponto de vista, torna-se
forçoso rever a tese da tensão entre a filosofia política e a democracia. Claro
que este conflito não é exclusivo das democracias. Todos os outros regimes se
caracterizam pelo mesmo fenómeno. Mas, à excepção das democracias, nenhum outro
regime proclama ter resolvido o dito conflito. Nesses regimes, o problema
aparece à consciência filosófica de modo, por assim dizer, manifesto. Mas no
regime de total liberdade de expressão o problema parece perder actualidade e
tenta até desaparecer da consciência filosófica. Importa, por isso, frisar que,
quando se fala no perigo que um determinado regime representa para a filosofia,
é necessário distinguir, por um lado, o perigo que ameaça a segurança da pessoa
do filósofo e, por outro lado, o perigo que ameaça a filosofia enquanto
possibilidade.
Sócrates foi acusado pelo tribunal ateniense de não acreditar nos deuses da
cidade, de introduzir deuses novos e de corromper a juventude (Diógenes
Laércio, 1989, II.40). Aparentemente, a primeira acusação indicia o arcaísmo do
exemplo de Sócrates. Afinal, as nossas democracias contemporâneas já não têm um
panteão de deuses nem obrigam os seus cidadãos a crer em qualquer entidade
sobre-humana. Já a segunda acusação reflecte a desconfiança da interferência na
educação dos jovens, em particular se essa interferência corroer a lealdade
para com o regime político, neste caso a democracia. De certo modo, a acusação
é inevitável. Na medida em que o filósofo comunica, ele envolve-se desde logo
em actividades educativas. O conflito é previsível. Sendo um educador, o
filósofo concorre nessa tarefa com o político, no duplo sentido que abrange os
estadistas e o regime, os quais se vêem a eles mesmos, e são-no, educadores
também. A concorrência não demora a ser percebida como interferência. A solução
mais óbvia, abandonar a cena política, pode não ser suficiente. A retirada para
os assuntos privados parece evitar que se contrarie a democracia, parece
garantir que se escape às suas injustiças e ilegalidades e assim se escape
à prisão ou à morte (Platão, 1947a, 31d32a, e 1989b, 496c-e).
É possível que o filósofo consiga proteger-se das duas acusações. Para tal terá
de demonstrar que a vida filosófica não cultiva uma atitude descrente e cínica
perante os ídolos da cidade e, sobretudo, professar a benevolência da filosofia
na formação da boa cidadania. Por outras palavras, a filosofia terá de se
tornar filosofia política.
IV
A filosofia convive com um contexto político. Por conseguinte, a filosofia
política deixa-se encantar pelo chamamento dos vários fenómenos políticos.
Evidentemente que, como em todas as coisas, os fenómenos políticos também se
distribuem por uma hierarquia de importância e dignidade. Na Política só por
uma vez Aristóteles utiliza a expressão filosofia política (Aristóteles,
1998, 1282b22-23). Donde vem a dificuldade que solicita uma filosofia
política? O contexto da passagem resume-se numa linha: saber em que consiste
a igualdade e a desigualdade (1282b21-22). O apelo de Tocqueville a uma nova
ciência da política é mais célebre. Tocqueville escreve que é precisa uma
nova ciência política para um mundo inteiramente novo (Tocqueville, 2002, p.
43). E qual é a novidade deste mundo? Essencialmente, este mundo é novo por ser
o mundo da igualdade.
Estas breves referências servem o propósito de assinalar o poder que as
considerações e as concepções públicas de igualdade (e de desigualdade) tiveram
sobre a filosofia política, pelo menos a de alguns filósofos particularmente
importantes. Mas, para o regime democrático, o problema da igualdade não é um
problema entre outros. Está no centro da sua auto-interpretação e da sua
mensagem apostólica. Não é por acaso que os mesmos Aristóteles e Tocqueville,
depois de exprimirem a necessidade de intervenção da filosofia política a
propósito do problema colocado pela igualdade, tenham imediatamente a seguir
examinado com atenção a democracia. Mais: Tocqueville associa o seu apelo a uma
nova ciência da política à intenção política que subjaz à obra Da Democracia na
América. Instruir a democracia, rejuvenescer, se possível, as suas crenças,
purificar os seus costumes, orientar as suas movimentações, substituir pouco a
pouco a sua inexperiência por uma verdadeira ciência de governar e os seus
instintos cegos pelo conhecimento dos seus verdadeiros interesses
(Tocqueville, 2002, p. 43). Assim, Tocqueville, um dos grandes filósofos
políticos da democracia moderna, deixa transparecer os elementos fundamentais
que estruturam a relação entre a filosofia política e a democracia: conhecer,
educar, arbitrar.
