Reflexões em torno do conceito de anonimato
Introdução
No estudo das associações de 12 Passos em Portugal as Famílias Anónimas, os
Alcoólicos Anónimos e os Narcóticos Anónimos (Frois 2008a, 2008b, 2009a e
2009b) a minha principal preocupação foi compreender a importância do
anonimato nesse contexto, quais as suas especificidades e de que forma poderia
sustentar uma teorização mais abrangente das relações sociais que não se
circunscrevesse apenas ao meu terreno de análise.
Partia da premissa de que o anonimato, embora sendo definido como a ausência do
nome da pessoa e a impossibilidade de a identificar, não carecia do
desconhecimento proporcionado pela interacção não presencial. O que verifiquei
nas associações de 12 Passos ao longo da minha pesquisa etnográfica foi que o
anonimato não corresponde apenasà ausência de identificação no sentido legal e
burocrático, nem somente à impossibilidade de identificar laços familiares ou
reconstruir histórias pessoais. O recurso ao anonimato implica a verificação
simultânea de ambas as condições, sendo o elemento-chave que permite aos
membros gerirem a divulgação e ocultação da sua informação pessoal, assumindo
diferentes papéis e diferentes identidades consoante o contexto de interacção
em que se encontram.
O tema do anonimato tem vindo a assumir uma importância notável no estudo da
sociedade contemporânea, nomeadamente numa conjuntura em que os sistemas de
vigilância implicam um conhecimento cada vez maior da pessoa, procurando
identificá-la, detectá-la e reconhecê-la seja através da identificação por
impressões digitais, da leitura do ADN ou das câmaras de videovigilância
(Monahan, 2006; Oravec, 2003; Marx, 1999; Lyon, 2003 e 2007; Frois, 2008a;
Froomkin, 1999; Ceyhan, 2006; Norris e Armstrong, 1999). Alguns destes autores
defendem que nos dias de hoje o direito ao anonimato, à privacidade e à
confidencialidade das pessoas está em risco devido ao uso de novas tecnologias
de informação e comunicação que actuam como um forte mecanismo de recolha de
informação pessoal. Assim, a possibilidade de se agir anonimamente estará
também em vias de extinção, uma vez que, tendencialmente, todos passamos a
poder ser identificados, no sentido de conhecidos e reconhecidos.
O que me proponho neste texto, começando por apresentar as associações de 12
Passos e a importância que o anonimato aí assume, é questionar este paradigma,
mostrando como o recurso ao anonimato cumpre uma função instrumental, definindo
não só o próprio espaço onde se desenrola a interacção tornando possível a
sua existência , mas, em simultâneo, traçando os contornos da própria relação
entre membros. Uma vez que estas temáticas têm vindo a ser tratadas sobretudo
por sociólogos, historiadores e cientistas sociais, espero ainda conseguir
mostrar, através de uma incursão noutros terrenos, o contributo que a
antropologia tem para oferecer através da conjugação da sua vertente emprírica,
analítica e teórica.
As associações de 12 Passos
As associações de 12 Passos existem por todo o mundo e seguem uma filosofia
criada nos Estados Unidos da América nos anos 30 do século passado por Bill W.
e Dr. Bob, dois homens cujo alcoolismo os conduziu a uma ruptura pessoal,
familiar e profissional extrema. Após várias tentativas para abandonarem esta
dependência (Hartigan, 2000; Kurtz, 1991 [1979]), e considerando que só através
da ajuda entre pares o conseguiriam, formularam uma filosofia dirigida a
alcoólicos que, na sua maioria, tinham já procurado tratamento na medicina e na
psiquiatria, a qual defendiam que conduziria a um progressivo estado de
abstinência do álcool. Esta filosofia, que definem como espiritual, tem como
principal espaço de actuação o encontro semanal de pessoas com o mesmo problema
(as reuniões). Através da troca de experiências, estas pessoas partilham um
processo terapêutico que as conduz à recuperação do alcoolismo. Assumindo que
padeciam de uma doença crónica associada a uma condição médica e que não deviam
ser encarados como pessoas pecaminosas ou de má formação, estes grupos vieram a
reunir um número cada vez maior de membros, dando origem à associação ainda
hoje conhecida como Alcoólicos Anónimos.
