Images de la mondialisation. Construction sociale d'une representation
Gabrielle PoeschleJean Viaud(coords.),Images de la
mondialisation.Constructionsociale d'une representation,Rennes, Presses
Universitaires de Rennes, 202 páginas.
José Alberto Vasconcelos Simões
FCSH, Universidade Nova de Lisboa
Seja com propósitos académicos, ideológicos ou informativos, temo-nos deparado,
nas últimas décadas, com a proliferação de obras sobre as mais variadas
dimensões da globalização ou, como denominam os autores francófonos,
mundialização. O livro de que damos conta Imagesde la
mondialisation,organizado por Gabrielle Poeschl e Jean Viaud constitui um
contributo para esse extenso debate, reunindo as comunicações apresentadas num
colóquio internacional realizado em Brest em Novembro de 2005.
As imagens da mundialização aqui reunidas referem-se tanto a concepções de
especialistas de diferentes áreas (sobretudo da psicologia social, mas
igualmente da economia e do direito) como a representações sociais do cidadão
comum sobre a globalização. Trata-se, neste último caso, de interpretações e
análises de especialistas sobre as representações que a globalização tem
suscitado junto desse mesmo cidadão comum, sublinhando desta forma uma das
dimensões cruciais do processo em curso: a reflexividade. Com efeito, a
possibilidade de concretizar diferentes formas de mobilidade e de gerar os mais
variados tipos de fluxos é acompanhada pela percepção dessa possibilidade,
constituindo esta, em última análise, uma parte integrante da própria
globalização. Como nota Jean Viaud, a partir do momento em que a questão da
mundialização é deslocada do universo da investigação para o senso comum, a
única questão [ ] é a de saber como o senso comum concebe a mundialização e de
que modo o faz (p. 120). E qual a especificidade do senso comum? O senso
comum, continua, procede criando representações, quer dizer, reconstrói o
saber que lhe é acessível e que recebe ou procura, transformando-o num saber
suigeneris, nem decalcado do discurso dos especialistas ou cientistas, nem
produto adulterado desses mesmos discursos (p. 120).
O livro encontra-se dividido em três partes. Nas duas primeiras partes procura-
se definir e enquadrar teoricamente a globalização, na terceira parte
apresentam-se casos empíricos em torno das representações sociais que a mesma
suscita.
Das primeiras aproximações ao tema (Autour de la mondialistion) a incursões
teóricas mais específicas (Mondialisation: quelques perspectives), ensaia-se,
nas duas primeiras partes da obra, uma discussão sistemática do processo de
globalização. Apesar da intenção de enquadrar genericamente o tema, as
abordagens apresentadas seguem uma perspectiva centrada predominantemente nas
consequências económicas da globalização. Com efeito, mal-grado a prevalência,
no conjunto da obra, de autores da área da psicologia social, as perspectivas
teóricas discutidas na segunda parte são, sobretudo, provenientes da economia,
mesmo que alguns autores as enquadrem num debate amplo e não ignorem outras
dimensões (v., por exemplo, capítulo 3). Será apenas na terceira parte,
centrada na análise dos resultados empíricos da investigação internacional de
que o colóquio dá conta, que a perspectiva psicológica se torna manifesta.
A primeira parte inicia-se com a digressão de Michèle Bompard-Porte em torno
dos vocábulos mundialização e globalização, traçando uma genealogia difusa
de cada um dos termos, cuja ambiguidade nos coloca perante os seus próprios
limites conceptuais. Mais do que resolver os problemas que levanta, pretende
enunciá-los.
O segundo capítulo examina a relação entre o carácter universal da declaração
dos direitos humanos e a sua apropriação comunitária em diferentes contextos
sócio-históricos. O que daqui perpassa é, justamente, a tensão entre o carácter
singular, particularizado, dos direitos humanos sob forma comunitária,
associados a identidades colectivas marcadas pela pertença a grupos culturais,
religiosos, linguísticos ou nacionais, e o carácter universal e abstracto da
declaração dos direitos humanos, que por essa mesma razão transcende essas
formas de pertença.
O capítulo 3 dá-nos conta das transformações operadas na esfera económica. Mais
especificamente, Hélène Blanc descreve a forma como as relações económicas
deixaram de se estabelecer a nível internacional para passarem a erigir-se a
nível mundial. A modificação semântica introduz igualmente alterações
substantivas: no primeiro caso estaríamos perante a alçada dos estados-nações
envolvidos nas trocas comerciais e financeiras; no segundo caso, os primeiros
teriam perdido a sua proeminência. O exame crítico das teorias da globalização
económica serve, sobretudo, para apontar os seus limites, assentes numa
concepção (neo)liberal e aparentemente irreversível dos processos económicos em
curso.
Léon e Sauvin desenvolvem igualmente, ao longo do capítulo 4, uma discussão
teórica em torno das limitações apresentadas tanto pelas teorias económicas que
enfatizam as vantagens do estado neoliberal como pelas teorias que advogam a
necessidade de preservar as especificidades económicas locais. Como referem,
se, por um lado, o sistema económico global produz homogeneidade (ao nível de
normas e convenções), cria, por outro lado, desordem e heterogeneidade.