Com as propostas de Aristóteles e Tocqueville percebe-se melhor a abordagem da
filosofia política. Há que tomar em conta os argumentos de ambas as partes no
debate entre oligarcas e democratas, ou, por outras palavras, saber que tipos
de igualdade e que tipos de desigualdade devem ser considerados na atribuição
de direitos de participação política. Articular as fontes de desigualdade ou de
superioridade com as prerrogativas de participação política é o que invoca a
necessidade de uma filosofia política. Porquanto o que está em causa é a
comensurabilidade dos bens reivindicados pelos diferentes grupos humanos ou
pelas diferentes partes da cidade. Por que se atribui prioridade a certos
elementos da cidade sobre outros? Para poderem ser ordenados ou hierarquizados
têm de ser comparados. Ora, um critério ou uma medida comum (e sustentável) de
comparação entre os bens que cada um dos elementos do debate reclama é
extraordinariamente difícil de obter, e ainda mais difícil de acolher a
anuência unânime. Claro que cada regime político decide a contenda de um modo
mais ou menos decisionista, isto é, cada regime político tem de decidir de
forma autoritária esse critério ou medida, que nos dá quase automaticamente a
concepção de justiça da cidade. Cada regime político, enquanto perdura,
silencia, por assim dizer, o debate entre os elementos da cidade. Mas o
filósofo político sabe que o debate perdura, talvez não na sua cidade, talvez
não no seu tempo, mas no espírito humano, até porque, em termos estritamente
teóricos, o debate ficou por resolver (Manent, 1993a, pp. 66-67).
Assim, a filosofia política não pode resumir-se à justificação do
modusvivendimais ou menos confortável entre concepções do bem, por muito que
em certas ocasiões essa solução prática seja sedutora. Por vezes, há
circunstâncias que levam uma sociedade radicalmente pluralista, em que os
elementos e os bens da cidade desistiram de comunicar uns com os outros, a
resignar-se à sua condição de arquipélago. Há teorias políticas que defendem
precisamente esse resultado como o mais compatível com o único absoluto que a
filosofia pode reconhecer, a liberdade ou a vontade humanas. Não há como negar
que certas sociedades chegam, de facto, a esse grau zero da comensurabilidade
dos bens. Mas, excluindo os casos excepcionais, poderá a filosofia política
acompanhar essa desistência, entregando os estadistas aos seus trabalhos
inadiáveis de procura de acomodação e comunicação dos bens sem lhes prestar
qualquer orientação?
A filosofia política moderna, em geral, confrontou-se com o problema da
absoluta incomensurabilidade das reivindicações religiosas. O pluralismo
religioso, digamos assim, ou a simples presença de argumentos que se recusavam
a prescindir de formas e conteúdos próprios da espiritualidade, pareceram de
tal forma desestabilizadores das condições de prossecução do debate cívico que
uma nova orientação se afigurou necessária. A ideia do Estado neutro é, como
podemos ver desde Hobbes, uma solução da filosofia política na sua variante
moderna para este problema muito delicado. Para salvar a cidade e, logo, as
condições de possibilidade da vida filosófica, a filosofia política moderna,
que sustentou a concepção do Estado neutro, foi forçada a um compromisso
tremendo. Sendo filosofia política, isto é, filosofia do homem e das coisas
humanas, obrigou a uma igualmente tremenda abstracção: o cidadão tinha de
prescindir de ser homem, um ser com ideias, convicções, concepções do bem,
religião, e por aí em diante. A filosofia política pré-moderna, em particular a
de Aristóteles e a dos seus muitos discípulos, tendia a ver no debate político
uma reprodução muito imperfeita, é certo do diálogo racional constitutivo
da vida filosófica. Mas a filosofia política moderna, condenando ao silêncio o
debate cívico, arrastou também consigo um esvaziamento da própria filosofia
política. Claro que o debate cívico não terminou porque não poderia terminar;
mas a filosofia política deixou de o abordar filosoficamente, como se nada
pudesse ser dito com suficiente respeitabilidade filosófica. Querendo conservar
a sua pureza, afastando-se das infecções políticas da vida dos homens, a
filosofia política foi reduzindo a gama dos seus objectos e a sua pertinência
cívica. Assim, numa comparação com a filosofia política clássica, poderíamos
dizer que esta, hesitante em se acercar do domínio político, não se coibia de
examinar filosoficamente os conteúdos políticos que caracterizavam a cidade, ao
passo que as várias teorias políticas democráticas dos pluralismos se afirmam
como políticas o modusvivendi justifica-se numa base puramente política ,
sem se atreverem a inspeccionar os diversos conteúdos de vida que animam a
cidade.
V
Segundo Sócrates/Platão, a filosofia política examina as diferentes fontes da
discórdia e do conflito que se traduzem em concepções divergentes de justiça e
do bem. Daí que o exame das opiniões que convivem na cidade seja inseparável da
formulação da pergunta qual o melhor regime político? e, em última análise,
qual a melhor vida para o homem?.
