Risco e incerteza no pensamento biomédico: notas teóricas sobre o advento da
quantificação e da prova experimental na medicina moderna
Risk and uncertainty in biomedical thought: theoretical notes about the rising
of quantification and experimental proof in modern medicine
Biomedicine is a field where the concept of risk has shown an impressive
increase in its importance. This fact demonstrates a concern with a systematic
problem control through an instrumental rationalizing model, expressing
eloquently the investment being made in interpreting uncertainty as risk and
the consequent statistical dimension as an ever-more quintessential feature of
its scientific profile.
Keywords:risk; uncertainty; quantification; biomedicine.
Introdução
A crescente ênfase na padronização, e o empenho na racionalização da medicina
constituem alguns dos traços essenciais que nos permitem pensar o tipo de
dinâmicas e transformações que, no decorrer das últimas décadas, têm
reconfigurado a epistemologia científica da medicina contemporânea. Com este
artigo, pretende-se contribuir para a discussão sobre o significado dessas
mutações, apresentando-se alguns dos principais elementos que permitem
caracterizar e contextualizar a natureza desta nova abordagem paradigmática.
Neste sentido, um exercício fundamental será o de se tentar identificar e
compreender de que forma, a montante das actuais estratégias de normalização da
prática clínica promovidas pelos defensores da medicina baseada na prova
(evidence-based medicine),como forma de conferir maior objectividade a esta
prática, estão já inscritas algumas das condições que viabilizaram a
consolidação das metodologias científicas de base estatística. Em rigor,
estamos a falar de um processo muito gradual, descontínuo e fracturante. Porém,
a proeminência da actual abordagem biomédica apresenta um lastro histórico
suficientemente rico para que possamos dar conta das principais dinâmicas de
desenvolvimento da sua racionalidade científica.
Na reflexão que aqui se apresenta, mais do que nos limitarmos a fazer um
mapeamento deste processo, importa equacionar de que modo a indispensabilidade
da prova estatística corresponde a uma estratégia para gerir a incerteza
(Timmermans e Angell, 2001) num contexto fortemente marcado por imperativos de
racionalização e de padronização científica (Cambrosio et al.,2006; Timmermans
e Berg, 2003). A abordagem que aqui se empreende é fundamentalmente teórica e o
seu horizonte de indagação sociológica visa identificar alguns eixos de
problematização que permitam esclarecer melhor a questão da incerteza médica
(Fox, 1998 [1959] e 2003). Esta funciona, afinal, como o grande pretexto que
justifica o desenvolvimento e a promoção de metodologias científicas que
procuram ultrapassar a efectiva variação e contingência da prática médica.
Risco e quantificação: breve panorama
A moderna noção de risco alicerça-se numa abordagem e num entendimento
racionalista da realidade que pressupõe o controlo da incerteza através do
desenvolvimento de procedimentos estatísticos e de probabilidades matemáticas.
Efectivamente, é possível considerar que esta categoria assume uma grande
centralidade no contexto da modernidade, pois a crescente industrialização e
criação de instituições de controlo e regulação social tornaram imperativa a
necessidade de conhecimentos objectivos e o desenvolvimento do pensamento
racional. Nestas circunstâncias, é frequente argumentar-se que o risco se
cientificizou através de uma abordagem probabilística e estatística e que
adquiriu um perfil técnico associado ao cálculo matemático (Lupton, 1999, pp.
5-6).
Assim, se até à emergência da época moderna a noção de risco tinha um sentido
neutro, dizendo apenas respeito às probabilidades de ocorrerem ganhos ou perdas
(Gabe, 2004), a verdade é que com o advento de um discurso e de um entendimento
determinista da realidade social e natural ganha preponderância uma nova
acepção deste conceito, o qual passa a estar vinculado à ideia de que o mundo é
regido por leis causais e universais que podem ser determinadas e previstas
através de dispositivos de probabilidade matemática (Gabe, 2004; Green, 1997).
Desta forma, não só se verificou a transformação do conceito de risco em termos
do seu significado estando agora vinculado a uma conotação negativa que
decorre da ideia de perigo (Gabe, 2004) , como também se revelou assinalável a
crescente capacidade técnica de domesticação do acaso, fortemente ancorada na
expansão dos desenvolvimentos do cálculo probabilístico.
Num contexto em que a arquitectura institucional e a racionalidade técnico-
científica das sociedades modernas exigem lógicas de previsão, cálculo e
controlo, operou-se a consolidação da abordagem científica, principalmente
através da obsessão com a prevenção do risco[1], dando origem ao que alguns
autores designam como mito da calculabilidade (Lupton, 1999, p. 7) ou da
prevenção do acidente[2].
