A diferença de esperança de vida entre homens e mulheres: Portugal de 1940 a
2007
Introdução
Em Portugal, tal como na maioria dos países, a duração da vida humana é maior
no sexo feminino do que no masculino. Nem sempre terá sido assim. Quando a
dinâmica demográfica é marcada por uma mortalidade elevada, a esperança de vida
é semelhante nos dois sexos. O demorado e complexo progresso verificado na
saúde das populações resultou num aumento sem precedentes da longevidade e, à
medida que a esperança de vida das populações aumentou, a diferença entre os
sexos acentuou-se.
A desigualdade na duração média da vida, favorável às mulheres, é visível nos
países ocidentais durante todo o século xx, embora a vantagem feminina se tenha
iniciado mais cedo (Tabutin e Willems, 1998). Se considerarmos apenas alguns
dos países europeus, podemos observar que no início do século xx a discrepância
da duração média da vida entre homens e mulheres se situava entre 2 e 4 anos
(excepto em Itália, onde este valor era tendencialmente mais baixo). Meio
século depois, a divergência acentuou-se na maioria dos países, situando-se em
torno dos 2,5 a 5 anos. No início dos anos 70, a vantagem feminina aumentou
para valores entre os 5 e os 7 anos.
Diferença na esperança de vida à nascença entre os sexos em alguns países da
Europa
[quadro n.º 1]
O aumento da longevidade das populações parece estar associado à tendência para
o aumento da desigualdade de esperanças de vida entre os sexos. A vantagem
feminina, na saúde, parecia emergir à medida que as condições de vida
melhoravam e a sua posição social também tudo aponta para que o sexo feminino
tenha sido mais favorecido pela transição epidemiológica (Omran, 1971).
A maior sobrevivência feminina está associada a múltiplos factores de natureza
biológica e social. Meslé e Vallin (2002) sintetizam um conjunto de vantagens
femininas de natureza biológica, cujo maior impacto se traduz na maior
resistência face às doenças do aparelho circulatório e ao processo de
envelhecimento, mas discute também os factores comportamentais associados à
desigualdade de esperanças de vida. Apesar de muitos dos comportamentos
masculinos e femininos serem cada vez mais similares, essa semelhança é
relativa. O trabalho feminino tende a acontecer em profissões de menor risco
para a saúde, o consumo de tabaco e álcool é mais moderado, a condução mais
prudente e, finalmente, a relação com a medicina é mais próxima.
A vantagem feminina tornou-se cada vez mais acentuada, até que, em finais do
século xx, são notados os primeiros indícios de estabilização e, depois, de
diminuição da desigualdade entre as esperanças de vida feminina e masculina
(Trovato e Lalu, 1996a, 1996b e 1998; Meslé, 2004). Numa investigação recente,
Glei e Horiuchi (2007) examinam o longo período de aumento e a recente
diminuição da distância de esperança de vida entre os sexos: nos anos 70, a
diminuição da discrepância entre as esperanças de vida ocorreu em alguns países
do Norte da Europa e na América do Norte; nos anos 80, esta tendência
generalizou-se à maioria dos países da Europa; mais tarde, nos anos 90, a
diminuição do diferencial entre os sexos chega aos países da Europa do Sul e de
Leste. De entre os países analisados, encontram-se ainda alguns casos em que as
diferenças não mostram qualquer tendência para a diminuição.
Início da tendência para a diminuição da diferença de esperanças de vida
[quadro n.º 2]
Apesar de nos países desenvolvidos se ter generalizado a tendência para a
diminuição da desigualdade entre as esperanças de vida feminina e masculina, as
discrepâncias são ainda muito expressivas. Na maioria dos países da Europa
ocidental, as mulheres vivem, em média, hoje em dia entre 4 e 7 anos mais do
que os homens, como se pode verificar no gráfico n.º 1.
Diferença de esperança de vida entre os sexos em alguns países da Europa (1950-
2005) [gráfico_n.º_1]
Actualmente, a França, a Espanha e Portugal são os países que apresentam
maiores desigualdades entre as esperanças de vida feminina e masculina
1
. Paradoxalmente, esta associação não está ligada aos níveis de esperança de
vida da população: tanto a Espanha como a França fazem parte dos países
europeus com maior esperança de vida, enquanto Portugal é o país da Europa
ocidental com esperança de vida mais baixa tanto para os homens como para as
mulheres.
