Trânsitos coloniais. Diálogos críticos luso-brasileiros
Cristiana Bastos, Miguel Vale de AlmeidaeBela Feldman-Bianco(orgs.),Trânsitos
coloniais. Diálogos críticos luso-brasileiros, Campinas, Editora da UNICAMP,
2007, 446 páginas.
Kelly Cristiane da Silva
Universidade de Brasília
No momento em que assistimos à expansão dos horizontes analíticos das ciências
sociais brasileiras, a publicação de Trânsitos Coloniais: diálogos críticos
luso-brasileiros no Brasil é mais do que oportuna. Entre outras coisas, o livro
atesta a fecundidade dos intercâmbios académicos entre o Brasil e Portugal.
Composta por um conjunto de 16 artigos, organizados em quatro secções,
Lusofonias críticas, Poder e margens, Ideologia e etnicidade e Trânsitos
e tráficos, a obra é um caleidoscópio que revela, sob diferentes ângulos,
complexos cenários que se compuseram a partir de conexões com a expansão
colonial portuguesa em África, na Ásia e na América. É possível observar entre
os artigos perspectivas comuns, os quais dão organicidade e unidade à obra.
Proponho-me, ao longo dessa recensão, identificar algumas delas.
Embora abordando objectos distintos, todos os textos do livro os qualificam
como produto de efeitos de poder. Respondem, assim, às expectativas de Miguel
Vale de Almeida no primeiro artigo da colectânea. Nele o autor apresenta uma
didáctica revisão da genealogia, preceitos, potenciais e fraquezas das críticas
pós-coloniais. Sublinha-se a fertilidade de certas dimensões de tais críticas,
sobretudo o preceito da mútua constituição das representações sociais de
colonizadores e colonizados (p. 32), desde que se considerem as condições
históricas em que tal fenómeno é experimentado.
O processo de fabricação de identidades é um dos grandes temas desta obra.
Figura como resultado de articulações ideológicas e materiais e das suas
dinâmicas históricas, de entre as quais se destacam as múltiplas configurações
locais do Estado colonial português e/ou dos seus intermediários e das suas
redes de apoio. A partir de universos distintos, o livro revela-nos como os
portugueses, a colonização portuguesa e o repertório associado a tais agências
o cristianismo, a escravidão e a língua portuguesa, por exemplo foram e são
tomados como fonte de mobilização política entre diversos actores. Em
diferentes densidades e posições, de Goa ao Rio de Janeiro, em cenários
coloniais e pós-coloniais, como fonte de virtudes ou de vícios. A esse
respeito, a análise de Jill Dias é exemplar. Mostra como a constituição e o
poder dos ambakistas no espaço a que hoje chamamos Angola se configuraram pela
apropriação de certos capitais simbólicos associados à colonização portuguesa e
ao cristianismo. Representações cinematográficas de práticas de resistência à
colonização portuguesa e algumas das suas implicações constituem o fio condutor
da análise de Ana Maria Galano. A autora discute conjunções, mediações e
disjunções dos processos de produção e recepção de Os Inconfidentes, Mueda e O
Fio da Memória. Entre outras coisas, pontua-se, no artigo, a distinção do lugar
ocupado pela experiência colonial no Brasil e em Moçambique contemporâneos.
Nas abordagens de fenómenos relacionados com a invenção do Brasil, alguns
textos indicam que o lugar a ser atribuído ao legado da colonização portuguesa
foi parte central das preocupações das elites envolvidas naquele
empreendimento. Para o contexto do então recém-independente império brasileiro,
Gladys Sabina Ribeiro discute como se impôs aos quadros da sua elite a tarefa
de se diferenciarem dos portugueses. Demonstra-se como tal agenda,
transfigurada por alguns em antilusitanismo, se transformou em munição nas
disputas entre diversos grupos sociais. A intricada rede de comércio que unia
diferentes partes do império colonial, na qual a praça do Rio de Janeiro
aparecia como mediadora importante nas rotas transoceânicas e entre o litoral e
o interior do Brasil, tal como é retratada por João Fragoso e Manolo
Florentino, evidencia, de outra forma, a porosidade das fronteiras entre
brasileiros e portugueses nas décadas que antecederam a independência. Robert
Rowland, por sua vez, tematiza a transformação dos estereótipos associados aos
portugueses no Brasil ao longo do tempo por meio da análise de obras literárias
e outras formas de expressão cultural. O seu artigo indica como a imagem dos
portugueses como simplórios e ingénuos é recente e reversa às identidades a
eles atribuídas noutros momentos.
Giralda Seyferth, por seu lado, explora as respostas forjadas pelas elites e
pelo Estado brasileiro a certas demandas e discursos apresentados pelos
migrantes alemães entre o final do século xix e primeiras décadas do século xx.
A autora analisa a constituição do germanismo como ideologia étnica teuto-
brasileira e a sua interpretação por sectores da elite brasileira como perigo
alemão, um conjunto de discursos que ameaçavam o projecto assimilacionista de
nação luso-brasileira. No momento em que o Brasil se constituía também como
um país de imigração, a nacionalidade dos migrantes a serem trazidos ao país
era objecto de debate entre as elites, dando origem a hierarquias de
preferências (p. 298). Naquele contexto, vimos configurar-se, ao longo das
décadas, uma transformação das imagens associadas aos portugueses e à
colonização portuguesa. A análise de John Monteiro das mitografias de Ellis Jr.
e de Germano Correia revela como nelas são edificadas diferentes raças de
gigantes em diálogo com o paradigma racialista do início do século xx: (1) os
mamelucos paulistas, forjados a partir da mestiçagem entre índios e
portugueses, no caso do Brasil; (2) os portugueses que, em diáspora pelo mundo,
teriam dado origem aos lusodescententes na Índia. Contudo, ainda não estamos,
em tais casos, diante de discursos luso-tropicais, tal como formulados por
Gilberto Freye.