Tendo em conta esta afinidade electiva entre risco e modernidade, pode-se
considerar, portanto, que a profusa utilização e aplicação das estatísticas em
vastos domínios da vida social, bem como um intenso entusiasmo pelos números e
a respectiva multiplicação de classificações, parecem traduzir a ideia de que
na modernidade o acaso passa a ser desvalorizado em benefício da ideia de
controlo e de regularidade. Todo o investimento intelectual que então se produz
(nomeadamente nos estudos matemáticos que estiveram na base do desenvolvimento
da ideia de probabilidade) é uma expressão nítida dessa tendência, na medida em
que o acaso passa a ser enquadrado como um horizonte disruptivo que importa
dominar. Aliás, a obsessão em controlar essa dimensão acabou por permitir que
se consolidasse uma espécie de imperialismo da probabilidade, uma vez que o
mundo se tornou cada vez mais numérico e submetido a modos gradualmente mais
sofisticados de mensurabilidade e de categorização estatística.
Um domínio do saber em que a tendência para a proliferação do conceito de risco
se tem evidenciado são as ciências da saúde e, em particular, a biomedicina, o
que representa, desde logo, um indicador da própria cientifização que tem vindo
a caracterizar este campo. De facto, olhando para a forma como esta categoria
foi incorporada nos discursos e nas práticas biomédicas, podemos considerar que
os procedimentos de avaliação e gestão do risco que se têm desenvolvido
traduzem uma forma de apropriação da incerteza através de um conhecimento
pericial caracterizado por procedimentos de cálculo baseados na ideia de
probabilidade. De acordo com Nunes (2002, p. 290), a biomedicina adoptou o
conceito de risco num sentido muito próximo do que propõe a Royal Society
britânica, segundo a qual o risco é a probabilidade de que um acontecimento
adverso particular ocorra durante um dado período de tempo ou em resultado de
um desafio particular. Enquanto probabilidade no sentido em que a entende a
teoria estatística, o risco obedece a todas as leis formais da combinação de
probabilidades.
Por essa razão, a preocupação em proceder ao controlo sistemático dos problemas
através de um modelo de racionalização instrumental é elucidativa acerca do
investimento que é feito na interpretação das incertezas como riscos (na sua
conversão em probabilidades), dado que este processo permite estabelecer
fronteiras que delimitam e controlam o acaso[3].
Deste modo, a quantificação na biomedicina representa actualmente um processo
ambivalente: para além das potencialidades e dos benefícios que confere, há um
imenso conjunto de dúvidas e interrogações que fazem com que esta
reconfiguração seja olhada sob uma perspectiva crítica e simultaneamente
prudente. Autores como Marques (2002, pp. 15-16) desenvolvem a este respeito
reflexões de grande pertinência, problematizando os impactos que a tendência de
crescente quantificação tem na medicina. De facto, como lembra este autor, a
medicina é, desde as suas remotas fundações, uma ciência do indivíduo que
sempre procurou privilegiar e valorizar a singularidade e a determinação do
contingente na arte de cuidar do doente, o que significa que, não obstante ter
sido um saber carecido de critérios objectivos de verdade, procurou sempre
proceder com acribia em relação ao doente e não só à doença. Assim, perante os
progressos exponenciais das ciências biomédicas, torna-se relevante perceber
que estão em causa inversões fundamentais na própria medicina clínica e na sua
relação privilegiada com o doente individual, pois são cada vez mais voláteis
as tensões entre o critério clínico e o critério estatístico decorrente da
assinalada tendência da quantificação. Neste sentido, e como refere o autor, a
estatística tira o seu poder da medição de tudo pela mesma bitola, exactamente
o revés da determinação da diferença e da procura da singularidade que toda a
clínica desde sempre exigiu e exige (Marques, 2002, p. 32).
Acerca da genealogia da medicina experimental
Esta dimensão estatística, que parece ser hoje um dos principais traços que
caracterizam a biomedicina, não deixa, todavia, de ser o resultado de
transformações teóricas e cognitivas relativamente recentes operadas no campo
da clínica médica. A obra de Michel Foucault (1994 [1980]) sobre o nascimento
da clínica oferece, precisamente, algumas pistas importantes relativamente ao
conjunto das transformações referidas. Segundo este autor, é fundamentalmente a
partir do século xix que se assiste a uma reorganização profunda do saber
médico e da sua prática, em particular ao nível dos seus objectos, conceitos e
métodos, que passam a configurar um novo tipo de medicina (científica) fundada
na objectividade e em medições instrumentais da quantidade. A emergência de um
novo olhar médico, que já não se detém apenas nas qualidades dos objectos, mas
que passa a ser um olhar empírico alicerçado numa linguagem racional, levanta a
velha proibição aristotélica de submeter o indivíduo a um discurso de estrutura
científica (Foucault, 1994 [1980], p. 13). Tal abertura do indivíduo à
experiência clínica a primeira na história ocidental significou, deste
modo, o início da observação positiva do doente no seu leito, ou seja, num
espaço que se passará a assumir como campo de investigação, no qual são
observadas, de modo preciso e sistemático, todas as informações respeitantes ao
indivíduo.
Essa nova linguagem, que é parte constitutiva do método anátomo-clínico que
caracteriza a então emergente medicina experimental, passa a deslocar a sua
atenção do indivíduo doente para o seu corpo, sobretudo para o seu interior, ou
seja, para os seus órgãos, procedendo assim a um reducionismo metodológico
centrado no órgão e nos elementos infinitamente pequenos, afastando-se
progressivamente da preocupação com a singularidade dos indivíduos tomados na
sua unidade somatopsíquica.