Recordemos que a esperança de vida à nascença corresponde à duração média da
vida de uma população, de acordo com as condições de mortalidade observadas num
dado momento do tempo. Não corresponde à duração média da vida de nenhuma
geração em concreto, pois para calcular esse valor seria necessário aguardar
que todos os indivíduos dessa geração tivessem morrido, e só então poderíamos
proceder ao referido cálculo. A análise longitudinal, ou por geração, limitar-
nos-ia, nos dias de hoje, a calcular a esperança de vida somente para as
gerações nascidas em finais do século xix-inícios do século xx. Assim, a
alternativa usual consiste no cálculo da esperança de vida numa perspectiva
transversal ou de momento: as taxas de mortalidade por idade e as
correspondentes probabilidades de sobrevivência observadas nesse período, são
utilizadas sobre uma geração imaginária que sobreviveria de acordo com o padrão
de mortalidade observado. O processo de extinção dessa geração imaginária é
traduzido numa tábua de mortalidade, a partir da qual se calcula a esperança de
vida à nascença.
A esperança de vida à nascença é o indicador com maior significado na análise
da mortalidade das populações porque expressa, de forma rigorosa e sintética,
as condições de saúde das populações em cada momento do tempo. A vantagem do
cálculo da esperança de vida em transversal é, em termos comparativos,
obviamente, superior à do cálculo em longitudinal. Possibilita as comparações
de populações actuais entre países ou regiões, mas também a comparação de
populações entre diferentes momentos do tempo. Permite comparar os efeitos de
diferentes condições gerais de saúde sobre a mortalidade das populações em
função do sexo e da idade dos indivíduos.
Esta investigação tem como objecto a análise da diferença de esperança de vida
à nascença entre homens e mulheres em Portugal desde 1940 e baseia-se na
decomposição das contribuições do declínio da mortalidade em cada idade para a
desigualdade observada na duração média da vida.
Numa primeira fase, de natureza cronológica, é abordado o progresso da
esperança de vida em cada um dos sexos, e só posteriormente é efectuada uma
análise da evolução da divergência de esperança de vida entre homens e
mulheres.
Numa segunda etapa, centrada na actualidade, é examinada a diferença de duração
da vida com base no mesmo tipo de metodologia, mas estendida às contribuições
das principais causas de morte. A vantagem feminina na esperança de vida e a
actual tendência para a recuperação masculina são discutidas em função do
processo de concentração da morte nas idades mais avançadas e das diferenças na
diminuição da mortalidade em cada um dos sexos.
A Evolução da esperança de vida em Portugal
Em Portugal, as abordagens demográficas sobre a mortalidade foram objecto de
muitas investigações (Baptista, 2007). De entre os estudos sobre a realidade
actual são de destacar a análise das causas de mortalidade (Morais, 2002), a
abordagem da evolução da esperança de vida associada às condições de vida
(Veiga, Moreira e Fernandes, 2004), a análise da mortalidade numa perspectiva
diferencial, segundo o sexo e o estado civil (Fernandes, 2007), mas também os
riscos particulares da população jovem (Lages, 2007) e ainda a abordagem da
diversidade regional na mortalidade e na saúde (Morais, 2001; Santana, 2002,
2004 e 2005).
Numa perspectiva metodológica similar à desta investigação, devemos destacar o
trabalho de Canudas-Romo et al. (2008), no qual as diferenças de esperança de
vida entre Portugal e a Espanha são analisadas de forma a perceber a
contribuição da mortalidade, nas várias idades, para a disparidade entre a
duração da vida nas populações espanhola e portuguesa. Como não poderia deixar
de acontecer, a presente análise confirma muitos dos resultados das
investigações anteriores, realizadas com outros objectivos.
A análise da desigualdade de esperança de vida entre homens e mulheres deve ser
precedida de uma primeira abordagem sobre a evolução deste indicador em cada um
dos sexos, de per si, de forma a perceber as principais fases de evolução e as
suas características. Nesta análise iremos decompor os acréscimos na esperança
de vida em função dos ganhos na saúde verificados nas várias fases do ciclo de
vida dos indivíduos. Isto é: quanto é que a redução das taxas de mortalidade em
cada idade contribuiu para o aumento da esperança de vida à nascença.
Evolução da esperança de vida para homens e mulheres em Portugal
[quadro n.º 3]
Na última metade do século xx, de 1950 até 2000, a esperança de vida em
Portugal subiu de 55,8 para 73,3 anos no caso masculino e de 61 para 80,3 anos
no caso feminino. O aumento verificado, respectivamente de 17,5 e 20,3 anos,
não aconteceu de forma uniforme: nos anos 40 e 50 os ganhos de esperança de
vida foram fortíssimos, geralmente acima dos 6 anos de vida por cada 10 anos de
calendário. Nos anos 60 assiste-se a uma diminuição do ritmo verificado nas
décadas anteriores; nos anos 70, o aumento da esperança de vida ganhou
novamente algum fôlego, com valores mais baixos, mas ainda relativamente
próximos dos registados em meados do século. A partir de 80, a luta contra a
mortalidade continua a mostrar uma evolução muito favorável, mas a um ritmo
mais suave.
