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EuPTHUHu0003-25732009000400003

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolHumanities
Great areaHuman Sciences
ISSN0003-2573
Year2009
Issue0004
Article number00003

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Fernando Pessoa e a invasão da Abissínia pela Itália fascista

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos que somos todos nós neste mundo, senão abexins? [Fernando Pessoa, Outubro de 1935].

A pouco mais de um mês da sua morte, ocorrida a 30 de Novembro de 1935, Fernando Pessoa escreveu dois textos sobre a invasão da Abissínia (Etiópia) pela Itália fascista, destinados à imprensa lisboeta, mas que não puderam ser publicados. Pode neles constatar-se o mesmo ânimo crítico com que o escritor vinha produzindo, desde Fevereiro desse ano, uma série de escritos em prosa e em verso contra Salazar e o Estado Novo. Nessa torrente de escrita política de 1935, em que se define claramente o perfil de um opositor não do salazarismo, como também do fascismo, incluem-se, entre outros: o artigo Associações secretas[1], em defesa da Maçonaria, a que se podem juntar numerosos fragmentos deixados inéditos pelo autor, relacionados com a polémica que o seu artigo desencadeou na imprensa[2]; uma dúzia de poemas satíricos contra Salazar e o Estado Novo[3]; diversos textos e poemas anticatólicos, visando a crescente influência da Igreja na política portuguesa; um longo artigo crítico sobre Salazar, em francês; uma carta ao presidente da República, Óscar Carmona, de protesto contra o governo; uma crítica contundente a um discurso de tom totalitário do ministro da Justiça Manuel Rodrigues[4]. Estes escritos, bem como os artigos sobre a invasão da Abissínia e ainda outros textos produzidos ao longo do ano de 1935 mostram o crescente empenhamento político de Pessoa, na fase final da sua vida, em defesa da liberdade e da dignidade do homem, que ele julga então ameaçadas tanto em Portugal como no mundo.

Embora nunca tivesse consagrado ao tema do fascismo, como doutrina ou regime político, uma análise mais elaborada, Pessoa deixou entre os escritos impublicados da famosa arca numerosos fragmentos e trechos alusivos a Mussolini e ao fascismo, que olhava com desdém e sarcasmo[5], embora a personalidade do Duce, pelo seu carisma (ou magnetismo, como então se dizia), lhe tivesse merecido uma referência vaga e indirectamente elogiosa, ainda que num contexto de rejeição das ideologias fascistas e nazis[6]. O nacionalismo liberal do conservador de estilo inglês Fernando Pessoa não se confundia com o nacionalismo animal ou nacionalismo mórbido do fascismo italiano assim o definiu em duas notas que deixou inéditas[7]. Desde logo, o desprezo do fascismo pelas liberdades individuais e a condição de submissão do indivíduo ao Estado totalitário nunca permitiriam a identificação de Pessoa com o regime de Mussolini, tal como não permitiriam a sua identificação com o comunismo. O escritor sustentava, aliás, que havia uma identidade fundamental entre os regimes fascista e comunista, em virtude do anti-liberalismo comum[8].  Num texto dos anos 20, Pessoa considera o fascismo e o comunismo como forças dissolventes da civilização europeia[9]. Num texto inédito de 1933-1935, Pessoa acrescenta aos dois o nazismo: Sovietes, comunismo, fascismo, nacional- socialismo tudo isso é o mesmo facto, o predomínio da espécie, isto é, dos baixos instintos, que são de todos, contra a inteligência, que é do indivíduo só.[10] Os textos que em 1935 escreveu sobre a guerra ítalo-abissínia, de que adiante se tratará, exprimem a oposição do escritor não à agressão imperialista da Itália contra a Etiópia, como também ao próprio regime fascista, em que Pessoa via a origem da política agressiva italiana. Não se pretende aqui decidir se estas inequívocas posições do escritor permitem ou não rotular Fernando Pessoa de antifascista, questão que ocupou vários autores, mas viciada à partida por uma definição peculiar de antifascismo. As conotações específicas que essa expressão possa ter não invalidam o facto da oposição essencial de Pessoa ao fascismo, ainda que de um ponto de vista conservador liberal. O antifascismo, nacional e internacionalmente, nunca foi propriedade de nenhuma corrente política.