A publicação, em 1939, de um livro com o mesmo nome vai cunhar o que é esta
associação e explica de forma paradigmática o seu propósito: destina-se a
alcoólicos que são anónimos, isto é, tem em vista portadores da doença do
alcoolismo, não existindo qualquer líder ou representante da mesma.
Em linhas gerais, podemos considerar que o sucesso dos Alcoólicos Anónimos ao
longo de várias décadas e a sua expansão pelo mundo radicam na simplicidade do
modelo que defendem: (1) a organização assenta num modelo democrático, de
participação igualitária, marcada pela ausência de controlo formal ou de
líderes; (2) o modelo terapêutico é operacionalizado através de sugestões e
não de regras a que todos tenham de corresponder de igual modo; (3) a
participação é voluntária, autónoma e independente de membro para membro, não
há sanções ou pagamentos; (4) as reuniões são efémeras no tempo, decorrem num
espaço que tem múltiplas funcionalidades e que não é pertença física das
associações; (5) a principal característica de qualquer associação de 12 Passos
é a sua componente terapêutica direccionada para uma patologia ou doença em
concreto; (6) o elemento espiritual, na formulação Deus conforme cada um O
concebe, obedece à mesma característica de democratização de valores e
perspectivas.
Estas prerrogativas, a que está inerente uma complexa organização em termos
burocráticos e processuais, foram adoptadas por numerosas associações de 12
passos que se seguiram aos Alcoólicos Anónimos e aplicadas a problemas tão
diversificados como a toxicodependência, a obsessão com o trabalho, os
distúrbios sexuais ou de consumo. Ou seja, este modelo foi adaptado a
diferentes patologias em que se verificam comportamentos obsessivos,
autodestrutivos, e em que as pessoas se assumem como incapazes de prosseguir
uma vida estável e sã.
De que forma é levada a cabo a terapia entre pessoas que sofrem do mesmo
problema e que procuram este tipo de ajuda, rejeitando por completo uma
abordagem médica (que é tendencialmente a que se associa a quem sofre de uma
doença)? Segundo a filosofia das associações de 12 Passos, a terapia faz-se
através da sociabilidade e da troca de experiências entre pessoas que entendem
ser suas semelhantes, isto é, que tenham tido as mesmas trajectórias de vida.
Consideram que a partilha de experiências passadas através da narrativa oral
durante os encontros é libertadora, quase confessional, num espaço em que estão
ausentes juízos de valor ou estigmatização. Nesse lugar, e durante os noventa
minutos que duram as reuniões, redefinem-se e transformam a concepção que têm
de si próprios e dos seus comportamentos. Nos diferentes grupos que estudei,
estas eram pessoas que tinham um passado de consumo de álcool os Alcoólicos
Anónimos , de consumo de drogas os Narcóticos Anónimos ou pessoas com
familiares com estes comportamentos as Famílias Anónimas.
O objectivo de estudar três associações diferentes no decurso de um trabalho de
campo prolongado (2003-2007), que se traduziu na frequência dos encontros, na
realização de entrevistas aprofundadas e de histórias de vida parciais, foi o
de ter uma perspectiva comparativa (algo que é inédito na produção sobre o tema
nas ciências sociais) que demonstrasse a aplicação deste modelo a várias
problemáticas e a pessoas que diferiam quer nas suas práticas de consumo, quer
nas consequências que estas tiveram nas suas vidas e que estão directamente
implicadas na decisão de frequentar as associações. De facto, esta comparação
viria a revelar-se frutífera. Permitiu perceber, desde logo, que o modelo dos
12 Passos é aplicado, racionalizado e verbalizado de forma igual nas três
associações e nos diferentes grupos que acompanhei (cerca de dez, no total).
