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EuPTCVHe2182-51732015000300008

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN2182-5173
Year2015
Issue0003
Article number00008

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Um jovem com hipocalcémia: um relato breve

Introdução Descreve-se um caso clínico raro em que coexistem duas patologias endócrinas.

Além da raridade do caso, é interessante notar que, ao contrário do que habitualmente acontece, não existia apenas uma entidade clínica responsável pelo quadro clínico mas duas entidades nosológicas: hipoparatiroidismo primário e hipotiroidismo primário. Além disso, a marcha diagnóstica complexa foi essencial para o desfecho do caso, bem como o papel do médico de família como gestor do doente, promovendo a adaptação à doença.

Pretendemos com este artigo melhorar o conhecimento acerca destas entidades nosológicas, elucidando o seu processo de diagnóstico, mostrando que mesmo em casos raros a medicina geral e familiar tem um papel essencial.

Descrição do caso clínico Doente de 32 anos, sexo masculino, com antecedentes pessoais de psoríase vulgar sob calcipotriol e corticoides tópicos, sem outras doenças crónicas ou hábitos toxifílicos. Sem história familiar de endocrinopatias ou nefropatias.

Em 2011 recorreu ao médico assistente por queixas de dificuldade em manter ereção sustentada e lombalgia à direita de ritmo mecânico. As queixas foram interpretadas no contexto de estenose do canal raquidiano lombar com neuropatia mista. Foram pedidas avaliação analítica sumária, que não mostrava alterações revelantes, e TAC da coluna lombar que revelava hérnia L4/L5, sem compromisso radicular, discartrose L3/L4 e osteólise L5. O utente foi encaminhado para a consulta de urologia para esclarecimento da disfunção sexual.

Seis meses depois, o doente recorreu à consulta aberta da sua Unidade de Saúde Familiar com queixas de parestesias generalizadas, mais frequentes nos grandes peitorais e braços, de predomínio diurno e com cerca de duas semanas de evolução. Iniciou-se suplementação oral com magnésio e realizou nova avaliação analítica com ionograma que mostrava hipocalcémia (Ca2+ total 6,9mg/dL; Ca2+ ionizado 0,78mg/dL) com albumina normal e deu-se indicação para agendar consulta com o seu médico de família. Contudo, dez dias depois, por agravamento do quadro, o doente recorreu ao serviço de urgência do hospital de referência.

À entrada no serviço de urgência apresentava quadro de dejeções líquidas, sem sangue, muco ou pus e vómitos aquosos, acompanhados de agravamento das parestesias e espasmos, agora sobretudo de localização perioral, dos membros inferiores e superiores. À observação apresentava hiporreflexia generalizada com sinal de Chvostek e Trosseau despertáveis bilateralmente.

Realizou, no SU, avaliação analítica que confirmava a hipocalcémia com discreta diminuição da PTH, decidindo-se o internamento no serviço de medicina interna para investigação da hipocalcémia em doente jovem.

Durante o internamento foram realizadas ecografia da tiroide e paratiroide, abdominal e renal, que não mostravam alterações e TAC cervico-toraco-abdomino- pélvica que revelava apenas um divertículo do esófago com 13mm. Da avaliação analítica efetuada, e que se apresenta na tabela 1, constata-se diminuição da PTHi, hipocalcémia com hipercalciúria em doente com albuminemia normal, fosfatúria e magnesiúria, TSH aumentada com FT4 normal e anticorpos antitiroideus positivos.

O doente teve alta com os diagnósticos de tiroidite auto-imune com hipotiroidismo subclínico e hipoparatiroidismo, colocando-se a hipótese de se enquadrar numa síndroma poliglandular auto-imune. Foi medicado com clorotalidona pelo seu efeito hipocalciúrico. Iniciou suplementação com magnésio oral, carbonato de cálcio e cacitriol e, para correção da função tiroideia, iniciou levotiroxina. Manteve seguimento em consulta de medicina interna, nefrologia e seguimento trimestral em consulta de medicina geral e familiar para realização periódica de ionograma, por forma a ajustar a terapêutica mais frequentemente para prevenir a ocorrência de novas crises. O aumento da periodicidade das consultas com o seu médico assistente permitiram também tranquilizar um pouco o doente que se mostrava ansioso em relação ao prognóstico da doença e necessitava de apoio para aprender a viver com uma doença crónica.