Na primeira secção deste artigo faz-se uma resenha dos acontecimentos, salientando a importância de que se revestiu a guerra ítalo-abissínia, como antecedente da Segunda Guerra Mundial. Na secção seguinte, passa-se em revista as reacções públicas de diversos sectores portugueses à invasão da Etiópia, desde aqueles que a condenaram frontalmente até aos que a apoiaram com entusiasmo, passando pela atitude lacónica e ambígua do governo de Salazar, dividido entre a simpatia pelo regime de Mussolini e o cuidado inspirado pela integridade do império português. A terceira secção expõe a posição de Fernando Pessoa. Em apêndice, reproduzem-se os seus escritos sobre o tema, parcialmente inéditos.

A invasão da Etiópia pela Itália fascista A crise ítalo-abissínia teve o seu início em Dezembro de 1934, com o incidente de Ual-Ual, localidade fronteiriça etíope que forças italianas vindas da Somália haviam previamente ocupado. A crise culminaria, a 3 de Outubro de 1935, na invasão do Império Etíope (ou Abissínia) pela Itália fascista, objectivo muito anunciado por Mussolini. A guerra prolongou-se por sete meses até à conquista de Adis Abeba, em Maio de 1936. Ignorando os seus compromissos internacionais, Mussolini justificou a invasão invocando razões contraditórias: por um lado, o direito de a Itália defender as fronteiras das suas colónias dos alegados ataques da vizinha Abissínia (a realidade era a inversa) e, por outro, o direito abstracto de alargar o império italiano, argumentando com o excedente demográfico do seu país e as necessidades de expansão económica. A Abissínia era então, com a Libéria, um dos dois únicos países africanos livres do domínio colonial. Esquecendo o apoio que a Itália dera em 1923 à entrada da Etiópia na Sociedade das Nações (SDN, sediada em Genebra) e o tratado de amizade celebrado entre os dois países em 1928, Mussolini proclamava agora a urgência de pôr fim à escravatura e de levar a civilização àquelas paragens bárbaras, no quadro da missão italiana em África. Os bombardeamentos aéreos contra a população etíope e a utilização de armamento químico suscitaram uma onda de condenação da Itália na imprensa europeia.

O conflito ítalo-abissínio é considerado um dos acontecimentos precursores da Segunda Guerra Mundial. Antes mesmo da guerra civil espanhola (1936-1939), foi esse conflito que primeiro fez falar da iminência de uma nova guerra na Europa pós-1918. A aventura abissínia, que serviu primeiramente objectivos internos do regime fascista (Smith, 1997, p. 385), suscitou um conflito internacional protagonizado também pela Grã-Bretanha, potência tutelar da SDN. Esta liga, criada em 1920 na sequência do Tratado de Versalhes, viu-se incapaz de resolver o conflito e de impedir a guerra entre a Itália e a Etiópia, dois países membros da organização. A tentativa de arbitragem do incidente fronteiriço no quadro da SDN, as propostas franco-britânicas de conciliação, a concentração de forças navais inglesas no Mediterrâneo, a ameaça de sanções económicas da SDN contra a Itália, tudo foi ineficaz para evitar a agressão italiana ou para repor a paz.

Este insucesso representou uma viragem nas relações internacionais, deitando por terra as esperanças postas nos mecanismos de segurança colectiva criados no fim da Grande Guerra e lançando definitivamente o descrédito sobre a SDN. Os Estados Unidos nunca tinham aderido à organização e o Japão e a Alemanha hitleriana tinham-na abandonado em Fevereiro e Outubro de 1933, respectivamente. A oposição das potências democráticas europeias à aventura imperial de Mussolini contribuiu para afastar a Itália da frente que a Grã- Bretanha pretendia liderar para fazer face ao rearmamento alemão e à política revanchista de Hitler. A França, governada então pelo futuro colaboracionista Laval, estava mais disposta a fazer cedências à Itália do que a cooperar militarmente com a Grã-Bretanha. Hitler, por seu turno, perante a ausência de uma firme reacção concertada dos governos aliados à invasão da Etiópia, ganhou coragem para o episódio da remilitarização da Renânia, em 7 de Março de 1936, quando ainda decorria a guerra da Abissínia. Por seu turno, a ocupação militar da Renânia teve o condão de dissuadir a Grã-Bretanha de propor novas sanções contra a Itália, abandonando assim a Etiópia à sua sorte.