Neste sentido, a literatura existente sobre grupos de 12 Passos noutros locais
do mundo reiterou ainda mais a minha constatação. O estudo de Mäkelaet al.
(1996) sobre os Alcoólicos Anónimos em oito países
1
é o melhor exemplo para ilustrar a forma como o modelo dos 12 Passos se
expandiu e extravasou as fronteiras do país em que foi criado, os Estados
Unidos da América, e as adaptações que conheceu por todo o mundo, observáveis,
entre muitos aspectos, na repetição de palavras, rituais e modelos de conduta.
Ou seja, o estudo comparativo que desenvolvi foi pertinente tanto por fornecer
uma descrição e interpretação da presença e actuação dos 12 Passos em Portugal
como por permitir estabelecer comparações mais alargadas entre diferentes
associações com a mesma filosofia; em ambas as dimensões trata-se de um estudo
inédito nas ciências sociais.
O facto de considerar três associações distintas implicava ainda considerar as
suas diferenças, tendo em conta, em primeiro lugar, que o problema inicial que
leva uma pessoa a procurá-las é distinto. Nos Narcóticos Anónimos os membros
afirmam ser adictos, portadores de uma doença obsessiva e compulsiva que se
traduz no consumo autodestrutivo de drogas. Os membros dos Alcoólicos Anónimos,
como o nome indica, têm o mesmo tipo de comportamento em relação ao consumo de
alcóol. Nestes dois casos, as pessoas sofrem de uma dependência de substâncias
(Frois 2009b). No caso dos membros da primeira associação, a dependência
acontece a maior parte das vezes durante a adolescência, prolongando-se até à
idade adulta, e as consequências deste consumo revelam-se, em poucos meses, de
forma muito explícita: roubos, mentiras, deterioração física acelerada. No
segundo caso, é um consumo que se prolonga por vários anos até se manifestar em
altercações públicas, incumprimento no trabalho ou nas relações familiares. Nas
Famílias Anónimas, por outro lado, os membros frequentam as reuniões em
consequência do efeito que o consumo de substâncias por parte de algum membro
da família tem sobre o agregado familiar. E este consumo revela-se problemático
tanto em virtude dos seus laços de parentesco e que em Portugal verifiquei
ser principalmente mãe-filho como pela sua própria actuação face ao mesmo.
Dito por outras palavras, também os familiares entram num processo
autodestrutivo de mentiras, encobrimento da situação e, muito frequentemente,
de semelhante autodegradação física e emocional.
Em última análise, o que esta comparação permite é perceber que, mesmo estando
a lidar com diferentes padrões de consumo e diferentes trajectórias de vida, as
semelhanças que apresentam são as mesmas, o que explica, em parte, o sucesso e
a aplicabilidade do modelo dos 12 Passos.
Estamos a falar de histórias de vida particulares: a do alcoólico que bebeu ao
longo de trinta anos e que, progressivamente, perdeu o emprego, se separou da
família, atingindo um estado de degradação extremo; a do toxicodependente que
contraiu sida ou hepatite devido à partilha de seringas, que praticou roubos,
em alguns casos esteve preso, ou teve de recorrer à prostituição para financiar
o seu consumo de drogas; ou a de mães que tinham de dormir com a carteira
debaixo da almofada, outras alvo de agressões físicas, ou que tiveram,
inclusivamente, de pôr os filhos fora de casa devido a situações que
consideravam insuportáveis. Ou seja, por muito diferentes que sejam os
problemas vividos, todos os membros relatam um padrão de autodestruição
pessoal, de vergonha e culpa pelas suas acções, bem como um sentimento de
isolamento face à sociedade em que estão inseridos. Neste sentido, para os
membros, o apelo ao encontro com pessoas que apresentam um percurso de vida
semelhante ao seu ocorre por estarem num espaço em que têm a possibilidade de
revelar aquilo que escondem dos outros na sua vida quotidiana; nas associações,
ao invés, sabem que, ao divulgarem abertamente o seu passado e a sua condição,
não serão olhados com receio e desconfiança, nem serão tidos como uns
falhados.