Mas em democracia não é fácil colocar essas perguntas. A filosofia política
articula o todo através do uso do discurso público (Smith, 2007, p. 93).
Contudo, a democracia ilude o facto de ser uma perspectiva particular sobre o
todo e contém as suas regras implícitas quanto aos usos do discurso público.
Atentando nas duas perguntas fundamentais da filosofia política clássica,
percebe-se a dificuldade de as colocar numa cidade democrática: à segunda a
democracia proíbe respostas, ou, se não as proíbe formalmente, ao menos
repreende moralmente quem as pretende dar; para a primeira tem uma resposta que
não admite hesitações.
A resposta de Aristóteles à pergunta qual é a melhor vida para o homem?
aparece no livro x da Ética a Nicómaco. A resposta é simples: a vida
contemplativa, a vida do intelecto (âßïò èåùñçôéêüò). A vida filosófica é a
melhor vida para o homem porque é a forma de existência que mais aproxima o
homem do divino. Mas, para Aristóteles, viver como um deus não significa viver
em isolamento dos outros homens. Pelo contrário, o filósofo vive a vida boa
cultivando a amizade e em condições que, apesar de tudo, dependem do contexto
social e político. Na medida em que a natureza humana não pode transcender em
absoluto a dimensão corpórea ou material da existência, o filósofo, o homem
feliz, vive em contacto com a realidade política, e, nesse sentido, toda a
filosofia é, desde logo, filosofia política, porquanto a filosofia é
essencialmente um modo de existência que tem de se justificar perante outros
modos de existência (Aristóteles, 1989, X.7-8). Como se pode aprender com
Platão, viver como um deus corresponde, sobretudo, a viver a vida boa no
cultivo e exercício das virtudes que os homens partilham com os deuses: a
justiça, a temperança e a sabedoria. Mesmo as interpretações que atribuem uma
inclinação apolítica à concepção clássica da filosofia terão, portanto, de
reconhecer que há um resíduo incontornável de cuidado com as condições
políticas de existência, nem que seja um cuidado com a possibilidade (política)
de ser filósofo. Por outras palavras, mandam os interesses da filosofia que se
pensem as condições políticas da filosofia. Porém, esta ressalva pode não ser
particularmente importante. Afinal, mesmo em certas tiranias há sempre espaço
para o filósofo, ainda que seja um filósofo silencioso e discreto. Não há
nenhum regime em particular que possa reclamar o milagre da multiplicação dos
filósofos. Nas Leisde Platão é prevista uma magistratura que tem por finalidade
procurar pelo mundo esses homens divinos, pois eles existem nos bons como nos
maus regimes (Platão, 1989a, 951a). Em Nova Atlântida, Bacon estabelece algo de
semelhante (Morgado, 2008b). E nem sequer a célebre cidade do filósofo-rei,
fundada com palavras na Repúblicade Platão, se atreve a reivindicar para si
essa capacidade. Pelo menos, Sócrates não afirma que nessa cidade abundarão
filósofos (Platão, 1989b, 496b-c; Bernardete, 1992, p. 125). O seu aparecimento
no mundo parece depender de algo que transcende a política.
Que condições políticas da filosofia são então proporcionadas pela democracia?
Em primeiro lugar, a democracia caracteriza-se, como vimos, pela garantia da
liberdade de expressão. Em termos filosóficos, essa garantia e essa liberdade
têm um preço: a não-discriminação das opiniões. A dinâmica própria de uma
sociedade que valoriza a liberdade de expressão, ou pelo menos abomina a
censura e repressão da opinião, conduz à declaração da igualdade de todas as
opiniões. Este processo, não sendo inexorável, também não surpreende, se
tivermos em conta que, em democracia, a liberdade só pode ser entendida como
liberdade igual. Não se percorre um caminho muito longo da igualdade da
liberdade de expressão à igualdade na defesa da opinião individual, até à
igualdade das opiniões.Isto é particularmente adequado nas relações das
opiniões com o Estado. Aparentemente, não se levanta qualquer problema para a
filosofia, visto que a ideia de um Estado neutral, de um Estado sem opinião,
que coexiste com um mercado igualitário de ideias, é obra da filosofia política
moderna, a começar com Hobbes e Espinosa.