A reacção inglesa à invasão foi, pois, frouxa e inconsequente Mussolini chamou-lhe bluff e tinha boas razões para o pensar (Smith, 1997, p. 386) , como se a Grã-Bretanha se não importasse tanto com o destino dos etíopes e desejasse principalmente evitar fornecer à Itália fascista um pretexto para cortar com as potências aliadas e cair nos braços de Hitler. Divergências entre os conservadores britânicos e o receio de precipitar de imediato uma guerra europeia foram factores que desencorajaram o uso da força naval pela Grã- Bretanha. A secreta esperança de ver a Itália embrenhada numa guerra longa e difícil em África também pode ter influenciado a atitude britânica. Esta mesma ideia perpassou pela mente do então ministro dos Negócios Estrangeiros português, Armindo Monteiro (Oliveira, 2000, pp. 131-147). Mas a frouxidão, a prudência e o hipotético maquiavelismo britânicos não conseguiram evitar a aproximação da Itália à Alemanha de Hitler, que, contrariamente às potências democráticas, não se opôs à invasão da Etiópia e rejeitou as sanções económicas da SDN contra a Itália. A aproximação assim gerada entre a Itália e a Alemanha reforçar-se-ia, pouco depois, com a intervenção de ambas na guerra civil espanhola ao lado de Franco, culminando, em Outubro de 1936, na assinatura de um tratado de amizade entre os dois países. A partir de Novembro desse ano, Mussolini começaria a falar no eixo Roma-Berlim, abrindo caminho para o reconhecimento italiano do Anschluss (1938), para o Pacto de Aço (1939) e para o Tratado Tripartido (1940), que ligaram definitivamente a Itália fascista aos destinos da Alemanha nazi.

Reacções portuguesas à invasão Em Portugal, perante a anunciada e, depois, efectiva invasão da Abissínia, é possível destacar três tipos de reacções, com mais ou menos eco na imprensa.

Diga-se que a censura salazarista, quer por razões de afinidade política dos dois regimes, quer também devido a frequentes reclamações e pressões do chefe da legação italiana em Lisboa (Oliveira, 2000, 142), estava pouco disposta a deixar passar na imprensa ataques ao regime e à pessoa de Mussolini[11].

A condenação da invasão parece ter sido o sentimento mais comum da opinião pública portuguesa, tanto à esquerda como à direita, ainda que com justificações diversas ou parcialmente coincidentes. Essa condenação teve, porém, um eco algo apagado na imprensa, pelos motivos indicados. Foram seus arautos, entre outros, Julião Quintinha, no semanário O Diabo[12], e Tomás Ribeiro Colaço, no semanário Fradique[13], o que revela que o governo, apesar de tudo, tolerou alguma expressão pública do sentir anti-italiano. Uma polémica jornalística teve mesmo lugar facto então muito raro sob Salazar , iniciada por Tomás Ribeiro Colaço, no Fradique, com o artigo A guerra dos conservadores, em que visava a estupidez dos chamados conservadores portugueses que apoiavam a guerra conquistadora de Mussolini. Colaço era ele próprio um nacionalista conservador, mas com ligações a Rolão Preto, o que não parece ajudar a explicar a inusitada tolerância da censura perante uma polémica pública sobre temas políticos, expressa em termos muito vivos. Colaço comparava os conservadores portugueses apoiantes da invasão italiana da Abissínia com aqueles mesmos conservadores lusos que, durante a Grande Guerra, se haviam mostrado germanófilos e destacava um deles, Alfredo Pimenta. Para este, segundo Colaço, o único aspecto relevante do conflito da Abissínia residia no facto de Mussolini ser um ditador e um monárquico (qualidades louváveis para Pimenta) que defrontava um preto com uma coroa (o imperador etíope Hailé Selassié) e se opunha às ambições da democracia inglesa (detestáveis para Pimenta). Ora, segundo pensava Colaço, por mais extraordinário Homem (sic) que fosse o ditador italiano, diante da invasão italiana da Abissínia a alma portuguesa podia vibrar de uma forma:contra Mussolini. Os interesses portugueses em África assim o ditariam, dada a ameaça que os argumentos de força do imperialismo mussoliniano podiam representar para as colónias portuguesas. Mas a essa razão portuguesa Colaço acrescentava outras, estabelecendo mesmo um confronto entre o fascismo italiano e o conservadorismo britânico, favorável a este último. A posição da nossa alma tem de ser ao lado da Inglaterra, concluía Colaço, precisando assim o seu partido e desfazendo qualquer eventual suspeita de que se opusesse, por princípio, a todos os imperialismos ou assumisse a defesa do direito etíope à independência.

O jornal católico e monárquico A Voz, pela pena do seu director Fernando de Sousa, assumiu as dores de Pimenta e dos conservadores estúpidos ofendidos por Colaço, numa nota de primeira página em que o distinguiu com o epíteto de trolaró, sinónimo de pateta.[14] A réplica de Colaço ainda pôde ser publicada, insistindo na acusação de estupidez[15], mas a polémica não continuou, aparentemente devido à censura. O semanário Fradique (em que Fernando Pessoa chegara a colaborar) também não durou muito mais, extinguindo-se em Dezembro.