O capítulo 5 foge à regra dos restantes capítulos desta parte por propor um
exame que se situa entre o teórico e o empírico. Anne Choquet discute o modo
como as leis nacionais são, de certo modo, contornadas pelas regras de
funcionamento de organizações transnacionais, como no caso da FIFA, onde a
naturalização dos jogadores subverte as regras do direito nacional.
A terceira parte abre com o capítulo de David Leiser sobre as representações da
globalização por parte dos habitantes de Israel. As tensões entre o global e o
local, aqui representado pelo estado de Israel, são evidentes a diferentes
níveis, revelando a ambivalência dos discursos, que tanto enaltecem os aspectos
positivos do processo como apontam vários aspectos negativos em diferentes
áreas temáticas.
A partir do capítulo 7 e até ao final da obra os textos apresentados versam uma
temática unificadora: dão conta de aspectos específicos dos resultados
provenientes do mesmo estudo realizado em cinco países (Brasil, França, México,
Portugal e Tunísia). Na verdade, os vários capítulos referem-se a duas
recolhas, uma realizada em 2003, outra em 2005, que correspondem a duas fases
distintas do mesmo estudo. A amostra obtida é composta por estudantes e por
activos e elaborada de forma intencional em 6 cidades (Aix-en-Provence,
Brest, Goiás, México, Porto e Tunes). Cada capítulo tanto pode ser lido de
forma autónoma como complementar, na medida em que parte da mesma base empírica
e partilha um enquadramento teórico semelhante, embora enfatize aspectos
particulares dos dados recolhidos, recorrendo a técnicas de análise e enfoques
um pouco distintos.
Jean-Claude Abric introduz o estudo, no capítulo 7, começando por sublinhar a
filiação teórica de uma abordagem psicossociológica da globalização que, como
nota, pretende debruçar-se não sobre a opinião dos especialistas, mas sobre o
senso comum. O estudo propriamente dito será apresentado nos capítulos
subsequentes.
Gabrielle Poeschl (capítulo 8) pretende identificar os factores que se
encontram na origem das variações das representações sobre a mundialização.
Para esse efeito, parte de diferentes níveis de ancoragem das representações,
articulando a forma como estas são modeladas pela inserção social dos
indivíduos, as variações interindividuais e as variações representacionais que
se devem à forma como os indivíduos representam as relações entre grupos ou
categorias sociais. O recurso à técnica dos clusters revelou-se interessante,
embora se encontre comprometido, até certo ponto, pelo modo como a amostra foi
seleccionada.
A proposta de Jean Viaud (capítulo 9) parece situar-se entre a reivindicação do
contributo pioneiro da psicologia social de Moscovici e a perspectiva mais
sociológica de Doise, atribuindo particular atenção, neste último caso, à
relação entre as representações sociais forjadas pelo senso comum e a inserção
social dos indivíduos. Para além de uma leitura geral, o autor fornece-nos uma
análise temática da forma como os discursos evocam a globalização. Por um lado,
identificando as classes temáticas através das quais é possível organizar os
discursos. Por outro lado, relacionando essas classes com as posições dos
indivíduos.
Segundo Dorra Ben Alaya (capítulo 10), as representações parecem variar de
acordo com o nível de conhecimento e a sua difusão através dos grupos sociais,
tributária da educação, do contexto económico e dos meios de informação
disponíveis. A autora defende, seguindo a proposta de Guimelli, que qualquer
representação é uma estrutura hierarquizada, constituída por um sistema
central e por um sistema periférico. Apresenta um conjunto de índices
através dos quais se propõe medir a estabilidade quer do conteúdo, quer da
estrutura de uma representação.
Guimelli e Abric (capítulo 11) abordam, por um lado, a implicação dos
indivíduos na construção de uma representação social e, por outro lado, a sua
organização interna. Pretendem identificar o laço (subjectivo) que liga o
sujeito a uma determinada representação social, considerando três dimensões de
implicação: identificação pessoal, valorização do objecto e possibilidade de
acção. A análise factorial das componentes principais utilizada traduz
justamente as anteriores dimensões.
No último capítulo, Ribeiro e Poeschl concentram-se unicamente na amostra
relativa a Portugal a partir do estudo realizado em 2005. O questionário de
base é o mesmo, embora tenham acrescentado questões relativas à crença num
mundo justo. Pretendem perceber qual o impacto da crença num mundo justo na
representação sobre a mundialização.
Faltará, porventura, uma reflexão teórica integrada sobre as várias
perspectivas abordadas ao longo dos diferentes capítulos. Talvez esta ausência
seja notória por os capítulos enquadradores do livro estarem a cargo de autores
provenientes de áreas de alguma forma deslocadas (direito, economia) e não da
área que motivou a discussão e o material empírico recolhido (psicologia
social). Em todo o caso, não só é possível encontrar algumas discussões com um
alcance mais geral nos capítulos provenientes de áreas não psicológicas, como
os capítulos que apresentam de forma sistemática diferentes dimensões empíricas
do estudo realizado acabam por enquadrar teoricamente, cada um à sua maneira, o
tema. Feito o balanço geral, a presente obra constitui um contributo importante
para o amplo debate sobre a globalização, sobretudo pelo material empírico
analisado e por privilegiar (e debruçar-se sobre) o senso comum enquanto
matéria-prima e pretexto para pensar a configuração do processo de globalização
ou, para sermos fiéis aos próprios autores, mundialização.