Entretanto, o doente foi visto na consulta de urologia que o referenciou para a consulta externa de cirurgia vascular. Após realização de prova de esforço e eco-doppler carotídeo e peniano, vertebral e abdominal excluiu-se disfunção eréctil secundária, a doença arterial peniana, atribuindo-se a disfunção eréctil a causas microangiopáticas.

Cerca de oito meses depois surgiu novo internamento, num outro hospital por alteração da área de referenciação hospitalar, no serviço de endocrinologia. O doente apresentava quadro clínico semelhante ao anteriormente descrito, mas sem alterações ao exame objetivo.

Pretendia-se com este internamento confirmar os diagnósticos de hipoparatiroidismo e hipotiroidismo e despistar outra endocrinopatia ou doença auto-imune que permitisse enquadrar o doente numa síndroma poliglandular auto- imune.

A avaliação analítica realizada mostrava hipocaliémia, hipocalcémia com normofosfatémia, hipomagnesémia e alcalose metabólica. Foram pedidos doseamentos dos anticorpos anti-insulina, anti-21-hidroxilase e anti- paratiroideia, que vieram negativos. Foram também pedidos doseamentos das hormonas GH (SmC, IGFBP3), LH/FSH, Testosterona, ACTH/cortisol, Prolactina que, face à sua normalidade, excluíram outra doença endócrina. Foi ainda realizada a prova do tetracosactido, que foi negativa para insuficiência da suprarrenal ou diminuição da reserva cortico-suprarenal.

Assim, o doente teve alta com os diagnósticos de hipoparatiroidismo primário e hipotiroidismo primário, excluindo quase certamente tratar-se de uma síndroma poliglandular. Para esclarecimento etiológico do hipoparatiroidismo foi então pedido estudo genético que ficou em curso.

À data de alta houve ajuste terapêutico, parou a clorotalidona e iniciou hidroclorotiazida e amiloride, devido a hipocaliémias iatrogénicas persistentes, mantendo a restante medicação (levotiroxina, carbonato de cálcio, vitamina D ativada e magnésio oral).

Após a alta, o doente agendou consulta com o seu médico de família para pedir uma segunda opinião acerca da alteração terapêutica instituída pelo serviço de endocrinologia, uma vez que a medicina interna pretendia manter terapêutica com clorotalidona. Aqui, o médico de família incentiva o doente a manter seguimento num único centro hospitalar e, após revisão do caso, incentiva alteração da terapêutica como proposta pela endocrinologia, pois a hidroclotiazida associada ao amiloride diminui a excreção urinária de cálcio, à semelhança da clorotalidona mas, ao contrário desta última, é poupador de potássio.

Cerca de três meses depois, o resultado do estudo genético confirmou que o doente apresentava um polimorfismo no gene CASR (variante Arg990Gly), excluindo definitivamente a possibilidade de síndroma poliglandular auto-imune.

Após confirmação da alteração genética, os familiares de primeiro grau foram convocados para uma consulta com o médico assistente a fim de explicar a necessidade de alargar o estudo genético. A família mantinha-se tranquila em relação à possibilidade de haver outros elementos com esta alteração e pretendia a realização do teste. Foi então efetuado o estudo genético nos familiares de 1.o grau do doente, cujo resultado foi negativo, tratando-se provavelmente de uma mutação de novo.

Presentemente, o doente mantém-se estável com a terapêutica acima descrita, tendo havido inclusivamente regressão do quadro de disfunção erétil.

Mantém seguimento em consulta de endocrinologia e em consulta de medicina geral e familiar.