Ao debruçar-se sobre a gestação e posterior difusão do luso-tropicalismo, Omar
Ribeiro Thomaz indica, a este respeito, que a sua adopção enquanto ideologia
imperial se deu somente a partir de meados de 1950. Entre outras coisas, o
autor mostra-nos as relações de continuidade entre a ideologia luso- -tropical
e os pressupostos que alicerçam a Comunidade de Países de Língua Portuguesa
(CPLP) (p. 62). A este respeito, Bela Feldman-Bianco situa a criação da CPLP
como uma acomodação das disputas contemporâneas entre as elites políticas
portuguesas em torno do lugar de Portugal no mundo, situado, no limiar do
século xxi, entre um projecto atlântico que prevê relações privilegiadas com
as suas ex-colónias e a sua pertença à Europa. A partir da análise dos
discursos de similaridade e diferença entre portugueses e brasileiros, no
âmbito das particularidades das relações históricas e de uma crise diplomática
entre os dois países nos anos 90, a autora apresenta um insight esclarecedor:
[o] território' supranacional da língua portuguesa passou progressivamente a
representar uma nova face do império português em tempos de globalização (p.
437).
Considerada na sua totalidade, outro ponto alto da obra, sobretudo para uma
audiência brasileira que pouca ideia tem sobre as condições históricas reais do
III Império, diz respeito ao modo frágil e débil pelo qual o colonialismo
português é apresentado, sendo caracterizado, já na introdução do livro, como
um poder subalterno.
Esforços teóricos e etnográficos bastante profícuos são então empreendidos por
certos autores para qualificar tal experiência. Cristiana Bastos, por exemplo,
sugere ter sido o colonialismo português tardio estruturado sobre
subalternizações sucessivas, produzidas pela condição de centro fraco da
própria metrópole (p. 159). As bases emocionais do poder colonial são
discutidas por João de Pina Cabral. Sugere-se estar ele alicerçado no que é
denominado zumbificaçãodo subalterno (p. 117) o olhar do colonizador a
desumanizar o colonizado, que o ameaça, como a toda a humanidade e de
agorafobia colonial(p. 119) medo produzido pela constatação da grandeza e
potencial do império e dos parcos meios disponíveis para o explorar. Propõe o
autor que o poder colonial se constituía emocionalmente em resposta a ameaças
simbólicas, geográficas e a projectos de poder por ele mesmo formulados. Ao
discutir a dinâmica dos mocambos nas fronteiras entre o então Grão-Pará e a
Guiana Francesa, Flávio Santos Gomes permite-nos entrever a relativa
fragilidade do domínio português no Brasil entre os séculos xviii e xix e a
complexidade dos mecanismos envolvidos na sua constituição, negociados em
arenas transnacionais por colonizados e colonizadores.
Nuno Porto, ao analisar a formação do Museu do Dundo, em Angola, e a sua
excepcionalidade no quadro das possessões portuguesas, propõe que a ausência de
arquivos e museus de vulto em Portugal é mais uma expressão da fraqueza da
administração colonial. Resgatam-se, assim, as ideias de Thomas Richard, para
quem os impérios coloniais são, de certa forma, uma ficção e desafio
administrativo, que tem como lugar privilegiado de objectivação os museus e
arquivos. O cruzamento das argumentações de Pina Cabral e Porto fazem-nos
pensar a respeito de serem os museus também tecnologias de zumbificaçãodos
subalternos e respostas a agorafobiascoloniais.
As formas de conhecimento e os sistemas classificatórios elaborados em
diferentes cenários da administração colonial são também tematizados noutros
artigos. António Carlos Sousa Lima propõe que a genealogia da administração
indigenista no Brasil pode ser traçada a partir dos legados deixados pelo
Estado português em quatro distintas tradições de conhecimento colonial: (1)
sertanista; (2) missionária; (3) mercantilista; (4) escravista. Silvia Hunold
Lara discute o sistema classificatório de gestão da diversidade étnica e
cultural africana praticado em Minas Gerais no século xviii. Demonstra-se que o
mesmo estava ancorado em princípios de diferenciação fenotípica, nacional,
linguística, de aptidão a certos tipos de trabalho, de porto de origem, local
de nascimento, entre outras, que a senhoria deveria observar para boa gestão de
seus plantéis.
Por fim, cabe destacar que a aparição de Trânsitos Coloniais no mercado
editorial brasileiro, como de Moçambique (2001), organizado por Peter Fry, Ecos
do Atlântico Sul (2001), de Omar Ribeiro Thomaz, entre outros, é de fundamental
importância para a emergência de uma leitura mais historicista do colonialismo
e das críticas pós-coloniais no país, dada a riqueza dos lastros sociológicos
mediante os quais tais fenómenos são discutido nessas obras. E que venham
outras...