Um dos corolários importantes que decorrem deste conjunto de transformações da
ciência médica é a mudança conceptual relativamente ao tratamento da incerteza,
nomeadamente a partir do final do século xviii. Nessa altura assiste-se à
importação do saber probabilístico e à consequente reconfiguração da medicina,
que, a partir de então, não tem mais que ver o verdadeiro essencial sob a
individualidade sensível; está diante da tarefa de perceber, e infinitamente,
os acontecimentos de um domínio aberto (Foucault, 1994 [1980], pp. 110-111).
De facto, esta mudança nos saberes constitui um elemento de fulcral
importância. Com a instauração do tratamento analítico da incerteza em medicina
sob forte influência do trabalho de figuras como Laplace , a noção de
incerteza passa a ser tratada como a soma de um certo número de graus de
certeza isoláveis e susceptíveis de um cálculo rigoroso. No fundo, é através da
incorporação do cálculo probabilístico no saber médico e nos valores
perceptivos da experiência clínica que podem ser assinaladas as mudanças mais
significativas no campo da clínica na medida em que os factos observados no
âmbito desta nova lógica de investigação passam a ser isolados e postos em
confronto com uma série de acontecimentos que podem ser mensuráveis, o que
significa que a nova estrutura do campo clínico, tal como refere Foucault (1994
[1980], p. 110), passa a ter outros contornos: o indivíduo posto em questão é
menos a pessoa doente do que o facto patológico indefinidamente reprodutível em
todos os doentes igualmente afectados.
Neste sentido, a crescente importância concedida à ideia de certeza médica
acabou por ter implicações consequentes no modo de entender o indivíduo, em
particular porque a determinação da individualidade se desloca da identificação
da singularidade do indivíduo para a ordenação, em série, das multiplicidades
dos factos individuais que suprimem, espontaneamente, as variações individuais.
Neste novo quadro da experiência clínica, as variações passam a ser integradas
no domínio da probabilidade, o que significa que, se por um lado, estas não são
afastadas, por outro, elas anulam-se na configuração geral, isto é, ocultam-se
sob as médias e os limites das regularidades estatísticas. Como refere
Foucault, na sombra, e sob um vocabulário aproximado, circulam noções em que
se pode reconhecer o cálculo de erro, o desvio, os limites, o valor da média.
Todas elas indicam que a visibilidade do campo médico adquire uma estrutura
estatística e que a medicina se dá como campo perceptivo, não mais um jardim de
espécies, mas um domínio de acontecimentos (Foucault, 1994 [1980], p. 116).
Os novos imperativos científicos e o (lento) triunfo das estatísticas na
medicina
Mas será que, no contexto da sua emergência, estas transformações alteraram
radicalmente a medicina? Será que as rupturas introduzidas no pensamento médico
anterior foram imediatas e inelutáveis? Terá o pensamento probabilístico
penetrado na medicina de uma forma linear, num processo isento de resistências
e contradições? Tomando estas interrogações como fonte de indagação
relativamente à emergência da medicina experimental caracterizada pela
racionalidade científica, é relevante convocar, ainda que de modo breve e algo
panorâmico, alguns elementos de natureza histórica quanto à introdução dos
métodos quantitativos e de inferência estatística na medicina. Tal abordagem
poderá proporcionar alguma elucidação sobre a crescente tendência para a
quantificação na medicina, processo não só pouco linear, mas sobretudo marcado
por profundos debates que dividiram as principais academias médicas entre o
início do século xix e meados do século xx.
Uma característica que deve ser salientada prende-se com o facto de as
diferenças que separavam os clínicos, os fisiologistas e os bacteriologistas
não obstarem a que a grande maioria partilhasse uma postura de antipatia e de
recusa em relação aos métodos estatísticos, dado que o julgamento médico era
visto como uma forma de conhecimento tácito que não se coadunava com as
inferências quantitativas dos métodos estatísticos que foram sendo gradualmente
introduzidos na medicina.
Tomando como referência o estudo de Matthews (1995) acerca da quantificação na
medicina, é possível considerar que as várias tentativas de tornar este saber
mais científico e objectivo por via da incorporação das metodologias
estatísticas colidiram com profundas resistências que consideravam que essa
perspectiva de transformação da medicina a desvirtuava e afastava da sua
especificidade, isto é, da experiência clínica centrada no indivíduo e baseada
em avaliações qualitativas, que a aproximavam mais de uma arte do que de uma
ciência.