Ao olhar para a relação entre a democracia e a verdade/opiniões, poder-se-ia
pensar que a primeira, com a separação entre o poder político e a filosofia, se
limita a reproduzir a separação entre o poder político e a teologia, ou entre o
Estado e a Igreja. Dir-se-ia, enfim, que a uma secularização ou laicização das
sociedades modernas correspondeu uma consequente desfilosofização das mesmas
sociedades. Mas este passo é problemático, porquanto a democracia moderna é o
resultado consciente da filosofia política moderna. Mais: uma parte da adesão
às sociedades democráticas contemporâneas reside, sem dúvida, na aliança
poderosa entre a democracia e a ciência (ou filosofia). A democracia não pode
dispensar a ciência ou, pelo menos, os frutos da ciência, quer estejamos a
falar das ciências da natureza, quer das ciências humanas. Esses frutos são as
várias tecnologias que a democracia ajudou a gerar e a aplicar, desde a
medicina fulgurante do século xxi até ao Estado-providência. Pedimos e
acarinhamos os peritos que dão os seus preciosos pareceres quanto aos problemas
que enfrentamos, desde a produção de energia até ao aborto. Se o saber gera o
poder, como dizia Francis Bacon, não é menos verdade que alguns poderes geram
alguns saberes, como poderia dizer Michel Foucault.
Poder-se-ia dizer ainda que a desvalorização das pretensões de verdade não
constitui um problema. A verdade filosófica, pelo menos se adoptarmos o
paradigma da alegoria da caverna de Platão, quando desce ao mercado, muda de
natureza, isto é, não só desliza de um tipo de raciocínio para outro, mas
sobretudo de uma forma de existência para outra, o que vale por dizer de um
mundo transcendente para o mundo onde os homens vivem, falam e agem. Neste
sentido, a verdade filosófica, contrariamente à verdade factual, não é uma
verdade política por natureza (Arendt, 1990, p. 238). Mas existe aqui uma
dificuldade. Certamente que um dos grandes factos que une a vida democrática
nas várias regiões do mundo consiste na crença democrática de que o indivíduo é
um sujeito de direitos inalienáveis. Ora, esta proposição não decorre de um
puro dado factual; corresponde antes a uma verdade racional ou a uma verdade
filosófica, e não sobram dúvidas de que ela anima os regimes democráticos
contemporâneos. Sem esta verdade filosófica, as democracias contemporâneas
tornar-se-iam irreconhecíveis.
A primeira objecção a estas observações indicaria que se dirigem ao uso e
estatuto público da filosofia. As ditas observações seriam invalidadas pela
simples constatação de que a filosofia política, incluindo a socrática,
recomenda a privacidade da actividade filosófica. A protecção da filosofia não
requer uma sociedade de filósofos, nem sequer a promoção pública da filosofia.
Nestes termos, a condição de liberdade e de privacidade do filósofo
proporcionada pela sociedade democrática é suficiente. E não custa aceitar que
esta proposição é suficiente para encerrar o putativo problema da relação entre
a filosofia política e a democracia. Todavia, houve filósofos políticos que
duvidaram de que o problema tivesse uma solução tão simples.
VI
Na República, Sócrates descreve o regime democrático como uma feira das
constituições. A democracia é aquela constituição que contém todas as outras
constituições. Trata-se de uma consequência da combinação de liberdade e
igualdade que é constitutiva da própria democracia. A liberdade/igualdade
proporciona diversidade, o que leva Sócrates a dizer que a democracia é muito
capaz de ser a mais bela das constituições, embora logo a seguir se compreenda
que esta beleza é assim julgada por um espanto vulgar, próprio de mulheres e
crianças (Platão, 1989b, 557c). Desta liberdade/igualdade democrática, que se
traduz na liberdade de cada um fazer o que quer (557b), talvez até de cada um
ser o que quer, deduz-se facilmente a conciliação entre o filósofo e a
democracia. Se cada um pode fazer o que quiser, se cada um pode ser o que
quiser, então o filósofo e a vida filosófica gozarão da mesma liberdade de que
gozam os restantes modos de vida. Uma vez mais, regressamos à conclusão
optimista, a que acresce uma outra: é anulada a tensão entre a filosofia e a
cidade; e a democracia revela-se como o perfeito posto de observação do
filósofo político. É nessa feira das constituições que os fenómenos se
mostram com mais clareza e disponibilidade.
Mas, examinando com atenção o discurso socrático sobre a democracia, percebe-se
que a liberdade democrática de cada um fazer e ser o que quer resulta na fusão,
na mesma pessoa, de vários desejos, alguns dos quais serão, do ponto de vista
da completa dedicação existencial, contraditórios. Cada indivíduo democrático
contém em si parcelas das várias formas de existência, pois não se reconhece
qualquer princípio hierárquico que confira ordem e prioridade aos prazeres
(561e, b). Na visão de Sócrates/Platão, a democracia dissipa a dedicação séria
e profunda aos modos de existência que pressupõem essa seriedade e
profundidade. São esses os modos de existência que constituem as alternativas
mais exigentes à vida filosófica. Ora, essa dissipação é também uma ameaça à
própria filosofia, porquanto o filósofo deixa de se confrontar de forma nítida
e concreta com os modos de existência designadamente, o do político e o do
religioso que o forçam a clarificar-se, justificar-se e defender-se (Meier,
2006, p. 109). Através do retrato do homem democrático, Platão funda o
raciocínio, tantas vezes elaborado ao longo da história da filosofia política,
segundo o qual o espírito democrático, que é originariamente individualista,
acaba por gerar o que ficou conhecido nos nossos tempos por homem-massa
(Ortega y Gasset, 1995, pp. 94-101). Segundo Platão, é precisamente por a
liberdade democrática soltar o indivíduo dos grupos, hierarquias e autoridades
sociais a que está sujeito noutros contextos que submete o mesmo indivíduo à
socialização integral do regime democrático. O homem democrático passa a
reproduzir o todo de que é parte através da imitação (Bernardete, 1992, p.