O apoio declarado a Itália, bastante mais raro na imprensa portuguesa do que a sua condenação, ficou sobretudo representado pelo próprio Alfredo Pimenta em artigo publicado um mês antes da invasão no diário A Voz jornal apoiante de Salazar e simpatizante das ambições imperiais italianas. Pimenta, publicista monárquico, apoiante de Salazar e conhecido entusiasta do fascismo italiano, proclamava , nas vésperas da guerra que se esperava: Todos os nossos votos vão para a vitória rápida e decisiva da Itália. Porque a vitória da Itália é a vitória de Mussolini [...] Se houver guerra, que a Itália vença triunfalmente, imperialmente, e que ocupe, com energia e decisão, o que precisa para a expansão e valorização do seu povo renovado pelo milagre mussoliniano.

[16] Os direitos da Etiópia não mereciam qualquer consideração a Pimenta: A Etiópia, na Sociedade das Nações, a falar em de igualdade com a Itália é de a gente rebentar a rir. Pimenta exigia também um maior rigor da censura portuguesa contra a imprensa, alegadamente maçónica, que apoiava o Negus etíope e atacava Mussolini porque, explicava ele, não podia morder em Salazar. Sobre Alfredo Pimenta, conviria aqui acrescentar que Fernando Pessoa nutria por ele uma profunda antipatia. As razões do desprezo de Pessoa por Pimenta eram várias e antigas, mas em 1934-1935 novos motivos se lhes tinham juntado: a plausível intervenção de Pimenta junto do júri do prémio de poesia do Secretariado da Propaganda Nacional para que a obra A Romariafosse preferida à Mensagem[17] e, na sequência do artigo de Pessoa em defesa da Maçonaria, um artigo de Pimenta em A Voz em que atacava o escrito de Pessoa e fazia insinuações malévolas a seu respeito.[18] Pimenta é alvo de vários ataques violentos em escritos de Pessoa de 1935 deixados inéditos (Barreto, 2009, pp. 253-255 e 277-279).

Em atenção, provavelmente, à atitude apaziguadora, se bem que ambígua, com que o papa Pio XI prevenira, em 26 de Agosto de 1935, contra uma guerra injusta, o católico director de A Voz, Fernando de Sousa, coibiu-se de adoptar uma posição editorial de apoio declarado à invasão, preferindo manifestar o seu apoio de modo menos explícito. Numa série de artigos de tom racista, intitulados Quadros vivos da Abissínia, Fernando de Sousa descreveu o país africano membro da Sociedade das Nações como barbárie mascarada de civilização e acervo de povos bárbaros dominados e explorados por verdadeiros sobas, sob a suserania nominal de um tiranete guindado à categoria de imperador.[19] Enquanto cem mil soldados italianos se iam concentrando nas fronteiras da Etiópia com a Eritreia e a Somália, o director de A Voz tentava provar a incapacidade do país africano para se governar segundo os padrões do mundo civilizado. Na sua opinião, teria sido um erro e até um acto juridicamente nulo a admissão do Império Etíope na SDN[20]. Esta organização, por sua vez, estaria dominada pela Maçonaria Universal, que, através dela, planearia reinar sobre o mundo.[21] Também no plano religioso procurou Fernando de Sousa encontrar motivos, depois de iniciada a invasão, para diminuir a Abissínia, contestando a sua qualidade de país cristão e rotulando de heréticos os cristãos coptas etíopes.[22] O cristianismo etíope seria, além de herético, grosseiro e supersticioso, ainda assim professado apenas por uma minoria da população, diante de uma maioria de maometanos, pagãos, feiticistas e judeus.[23] Numerosas caricaturas tiradas da imprensa fascista italiana foram reproduzidas na primeira página de A Voz, tentando mostrar uma Abissínia miserável, caótica, esclavagista e belicista. Em todo o caso, Fernando de Sousa também cedeu a tribuna do jornal a Alfredo Pimenta, que a aproveitou, como vimos, para dar largas ao seu entusiástico apoio a Mussolini e à invasão da Etiópia.