Aliás, os exemplos apresentados pelo autor são a esse nível bastante
paradigmáticos, mostrando com detalhe quais os principais argumentos em
confronto, fruto da emergência de um novo clima intelectual a partir do qual se
prefiguram transformações na ciência ocidental, em geral, e na medicina, em
particular. Um dos primeiros contributos para a emergência de uma medicina
científica foi levado a cabo pelo clínico francês Pierre-Charles-Alexandre
Louis, através dos seus trabalhos sobre a comparação numérica em medicina. O
método numérico que defendia, embora não fosse metodologicamente muito
inovador, dado que consistia na comparação directa entre valores médios de
terapias concorrentes, representa um dos esforços mais sistemáticos, no
contexto da comunidade médica parisiense, no sentido de (re)fundar a medicina
numa base científica. O investimento intelectual que dedicou à enumeração,
entendida como sinónimo da razão científica, era fortemente inspirado nos
trabalhos de Laplace sobre probabilidade e neles encontrou justificação para o
seu método. Considerava que a observação cuidadosa, a recolha sistemática de
dados, a análise rigorosa de múltiplos casos, a prudência nas generalizações e
a verificação através de autópsias eram procedimentos fundamentais para dotar a
medicina de um método empírico que assegurasse que os factos decorrentes das
observações apontavam para resultados exactos e isentos de incerteza (Matthews,
1995, pp. 15-16).
De facto, esta posição colidia com o ethos humanitário da medicina e por essa
razão deu origem a um debate que punha em confronto posições irredutíveis
acerca do entendimento sobre a função da tradição profissional da medicina. Se,
para os críticos da quantificação, a ênfase era colocada na habilidade única do
clínico para diagnosticar a doença e para aliviar o sofrimento individual, para
os indivíduos com alguma formação matemática, a ênfase deslocava-se para a
necessidade de tornar a medicina uma ciência empírica, dotando-a, para isso, de
métodos de análise numérica.
Uma das oposições mais consistentes ao método de Louis partiu dos
fisiologistas. Desde a sua emergência em meados do século xix, estes haviam
sustentado que o modo de conferir uma base científica à medicina passava pela
experimentação em laboratório de organismos vivos, e não pela compilação de
estatísticas.
Um dos principais expoentes da fisiologia experimental foi Claude Bernard, para
quem a experimentação era indispensável para obter factos comparáveis e isentos
de causa de erro. Para este pensador, a medicina não se devia basear nas
estatísticas, uma vez que isso pressupunha que se tratava de uma ciência de
observação passiva, em vez de uma ciência experimental e intervencionista.
Somente pela experimentação em laboratório (os locais por excelência onde
poderiam ser desenvolvidas as investigações) seria possível garantir o domínio
de todas as condições vitais que influenciam determinado evento fisiológico
(Matthews, 1995, p. 71).
Assim, para a fisiologia[4] era de grande importância a valorização dos
organismos vivos individuais, pois, ao contrário daquilo que decorre do uso de
médias em medicina que ocultam as relações complexas e variáveis entre os
fenómenos , a experimentação permite estudar as várias circunstâncias dos
fenómenos e, a partir dos dados experimentais, interpretar o que os
fisiologistas designavam por lógica dos factos. Esta oposição às estatísticas
não significava, contudo, que os fisiologistas considerassem que a medicina
devia ser entendida como uma arte. Também eles estavam profundamente
empenhados em conferir-lhe cientificidade. Aquilo que aproximava a posição dos
fisiologistas relativamente aos críticos do uso das estatísticas em medicina
prendia-se com o facto de estes considerarem que qualquer conclusão baseada num
pensamento populacional deveria ser recusada; tais resultados não seriam mais
do que conhecimento probabilístico, desprovidos da objectividade determinística
fornecida pela investigação experimental dos organismos vivos individuais.
De uma forma mais específica, era preconizada a ideia de que as médias
introduzem uma falsa precisão aos resultados, ocultando a complexidade dos
fenómenos fisiológicos. A estatística, tal como era vista por Claude Bernard,
só poderia gerar ciências conjecturais (probabilidades) e nunca ciências
activas e experimentais, as únicas que, segundo o próprio, poderiam ser
entendidas como tal. É por essa razão que defende de forma empenhada que a
medicina se deveria converter numa ciência exacta baseada no determinismo
experimental, e não numa ciência conjectural caracterizada pelo indeterminismo
e pela ausência de leis absolutas. Tornar a medicina uma ciência através do
método experimental era, em síntese, o que ambicionava:
O estado científico levará mais tempo a organizar-se e será mais
difícil consegui-lo em medicina, por causa da complexidade dos
fenómenos; mas o objectivo do médico sério é reduzir, tanto na sua
ciência como nas outras, o indeterminado ao determinado. A
estatística só se aplica, portanto, em casos em que existe ainda
indeterminação na causa do fenómeno observado. Em tais
circunstâncias, só pode servir, na minha opinião, para dirigir o
observador na pesquisa desta causa indeterminada, mas nunca pode
conduzi-lo a nenhuma lei real [Bernard, 1978 (1865), p. 171].