202).
Num capítulo pouco frequentado, mas crucial, da Democracia na América,
Tocqueville escreve que um dos efeitos das condições igualitárias do tempo
democrático é a uniformização ou homogeneização dos indivíduos e do seu
pensamento. O sentimento de semelhança humana, tão poderoso em democracia, age
sobre todas as relações e sobre todas as condutas no sentido de as tornar mais
semelhantes. Como o homem se reconhece como semelhante do outro homem, saltando
por cima de todas as diferenças, só poderá considerar elementos estranhos e
talvez até perniciosos as diferenças que restam, algo que se intromete
indevidamente na ordem natural das coisas, que é sobretudo a semelhança entre
os homens. Segundo Tocqueville, este processo conduz a uma cada vez maior
consciência individual de fraqueza e pequenez. Ora, o espírito humano não é
imune a esta transformação histórica. A homogeneidade do mundo social alimenta
um desejo de homogeneidade no mundo intelectual. A atitude intelectual do homem
democrático é a paixão pela unidade, pela uniformidade, pela unicidade das
causas, e a correspondente aversão pela divisão, pela distinção, pelo
discernimento. Por ser uma consequência da pequenez e da fraqueza, esta
inclinação é castradora do erosfilosófico e, portanto, como avisa Tocqueville,
inimiga da verdadeira grandeza do homem (Tocqueville, 2002, II.i.7).
O princípio da liberdade democrática, isto é, da igual liberdade, produz este
fenómeno a que se convencionou chamar individualismo. Com o individualismo,
vem, evidentemente, a individualização dos juízos morais e intelectuais. Mesmo
admitindo que as desigualdades naturais, no que respeita ao intelecto, são
inextinguíveis, ainda assim, em democracia, assiste-se ao desaparecimento das
autoridades morais e intelectuais que subordinam ao seu parecer os juízos
individuais. Essas autoridades são negadas por serem incompatíveis com o ideal
e com a prática da igualdade. Tocqueville confirma:
Quanto à acção que a inteligência de um homem pode exercer sobre a de
outro, ela é forçosamente muito limitada num país onde os cidadãos,
tendo-se tornado quase semelhantes, se sentem muito próximos uns dos
outros e, não vislumbrando sinais de uma grandeza ou de uma
superioridade incontestáveis em nenhum deles, são a cada passo
confrontados com a sua própria razão, que identificam com a fonte
mais visível e mais próxima da verdade [...]
Cada qual fecha-se, portanto, estreitamente em si mesmo e é a partir
desse centro que pretende julgar o mundo [II.i.1].
Mas, segundo Tocqueville, este resultado é meramente provisório. Isto é, a
autonomia total da deliberação moral e intelectual não existe, a independência
individual nunca é ilimitada (II.i.2). Em democracia não se trata tanto de
constatar a inexistência de uma autoridade moral e intelectual correlativa ao
desaparecimento das influências pessoais aristocráticas, mas de perceber que
essa autoridade é transferida para uma figura nova. A transferência tem de
obedecer às exigências da própria igualdade: se cada um é igual aos outros,
também não encontra razões definitivas para preferir o seu pensamento ou as
suas opiniões às dos seus semelhantes. Porém, a democracia não se limita a
transferir a sede da autoridade moral e intelectual para a opinião comum ou
maioritária; nem se limita a produzir ideias novas, como, de resto, seria
previsível. Na realidade, como salienta Pierre Manent, a democracia modifica
as regras e a matéria da actividade intelectual dos homens (Manent, 1993b, p.
68). Em termos concretos, a democracia promove o gosto pelas ideias gerais,
pela redução da complexidade dos problemas e fenómenos humanos a uma lei geral,
a uma única forma, a uma causa isolada. Desconfortável com as exigências da
particularidade, o homem democrático abraça uma forma de pensar cada vez mais
abstraída da realidade concreta e força a uniformidade da representação
intelectual do mundo. Os fenómenos tornam-se cada vez mais distantes do
pensamento.