Distinta tanto da condenação inequívoca como do apoio declarado à invasão, a posição do governo português foi lacónica, ambígua e constrangida. Nem Salazar nem os membros do seu governo se pronunciaram publicamente a favor ou contra a invasão, tentando criar, apesar do alinhamento português pela posição inglesa em Genebra, uma aparência de alheamento e neutralidade. Evitando fazer quaisquer declarações públicas sobre a crise ítalo-abissínia e, em particular, sobre a guerra, o governo remetia a posição de Portugal para a sua qualidade de membro do Conselho da SDN. A orientação geral em matéria de política externa e colonial fora oportunamente definida por Salazar numa nota oficiosa publicada na imprensa a 20 de Setembro, quando se esperava a todo o momento o início da invasão. As bases dessa orientação eram o não envolvimento de Portugal nas contendas e desordens europeias (embora se estivesse perante a iminente agressão de um país europeu a um país africano), a continuada adesão de Portugal ao espírito da Sociedade das Nações (desde que esta não interferisse nos assuntos coloniais portugueses), a reiterada confiança na aliança inglesa e, por fim, a expressão de boa nas declarações com que Mussolini recentemente desmentira qualquer pretensão italiana em relação às colónias portuguesas.[24]Desta orientação genérica, porém, nada se podia inferir inequivocamente acerca do sentimento do governo português sobre a invasão da Abissínia. Assim, a condenação da invasão por Portugal, se de condenação se pode falar, ficou meramente implícita na actuação do representante português em Genebra, apresentada pelo ministro Armindo Monteiro como decorrendo das obrigações jurídicas de Portugal no quadro da SDN e, assim, diluída na acção colectiva dos países membros da organização. Com essa actuação, o governo português procurava sobretudo garantir, apoiado na aliança inglesa e no mecanismo colectivo da SDN (liderada, de facto, pela Grã-Bretanha), a integridade e a segurança das colónias portuguesas contra futuras tentativas de conquista. Era esta uma ameaça hipotética, mas não totalmente fantasista, dados os insistentes rumores que circulavam, em 1935, sobre a exigência italiana e alemã de revisão do mapa de África, rumores de que a imprensa portuguesa se fazia eco.

Em Genebra, após o início da invasão, o ministro Armindo Monteiro vira ser-lhe confiada, por influência britânica, a presidência de um subcomité, o chamado comité dos Seis, encarregado de examinar a agressão italiana à luz da Carta da SDN e de elaborar o respectivo relatório. Mais tarde, também o delegado português na SDN, Augusto de Vasconcelos, assumiria a presidência do comité incumbido de formalizar as sanções económicas contra a Itália (Oliveira, 2000, p. 140). Estas circunstâncias, algo imprevistas, eram lisonjeiras para a imagem da diplomacia e do governo portugueses, mas criavam uma espécie de protagonismo formal de Portugal na condenação da Itália fascista que o governo de Salazar estaria longe de desejar. Em Lisboa, para atenuar essa impressão, o órgão oficioso do regime, o Diário da Manhã, insistia em que a posição de Portugal não era a dos antifascistas contra o fascismo, mas sim a da SDN, contra os países membros que faltassem ao cumprimento das suas obrigações.[25] Simultaneamente, Armindo Monteiro, numa das suas raras declarações à imprensa sobre a invasão, tentava assegurar que a posição jurídica de Portugal, decorrente dos seus compromissos internacionais, não afectava a simpatia do seu governo para com a Itália de Mussolini. O ministro confessava a pena infinita e a mágoa que lhe causava o cumprimento das obrigações decorrentes da Carta da SDN, especialmente no capítulo das sanções económicas contra a Itália.[26] Era uma posição que, segundo Monteiro explicou num despacho de Novembro de 1935 para o embaixador português em Roma, acarretava sacrifícios, de ordem até sentimental[27], atendendo às afinidades existentes entre os dois regimes autoritários. Com efeito, a condenação da Itália num fórum internacional comportava um risco de contágio político para o governo de Salazar, que Armindo Monteiro exprimiu com alguma clareza no mesmo despacho: O amesquinhamento do regime mussoliniano pode atingir os mais governos de tipo autoritário e conservador da Europa.[28] Na conjuntura de 1936, após a remilitarização da Renânia por Hitler, o ministro português passaria a advogar junto do ministro dos Estrangeiros da Grã-Bretanha, Anthony Eden, a desistência pura e simples das sanções contra a Itália (Oliveira, 2000, pp. 145-146).

A tomada de posição de Fernando Pessoa É neste cenário que Fernando Pessoa desde Fevereiro de 1935 em ruptura pública com o Estado Novo decide escrever, em Outubro, a pouco mais de um mês da sua morte, dois artigos destinados à imprensa lisboeta, tomando claramente posição contra a invasão da Abissínia. Esses escritos, que não chegaram a ser publicados, foram conservados no seu espólio e são aqui reproduzidos em apêndice.