No entanto, e não obstante as críticas e as reservas relativamente às
generalizações estatísticas, o que se irá verificar a partir do último terço do
século xix é a gradual consolidação do prestígio da quantificação, nomeadamente
com a emergência da escola biométrica na Grã-Bretanha. Efectivamente, a partir
deste período assistiu-se a um importante conjunto de inovações no papel dos
métodos estatísticos na medicina, sobretudo porque a estatística deixou de ser
uma ciência social empírica, essencialmente preocupada com a recolha e
descrição dos fenómenos sociais, para passar a ser uma ciência matemática
aplicada (Matthews, 1995, p. 86). Esta transformação derivou em grande medida
da tradição biométrica britânica, na qual se destacaram nomes como Francis
Galton e Karl Pearson, os quais exerceram grande influência junto de vários
membros da profissão médica, empenhados em dotar a medicina de métodos
científicos tanto no diagnóstico como na terapêutica. Gradualmente, começaram a
aparecer profissionais médicos que, em complemento à sua formação médica,
também se interessavam e dominavam as estatísticas matemáticas.
Um aspecto importante que se destaca neste novo clima intelectual prende-se com
o facto de emergirem nesse período várias especialidades profissionais que
formam uma espécie de rede de cientistas interessados na formação de um novo
campo, algo que se faz sentir com particular acuidade na comunidade médica e
estatística (Matthews, 1995, pp. 86-87).
É neste contexto específico que ocorrem as principais inovações teóricas,
sobretudo as introduzidas por Galton, considerado um dos principais
responsáveis pela fundação da moderna teoria estatística ao estabelecer,
nomeadamente, a autonomia da lei estatística. Também Pearson, enquanto leal
colaborador de Galton, desempenhou um papel importante na consolidação da
nova visão estatística, dado que durante praticamente toda a sua carreira
universitária, enquanto professor de matemáticas aplicadas no University
College de Londres, utilizou a sua posição institucional para tentar garantir a
ampla difusão dos modernos métodos estatísticos. A fundação em 1901 do jornal
Biometrika, em conjunto com Galton e Weldon, é um dos exemplos das tentativas
por si empreendidas no sentido de persuadir a comunidade científica do valor e
da importância das estatísticas matemáticas, sobretudo quando aplicadas aos
problemas das ciências da vida (Matthews, 1995, pp. 90-91).
A receptividade da profissão médica aos métodos estatísticos biométricos não
foi, todavia, uniforme. A posição dos médicos que se consideravam
representantes de uma ciência clínica baseada nas suas fundações clássicas (a
defesa da arte da medicina), em que a perícia técnica tinha uma importância
muito diminuta, coexistia com a daqueles que, pelo contrário, enfatizavam a
importância dos métodos e técnicas da fisiologia (diagnósticos baseados em
observações mais objectivas) como algo de indispensável e que deveria figurar
no curriculummédico. Em contraste com estas abordagens mais clínicas, estava a
posição dos bacteriologistas, cujos métodos maioritariamente laboratoriais se
assemelhavam aos dos fisiologistas e para os quais a estatística providenciava
uma escassa evidência científica.
No entanto, o verdadeiro impacto dos métodos estatísticos na medicina só
acontece no início do século xx por via do trabalho de um dos colaboradores de
Pearson, Major Greenwood. Este será o primeiro indivíduo a desenvolver uma
carreira profissional (em virtude da sua formação médica e matemática) em que
aplica com sucesso e eficácia os métodos estatísticos matemáticos aos problemas
médicos. De facto, o trabalho de Greenwood constitui a primeira tentativa
consequente na formação de médicos estatísticos com treino matemático: consegue
que a estatística médica passe a ter um novo papel profissional no âmbito da
investigação médica e é bem sucedido ao tentar ligar os métodos estatísticos
matemáticos ao domínio da investigação laboratorial[5].
Todavia, a expressão mais clara destes esforços ocorrerá na década de 40 do
século xx, quando um dos estudantes de Greenwood, Austin Bradford Hill, se
destaca pelo seu trabalho em estatística médica, criando as bases do primeiro
ensaio clínico sobre o efeito da estreptomicina[6] na tuberculose , usando o
princípio da aleatorização para seleccionar os doentes que ficavam no grupo
experimental e os que ficavam no grupo de controlo, ou seja, incorporando
elementos do acaso numa experiência científica baseada na ideia de
probabilidade. Por conseguinte, a sua importância não só se prende com o facto
de ter sido o precursor dos ensaios clínicos, mas também, e sobretudo, por ter
definido a estrutura básica dos que foram posteriormente realizados.
Assim, nas décadas de 50 e 60, Bradford Hill conseguiria convencer a comunidade
médica acerca da enorme utilidade de introduzirem os ensaios clínicos
aleatorizados duplamente cegos[7] como procedimento normal para determinar a
eficácia e a segurança de novas drogas. No decorrer das décadas subsequentes,
estes procedimentos revelar-se-iam decisivos na emergência e consolidação de
novas formas de racionalização da medicina, em que os princípios da
epidemiologia clínica instauram a prova estatística como um dos requisitos
fundamentais para a validação da nova base científica do conhecimento médico.
