Correspondência para os seus filhos 1852/1865
Isabel, condessa de Rio Maior, Correspondência para os seus filhos 1852/1865,
Estudo biográfico, organização e notas de Maria Filomena Mónica, 2.ª ed.,
Lisboa, Quetzal Editores, 2004, 350 páginas.
Branca de Gonta Colaço, Memórias da Marquesa de Rio Maior, prefácio de Maria
Filomena Mónica, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 2005, 296 páginas.
Um registo de correspondência familiar entre uma mãe e os filhos e um livro de
memórias… Duas obras, duas autoras com muitos pontos em comum, para além de uma
estreita relação familiar entre si: Isabel Maria de Sousa Botelho de
Vasconcelos (1812-1890), condessa de Rio Maior, autora do acervo epistolar
colocado à disposição do público por decisão dos seus descendentes, era sogra
de Maria Isabel Lemos e Roxas Carvalho Menezes de Saint-Léger (1841-1920),
marquesa de Rio Maior, cujas memórias, recolhidas por Branca de Gonta Colaço
entre 1913 e 1918 e dadas à estampa pela primeira vez em 1930, são agora
reeditadas, numa feliz iniciativa da Parceria A. M. Pereira.
Ambas as autoras pertencem à nobreza portuguesa, por nascimento e casamento,
mais precisamente à aristocracia de corte, tendo sido Maria Isabel de Saint-
Léger dama da rainha D. Maria Pia. Encontravam-se, por isso, numa situação
excepcional como observadoras da vida no paço, reconstituindo-nos, por vezes
com a minúcia de uma reportagem e o pormenor de uma representação pictórica,
momentos cruciais da vida palaciana: festas e saraus, a recepção a D.
Estefânia, os preparativos do casamento de D. Pedro V, as exéquias da rainha,
no primeiro caso, ou a inauguração do caminho de ferro do Norte e do Leste, as
festas do casamento do príncipe D. Carlos com a princesa Amélia de Orleães, ou
o regicídio, no segundo caso, entre tantos outros acontecimentos.
Relações familiares e mundanas definem o seu universo quotidiano, as quais são
elementos-chave na formação da identidade privada e pública aristocrática. Os
espaços frequentados são conhecidos: Lisboa, Pedrouços, Vale do Tejo… a que se
juntam algumas deslocações ao estrangeiro sobretudo por razões de doença. Mas,
mesmo fora do país, o círculo da convivência continua estruturado sobre redes
pessoais que se cultivam como se de um bem patrimonial se tratasse, no seio do
qual as amizades se transmitem de pai para filho. O aparato crítico, elaborado
por Maria Filomena Mónica e constituído em grande parte por pequenas notas de
carácter genealógico e biográfico, é bastante elucidativo, ao contextualizar os
episódios descritos e ao esclarecer "quem é quem" no seio do
círculo fechado e endogâmico da nobreza portuguesa. Neste campo específico,
estes dois livros, que, de algum modo, se completam, constituem um testemunho
histórico precioso sobre a vida quotidiana da nobreza ao longo da segunda
metade do século XIX, no momento em que a sociedade aristocrática estava em
vias de desaparecimento face à emergência de novos valores, laicos e
republicanos. Nem vítimas, nem heroínas, Isabel Maria e Maria Isabel não foram
imunes às transformações do seu tempo, que relatam, analisam, comentam, sem
nunca perderem de vista o enquadramento e o comentário judicioso que ilumina e
esclarece comportamentos e acções.
Todavia, um dos grandes méritos destas obras, redigidas com grande domínio da
arte da escrita e de narrar, reside no olhar que as suas autoras projectam
sobre a sociedade do seu tempo e o mundo em que vivem. Neste aspecto, as
diferenças de personalidade e as singularidades individuais sobrepõem-se à
identidade do meio.