Nos primeiros anos do século xxi, a esperança de vida continua a aumentar a um
ritmo significativo. No sexo masculino o aumento é de 2,6 anos entre 2000 e
2007 (em termos anuais, corresponde a um ganho médio anual de 0,37), quando nos
períodos anteriores as melhorias na duração da vida eram mais lentas. No caso
feminino, o ritmo mantém-se idêntico nos primeiros 7 anos deste século o
aumento é de 1,9 anos, ou seja, em termos anuais, o ganho é de 0,27, similar ao
registado nas últimas décadas do século xx.
Nesta análise, o número de anos de diferença de esperança de vida à nascença é
decomposto de forma a particularizar o número de anos de vida ganhos a partir
do declínio específico da mortalidade em cada idade.
Este tipo de metodologia foi desenvolvido nos anos 80 por Pollard (1982) e
Arriaga (1984). Embora apresentem uma especificação matemática distinta, os
dois métodos baseiam-se na mesma racionalidade e produzem resultados
praticamente idênticos (Preston, Heuveline e Guillot, 2001; Pollard, 1988;
Castro, 2001).
Nesta análise optámos pelo método de Arriaga, por ser o que melhor se adequa ao
tipo de dados publicados nas tábuas de mortalidade habituais, isto é, com dados
discretos. Todos os cálculos efectuados tiveram como base os dados constantes
da Human Mortality Database, uma vez que se trata da única base com tábuas de
mortalidade para um período longo, calculadas exactamente segundo a mesma
metodologia. Esta questão é particularmente importante, uma vez que a
utilização de métodos de decomposição pode ser sensível às aproximações
utilizadas no cálculo das tábuas2. Para Portugal, a Human Mortality Database
apresenta valores apenas a partir de 1940, pelo que esta análise se inicia
exactamente nesse ano.
Este tipo de metodologia permite analisar a contribuição das diminuições da
mortalidade, em cada idade, para o aumento da esperança de vida à nascença nos
vários períodos em estudo. Por exemplo, se entre dois momentos há um ganho de
esperança de vida de 5 anos, podemos decompor este aumento total nos ganhos
decorrentes da diminuição da mortalidade no primeiro ano de vida, entre o
primeiro ano de vida e os 15 anos, e assim sucessivamente até às idades mais
avançadas. Continuando com o mesmo exemplo, a diminuição da mortalidade no
primeiro ano de vida poderia ter contribuído com um ganho de 1 ano para a
esperança de vida total, a dos jovens entre o primeiro ano e até aos quinze
anos com 2, etc. A soma das contribuições de todos os grupos etários
corresponde ao aumento da esperança de vida à nascença, neste caso aos
anteriormente referidos 5 anos.
Assim, uma forma habitual de apresentar os resultados destas análises é
explicitando a contribuição de cada grupo etário em termos absolutos (em anos),
ou em percentagem do total dos ganhos observados.
Vejamos os resultados desta análise, aplicada à realidade portuguesa3.
Decomposição das contribuições para o aumento da esperança de vida
[quadro n.º 4]
Numa perspectiva cronológica, podemos verificar que até 1980 os ganhos na
esperança de vida estão muito dependentes da mortalidade dos mais jovens. Nos
anos 40, mais de 60% dos ganhos na esperança de vida masculina e feminina são
consequência directa da mortalidade até ao 15.º aniversário; nos anos 50, a
contribuição da diminuição da mortalidade dos mais jovens situa-se em mais de
50%, mas, nas décadas seguintes, a contribuição relativa da mortalidade dos
mais jovens aumenta novamente, explicando mais de 70% dos ganhos ocorridos na
esperança de vida na década de 60 no sexo feminino e mais de 90% dos ganhos de
esperança de vida no sexo masculino. Nos anos 70, esta contribui com mais de
65% e de 78% nos ganhos na duração da vida feminina e masculina,
respectivamente. Destaque-se ainda que durante os anos 60 e 70 a contribuição
da mortalidade dos menores de 15 anos depende de forma mais acentuada do que
nas décadas anteriores dos ganhos verificados exclusivamente na mortalidade
infantil (isto é, até ao 1.º aniversário).
A partir dos anos 80, a diminuição da mortalidade dos mais jovens deixa de
representar mais de metade dos ganhos totais na esperança de vida feminina.