Diferentes tipos de anonimato nas associações de 12 Passos
Qual é a importância do anonimato num contexto como este? Em que medida é que
está presente, uma vez que as pessoas aparentemente se conhecem, revelam a sua
intimidade e as histórias pessoais que consideram mais inconfessáveis? De que
anonimato falam os membros em relação a si próprios e que anonimato é esse que
se menciona em todas as reuniões como forma de garantir a confidencialidade do
que foi dito e a privacidade de quem disse?
À medida que analisava a complexidade das transformações identitárias que se
operavam nestas pessoas de bêbedo para alcoólico, de drogado para
adicto, de falhado para co-dependente , compreendia a importância que
assumiam estes espaços de encontro e o processo terapêutico que ali se
desenrolava. Para além disso, e precisamente pelas trajectórias que
sumariamente descrevi acima, algumas das expressões que mais ouvi serem
referidas pelos membros eram a de sentirem vergonha e culpa pelas suas acções
passadas. Estas referências começaram por explicar, em certa medida, qual a
importância do recurso ao anonimato neste contexto e as diferentes facetas que
este assumia. Isto é, por não existir uma filiação obrigatória para a
frequência dos encontros, por nada mais ser pedido aos membros, para além de se
reconhecerem como doentes, esta possibilidade de escolha do que cada um
divulgava sobre si próprio revelava em pleno a importância do recurso ao
anonimato. Como veremos nas páginas que se seguem, num contexto marcado por
não-ditos e por silêncios, constatei que os membros sentiam necessidade de
separar os dois papéis que desempenhavam e que circunscreviam também a dois
espaços: o de doente e o de normal, a que correspondia o espaço físico
dentro e fora das reuniões.
Como ficará explícito, ainda que os membros partilhem um sentimento de
igualdade, procurando abolir as suas diferenças (económicas, sociais,
familiares) durante as reuniões, ao mesmo tempo reconhecem que tal só sucede
nesse mesmo contexto. Fora delas, omitem a informação que ali revelam, expondo
o que ali omitem, isto é, o seu nome, a sua morada, a sua profissão, como
disse, a sua identificação legal e burocrática, aquilo que os identifica.
Vejamos como se operacionaliza na prática este recurso ao anonimato.
Dentro das reuniões, o anonimato é usado como forma de anular as distinções
entre membros, isto é, como os próprios dizem, chamar a atenção para aquilo que
os une, e não para o que os diferencia. De que forma o conseguem? Apresentando-
se apenas pelo primeiro nome, por exemplo, sou o Pedro e sou um alcoólico,
não existindo qualquer referência à profissão que têm ou ao rendimento que
auferem. Defendem que só sem a presença de elementos diferenciadores se torna
possível que todos se assumam apenas como pessoas doentes. Nas suas palavras,
não há doutores nem engenheiros, aqui todos somos iguais. Um retrato
sociodemográfico é-nos útil para ilustrar este ponto: nas reuniões estavam
presentes empregadas domésticas, professores universitários, operários da
construção civil ou advogados. Aparentemente, num outro contexto, seria
improvável que estas pessoas se encontrassem ou que partilhassem entre si
experiências pessoais, ou mesmo que não fosse dada preferência àquele que
tivesse um maior grau de instrução ou uma posição mais destacada socialmente.
Recorrendo ao anonimato pessoal, dão primazia ao que ali os une e é em função
da sua doença que interagem com os restantes membros.