Sensível, inteligente e crítica, Isabel Maria, condessa de Rio Maior, deixou-
nos nas cartas redigidas para os seus filhos, António e José, quando estes se
encontravam em Coimbra, a estudar na universidade, observações incisivas mas
desencantadas sobre a política nacional, sobre as causas do seu tempo (a
"questão dos vínculos", a entrada em Portugal das Irmãs de
Caridade…) ou tão-só sobre alguns vultos do rotativismo parlamentar, que
disseca sem dó nem piedade, por entre as mil e uma descrições dos trabalhos e
das alegrias de uma dona de casa infatigável (a gestão do património, as
preocupações financeiras, as soirées e as festas, os achaques e os lutos…) ou
das suas responsabilidades directivas em instituições de beneficência.
Conhecedora daquilo de que fala, Isabel Maria define-se como antimiguelista e
anticabralista, manifestando simpatia pela Regeneração e pelo progresso
alcançado no país. Move-a a lógica burguesa que apostava na educação dos filhos
varões, a qual é assumida como a valorização de um capital sócio-cultural.
"Bem sabes que o estudo é a minha mania, a minha ideia fixa",
escrevia em 12 de Novembro de 1856. Procura incutir nos filhos a vontade de se
distinguirem pelo conhecimento, pelo talento e, acima de tudo, por
"glórias próprias suas", ao arrepio da educação tradicional da
fidalguia portuguesa. Bem à maneira do século XVIII, a condessa de Rio Maior
"utiliza" a correspondência trocada com os filhos, a qual é
redigida num estilo coloquial sob a forma de uma conversa por escrito, como um
instrumento propedêutico, de educação à distância, transmitindo por essa via
subtis mensagens pedagógicas e conselhos moralizadores. As suas cartas deixam
ainda transparecer a natureza do afecto que a une aos filhos, presente nas
expressões de ternura reiteradamente repetidas ("meu querido filho do meu
coração"), no envio de pequenos mimos ("filhoses"…) ou na
angústia com que vive os seus "defluxos" ou a intervenção no
episódio académico da "Tomarada".
Dotada de uma forte personalidade e de uma cultura fora do comum, Isabel Maria,
condessa de Rio Maior, afasta-se do padrão feminino oitocentista: para si a
política não guarda segredos nem a intimida. Constitui uma figura de
indiscutível modernidade, tão longe e tão perto de nós.
Ainda na linha do registo feminino e autobiográfico, as Memórias da Marquesa de
Rio Maior obedecem a outros pressupostos. Estas constituem um verdadeiro
compêndio de uma mulher madura, consciente das qualidades do seu espírito de
observação e de excelente comunicadora que sabe imprimir vivacidade e brilho
aos acontecimentos narrados. Convergem nesta obra o interesse pela vida
privada, durante muito tempo relegado para o campo da petite histoire, o
fascínio pelo aristocrático século XIX e a descoberta de personagens públicas.
As suas recordações são uma mina de informações, embora filtradas pelo prisma
do eu que impõe escolhas, modifica tonalidades ou as submete a distorções.
Casamentos e festas reais, cerimónias do beija-mão, visitas de príncipes e
figuras da realeza, estadas no estrangeiro e a vida nas termas, entre tantos e
tantos acontecimentos, são descritos com indefectível encanto.
Nem sempre, porém, história e memória coincidem nesta obra, na qual se capta a
vontade manifesta de exaltação da monarquia e dos seus valores. Tudo o mais é
deixado na sombra e as omissões e os silêncios pesam como chumbo… As suas
recordações suspendem-se com a implantação da República para serem retomadas
mais tarde, em França, entre exilados. A adesão ao regime monárquico é o
"seu" fio condutor da história, a matriz da sua identidade
memorialista.
Trata-se, pois, de dois importantes testemunhos humanos, dois olhares femininos
sobre realidades próximas e que tanto interessam ao historiador como ao
sociólogo e ao investigador de história das mulheres. Enriquecem as obras os
prefácios redigidos por Maria Filomena Mónica.
Duas obras a ler e a reler, aguardando-se com expectativa a versão on line da
restante correspondência da condessa de Rio Maior. Que outras surpresas nos
aguardarão?
IRENE VAQUINHAS