Nesta década, a contribuição relativa destas idades não atinge os 50%, mas para
o sexo masculino o declínio da mortalidade até aos 15 anos é ainda a principal
fonte de aumento da esperança de vida. Entre os anos 90 do século xx e 2005, a
contribuição destes grupos etários situa-se já nos 20%. Nos últimos anos, em
2005-2007, o declínio da mortalidade dos mais jovens tem uma contribuição muito
reduzida nos ganhos de esperança de vida masculina e praticamente nula na
feminina.
A mortalidade dos adultos, entre os 15 e os 59 anos
4
, tem um percurso menos linear. Nos anos 40, os ganhos na mortalidade dos
adultos contribuem com cerca de 25% para o aumento da esperança de vida. Na
década seguinte, a diminuição da mortalidade nesta faixa etária representa
cerca de 40% do aumento da esperança de vida. A contribuição relativa da
mortalidade nestas idades tende a diminuir nos anos 60 e 70, embora nas
mulheres este valor seja ainda muito significativo na década de 60,
contribuindo quase com 20% dos ganhos ocorridos. A importância da mortalidade
dos jovens adultos, de ambos os sexos, é particularmente importante até 1960. A
partir desta data perde a sua anterior expressão e só mais tarde volta a ser
significativa para o aumento da esperança de vida. Já nos anos 60, tem início
um ciclo de contribuições negativas para a esperança de vida por parte dos
jovens adultos, em especial no sexo masculino5. Este aumento da mortalidade dos
jovens adultos do sexo masculino está associado aos acidentes de viação e
verificou-se também em muitos países europeus (Pampel, 2001; Meslé e Vallin,
2002; Gómez-Redondo e Boe, 2005; Canudas-Romo et al., 2008).
Nos anos 90, a diminuição da mortalidade dos adultos inicia uma nova tendência
para contribuir de forma mais expressiva para os ganhos na esperança de vida à
nascença. A contribuição da evolução da mortalidade entre os 15 e os 59 anos
volta a aproximar-se dos 20% a 30% dos ganhos na esperança de vida. No primeiro
quinquénio do século xxi, a diminuição da mortalidade dos adultos é tão
acentuada no caso masculino que explica mais de 40% dos ganhos ocorridos na
esperança de vida; no entanto, para as mulheres, embora os ganhos sejam também
importantes, situam-se apenas em cerca de 20% do total. A maior importância dos
ganhos na esperança de vida decorrentes do decréscimo da mortalidade dos
adultos continua a verificar-se nos dois últimos anos analisados.
Relativamente à mortalidade dos idosos, aqui considerada a partir das idades
acima dos 60 anos, podemos verificar que mostra uma evolução crescente. Nas
três primeiras décadas, a diminuição da mortalidade dos mais velhos contribui
com valores entre 1% e 10% para os ganhos totais na esperança de vida. Os
decréscimos da mortalidade nestas idades revelam maiores efeitos no sexo
feminino do que no masculino. A partir dos anos 70, a redução da mortalidade
dos idosos acentua-se de forma expressiva. Nesta década, 25% dos ganhos na
esperança de vida feminina e 18% na masculina dependem da melhoria da saúde
nestas idades. Nas décadas seguintes, a contribuição relativa da descida da
mortalidade verificada neste grupo etário aumenta de forma ainda mais
expressiva. Nos anos 80, aquelas contribuições situam-se em 30% e 40% e nos
anos 90 em torno dos 50% e 60%. Finalmente, no início do século xxi, o peso da
diminuição da mortalidade dos idosos passa a ser claramente preponderante, se
comparado com os outros grupos etários. Nos últimos anos, mais de 50% dos
ganhos na esperança de vida masculina e quase 80% no caso feminino são
consequência directa da melhoria da saúde nestas idades.
Em suma, até aos anos 80, os ganhos na esperança de vida, tanto para homens
como para mulheres, estão muito dependentes da mortalidade dos jovens e em
particular das crianças até ao 1.º aniversário. A partir dos anos 80, a
evolução da esperança de vida depende mais significativamente da saúde dos
adultos e dos idosos e no final do período em análise depende fundamentalmente
da mortalidade dos mais velhos.
Esta tendência para os ganhos na esperança de vida se darem a partir da
diminuição da mortalidade dos indivíduos cada vez mais velhos ocorre primeiro
nas mulheres e só depois no sexo masculino
6
. Este desfasamento temporal torna-se particularmente importante a partir dos
anos 80, quando o decréscimo das contribuições da mortalidade dos grupos
etários mais jovens para a evolução da esperança de vida se associa ao aumento
da importância da mortalidade dos adultos e dos idosos.