Um deles, intitulado Profecia italiana, um curto artigo de duas páginas dactilografadas, deixou-o o autor em versão final, assinado e pronto a publicar [29] (v. apêndice_1). A razão da sua não publicação pelo Diário de Lisboasó pode ter sido a intervenção da censura[30], da qual Pessoa se queixou nesse ano repetidamente. Desde que, em 4 de Fevereiro desse ano, publicara no Diário de Lisboa o artigo Associações secretas, tomando posição contra o projecto de lei que visava extinguir a Maçonaria, Fernando Pessoa tornara-se persona non grata para o regime, que até havia pouco o cortejara e que, em Dezembro de 1934, lhe concedera mesmo um prémio literário pela Mensagem. Por instrução transmitida aos serviços de censura, segundo o próprio Pessoa apurou em 1935, quaisquer referências favoráveis ao seu nome, mesmo puramente literárias, deveriam ser omitidas na imprensa, como consequência da sua intervenção a favor da Maçonaria.[31] Tinham também aumentado desde o início da invasão da Abissínia, como foi referido, as pressões diplomáticas italianas sobre as autoridades portuguesas contra alusões desfavoráveis à Itália ou ao regime de Mussolini.

O outro artigo de Pessoa, mais extenso, mas que visivelmente não foi concluído, é composto por um texto dactilografado de três páginas, sem título, inacabado (apêndice_2), ao qual se anexam aqui seis fragmentos manuscritos de apontamentos ou rascunho, material genético para o artigo (apêndice_3). O título projectado deste artigo era, segundo se pode deduzir, O caso é muito simples. Com efeito, num projecto editorial desta mesma altura, certamente dos últimos que Pessoa elaborou, figura um artigo com esse título, destinado ao jornal R[epública] ou ao D[iário] de L[isboa][32]. Ora a frase do título projectado aparece no primeiro parágrafo do original dactilografado, circunstância que, juntamente com a coincidência temporal, estabelece a correspondência entre os dois.

Em Profecia italiana, Fernando Pessoa quase se limita a citar e comentar umas considerações muito críticas sobre o nacionalismo, o militarismo e o imperialismo italianos, respigadas de um número antigo do jornal socialista Avanti, de Turim, datado de Janeiro de 1913, ou seja, vinte e dois anos antes.

Num artigo desse jornal, cuja autoria no final é revelada por Pessoa, troçava-se da conquista da Líbia pela Itália, em 1911-1912, reles guerra de conquista que o governo italiano celebrava então como se fosse um triunfo romano. Depois de desvendar a autoria de Benito Mussolini (que, em 1913, era o director do Avanti), Pessoa observa ironicamente que tais considerações se haviam revelado proféticas, em vista do que em Outubro de 1935 estava a acontecer com a Itália uma alusão à guerra de conquista da Abissínia, ordenada pelo mesmo Mussolini. E a rematar, este desabafo de Pessoa sobre o ditador italiano: Não ter ele fixado residência em profeta! A fonte que Pessoa utilizou na feitura de Profecia italiana encontra-se no seu espólio. As considerações de Mussolini no Avantide 1913 tinham sido recentemente citadas em jornais ingleses, nomeadamente no Daily Express, de 19 de Outubro de 1935. Um recorte deste jornal tinha chegado às mãos de Pessoa, proveniente de um luso-britânico, Amsinck Allen[33], que o enviara para a redacção do Diário de Lisboa juntamente com uma carta datada de Lisboa de 23 de Outubro. A carta, juntamente com o recorte, encontra-se no espólio de Pessoa, [34] o que permite conjecturar que o artigo Profecia italiana foi escrito a convite do jornal nos dias que se seguiram à recepção da carta de Amsinck Allen, na última semana de Outubro.

Com o artigo O caso é muito simples (de que é apenas possível dizer que foi escrito depois de 7 de Outubro[35], podendo, pois, ser anterior à Profecia Italiana), Pessoa pretendia tomar resolutamente posição contra a invasão da Abissínia, denunciando-a como uma agressão injustificável à luz da moral e do direito. O artigo propunha-se abordar três pontos principais: a agressão da Itália, a reacção da Sociedade das Nações e, em particular, da Inglaterra e, por fim, a atitude que Portugal deveria tomar. Apenas o primeiro ponto ficou aparentemente concluído.