Por outro lado, é essa condição que não revelam para fora das associações e
este é um aspecto de suma importância para compreendermos em que medida é que
os membros falam de anonimato. Devido ao estigma social associado a um passado
de consumo de drogas ou álcool ou à existência de um familiar nesta situação,
são muito poucos os casos dos membros que revelam para o exterior (salvo, como
dizem, com algumas pessoas com quem têm maior intimidade) que são membros dos
Alcoólicos Anónimos, dos Narcóticos Anónimos ou das Famílias Anónimas. Fora das
reuniões procuram ser pessoas normais, distinção esta que é formulada pelos
próprios. Procuram proteger-se, assegurar a sua privacidade, o seu anonimato.
Ser-se alguém, como diz Pina Cabral (2005), implica que se assumam
responsabilidades, implica sociabilidade, reconhecimento. No entanto, para além
do que diz o autor, que o nome ou o anonimato são as duas opções que as pessoas
têm para assumir ou recusar serem responsáveis pelas próprias acções, o que
vemos no contexto das associações de 12 Passos é que esta é uma escolha
simultânea. Qual é então a importância da omissão do nome? Que nome querem
ocultar e o que é que isso acarreta? Em certa medida, Radcliffe-Brown (1965
[1952], p. 147) dá-nos a resposta a esta pergunta quando diz:
Evitar o nome pessoal é o reconhecimento simbólico do facto de que naquele
momento a pessoa não está a ocupar a sua posição normal na vida social. Pode-se
acrescentar que a pessoa cujo nome está temporariamente suspenso é considerada
como tendo naquele momento um estatuto ritual anormal.
É uma dupla vida dupla, como diz Erving Goffman (1963), o desempenhar de dois
papéis: dentro das reuniões são doentes; ao fim de uma hora e meia de encontro,
essa sua identidade é omitida: são pais, empregados de escritório, vivem em tal
sítio. Vemos então que o anonimato é usado quer para nivelar as diferenciações
sociais entre membros (dentro das reuniões), quer como forma de ocultar o
estigma (fora delas).
Contudo, existem ocasiões em que os membros quebram o seu anonimato, seja com
outros membros com quem estabelecem relações preferenciais e de amizade, seja
fora das reuniões, com pessoas que consideram ser mais íntimas, pessoas que
consideram estar preparadas para aceitar esta sua realidade. Quebrar o
anonimato é mais do que revelar um segredo: para outros membros, revela-se a
casa, o nome de família. Para não-membros, revelam o seu estigma, a sua doença.
O que estão a revelar, quebrando o anonimato, é a sua intimidade, eliminando,
de certa forma, as fronteiras que delimitaram para si próprios na interacção
com outros.
A possibilidade de recurso ao anonimato é, em certa medida, o que torna
exequível a frequência e permanência dos membros nestas associações, tornando-
os, como dizem, membros responsáveis e produtivos da sociedade em que vivem.
Com a frequência continuada de reuniões dá-se a mudança de comportamentos
autodestrutivos, obsessivos e compulsivos para uma racionalização de quem são,
da sua própria identidade, num processo de aceitação de si próprios e de
recuperação das várias esferas da sua vida. Na maior parte dos casos, os
membros abraçam esta nova filosofia de vida, que assenta na humildade, na
honestidade, numa conduta saudável. Mas até que ponto é que tal se verifica nos
casos em que não podem ou não conseguem preservar a sua escolha, o seu direito,
como dizem, ao anonimato?