O facto de a descrição anterior ser efectuada em paralelo, para os homens e
para as mulheres, mostra como em ambos os sexos o aumento da esperança de vida
à nascença decorreu de diminuições da mortalidade verificadas, em grande
medida, em simultâneo para os dois sexos. No entanto, nas últimas décadas, a
similitude etária na origem dos ganhos de esperança de vida é menos notória.
Podemos confirmar esta ideia a partir de uma análise das correlações das
contribuições de cada grupo etário entre os dois sexos.
Correlações entre as contribuições etárias para o aumento da esperança de vida
[quadro n.º 5]
O exame dos coeficientes de correlação entre as contribuições, dadas por cada
grupo etário para a evolução da duração da vida, mostra que até 1990 são os
mesmos grupos que contribuem, em ambos os sexos, para os ganhos ocorridos na
esperança de vida (correlações sempre acima de 97% e em alguma décadas de 99%).
Nos anos 90 e no início do século xxi, a situação transforma-se de forma clara:
as correlações diminuem de forma brusca, revelando que, na actualidade, as
esperanças de vida masculina e feminina dependem de forma desigual dos ganhos
na saúde conseguidos nas diferentes idades.
Decomposição etária da diferença de esperanças de vida entre os sexos (1940-
2007)
Vimos anteriormente que, em Portugal, a disparidade entre as esperanças de vida
masculina e feminina aumentou ao longo do século xx e que só no final dos anos
90 esta tendência se inverteu. Na actualidade, a diferença entre as esperanças
de vida feminina e masculina supera ainda os 6 anos.
Evolução das esperanças de vida para homens e mulheres em Portugal
[quadro n.º 6]
O mesmo tipo de metodologia utilizado anteriormente para decompor as
contribuições de cada grupo etário para a evolução das esperanças de vida à
nascença foi utilizado para analisar as desigualdades entre a mortalidade
masculina e feminina em cada uma das datas em análise neste estudo.
Contribuição dos grupos etários para a diferença nas esperança de vida entre os
sexos
[quadro n.º 7]
Nesta análise sobre as discrepâncias de esperança de vida entre homens e
mulheres, a mortalidade dos mais jovens é sempre uma peça secundária. De facto,
embora até 1960 a mortalidade até aos 15 anos tenha mostrado alguma importância
para a distância de esperanças de vida entre os sexos, quando explica cerca de
20% das diferenças na esperança de vida, desde os anos 60 a sua importância
decresce de forma clara e, hoje em dia, a sua contribuição é apenas residual.
A mortalidade dos adultos e dos idosos tem sido o maior determinante na
desigualdade de duração da vida média observada entre os sexos. A mortalidade
entre os 15 e os 59 anos apresenta, ao longo de todo este período,
contribuições relativas em torno dos 45% a 50% das diferenças observadas. A
mortalidade dos mais velhos tem vindo a ganhar uma importância crescente.
Observa-se uma subida gradual mas constante um aumento quase linear. Se, em
1940, a mortalidade acima dos 60 anos explicava 26% da diferença de esperanças
de vida entre homens e mulheres, na actualidade representa mais de 50%
7
.
Em suma, desde os anos 60 que mais de 80% da desigualdade entre os sexos
depende da diminuição da mortalidade de adultos e idosos e, na actualidade,
essa diferença de esperanças de vida depende em mais de 95% da desigualdade
nestas idades.
A Desigualdade entre os Sexos na Actualidade: Idades e Causas de Morte
Portugal é, actualmente, um dos países da Europa ocidental onde a diferença de
esperanças de vida entre os sexos é mais expressiva. Apesar dos primeiros
sinais de recuperação por parte da população masculina, a vantagem feminina
situa-se em cerca de 6 anos.
Como vimos, hoje em dia, a maior duração da vida para as mulheres decorre, em
mais de 95%, de diferenças na mortalidade da população em idade activa e idosa.
A tendência para o acentuar da importância das idades avançadas nesta
divergência de esperanças de vida entre sexos é também notória a partir da
análise precedente.
A vantagem feminina na saúde pode ser também abordada em função das principais
causas de morte, seguindo o mesmo tipo de metodologia, mas agora na dupla
perspectiva das idades e das causas de morte (Arriaga, 1989).
