Dermatite de contacto com tatuagens temporárias
CARTA À DIRECTORA
Dermatite de contacto com tatuagens temporárias
Contact dermatitis from a temporary tattoo
Tiago Baptista,* Rita Sebastião*
*Médicos Internos de Medicina Geral e Familiar
UCSP de Sete Rios, ACES Lisboa Norte
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Apesar de rara na nossa prática clínica, a dermatite de contacto devida a
tatuagens temporárias é frequente na literatura.1-2 O pigmento utilizado, a
henna negra, não é um pigmento natural, sendo obtido pela combinação do extrato
da henna com outros compostos, como a parafenilendiamina (PPD) com o objetivo
de escurecer a cor e aumentar a sua durabilidade.3 A reação clássica à PPD é
uma reação de hipersensibilidade de tipo IV, havendo, contudo, relatos de
reações agudas e graves de tipo I.4
Apresentamos um caso de uma criança do sexo masculino, de 9 anos de idade,
previamente saudável e sem história pessoal ou familiar de atopia, que recorreu
ao atendimento complementar do Centro de Saúde de Sete Rios por rash
pruriginoso do membro inferior direito com dois dias de evolução. O quadro
clínico iniciou-se com prurido intenso e aparecimento posterior da lesão
cutânea.
À observação, o doente apresentava lesão cutânea vesicular pruriginosa, não
dolorosa, com eritema e edema exuberantes, localizado na face externa da perna
direita, com forma de escorpião e pigmentação negra esparsa dispersa pela lesão
(Figura_1).
Quando inquirido, referiu aplicação de tatuagem temporária em forma de
escorpião, cerca de 15 dias antes do aparecimento da lesão, com quadro
sintomático a estabelecer-se aquando do desaparecimento desta. Optou-se pela
instituição de terapêutica antibiótica com Flucloxacilina e anti-histamínica
com Loratadina. O doente recuperou totalmente, não apresentando cicatriz da
lesão.
Neste caso, a lesão do doente aparenta tratar-se de uma reação retardada de
tipo IV, tal como descrito na literatura.1-2 Podemos presumir que o alergénio
implicado seja a PPD; contudo, dada a não realização de testes epicutâneos
específicos, não é possível confirmá-lo. Aqui, a cicatrização foi completa,
estando descritas sequelas a longo prazo como a hipo ou hiperpigmentação, além
da sensibilização permanente ao composto.3
A PPD pode ser encontrada em tintas para o cabelo, corantes têxteis azólicos,
produtos de fotografia, tintas de impressora, óleos diesel e na indústria de
plásticos e colas. Além disso, pode apresentar reatividade cruzada com cremes
fotoprotetores com ácido-paraminobenzóico e outros parabenos e raramente com
medicamentos como o ácido para-aminosalicílico, sulfamidas, sulfonilureis,
alguns anestésicos locais5 e anti-hipertensores, como a hidroclorotiazida.1
Deste modo, é essencial a identificação destas reações para que os doentes
possam ser referenciados à imunoalergologia para estudo desta sensibilização,
já que pode ter um importante impacto futuro, quer a nível pessoal quer
profissional. Além disso, será de ponderar alertar os pais para os seus riscos
e desaconselhar a realização destas tatuagens, por não ser possível conhecer a
composição dos materiais utilizados, até que a atividade seja legalmente
regulada.3