Este é o grande paradoxo que encontrei nestas associações e no discurso dos
membros, talvez o que mais útil se revelou para que pudesse compreender em
profundidade de que forma é que este é um conceito operativo relevante para
pensar determinadas relações sociais. O paradoxo de que falo explica-se em
poucas palavras: em situações em que os membros não consigam salvaguardar o seu
anonimato, seja por indiscrição de outros membros ou por serem obrigados a
revelar a sua identidade, recusam de forma peremptória a sua participação,
mostrando de certo modo o que é a face oculta das suas relações. Não é
invulgar, por exemplo, que dois membros se cruzem no espaço público e não se
cumprimentem, como seria de esperar que sucedesse, tratando-se de pessoas que
partilham uma intimidade tão manifesta como a que sucede nas reuniões. Fazem-no
enquanto acordo tácito de que fora das reuniões não é esta a identidade que
assumem e como tal não querem que seja divulgada. Porém, quando confrontados
com uma situação em que tal sucede, em que não conseguem manter o seu
anonimato, assumem uma posição de defesa e de indignamento, sobretudo em
contextos em que estão presentes membros e não-membros. Se cabe a cada um
escolher o que revela de si próprio, e se na maior parte dos casos as pessoas
optam por não divulgar a sua pertença a estas associações, quando confrontados
com situações em que isso não é possível, a intimidade transforma-se em
desconhecimento, o amigo em estranho. Nas palavras dos próprios, se encontram
algum membro numa situação em que estão presentes terceiros, exigem que seja
mantida a confidencialidade da sua pertença a estas associações e preservada a
sua privacidade.
Mesmo dentro de reuniões, quando confrontados por mim sobre a atitude que
tomariam caso tivessem de preencher uma ficha de inscrição da qual constasse o
seu nome completo, a sua morada ou a sua profissão, os membros mostraram-se
indignados, afirmando que preferiam sair e que não têm nada a ver com isso.
Aparentemente, é uma contradição. Uma vez mais, com pessoas com quem partilham
intimidade, como enquadrar uma expressão como não têm nada a ver com isso?
Vemos que é através do anonimato que os membros gerem as suas relações com
membros e não-membros, no que parece ser um livre-trânsito em que gerem a sua
identidade de doente e a de normal, entre a revelação e a ocultação do
estigma. E tal sucede por considerarem ser portadores de uma doença que é
incurável, nunca podendo vir a ser pessoas normais. Estamos então perante um
espaço liminar celebremente designado por Victor Turner (1995 [1969]), mas aqui
a passagem de um estado para outro nunca é de facto completada. Como diz Pina
Cabral (2000), centro e margens fazem parte da mesma realidade que estrutura a
vida social destas pessoas e que ao mesmo tempo lhes concede um lugar, dentro e
fora.
Outros contextos de análise do anonimato
Independentemente das várias formas e contextos em que é usado o anonimato,
considero que o seu apelo se prende com a possibilidade de a pessoa estabelecer
uma relação com os outros sem que lhe seja atribuída responsabilidade pela sua
própria acção. Mas tal não significa que aquilo que a pessoa queira ocultar ou
esconder esteja relacionado com a ilegalidade ou mentira, mas sim que tenha a
possibilidade de escolher o que revela de si própria e em que contextos.
Ainda que nos dias de hoje haja mecanismos com diferentes graus de sofisticação
de monitorização e identificação de pessoas, o que este caso de estudo nos
mostra é que continuam a existir espaços de interacção em que é possível gerir
a sua identidade e acções, preservando o seu anonimato, e manter privadas
determinadas esferas da sua vida.
Esta é a minha perspectiva, considerando o caso que estudei, embora tenha
verificado que noutros contextos existem diferentes tipos de anonimato, com
diferentes graus e diferentes propósitos. Ou seja, não é possível delimitar de
forma estanque a definição deste conceito, uma vez que a sua ocorrência surge
em contextos tão diversos como o da doação de óvulos ou de esperma, em que se
procura que não exista uma relação de conhecimento entre as pessoas envolvidas;
em chatrooms, em que as próprias condições de interacção não presencial que
definem esses contactos permitem que os participantes encarnem diferentes
personas, recorrendo a pseudónimos e/ou a avatares (Turkle, 1995); ou mesmo no
caso do uso de linhas de apoio (como o SOS Criança ou o Apoio à Vítima), em que
o conteúdo da informação é mais relevante do que quem a divulga, sendo esse,
aliás, o principal objectivo do anonimato neste contexto.