Com efeito, esta importância concedida aos ensaios clínicos aleatórios
(randomised controlled trials)como a melhor forma (gold standard) para medir a
eficácia das acções médicas com base na investigação será activa e
enfaticamente preconizada a partir da década de 70. Neste contexto, destaca-se
o trabalho, hoje clássico e seminal, do epidemiologista Archie Cochrane (1972)
[8], que apresenta os princípios subjacentes à medicina baseada na prova (MBP)
(evidence-based medicine). Aqui a ênfase é posta na importância das revisões
sistemáticas dos referidos ensaios clínicos aleatórios para que os
profissionais possam ter acesso a informação de qualidade sobre as provas que
justificam ou refutam as opções terapêuticas, evitando assim o mau uso das
técnicas e dos recursos disponíveis. Nesse mesmo sentido, um outro momento-
chave é o trabalho de David Sacket e dos seus colaboradores. Numa conhecida
obra, que constitui hoje também uma referência (Sackett et al.,1991 [1985]),
sustentam o desenvolvimento de métodos para testar as inovações médicas, sob o
imperativo de reunir a melhor evidência científica através da investigação. É
também este grupo que promove e difunde activamente o termo evidence-based
medicine,juntamente com os seus princípios. De uma forma relativamente rápida e
bem concertada, embora não isenta de controvérsia, esta estratégia revelar-se-á
bem sucedida e em pouco tempo a noção de MBP torna-se, de facto, praticamente
ubíqua no campo da medicina contemporânea.
A medicina baseada na prova: consagração de uma nova epistemologia científica
Esta recente reconfiguração da medicina, traduzida na tendência para o
desenvolvimento de perspectivas orientadas para o colectivo e alicerçadas na
quantificação estatística (e já não exclusivamente centradas no indivíduo), é
indicativa de um novo perfil que veio transformar profundamente os conceitos de
individuação e subjectividade, centrais na experiência clínica. Nessa medida, o
foco privilegiado da medicina tem-se deslocado para as análises populacionais
baseadas na experimentação biomédica e estatística, permitindo mensurar e
comparar os fenómenos clínicos, com vista à determinação de regras universais
(Cronje e Fullan, 2003, pp. 256-357).
De facto, a MBP[9], enquanto tentativa de aplicar de forma mais uniforme e
padronizada as provas científicas decorrentes da utilização das análises
populacionais a certos aspectos da prática médica como a validação das
terapêuticas ou as recomendações clínicas , corresponde a um processo que visa
diminuir a importância da intuição e da experiência clínica não sistematizada,
bem como do raciocínio fisiopatológico, enquanto a única (ou a principal) base
para a prática clínica. Entendida pelos seus promotores como uma nova
metodologia que permite conferir maior objectividade e validade aos processos
de decisão clínica, tem vindo a ganhar terreno como um dos principais critérios
de intervenção clínica e também como requisito indispensável na promoção da
eficiência e eficácia dos investimentos em saúde, na avaliação de tecnologias,
e na própria alocação dos recursos, sempre com base em estimativas
probabilísticas de custo/benefício, que constituem hoje, e cada vez mais, uma
ferramenta indispensável para a implementação de políticas baseadas nos
princípios da nova gestão pública.
Apesar de a epidemiologia clínica não ter sido inicialmente bem vista e de se
ter confrontado com uma recepção não consensual na comunidade médica, foi-se
gradualmente consolidando o que Pope designa por espírito de corpo (Pope,
2003, pp. 270-271) em alguns segmentos profissionais descontentes com a prática
clínica, convictos que estavam de que esta poderia ser melhorada com a
incorporação de princípios epidemiológicos. Rapidamente se assistiu à
multiplicação de estratégias com vista à prossecução dos intentos da MBP,
nomeadamente a garantia de que esta passaria a ser incorporada na educação
formal da medicina, bem como o incentivo à divulgação em revistas e publicações
médicas dos resultados baseados nesta nova metodologia. Outra das estratégias
consistiu na generalização dos protocolos de investigação clínica (guidelines),
com vista à produção de recomendações para a boa prática clínica, baseadas na
prova (Pope, 2003, p. 272).
Para todos os efeitos, e sendo verdade que não há um padrão homogéneo na forma
como estas metodologias vão sendo disseminadas e aplicadas aos vários campos de
intervenção, o que se pode destacar como um dado particularmente relevante e
estruturador no panorama da medicina contemporânea prende-se com a ideia da
emergência de uma nova forma de objectividade marcada pela produção colectiva
da prova. Esta análise, condensada na noção de regulatory objectivity(Cambrosio
et al.,2006),mostra-nos como a circunstância histórica de a medicina moderna do
pós-guerra se ter tornado biomédica ou seja, em mais estreita articulação e
interdependência com as novas áreas da biologia , nos permite falar hoje em
modos de produção de convenções, normas e protocolos que tornam possível a
objectividade na prática clínica. Esse carácter colectivo da prova, baseado em
sistemas de convenções tornados possíveis pelos estudos inter-laboratoriais,
pelos ensaios clínicos multicêntricos, pelos consórcios internacionais de
investigação, é fundamental para procedimentos de controlo de qualidade,
recomendações e normas de orientação clínicas. Como referem os autores, para a
biomedicina, é menos importante alcançar a verdade (analítica ou outra) do que
assegurar a compatibilidade entre diferentes laboratórios e hospitais [...] A
objectividade regulatória também reflecte os valores da globalização e dos
fluxos da livre informação que têm conduzido à padronização internacional desde
a Segunda Guerra Mundial[10] (Cambrosio et al.,2006, p. 195).