Vemos então que para Tocqueville o trabalho da democracia sobre o espírito
humano produz efeitos extremamente ameaçadores para a própria actividade do
pensar. Não se trata apenas da constatação da tendência para o conformismo.
Do conformismo intelectual não é um grande passo até à redução efectiva da
liberdade de expressão e pensamento, apesar de todas as protecções legais. Em
democracia há algo que tem mais força do que a força do chamado Estado de
direito. Por outro lado, o conformismo intelectual é o resultado inesperado da
atitude quase oposta que a democracia e o igualitarismo tendem a promover. Essa
atitude é aquilo a que, a partir de Tocqueville, podemos chamar cartesianismo
americano, ou a reivindicação da independência completa dos juízos morais e
intelectuais.
Obcecados com a perfeita autonomia de pensamento, e recusando separar a
possibilidade de se questionar uma autoridade da negação de toda e qualquer
autoridade intelectual, os cidadãos democráticos vão-se perder em todos os
detalhes da vida humana que carecem de exame racional individual. Já vimos que
é a opinião pública que triunfa como sede da autoridade. Mas a vítima mais
importante desta nova direcção das energias intelectuais é a razão, que eleva
os homens às mais elevadas regiões do pensamento. Não é arriscar muito dizer
que a vítima mais importante é a filosofia. Nas sociedades democráticas é
difícil ver os homens entregarem-se à meditação, pois ela não lhes interessa
especialmente. Há um gosto quase universal pela prática que é fomentado pelo
carácter prosaico do quotidiano democrático, pelo amor democrático ao bem-estar
e pela projecção da homogeneidade social nos temas teóricos. A agitação
perpétua do quotidiano democrático, com a prioridade na acção, é um hábito do
espírito que nem sempre convém ao pensamento (Tocqueville, 2002, II.i.10). A
inquietude que caracteriza a disposição do homem democrático tem vários méritos
de ordem prática, mas não é inteiramente adequada à reflexão filosófica. Com
efeito, as condições sociais aristocráticas propiciam uma disposição que
constitui o alimento do espírito filosófico, ou do amor pela sabedoria, e, pelo
contrário, a igualdade democrática favorece outra disposição que não pode
alimentar esse amor. Porém, Tocqueville também sabe que é bem possível que
apareça algum génio especulativo animado tão-somente pela paixão da verdade
numa sociedade democrática. Apenas se limita a reconhecer que será sempre
alguém que estará, pelo menos enquanto pensador, à margem do espírito do seu
país e da sua época.
VII
As meditações de Tocqueville vislumbram ainda outro aspecto na relação entre
democracia e filosofia política, ou mais rigorosamente entre a democracia e o
filósofo político. Este distingue-se de um sofista ou, para radicalizar o
argumento, de um homem intelectualmente medíocre também pela excelência das
suas intuições, da genialidade das proposições que avança, em suma, pela visão
mais articulada e mais profunda que tem do todo. No entanto, isto sugere a
desigualdade ou a superioridade de um homem face a outros no que diz respeito
ao conhecimento do todo. Em circunstâncias politicamente neutras, desta
superioridade decorreria a autoridade intelectual. Mas a igualdade democrática
e a insistência de cada indivíduo em ser ele o único juiz moral e intelectual
de todos os assuntos criam uma aversão natural por este tipo de relações, por
mais voluntárias que sejam e por mais precária que a dita autoridade
intelectual possa ser. O indivíduo democrático, cioso da sua independência,
esquece-se de que, para que a razão não esteja ocupada com trivialidades, é
preciso que se aceitem certas autoridades, cujos ditames nos permitem orientar
a nossa vida nos seus aspectos menos exigentes do ponto de vista da razão e
libertam a razão para se ocupar do que verdadeiramente a solicita. Tocqueville
revela de um modo algo surpreendente que a dedicação séria à filosofia
implicitamente pressupõe a aceitação de crenças pouco examinadas. O cepticismo
do cartesianismo americano, por ser muito mais radical do que o inconfundível
cepticismo filosófico no que toca às autoridades, acaba por ser
incomparavelmente mais dogmático ou mais crédulo no que toca às questões
essenciais. É também por essa razão que as opiniões mais fundamentadas terão
dificuldade em se fazerem ouvir. O indivíduo democrático empederniu o seu
espírito e ensurdeceu-o face à voz da razão. Perdeu a esperança na sua razão,
esgotada pelas trivialidades em que se envolveu e desabituada do exercício
filosófico pelos objectos que prenderam a sua atenção em chegar a quaisquer
verdades sólidas. Daí conclui simplesmente que não há razões sólidas que
demonstrem verdades sólidas. A sua experiência é suficiente para atestar as
razões da radical insuficiência da razão. Tudo o que tem são crenças, das quais
não está disposto a prescindir, até porque não há razões para as mudar (Hebert,
2007, pp. 525-537).