A decomposição da diferença de esperanças de vida segundo a causa de morte
implica que ao longo do tempo as causas de morte tenham sido classificadas
segundo o mesmo critério e que não existam muitos óbitos por causa
desconhecida. É uma dupla limitação causada pelos dados, que teve como
consequência, nesta análise, o balizar dos cálculos na última década. Para esta
época estão disponíveis dados segundo a mesma Classificação Internacional das
Doenças (ICD versão 10), sendo por isso desnecessário proceder ao longo e
complexo processo de compatibilização de critérios entre as sucessivas versões
do sistema de classificação internacional. Por outro lado, é também o período
no qual os óbitos por causa desconhecida têm uma dimensão menor do que
anteriormente (Morais, 2002).
Para além destas questões de natureza prática, o objectivo desta análise sobre
a situação actual é aprofundar a investigação da desigualdade de esperanças de
vida entre os sexos numa fase em que a longa tendência para a divergência
tende, pela primeira vez em Portugal, a atenuar-se.
Vejamos primeiro os dados de base no que respeita às causas de morte em
Portugal na actualidade. O primeiro dos pontos a referir nesta abordagem é a
dimensão dos óbitos por causas desconhecidas: sempre mais de 10% dos casos não
especificam correctamente a causa de morte. Trata-se de um valor sem paralelo
na Europa. Em 2005, na Europa dos 15, este valor situava-se em 3,5% (Eurostat).
O facto de as causas desconhecidas atingirem esta dimensão, mesmo nos dias de
hoje, requer alguma precaução na análise dos resultados das estimativas sobre a
contribuição de cada uma das causas de morte. Na verdade, estes resultados só
seriam válidos se, nas populações em comparação, as causas desconhecidas
tivessem sensivelmente a mesma dimensão e, se em simultâneo, fosse razoável
admitir que estes óbitos, de natureza desconhecida, acontecem por efeitos das
mesmas causas subjacentes. Ainda assim, os valores calculados seriam sempre
estimativas por defeito, uma vez que, se os óbitos de origem desconhecida
tivessem sido correctamente especificados, todas as outras causas teriam maior
importância relativa e, por isso mesmo, maiores contribuições para as
diferenças observadas. Apesar destas limitações, é útil perceber a importância
das principais causas de morte na desigualdade de esperanças de vida
8
.
Vejamos, em primeiro lugar, a importância relativa das principais causas de
morte em Portugal. Na actualidade, em Portugal, tal como na maioria dos países
europeus, a morte ocorre fundamentalmente por falência do sistema circulatório
ou devido a doenças do foro oncológico. A mortalidade por doenças respiratórias
é uma causa de morte cuja expressão é também significativa. De entre estas três
principais causas de morte, é de assinalar que os tumores malignos são mais
frequentemente uma causa de morte no sexo masculino, tal como as doenças do
sistema respiratório; pelo contrário, as doenças do sistema circulatório são
mais frequentemente uma causa de morte na população feminina.
Principais causas de morte em Portugal (ICD-10)
[quadro n.º 8]
Todas as restantes causas de morte especificadas têm valores muito inferiores.
No entanto, as causas externas, em que se incluem os acidentes rodoviários, são
também importantes no caso masculino. No entanto, tem-se assistido, na última
década, ao decréscimo das mortes devidas a este tipo de causa.
As doenças do sistema digestivo têm ainda alguma expressão, especialmente no
sexo masculino, e o mesmo sucede, embora a níveis muito mais baixos, com as
doenças infecciosas (entre as quais se inclui a SIDA). Em ambos os casos não é
clara nenhuma tendência para o aumento ou diminuição dos óbitos decorrentes
destas duas causas.
Situação diferente ocorre nas causas de morte associadas aos sistemas
endócrino, nutricional e metabólico (em que se inclui a diabetes). Neste caso,
assiste-se a uma tendência para o aumento das mortes devidas a estas afecções.
Antes da análise relativa à contribuição das diversas causas de morte para a
diferença de esperança de vida entre homens e mulheres, é útil perceber quais
as causas de morte que contribuíram de forma mais significativa para a evolução
das esperanças de vida nos últimos 10 anos. Tanto nos homens como nas mulheres,
a evolução da esperança de vida decorreu, em grande medida, das melhorias
conseguidas no combate à mortalidade por doenças do sistema circulatório:
correspondentes a mais de 60% e 70 % dos ganhos observados no caso do sexo
masculino e a cerca de 45% dos ganhos no caso feminino.
Contribuições das principais causas de morte para a evolução da esperança de
vida
[quadro n.º 9]
A diminuição da mortalidade por causas externas é relevante na explicação do
aumento da duração da vida no final dos anos 90, mas é menos saliente nos
últimos 5 anos. No caso dos homens, a luta contra as doenças do foro oncológico
tem também alguma expressão nos ganhos de esperança de vidas nesta última
década, mas no caso feminino isso não acontece.