Deste ponto de vista, e uma vez que a análise sugere que as lógicas de
regulação têm marcado, e viabilizado, o desenvolvimento da biomedicina
contemporânea, ao ponto de não serem apenas o resultado de intervenções
externas, mas também de práticas endógenas que reflectem a necessidade de
existirem convenções e critérios padronizados, é agora possível compreender
melhor em que medida o panorama actual reflecte o sucesso da estratégia de
gradual consolidação da MBP. Indicadores claros deste argumento são, por
exemplo, o crescimento exponencial de artigos médicos (num total de 1255) sobre
MBP verificado entre 1992[11] e 2002 (Weisz et al., 2007); a intensa
proliferação de normas de orientação clínica (as chamadas guidelines)[12];o
aparecimento de novas instituições e estruturas, com especial destaque para as
revistas e publicações (Timmermans e Berg, 2003), e o crescente interesse de
outros actores pela MBP, como os governos, as seguradoras, a indústria
farmacêutica, o que parece ser coerente com os pressupostos da importância
estratégica da padronização e racionalização da prática científica.
Prova estatística e individualidade: mutações na clínica moderna
Embora se possa considerar que esta perspectiva se difundiu com grande sucesso,
não têm deixado de surgir críticas e resistências por parte de alguns clínicos.
Em termos genéricos, os argumentos dos críticos da MBP vão no sentido de
considerar que a natureza do trabalho médico diário, nomeadamente a
especificidade do julgamento clínico baseado em casos individuais, contrasta
com a lógica hegemónica dos ensaios clínicos aleatórios duplamente cegos.
Sobretudo porque as provas em que estes se baseiam apenas conferem uma validade
externa, isto é, somente descrevem os benefícios de uma intervenção clínica
aplicada a um grupo de indivíduos, enquanto um clínico tem de decidir se essas
medidas podem beneficiar o indivíduo doente que o consulta. Tal facto
constitui, portanto, uma diferença substancial no que diz respeito ao tipo de
conhecimento usado e privilegiado em cada uma destas perspectivas, pois os
clínicos não baseiam o seu conhecimento em provas de natureza técnica que
permitem a formulação de recomendações ou guidelines, mas sim em julgamentos
que valorizam as variações e as singularidades.
Enquanto ciência da predição do estado futuro do doente individual, baseada na
comparação quantitativa de eventos clínicos, a epidemiologia clínica tem
merecido críticas contundentes. Estas enfatizam que a decisão médica racional,
fundada exclusivamente em estatística aplicada e na teoria das probabilidades,
faz desaparecer o indivíduo na amostra, subvertendo, consequentemente, o
próprio saber clínico, marcado desde as suas remotas origens pelo respeito da
singularidade e valorização das diferenças. Ao ser entendido como subjectivo,
impreciso, não replicável nem mecanizável (Marques, 2003, p. 8), o saber
clínico é visto como uma experiência que carece de rigor científico. Em
simultâneo, são desvalorizados os aspectos que lhe conferem identidade,
nomeadamente a clínica como ciência prudencial, como exercício da faculdade de
julgar, em que, mais do que a existência de sistemáticas e exaustivas
recomendações terapêuticas, o que importa é o julgamento das necessidades
particulares de cada indivíduo doente.
Estas considerações remetem para a questão relativa às limitações da prova
estatística e à consequente confusão dos vários regimes de prova. De facto, a
vontade de basear todas as decisões médicas na prova experimental e na
manipulação estatística pode revelar-se problemática. A natureza deste tipo de
prova não é adequada à contingência do acto médico-cirúrgico, pelo que as
estimativas muito dificilmente têm poder demonstrativo relativamente à
complexidade e indeterminação de casos raros que só a posteriori podem ser
verificados. Deste modo, no entender de Marques (2003, p. 9), são quatro os
pontos fracos da prova estatística médica: a elisão da causalidade e da
fisiopatologia; o enfraquecimento do esteio da prova; a falta de atenção aos
casos singulares; por fim, a não consideração das diferenças.
Nesta acepção, não obstante a crescente valorização do método experimental
que, de resto, é fundador da ciência moderna e a consequente procura de leis
universais (método nomotético) através de pesquisas quantitativas[13] e
populacionais (Wilson, 2000, pp. 204-205), é importante notar que as decisões
clínicas lidam e confrontam-se efectivamente com zonas de indeterminação e
contingência próprias da singularidade e da individualidade. Isto significa
que, apesar de o enfoque da moderna biomedicina privilegiar o geral e o
universal em detrimento do particular e do existencial em que os indivíduos
tendem a ser vistos como casos ilustrativos das patologias , o objectivo
original da medicina é o de lidar com doentes individuais através de faculdades
de julgamento prudenciais que valorizam a diferença e a singularidade.