Comentário O caso clínico que descrevemos mostra que por vezes nem sempre conseguimos enquadrar os sinais e sintomas numa única entidade nosológica. Desde o início ficou claro estarmos perante uma tiroidite auto-imune. Este diagnóstico baseou- se fundamentalmente na avaliação laboratorial com auto-anticorpos positivos uma vez que a ecografia da tiróide se mostrou normal. Na verdade sabemos que as tiroidites de Hashimoto cursam com anticorpos anti-peroxidase e anti- tiroglobulina positivos em 90-85% dos doentes, não sendo as alterações ecoestruturais da tiroide condição necessária ao diagnóstico.1 Apesar de serem claros os diagnósticos de hipoparatiroidismo primário e hipotiroidismo primário, ao não existir evidência de outra endocrinopatia ou doença do foro auto-imune não foi possível enquadrar este caso clínico numa síndroma poliglandular auto-imune. Na verdade, ele nunca poderia corresponder à síndroma poligladular tipo 1 em que a candidíase mucocutânea está sempre presente, nem à síndroma poliglandular tipo 2 em que a associação é de doença da tiroideia com diabetes mellitus e em que o hipoparatiroidismo é extremamente raro. Embora pouco provável, ainda foi considerada a hipótese de tratar-se de uma síndroma poliglandular tipo 3,2-4 mas o teste genético entretanto realizado confirmou a hipótese da diminuição do PTHi resultar de um polimorfismo no gene CASR, receptor de cálcio existente na superfície da paratiroide. O alelo 990G situa-se na extremidade carboxil-terminal do domínio intracelular, podendo condicionar alteração da conformação do receptor.5 Isto resulta num ganho de função do receptor6 que condiciona inibição da secreção de PTH e da reabsorção de cálcio, com aumento da excreção urinária.7 O polimorfismo 990G está associado na literatura a casos de hiperparatiroidismo.5,7 Contudo, o caso apresentado cursou com valores diminuídos de PTHi, que normalizaram após o primeiro internamento. Assim sendo, consideramos que esta alteração pode ser multifactorial. Por um lado, o polimorfismo parece estar relacionado com níveis mais baixos de PTH, inclusive em doentes com hiperparatiroidismo;5 por outro lado, sabe-se que a depleção de magnésio pode ser suficiente para levar a hipoparatiroidismo funcional por défice da secreção de PTH ou aumento da resistência periférica à hormona.8 Sabe-se, porém, que a hipomagnesémia também poderá ser consequência e não causa do hipoparatiroidismo.9 Neste caso, a realização do teste genético foi essencial, não porque possibilitou esclarecer o diagnóstico, mas também porque a deteção da mutação pode ter implicações importantes na vida do doente. Ao que parece, este polimorfismo parece estar implicado no aparecimento de nefrolitíase e nefrocalcinose,5-7 pelo que convém que mantenha um seguimento médico periódico.

Em relação à terapêutica, ela visa essencialmente o controlo sintomático. Deste modo, é objetivo terapêutico aumentar os níveis séricos de cálcio e vitamina D e controlar a função tiroideia. Assim, o doente realiza suplementação oral com cálcio e vitamina D e diuréticos tiazídicos que permitem reduzir a excreção urinária de cálcio. Além do reforço hídrico recomendado ao doente, estes diuréticos são o elemento chave que permitirá diminuir o risco de nefrolitíase e nefrocalcinose ao reduzirem a excreção urinária de cálcio, aumentada no doente.

Outro aspeto interessante neste caso clínico relaciona-se com o diagnóstico de disfunção erétil microangiopática. Como se depreende da marcha diagnóstica, este foi um diagnóstico de exclusão colocado na altura pelos colegas. O facto é que após terapêutica de correção das doenças de base houve uma regressão da sintomatologia, apesar de o doente se encontrar a realizar terapêutica com diuréticos que, como vimos, são essenciais ao controlo da doença e para a sua qualidade de vida. Assim sendo, e tendo por base o descrito na literatura, a disfunção erétil estará provavelmente relacionada com o hipotiroidismo. Sabe-se que as alterações da função tiroideia, sejam elas hiper ou hipotiroidismo, afetam a função eréctil, pelo que nestes casos o doseamento hormonal é recomendado.10-11 Em suma, trata-se de um caso clínico complexo e rico, não pela marcha diagnóstica, mas pela sua abrangência e no qual o médico de família teve um papel importante, apesar de muitos dos diagnósticos terem sido realizados ao nível de cuidados secundários. Para além do seguimento clínico do doente em consulta de vigilância trimestral, com realização de ionograma, do controlo da sintomatologia e da prevenção de crises através do ajuste terapêutico, o médico de família pode auxiliar o doente a compreender a doença e a saber lidar com a sintomatologia de forma a promover a adaptação do doente à doença, através de medidas educativas como o reforço da ingesta hídrica ou o reforço do magnésio oral em períodos de maior esforço físico. Isto permite diminuir a ansiedade do doente, porque ele sente que tem um papel ativo no controlo e na prevenção da sintomatologia e co-morbilidades. Foi igualmente importante nesse processo o agendamento de consultas marcadas periodicamente que permitiram que o doente se sentisse mais apoiado ao longo de toda a marcha diagnóstica, sendo a escuta ativa uma ferramenta essencial ao dispor do médico de família, contribuindo igualmente para avaliação e eventual intervenção, quando necessário, no reajuste da dinâmica familiar, alterada pela ocorrência de uma doença crónica no seio de um dos seus elementos.


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