Por outro lado, algumas causas de morte contribuíram de forma negativa para a
evolução da esperança de vida: é o caso das doenças do sistema respiratório nos
últimos 5 anos do século xx, tanto no caso masculino como no feminino; o mesmo
se verificou com as doenças nutricionais, endócrinas e metabólicas no primeiro
quinquénio do século xxi. No último quinquénio, as causas mal definidas são o
segundo factor mais importante para o aumento da esperança de vida, o que
demonstra a fragilidade destas estimativas por causa de morte.
Em suma, na última década, o grande factor de aumento da esperança de vida,
tanto para homens como para mulheres é a diminuição da mortalidade associada às
doenças do sistema circulatório. Todas as outras causas de morte apresentam
contribuições para a evolução da esperança de vida de muito menor magnitude.
O facto de os problemas do sistema circulatório explicarem de forma tão
categórica os ganhos na duração média da vida para homens e mulheres não
significa que seja esta a principal causa da diferença observada entre a
duração da vida masculina e feminina. Tal como na análise das contribuições por
idade, é necessário proceder à decomposição por causa de morte da desigualdade
das esperanças de vida masculina e feminina em cada momento (v. quadro n.º 10).
Decomposição das diferenças de esperança entre os sexos segundoa causa de morte
[quadro n.º 10]
No presente, a desigualdade de esperança de vida entre homens e mulheres
decorre de três factores, que apresentam, em termos de importância, a mesma
ordem de grandeza: as doenças do foro oncológico (cuja contribuição para a
diferença de esperança de vida entre os sexos se situa em torno dos 20% a 25%);
as doenças do sistema circulatório (com uma importância relativa que ronda os
20%); por último, as causas de morte externas, as quais explicam cerca de 18%
da diferença observada nas esperanças de vida.
Todas as outras causas de morte têm um peso significativamente menor na
explicação da distância entre homens e mulheres, embora as doenças do aparelho
respiratório sejam relativamente importantes, contribuindo com quase 9%, e as
doenças do aparelho digestivo também tenham alguma expressão, explicando cerca
de 7% da diferença total entre as esperanças de vida masculina e feminina.
As doenças infecciosas têm ainda algum significado, embora bastante menor, tal
como acontece com as doenças devidas a “outras causas”. As doenças de natureza
endócrina, nutricional e metabólica revelam uma contribuição diminuta para a
discrepância de esperança de vida entre os sexos. Pelo contrário, as “causas
mal definidas”, isto é, não especificadas aquando da ocorrência do óbito, têm
um peso significativo, em torno dos 12% a 15%. Mais uma vez sublinhamos o facto
de estas estimativas sobre a contribuição de cada uma das causas de morte serem
por defeito relativamente à verdadeira contribuição de cada uma das causas.
Em suma, na última década a desigualdade de esperança de vida entre homens e
mulheres esteve dependente fundamentalmente das doenças do sistema
circulatório, dos tumores e dos óbitos por causas externas.
Apesar do interesse da análise da desigualdade da duração média da vida em
função da causa de morte, a esperança de vida à nascença depende inteiramente
da idade em que ocorrem os óbitos e não da situação de saúde que está na sua
origem. Se um óbito ocorrer na idade x, o número de anos de vida retirados à
população é exactamente o mesmo, independentemente da causa que lhe esteve
subjacente. O padrão etário dos óbitos de uma tábua de mortalidade traduz a
força da mortalidade de uma população real e constitui o cerne do cálculo da
duração média da vida.
Nas populações com baixa esperança de vida, a mortalidade tem um padrão etário
em forma de U. Quer isto dizer que a força da mortalidade (ou as taxas de
mortalidade por idade) apresenta valores elevados nos grupos mais jovens,
diminuindo desde o nascimento até cerca dos 15-20 anos, idade a partir da qual
se entra num patamar de baixa mortalidade, embora ligeiramente crescente; a
partir dos 40-50 anos, a mortalidade aumenta de forma muito acentuada. Nas
populações em que a mortalidade é elevada, a primeira parte do U a
mortalidade infantil, das crianças e dos mais jovens é muito acentuada. À
medida que a saúde das populações melhora e a duração média da vida aumenta, a
mortalidade dos jovens diminui de forma acentuada e o modelo pode ser descrito
como uma curva em J.