Esta gradual secundarização da clínica reflecte, portanto, o impacto dos
rápidos e profundos avanços da técnica moderna sobre o perfil da medicina e
acaba por ser um indicador expressivo da tendência cientificizante que pretende
conferir objectividade à clínica, negligenciando, para usar uma expressão de
Marques, a sua espessura antropológica. Neste sentido, o perfil estatístico e
os cada vez mais amplos recursos informacionais à disposição dos médicos
parecem destacar-se como uma das expressões mais visíveis de uma nova
cosmologia médica que passa a estar no centro de rivalidades epistemológicas
(Harrison, 2004, pp. 335-336) entre um modelo clínico tradicional, em que
predomina a decisão médica baseada numa epistemologia realista/naturalista, e
um modelo epidemiológico que se alicerça em formas de inferência estatística,
decorrentes de modelos probabilísticos.
Os diferentes pressupostos que estão subjacentes a cada um dos modelos remetem
para entendimentos dicotómicos e são, por consequência, produtores de novos
paradoxos que complexificam o campo da medicina contemporânea através de
mutações compósitas que, de facto, obrigam a repensar qual o seu lugar e quais
as suas especificidades no contexto actual. No âmago desse confronto parece
jogar-se o gradual abandono de um modelo enformado por um ethos humanitário e
por uma ética individualista construída a partir da experiência dos casos
individuais e dos exemplos decorrentes da prática clínica (do próprio ou dos
colegas), em benefício da consolidação de um outro modelo baseado num
conhecimento científico de novo tipo em que o recurso à informação disponível
surge ampliado por novas possibilidades tecnológicas que valorizam a procura
das normas de orientação clínica e informação para a resolução concreta e
padronizada dos problemas[14].
Conclusão
No decurso da trajectória histórica aqui sumariamente assinalada, um dado que
ressalta é o que se prende com a gradual importância atribuída à quantificação
e à objectividade enquanto estratégias para a consolidação de uma concepção
empírica e racional do conhecimento médico. Todavia, embora essa concepção
corresponda à visão epistémica dominante (Malterud, 1995), acaba por ser
forçoso constatar que a incerteza é uma dimensão constitutiva da medicina.
Apesar de o desenvolvimento médico ser responsável pela resolução eficaz de
vários problemas, não deixa, contudo, de desocultar incertezas não formalmente
reconhecidas, ou até de criar novas áreas de incerteza através da sua acção.
Assim, e conforme é salientado por Fox (1998 [1959]), os dois tipos de
incerteza mais comuns com que os médicos se confrontam são os que derivam das
limitações do conhecimento médico e os que resultam da incapacidade de dominar
completamente o conhecimento disponível, nomeadamente quanto aos benefícios,
perigos e limitações de novas técnicas ou drogas. Deste modo, a circunstância
de o bem-estar dos doentes depender estreitamente das decisões clínicas dos
médicos confere, de acordo com a autora, uma maior visibilidade às
consequências humanas que decorrem da incerteza, das limitações e da
falibilidade médica.
Acresce a isto um outro nível de incerteza, que resulta do facto de as
estratégias de padronização poderem ser, paradoxalmente, geradoras de novos
problemas no contexto da socialização profissional dos médicos (Timmermans e
Angell, 2001, pp. 348-349), dado que implicam novas formas de pesquisa e
recolha de informação que exigem competências técnicas de natureza estatística.
Isto significa, portanto, que as recomendações terapêuticas e as revisões
sistemáticas da literatura nem sempre são acessíveis, suficientes ou adequadas
para lidar com a complexidade de muitas situações concretas, circunstância que
pode justificar o recurso complementar à experiência clínica e, deste modo,
conduzir à reapreciação do julgamento clínico e à valorização de preocupações
de teor humanista (Timmermans e Angell, 2001, pp. 352-356).
Neste sentido, face à constatação da impossibilidade de controlar e remover a
incerteza por via da racionalidade científica, tem sido discutida e
problematizada por alguns autores a importância de se promover uma relação
dialéctica entre a prática clínica e o conhecimento científico (Malterud,
1995). Ao fazê-lo, procura-se mostrar que o tipo de conhecimento tácito que é
característico da clínica repousa sobre dimensões interpretativas e
interaccionais que devem exigir o desenvolvimento de rigorosas investigações
qualitativas que integrem, de forma validada, os particulares nos universais
(Malterud, 2001), ou seja, que mostrem que, em absoluto, a arte não é o oposto
da ciência.
Do ponto de vista das considerações e das indagações que aqui foram articuladas
a propósito do significado e do alcance das transformações científicas da
biomedicina, é importante considerar, em suma, que a complexidade e a vastidão
do tema oferecem um terreno fértil que, em rigor, transcende as críticas do
humanismo médico (Malterud, 2006) face aos perigos da elisão do sujeito
individual[15] na actual abordagem epidemiológica. Embora a discussão tenha
pertinência, torna-se importante delimitar outros questiona-mentos que não
estejam reféns da retórica e das ideologias profissionais e que, pelo
contrário, consigam identificar e contextualizar as condições que estão
subjacentes a uma cultura de racionalização e a um discurso da prova
científica. Aí poderão radicar os fundamentos que sustentam e alimentam os
imperativos da padronização no contexto da medicina baseada na prova.