A Gazeta de Lisboa e a Vulgarização do Impresso (1715-1760)
André Belo, A Gazeta de Lisboa e a Vulgarização do Impresso (1715-1760),
Lisboa, ICS, col. "Estudos e Investigações", n.º 21, 2001, 139
páginas.
A história da informação e do seu processamento em Portugal no século XVIII é o
cenário de investigação e de reflexão metodológica que esteve na base deste
estudo. Numa primeira fase começou por ser uma dissertação de mestrado
apresentada por André Belo ao Instituto de Ciências Sociais e em 2001 ganhou
uma nova dinâmica de circulação académica, ao ser publicada pela Imprensa de
Ciências Sociais. As grandes questões levantadas pelo autor centram-se no
seguinte: que livros se liam em Portugal no século XVIII? Quem os lia?
O livro desdobra-se em três partes. Num primeiro momento, o autor revisita a
historiografia internacional centrada no objecto livro. A emergência do Estado
moderno é indissociável da invenção do prelo tipográfico e do seu progressivo
uso, substituindo a forma e o ritmo da escrita da mão humana por uma nova
legitimidade: a palavra impressa. É, pois, em torno do "fascínio pelo
livro impresso" que somos conduzidos a um breve périplo de leituras
sistematizadas sobre o papel cultural e sociológico do livro e da leitura na
sociedade europeia.
O livro, enquanto protagonista de práticas culturais do quotidiano dos agentes
dos Estados da Europa, é inserido por André Belo numa teia de referências
bibliográficas hierarquizadas, de acordo com as suas leituras, decorrentes da
sua ideia de Europa. Expliquemo-nos. Se num primeiro momento temos a
historiografia francesa como o grande suporte de referências, gradualmente
somos conduzidos aos novos temas de investigação proporcionados pela fulgurante
aparição do livro impresso e pelo seu uso em diferentes universos sociológicos
da Europa do Norte e da Europa do Sul. "Face a um Norte e Centro europeus
de maior produção e vocação exportadora, a Europa do Sul, sobretudo a região
ibérica, parece "demasiado fraca para satisfazer necessidades religiosas
e universitárias" entre a segunda metade do século XVII e a primeira do
XVIII" (p. 31).
Expostas, em síntese, as ligações entre o livro impresso e os (novos) caminhos
metodológicos do estudo do livro e da leitura, o autor transporta- nos, na
segunda parte, para outro domínio de textos impressos: o das publicações
periódicas, o mundo das gazetas, no qual vamos percorrendo os itinerários
internos e externos da Gazeta de Lisboa (1750-1760). É interessante seguir,
paulatinamente, as condições de produção deste tipo de objecto impresso, como
suporte de divulgação de notícias variadas, através dos mecanismos de
comunicação estabelecidos entre editores e tipografias, autores/colaboradores e
a corte. Numa outra fase da organização do periódico inseria-se o manuseamento
e a filtragem da informação a publicitar para se fazer chegar ao público
destinatário: os leitores da Gazeta de Lisboa.
Num contexto de gradual abertura e diversificação dos círculos de opinião
pública, a Gazeta de Lisboa, tal como todas as gazetas da Europa setecentista,
marcou a charneira entre a circulação do livro impresso e a circulação da
imprensa periódica favorecida pelo ambiente de cosmopolitismo das Luzes e da
Revolução Francesa de 1789. Para Portugal, segundo o autor, esta alteração só
foi possível "depois da morte de D. José e do afastamento de
Pombal" (p. 64).
Chegados à terceira parte do livro, somos confrontados com os cruzamentos
temáticos entre anúncios, informação de livros e tipologias de potenciais
leitores existentes na sociedade portuguesa. Os dados recolhidos, a partir das
diferentes formas de anunciar os livros editados e publicitados nas páginas da
Gazeta de Lisboa, a par das caracterizações relativas ao formato das edições
(livro e/ou folheto) presentes nas advertências de anúncios, permitiram a André
Belo arquitectar uma proposta de universos de leitura para Portugal. Com
informação explicitada em gráficos, temos grandes grupos de arrumação de temas
de livros e de folhetos publicados e anunciados como matéria de informação nas
páginas da Gazeta de Lisboa— religião, direito, história, filosofia e artes,
letras humanas. Cada um destes grupos contém vários subgrupos temáticos, nos
quais encontramos os temas específicos dos anúncios informativos. "Com
estes resultados encontramos desenhada a ossatura geral dos temas das obras
tornadas públicas pela Gazeta de Lisboa. Essas obras ganham assim um
determinado objectivo: o da oferta global de textos impressos que foi feita ao
longo de quarenta e cinco anos" (p. 86).
Estes dados, quando comparados com o suporte informativo tradicionalmente
utilizado para conhecer as publicações de época, os catálogos de editores
tipográficos, como o da família Reycend, são muito mais amplos, demonstrando
alguma discrepância. "As claras diferenças entre a literatura de catálogo
e a que é anunciada neste periódico permite-nos definir os catálogos de
livreiros desta época como dispondo de uma oferta maioritariamente
especializada " (p. 87) e divulgando informação, sobre os pontos de
venda, muito mais diversificada do que a dos catálogos de impressores. Estamos,
pois, perante uma nova geografia de pontos de venda de leitura e de diversidade
de livros anunciados nas páginas informativas de um objecto impresso, cuja
principal função era estabelecer teias de comunicação entre os seus mentores/
fazedores e os seus leitores/compradores.
O que torna este estudo particularmente importante é o olhar minucioso,
analítico, criativo e construtivo que André Belo lança sobre a Gazeta de Lisboa
enquanto fonte histórica. Não temos a reconstrução informativa de
acontecimentos; não foi o factual legislativo ou informativo que funcionou como
motor de arranque para o estudo que acabámos de analisar. A esfera pública,
como consumidora de publicidade, como elemento activo de leitura de anúncios
inseridos na estrutura matricial da organização das gazetas, foi alimentada por
uma diversidade de potenciais leituras de livros, nacionais e internacionais,
tematicamente diversificados, com indicação do local de venda e da origem
tipográfica ou livreira. Quer dizer, alguns espaços informativos das páginas da
Gazeta de Lisboa, enquanto objecto impresso com regularidade periódica,
tornaram- se espaços vitais de análise e de recolha de dados para o estudo do
livro e da leitura em Portugal.
Não deixa de ser interessante seguir as palavras finais de André Belo a este
propósito. "Para o período considerado neste livro, a Gazeta de Lisboa
pode constituir uma fonte desconcertante. Trata-se de uma série de informação
regular, abundante em texto, formando um total de mais de quarenta compactos
volumes, incluindo uma dezena de milhares de páginas […] De certo ponto de
vista, a fonte é bem mais generosa se considerarmos os pequenos anúncios que
aparecem regularmente no fim do periódico, de forma bem demarcada, quer em
termos gráficos, quer em termos de função, da parte noticiosa" (p. 105).
Foi graças à "generosidade" da fonte que o "estado da
arte" sobre a circulação do objecto impresso em Portugal ficou
enriquecido, quer para o campo de estudo das publicações periódicas, quer para
o domínio da circulação do livro e dos folhetos impressos. A pairar sobre estes
dois temas temos ainda a dimensão sociológica da leitura: os leitores e os
locais de apetrechamento de leituras na cidade de Lisboa entre 1715 e 1760.
Fátima Nunes