Vejamos algumas análises antropológicas que se revelam interessantes para
pensar a complexidade deste conceito noutros contextos, uma vez que diferem na
forma como o anonimato é equacionado e são precisamente estas diferenças que
nos permitem compreender a sua pertinência. Daniel Terrole (1996), no seu
estudo sobre os sem-abrigo em França, mostra como ao longo da trajectória das
pessoas que vivem na rua se opera um processo de anonimização, uma vez que
perdem os seus traços distintivos. Isto acontece, segundo o autor, pelo facto
de gradualmente fazerem parte de um grupo em que todos parecem iguais e ao
mesmo tempo ninguém em particular: visualmente, os sem-abrigo acabam por ter o
mesmo tipo de andar, trajar o mesmo tipo de roupas, que na maior parte dos
casos não são à sua medida por terem sido doadas por outros. Isto é, a sua
identidade enquanto pessoas que ocupam um lugar social reconhecido e legitimado
vai sendo gradualmente abolida e perdida, substituída por um estatuto de
desconhecido e indiferenciado.
A formulação de Terrole (1996) com base num progressivo indiferenciamento e
indistinção da pessoa é relevante para pensar o anonimato de que falei nas
associações de 12 Passos. Como vimos acima, um dos principais objectivos do
anonimato é precisamente o de indiferenciar os membros enquanto pessoas com uma
determinada individualidade, fazendo com que ao falar-se de um membro dos
Narcóticos Anónimos não estejamos a falar do sujeito a, b ou c, mas sim de
alguém que tem um problema relacionado com o consumo de drogas. Por outro lado,
como vimos, essa mesma indistinção é útil fora do contexto das reuniões: as
pessoas ocultam a sua identidade de doentes, fazendo parte do que tantas vezes
se chama a massa anónima que compõe a sociedade. Podemos então dizer que uma
das especificidades do anonimato é a de permitir tornar a pessoa
indistinguível.
Mas tal pode também ser motivo de rejeição, isto é, este estado de anonimato
involuntário, característico das metrópoles, o estranhamento e distanciamento
que Simmel (1977 [1908]) tão bem descreveu, pode servir de estímulo para
reforçar laços comunitários ou mesmo a sua reinvenção. É o que nos descreve
Augustin-Marie Milandou (1997), a propósito da comunidade de Brazzaville onde
os habitantes fazem um esforço para criar laços de familiaridade que muitas
vezes são fictícios, procurando recuperar os laços comunitários que marcavam a
sociabilidade e o relacionamento das pessoas neste contexto. O que as
associações de 12 Passos mostram é que o comunitarismo não desaparece, mas
antes assume diferentes configurações que comportam características que
permitem à pessoa ser também ela móvel e transmutável. Então, a tendência que
descreve Milandou encontramo-la também nos membros das associações de 12
Passos, embora, como vimos, com especificidades muito particulares: fora dos
encontros, as pessoas confundem-se na multidão. Dentro deles, encontram um
espaço onde partilham laços sociais, afectivos, comunitários, com outras
pessoas com quem têm um forte vínculo pessoal e de intimidade. É precisamente a
possibilidade de poderem gerir a sua identidade e a sua privacidade, no que
revelam e no que ocultam, que faz com que consigam coexistir em simultâneo num
espaço de reconhecimento e que é também de indiferenciação.
Ainda ao falarmos de conhecimento e de reconhecimento, em suma, de interacção
pessoal, parece absurdo falarmos de anonimato. Como podem existir relações
anónimas se presumirmos que qualquer relacionamento implica uma troca entre
duas ou mais pessoas, isto é, como falar de anonimato e ao mesmo tempo de
reciprocidade? É o que explora Monica Konrad (2005) num estudo empírico sobre
doação de óvulos e anonimato na Grã-Bretanha. Este é um caso exemplar para
responder a estas questões, uma vez que a autora mostra como as teorias da
dádiva e da reciprocidade formuladas por Mauss e Manilowski podem ser
reformuladas num contexto em que a relação entre as pessoas é definida pelo seu
oposto, ou seja, pela não-relação. Konrad explica bem como no processo da
doação de óvulos doador e recipiente não estabelecem uma relação de
conhecimento e reciprocidade entre si, uma vez que a relação é pautada pelo
anonimato, embora exista um bem que é trocado e partilhado, isto é, o óvulo,
que o doador produz e que o recipiente irá fertilizar. Tal é importante, na
medida em que a condição do anonimato neste contexto é o que permite, tal como
no caso das associações de 12 Passos, que a própria interacção ocorra. Caso não
existisse, haveria a possibilidade de uma atribuição de responsabilidade, uma
consequência derivada da troca que iria além do propósito inicial que une as
pessoas.