Começa Pessoa por se interrogar a que luz haveria de se considerar os problemas postos pela invasão da Etiópia. Até que ponto se deveria ter em conta os factores demográficos e os interesses expansionistas da Itália? Seria aceitável, nos tempos modernos, a conquista de uma nação por outra? Poderiam os critérios políticos nacionais ou internacionais ter primazia sobre os critérios da moral e do direito? Pessoa sustenta que não:

Os progressos da nossa civilização, por estorvados que tenham sido e constantemente o estejam sendo, levaram-nos todavia a não aceitar por bons, na ordem nacional ou na internacional, critérios que antigamente seriam, quando não aceitáveis, pelo menos admissíveis. Se na ordem prática muitas vezes se faz o que se não admitiria em teoria, continua a estar de a teoria, ainda que violada ou postergada [...] Resulta que não temos que considerar os interesses de Itália, ou de qualquer outra nação, senão à luz de saber se eles estão ou não de acordo com a moral e com o direito, e isso vem a dar em se estão de acordo com os superiores interesses da humanidade.

Ninguém, segundo Pessoa, poderia ter dúvidas de que se tratava de uma agressão de um país forte a um país fraco e, como tal, de um acto condenável por todos os sistemas morais humanamente aceitáveis. A própria Sociedade das Nações confirmara o que desde o princípio todos vimos, isto é, que a Itália fora a agressora. Poderia a Itália invocar algum argumento para justificar tal acto? pergunta Pessoa. Os motivos avançados pela Itália são de seguida por ele analisados. O argumento de que a Itália, porque sobre-populada, teria direito a expandir-se é refutado por Pessoa com a afirmação de que os outros países, selvagens ou não, não têm culpa da sobrepopulação da Itália. E acrescenta:

[...] que notar que a sobrepopulação é um indício de baixo nível civilizacional, pois que os povos altamente civilizados tendem para a baixa da natalidade [...] O que um país sobrepopulado tem que fazer, na ordem moral, isto é, para resolver adentro da moral esse problema, é tratar de baixar a sua natalidade. A Itália está mais precisada de que lhe preguem doutrinas neo-malthusianas do que lhe preguem fascismo.

Outra justificação italiana para a agressão era, diz Pessoa, o alegado direito de, como país civilizado, a Itália tomar conta de um país como a Etiópia, que é selvagem ou semi-selvagem. Pondo em causa o próprio conceito de civilização e a legitimidade de qualquer nação dever civilizar outra, Pessoa aborda, por fim, a questão da escravatura alegadamente praticada na Etiópia para confrontar essa acusação italiana com a situação da liberdade e dignidade humanas na própria Itália fascista:

[...] a escravatura é imoral, para nós hoje, porque considera o homem como uma coisa, porque considera a alma humana como subordinável a uma potência material o dinheiro com que compre esse corpo , ou seja, em ultima análise, porque despreza a dignidade e a liberdade humanas. Ora a Itália fascista considera o homem como uma coisa, pois o considera subordinado ao Estado, a Itália fascista despreza todas as liberdades individuais.

Neste ponto se interrompe o artigo, que ficou inacabado. Nas notas e fragmentos de rascunho que Pessoa escreveu para este artigo (apêndice_3) mais algumas observações que se podem reter aqui. Num trecho, discutindo aparentemente a posição defendida pela imprensa governamental portuguesa, segundo a qual, com o seu voto em Genebra, Portugal não condenara o fascismo, mas sim a infracção italiana à Carta da SDN, Pessoa declara:

Se com isto se pretende dizer que não relação entre o imperialismo agressivo dos italianos e o fascismo, a resposta é que isso é falso, e, o que é mais, que é estupidamente falso.[36]

A ligação entre o imperialismo e o fascismo italianos é abordada noutro trecho onde afirma: É a fatalidade de todos os povos imperialistas que, ao fazer os outros escravos, a si mesmo se fazem escravos.[37] Num outro fragmento, rebatendo o argumento de que também a Inglaterra oprimira a Irlanda no passado, Pessoa afirma:

O problema ítalo-abexim é o que está diante de nós: é esse que temos que examinar [...] Nem o ter a Inglaterra procedido mal com a Irlanda no passado serve de justificação à Itália para que proceda mal no presente [...] Quando se uma série de crimes, torna-se, a certa altura, necessário pôr-lhes cobro[38].

Noutro fragmento, reforçando esta mesma ideia, Pessoa escreve que a hora da opressão, moralmente, passou[39].