O filósofo político é o contrário do discípulo da autoridade e tem relações
estreitas com a dúvida quando se lança no exame das opiniões dominantes ou das
práticas em vigor. Mas não só. O filósofo político duvida e examina, o que
parece ser quase sempre a preparação da crítica. Tully insiste igualmente neste
traço da filosofia política como um ethos crítico permanente de teste às
práticas com que somos governados (Tully, 2002, pp. 534 e 551). Mais do que
teorias normativas, a filosofia política imbuída deste impulso crítico ao
vigente desdobra possibilidades de transformação.
Não restam dúvidas de que este ímpeto crítico é central na filosofia política.
Mas a filosofia política, por ser política, sabe que a crítica tem o seu lugar,
que o domínio da política, das práticas e instituições associadas a hábitos e
crenças, é frágil perante a crítica e que se ressente da crítica. Uma concepção
porventura mais abrangente de filosofia política não desistirá de confirmar o
seu vigor crítico, mas também a sua responsabilidade. Sócrates não foi um mero
contemplativo; mas também não foi um mero crítico. Sócrates foi o educador
político par excellence. É por ser um educador político que o filósofo
político coloca a responsabilidade no centro da sua acção. O adjectivo
político em filósofo político também quer dizer responsável.Ora, o educador
político reconhece o poder do que no homem é recalcitrante à razão e que,
portanto, não pode ser submetido através da persuasão, mas tem de ser submetido
pela força (Strauss, 1989b, p. 131). Nem tudo o que é político é racional, ou
nem tudo o que é político se acomoda à razão. É por isso que o filósofo
político responsável tem a temperança por uma das virtudes indeclináveis. Não a
moderação da razão, mas a temperança das esperanças depositadas na crítica
racional do que não se acomoda facilmente à razão. Neste sentido, a temperança
resulta da sabedoria; a temperança ésabedoria. Ora, para retomar a dificuldade
suscitada por Tocqueville, o filósofo político encontra outra razão para
aderir, em certas ocasiões, a crenças pouco examinadas, para além da economia
de esforço da razão. [S]em ideias comuns, não existe acção comum e, sem acção
comum, ainda existem homens, mas não um corpo social (Tocqueville, 2002,
II.i.2). O sentido de responsabilidade do filósofo político tem de integrar a
necessidade social de crenças ou até de dogmas estabelecidos; o filósofo
político não se indigna com a existência de dogmas ou de crenças aceites
acriticamente; ele compreende a sua função ou a sua utilidade; denuncia apenas
as aberrantes, e pode procurar reformar as inúteis ou abusivas. Ainda assim,
não pode deixar de examinar a sua fonte, a sua origem, a sua hipotética porção
de verdade.
VIII
É preciso especificar que a aliança história estabelecida pela democracia e
pela filosofia se torna mais precária quando na filosofia se abrange não só a
filosofia natural, ou a ciência natural moderna, mas também a filosofia
política enquanto ciência do que é bom para o homem. Percebe-se a origem dessa
maior precariedade. A democracia contemporânea tem de proteger a liberdade,
inclusivamente do perigo da filosofia (Manent, 2001, pp. 10 e 15-20). O
princípio da liberdade obriga à privatização da filosofia política, por esta
ter a vocação de questionar a validade das concepções do bem de cada um e dos
seus conteúdos de vida. Mas, num aspecto crucial, a democracia e a liberdade
democrática não podem vincar essa separação, sob o risco de se porem elas
mesmas em causa. Refiro-me ao substrato moral da democracia, os direitos
humanos, que têm uma origem e um carácter inequivocamente filosóficos. De
princípio de legitimidade e de base moral, os direitos humanos tornaram-se
gradual, mas irresistivelmente, a definição do conteúdo da democracia enquanto
regime político.
A fundação da democracia na teoria geral dos direitos humanos parece indicar
que a tarefa do filósofo político de arbitragem entre concepções de justiça e
entre bens reivindicados que se caracterizam pela sua incomensurabilidade se
tornou absurda. Porque a fundação da democracia na teoria geral dos direitos
humanos corresponde à sua fundação no incontestável. Os direitos humanos
fornecem um absoluto que demonstra a sua superioridade sobre os absolutos do
passado na medida em que apela apenas à constatação de que cada indivíduo é. O
seu nível de evidência está acessível a todos os homens por igual. O concreto,
apreensível por todos os homens, dirige, no entanto, a política para um padrão
de aferição e segundo um movimento que, bem vistas as coisas, surpreende pela
sua tremenda abstracção. Satisfeita com a conquista da universalidade ou com a
conquista da adesão universal, a teoria política geral dos direitos humanos
contém um impulso para se tornar uma ideologia, pois irradia pela sua ambição
uma tendência para constituir a verdade parcial que representa numa abertura
ilusória face ao todo da realidade e da experiência humana. A teoria geral dos
direitos humanos, que só agora, na fase contemporânea de maturação da
democracia política e da sua aceitação universal, recolhe os seus louros,
pretende resolver o problema político por redução. Apresenta-se como a verdade
exclusiva da democracia (Gauchet, 2002, pp. 349-355). A filosofia que gerou a
teoria política dos direitos humanos abriu as portas a uma usurpação ideológica
da filosofia política, a qual nunca se demite do seu compromisso para com os
problemas humanos que brotam de todos os cantos da realidade nem se conforma
com o extremo grau de indeterminação que a teoria dos direitos humanos exibe
quando se quer substituir à política.