Conclusão
Como vimos acima, o anonimato nas associações de 12 Passos actua como uma forma
de gestão das relações sociais dos membros e, se quisermos, a face com que
escolhem apresentar-se: membros, doentes ou normais. Em ambos os papéis uma
dimensão é central: a da responsabilidade. Cada membro é responsável pelas suas
acções passadas e presentes, é também responsável por si mesmo e, em certa
medida, pelos outros com quem estabelece relações. No caso dos membros das
associações de 12 Passos, o anonimato não é apenas uma forma de garantir a
privacidade de cada um, ou de se ser inalcançável, no sentido que podemos
atribuir ao anonimato que Monica Konrad encontrou no seu estudo sobre doações
de óvulos.
Por paradoxal que possa parecer, para os membros das associações de 12 Passos é
o anonimato que serve como garante de que cada um é responsável por si mesmo,
pela sua conduta dentro e fora das reuniões, e responsável ainda pelos outros
que vê e que ouve. Estamos perante dois fenómenos de anonimato que são
distintos: um que é colectivo, que diz respeito ao grupo, aos outros membros, e
outro que é individual, que se refere apenas a cada um e depende exclusivamente
da sua decisão pessoal. Poderá parecer irónico falar-se da existência de
anonimato quando a interacção é presencial, a intimidade é valorizada, a
exposição voluntária da pessoa é levada ao extremo. Contudo, é de anonimato que
falam os membros e, na realidade, é o seu anonimato que querem preservar,
dentro e fora das reuniões. A equação de Victor Turner (1995 [1969], p. 96)
sobre estrutura, communitas, liminaridade e ritos de passagem ilustra bem como
ocorre a gestão da identidade pessoal neste contexto:
Nestes ritos, estamos perante um momento dentro e fora do tempo e dentro e
fora da estrutura social secular, que demonstra, ainda que fugazmente, um
reconhecimento [ ] de um laço social generalizado que deixou de existir mas que
se tornou simultaneamente e ainda que fragmentado, numa multiplicidade de laços
sociais [...] É como se existissem dois grandes modelos de inter-
relacionamento, que se justapõem e que se alternam.
Considerando a ambiguidade descrita por Turner em que o sujeito se encontra
perante um estado de liminaridade, numa passagem de um estado para outro, vale
a pena ainda considerar o que diz sobre a societas, que, em meu entender,
explica bem a forma como o anonimato funciona e é usado pelos membros das
associações de 12 Passos, podendo ser extrapolado para outros contextos de
interacção social. Diz Turner (1995 [1969], p. 203) que a sociedade (societas)
é mais um processo do que uma coisa um processo dialéctico com fases
sucessivas de estrutura e communitas. Parece existir [...] uma necessidade'
humana para participar em ambas as modalidades.
Em meu entender, o recurso ao anonimato na sociedade contemporânea apresenta-se
como alternativa a um controlo físico, moral e social, criando condições para
que determinados grupos (em alguns casos marginais) encontrem o seu lugar num
todo social e cultural, ao mesmo tempo que mantêm a sua especificidade e a sua
invisibilidade, isto é, a não divulgação ou a não exposição da sua existência.
É uma estratégia de quase sobrevivência da intimidade e da privacidade pessoal
e, em alguns contextos, é mesmo a pedra-de-toque fundamental para gerir as
relações sociais.