Pessoa não chegou a abordar, como projectara, a questão da posição que Portugal deveria adoptar em face da guerra ítalo-abissínia. Nos apontamentos respeitantes a este artigo que foi possível localizar no espólio também não nenhuma observação sobre os interesses portugueses em África ou, em particular, sobre a ameaça que para Portugal poderiam significar a política imperialista da Itália e os crescentes rumores sobre reivindicações coloniais da Alemanha hitleriana. Ora, foi precisamente esse o tema principal do debate que se verificou na imprensa portuguesa em relação com a invasão da Etiópia, como no caso da polémica de Tomás Ribeiro Colaço com Alfredo Pimenta e Fernando de Sousa. A própria posição do governo português  pode primeiramente explicar-se pela preocupação com a integridade das colónias portuguesas, uma vez que não faz sentido ver na actuação do governo de Salazar uma atitude de puro seguidismo em relação à Grã-Bretanha ou, ainda menos, à SDN. Fosse qual fosse a razão de não ter escrito sobre esse aspecto português da questão, é de sublinhar que Pessoa defendia, como se pode ler na primeira parte do seu artigo, que a questão ítalo-abissínia, no seu conjunto, tinha de ser considerada à luz da moral e do direito, num plano extranacional, e não segundo os critérios nacionais deste ou daquele país. Dando, assim, prioridade ao tratamento do tema à luz de princípios gerais e universais, é natural que Pessoa concedesse menor relevo aos aspectos relacionados com os interesses portugueses.

Conclusão As posições de Fernando Pessoa sobre a invasão da Etiópia pela Itália fascista, que a censura impediu de tornar públicas, confirmam o crescente empenhamento político do escritor, na fase final da sua vida, numa luta individual contra as ameaças à liberdade que, por meados dos anos 30, se faziam sentir cada vez mais em Portugal, como parte e reflexo de uma vaga que percorria toda a Europa.

Analisando com a sua habitual independência um conflito internacional de magna importância em que Portugal assumiu um protagonismo inesperado, no quadro da Sociedade das Nações , os escritos de Pessoa aqui em exame revelam aspectos pouco conhecidos, ou até agora deixados na penumbra, do seu pensamento político. Sobre este, desde a década de 50 que se vem esboçando um debate, tornado mais vivo e documentado a partir de 1974, com a gradual revelação de centenas de páginas de escritos inéditos[40]. O intelectual e artista em cujo ideário vários autores se empenharam, nas últimas décadas, em destacar afinidades com as correntes autoritárias (apontando na sua obra o elitismo antiplebeu e anti-democrático, a recuperação modernista de temas tradicionais do nacionalismo e o incensamento de soluções políticas messiânicas e ditatoriais[41]), aparece nos textos apresentados a defender posições e princípios de sentido claramente oposto às ideologias dos regimes autoritários então triunfantes: a defesa da liberdade e do indivíduo perante o Estado; o primado do direito e da moral sobre os interesses nacionais nas relações internacionais; a condenação da força como fundamento do direito[42]; a condenação do expansionismo territorial e das suas clássicas justificações; o questionamento do direito de civilizar povos bárbaros e do próprio conceito vigente de civilização; a ideia de uma conexão essencial entre fascismo, imperialismo agressivo e opressão política nos próprios países imperialistas; a defesa dos mecanismos de prevenção e solução dos conflitos internacionais no quadro da SDN.

Não se pode também deixar de relacionar a posição condenatória de Pessoa sobre a aventura africana da Itália fascista com a posição expressa pelo escritor sobre o império colonial português em 1926, nas suas respostas a um inquérito de Augusto da Costa[43], republicadas em 1934 no livro deste último, Portugal Vasto Império (Costa, 1934,29-36). Respondendo à pergunta se Portugal, amputado das suas colónias, perderia ou não toda a razão de ser como povo independente no concerto europeu, Pessoa começava por declarar: Para o destino que presumo que será o de Portugal, as colónias não são precisas. Num rascunho ou primeira versão das respostas, um manuscrito inédito existente no espólio do escritor, datável, pois, com segurança, de 1926, Pessoa é ainda mais categórico: A manutenção ou perda das nossas colónias em nada pode afectar o nosso destino de grande potência espiritual, se tivermos que tê-lo, ou que poder tê-lo. O inverso daquelas palavras do Evangelho é verdadeiro tambem: podemos bem perder o mundo, desde que ganhemos a alma[44].

Os escritos de Pessoa sobre a questão da Etiópia esclarecem e completam, pela sua perspectiva e fundamentos mais vastos, as posições tomadas por Pessoa ao longo de 1935, quer em escritos públicos, quer em escritos deixados inéditos, sobre a situação política portuguesa. Completam e, de certo modo, esclarecem também a posição expressa por Pessoa, em 1926, sobre o próprio império colonial português. 


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