A teoria dos direitos humanos fala certamente do que é. Somos todos indivíduos,
não há qualquer dúvida. Quando articula as suas exigências, fala igualmente do
que deve ser e, neste aspecto, oferece sem dificuldade o contraste entre o
mundo que é e o mundo que deve ser. É o elemento agregativo do mundo presente e
o elemento mobilizador do mundo que pode vir a ser. Desempenha as funções
conservadoras de coesão e unidade, mas também as transformadoras na invocação
do perfeitamente justo. Porém, nada diz quanto às razões que fazem que as
coisas sejam o que são nem produz ideias sobre os meios de as mudar. Mais
grave ainda, do ponto de vista da viabilidade da filosofia política, tende a
desqualificar a própria ideia de procurar explicações (Gauchet, 2002, pp.
356-357).
Neste sentido, a teoria dos direitos humanos assume, de uma perspectiva
filosófica, um estatuto em muito equivalente a uma profissão de fé. A
demonstração da sua validade não apela tanto aos méritos racionais dos seus
fundamentos, mas à consideração que cada um tem por si mesmo, à constatação da
realidade de si mesmo. Quando a ideia dos direitos humanos adquire este tipo de
adesão e se associa à universalidade da democracia, obtém-se uma representação
mental que segue o mesmo andamento já assinalado para a homogeneização do mundo
humano. Claro que a moeda tem outra face, a saber, a confusão das diferenças,
ou melhor, a dissipação das diferenças. Conduzidas por uma representação
homogeneizadora, as democracias confessam no mesmo fôlego a incapacidade de
confrontar a alteridade enquanto tal. O triunfo da ideia e prática dos direitos
humanos é inseparável da universalização do sentimento de semelhança humana.
Perante este sentimento, todas as diferenças são obliteradas. Não pela
violência, é certo, porque a obliteração é primeiramente intelectual, ou
melhor, sentimental, e comporta uma aspiração de unificação da humanidade num
mundo em que já nada é diferente, senão as diferenças que a própria semelhança
produz, sobretudo as diferenças que não podem ser dispostas segundo uma
hierarquia. A hiperjurisdicização das sociedades democráticas é um reflexo
deste processo; e não é menos antagónica à filosofia política. Com a expulsão
da filosofia política do domínio a que ela por natureza pertence, a sociedade
clama por juristas mais advogados do que juízes, diga-se e pode dizer que
não quer mais filósofos políticos. Se a pertinência da filosofia política passa
pelo uso público que dela se pode fazer na abertura do futuro (Smith, 2007,
p. 92), então a despolitização agravada pela teoria política dos direitos
humanos encerra uma ameaça real à consciência da indispensabilidade da
filosofia política.
IX
A filosofia política em tempos democráticos tem perante si um desafio:
assegurar a sua presença e a sua pertinência, mas sem ceder à pressão da
respeitabilidade, que não é menos do que o primeiro passo para a usurpação da
ideologia. Tem de ser fiel a si mesma e, embora não ambicionando a
respeitabilidade, ser responsável. Tem de acompanhar as regras do regime
político, sem se deixar vergar por elas. Para ser responsável e verdadeira não
pode confundir o afastamento que previne a usurpação ideológica com o
reconhecimento do valor da democracia. No seu compromisso com a
responsabilidade e com a verdade, a filosofia política reconhece e elogia a
extraordinária destreza prática da democracia e discerne sem ambiguidades a
inferioridade dos seus inimigos históricos, não só das alternativas passadas
dos fascismos e dos bolchevismos, mas também das sempiternas tentações do
devaneio romântico de fazer da política e da cidade o balão de ensaio para
momentos poéticos de inspiração. Mas deverá fazê-lo sem ser servil. A
temperança e a consideração pelo bem dos indivíduos e do colectivo de que fazem
parte não a sujeitam a ser o eco das suas pretensões. A temperança é também a
luta contra a ideologia, porquanto esta palavra serve bem de sinónimo para a
corrupção da filosofia política.