O padrão etário dos óbitos vai, progressivamente, perdendo a sua dispersão
inicial e concentra-se nas idades tardias. Esta mudança traduz-se no processo
de rectangularizaçãodas curvas de sobrevivência. A maior esperança de vida
encontrada nas mulheres revela uma maior compressão da mortalidade nas idades
tardias, maiores níveis de sobrevivência do que na população masculina, mas, em
simultâneo, faz abrandar o ritmo de aumento da esperança de vida. Os homens
encontram-se numa fase menos avançada do processo de rectangularização e, por
isso, os declínios da mortalidade contribuem com um maior número de anos para o
cômputo da esperança média de vida à nascença.
É neste sentido que Glei e Horiuchi (2007) discutem em que medida a evolução da
diferença de esperança de vida entre os sexos se deve a dois factores: por um
lado, à desigualdade entre os sexos no ritmo de descida da mortalidade e, por
outro lado, ao efeito da distribuição etária dos óbitos. No seu estudo
concluíram que a diminuição da distância entre as esperanças de vida masculina
e feminina, verificada entre a segunda metade dos anos 70 e o início do século
xxi, se deve predominantemente ao padrão etário da distribuição dos óbitos,
isto é, ao processo de rectangularização das curvas de sobrevivência. Portugal
é, de entre os países analisados, aquele onde este efeito é mais marcado e é
dos poucos onde as diminuições da mortalidade ainda levariam a um aumento do
diferencial nas esperanças de vida entre meados dos anos 70 e 20049.
Dado que em Portugal a atenuação da desigualdade entre as esperanças de vida
entre os sexos tem início no final dos anos 90, é essencial perceber se, neste
período, o maior aumento da esperança de vida no sexo masculino decorreu
exclusivamente dos efeitos de rectangularização ou também de uma diminuição
diferencial das taxas de mortalidade.
Os declínios da mortalidade em cada um dos sexos podem ser observados a partir
da comparação dos ganhos nas probabilidades de sobrevivência entre cada duas
idades.
Probabilidades de sobrevivência entre idades (1995 e 2005)
[quadro n.º 11]
Como podemos observar, nesta última década as diminuições da mortalidade
conduziram a um aumento das probabilidades de sobrevivência, mais significativo
no sexo masculino do que no sexo feminino. Neste sentido, a actual aproximação
das esperanças de vida traduz, em parte, a menor repercussão das diminuições da
mortalidade no sexo feminino associada a um processo mais avançado na
rectangularização das curvas de sobrevivência, mas reflecte também uma
diminuição mais acentuada das taxas de mortalidade no sexo masculino.
Conclusão
O debate sobre a origem das diferenças de esperança de vida entre homens e
mulheres tem inúmeras faces. Nesta investigação não abordamos mais do que a
vertente demográfica, pelo que devemos manter a discussão dentro deste âmbito.
Em Portugal, a desigualdade de esperança de vida entre homens e mulheres
acentuou-se até finais do século xx, acompanhando a tendência para o aumento
global da duração média da vida. Só na segunda metade dos anos 90 se inicia uma
nova tendência, em que se atenua a distância entre os sexos.
Neste estudo foi possível mostrar a importância fundamental do declínio da
mortalidade dos mais jovens para os ganhos verificados na esperança de vida até
aos anos 80 e, posteriormente, a importância crescente das descidas na
mortalidade de adultos e idosos. A mortalidade dos grupos etários mais velhos
tornou-se, progressivamente, o factor-chave na evolução da duração da vida.
Ao contrário do que aconteceu com a evolução da esperança de vida em cada um
dos sexos, a distância entre homens e mulheres sempre dependeu fundamentalmente
das diferenças de mortalidade de adultos e idosos. Se até aos anos 60 estes
grupos etários eram responsáveis por cerca de 80% da distância entre as
esperanças de vida, na actualidade a sua contribuição excede os 95%. Esta
desigualdade entre sexos na esperança de vida à nascença está associada,
fundamentalmente, a três causas de morte: doenças do sistema circulatório,
tumores malignos e óbitos por causas externas.
As causas de morte agem sobre a esperança de vida de uma forma indirecta. A
transição epidemiológica alterou a composição das causas de morte das
populações. Esta transformação dos factores que estão na origem da morte dos
indivíduos correspondeu a uma mudança nas idades em que ocorrem os óbitos. É
essa transformação no padrão etário da mortalidade que está na origem da
evolução da esperança de vida em cada um dos sexos e, por consequência, das
diferenças observadas entre os sexos. Na actualidade, a evolução da mortalidade
está fundamentalmente associada ao adiamento dos óbitos para idades cada vez
mais tardias, sem que se verifique uma mudança na estrutura das causas de
morte: a época do adiamento das doenças degenerativas (Olsansky e Ault, 1986)
parece ser um novo patamar na transição epidemiológica.