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EuPTCVHe2182-51732015000100007

National varietyEu
Year2015
SourceScielo

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A hipertensão arterial e o exercício físico: elementos para uma prescrição médica

Introdução A hipertensão arterial (HTA) é definida pela elevação crónica da pressão arterial sistólica (PAS) acima de 140mmHg e da pressão arterial diastólica (PAD) acima de 90mmHg. A prevalência de HTA é de 42%1 em Portugal e de 31% nos Estados Unidos da América.2 É um dos principais fatores de risco cardiovascular3 contribuindo de forma significativa para a morbilidade e mortalidade por enfarte agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral. Ao longo das últimas décadas, a evidência aponta para o aumento de uma relação dose-resposta in-versa entre o volume total de exercício físico (EF) e a mortalidade cardiovascular. Neste artigo abordamos a eficácia anti-hipertensora do EF, comparando-a com a dos fármacos mais habitualmente empregues para esse fim. Revemos o impacto de diferentes tipos de exercício e propomos um programa de exercício adaptado a esta população. Para melhor compreensão optou-se por definir no Quadro_I alguns dos conceitos usados nas secções subsequentes.

Eficácia anti-hipertensora do EF É atualmente consensual que perante um doente com hipertensão o médico deve recomendar alterações ao seu estilo de vida4 e zelar para que, tanto quanto possível, elas sejam cumpridas. Estas alterações passam forçosamente pelo aumento da atividade física. Existe inclusive uma recomendação (classe I, nível B) segundo a qual, no género feminino, 150 minutos de atividade física semanal de intensidade moderada deve ser usada.5 Com base nesta recomendação somos levados a pensar que a medicação anti-hipertensora tem uma eficácia e/ou potência bastante superior à do EF. Um trabalho publicado em 2000 reunia os vários ensaios que tinham testado a eficácia de diferentes classes de anti- hipertensores e também aqueles que comparavam estratégias mais e menos intensivas.6 Podemos ver no Quadro_II os resultados obtidos nalguns destes estudos.

É deveras interessante comparar estes resultados com os apresentados na meta- análise de Cornelissen et al,7 resumidos no Quadro_III.

Comparações diretas são limitadas pelas diferentes metodologias usadas. No entanto, é notória a semelhança no que diz respeito à magnitude dos efeitos atingidos. No caso do exercício de endurance, se atentarmos apenas aos resultados obtidos na população de doentes com hipertensão, observaram-se reduções de pressão arterial (PA) de 8.3/5.2 mmHg. Estes são, na pior das hipóteses, comparáveis aos resultados obtidos com a terapêutica anti- hipertensora de primeira linha. Acresce o facto do EF ter efeitos pleiotrópicos, atuando sobre a obesidade, dislipidémia e insulinorresistência.

Isto ajuda a explicar o benefício global no perfil cardiovascular, independentemente das reduções na PA. Apesar disso, diariamente constatamos que no nosso país a terapêutica não farmacológica (na qual se inclui a atividade física) da hipertensão permanece num segundo plano.

Comparação entre diferentes tipos de EF Tradicionalmente considerava-se que o efeito anti-hipertensor do EF era um exclusivo do exercício de endurance. Ao exercício de resistência, nas suas vertentes dinâmica e isométrica, era atribuída uma resposta hipertensora, o que contribuía para que este fosse contra-indicado na prevenção primária e secundária da hipertensão. Uma meta-análise publicada recentemente examinou o efeito de diferentes tipos de exercício na pressão arterial em repouso.7 Incluiu ensaios clínicos randomizados, com duração superior a quatro semanas, e em que participaram adultos com PA que vão desde valores normais até à hipertensão. Foi demonstrada a redução significativa da PAS e PAD com os exercícios de endurance, de resistência dinâmica e resistência isométrica (ver Quadro_III). Através da análise de subgrupos, os autores chegaram a conclusões interessantes no que diz respeito ao exercício de endurance: é maior a eficácia nos indivíduos hipertensos (-8.3/-5.2) quando comparado com pré-hipertensos (- 2,1/-1,7) e normotensos (-0,75/-1,1); os programas com duração inferior a 24 semanas parecem reduzir mais a PAS (p<0,0001) e a PAD (p<0,01) do que aqueles com duração superior; sessões de menos de 210 minutos por semana estão associadas a reduções significativamente maiores da PAS (p<0,05) e não tão significativas da PAD (p=0,20); sessões de menor intensidade estão associadas a efeitos menos significativos. Estes achados estarão provavelmente relacionados com o facto de programas de duração superior estarem associados a diminuição da compliance e de sessões de exercício com maior duração implicarem habitualmente uma diminuição da intensidade. O efeito hipotensor do exercício de resistência dinâmica parece ser maior em populações normotensas e pré-hipertensas. A verdade é que, até à data e à semelhança do que acontece com o exercício isométrico, poucos estudos avaliaram os seus efeitos em doentes com hipertensão. Os resultados obtidos com o treino de resistência isométrico são bastante promissores, mas provêm de um número reduzido de pacientes envolvidos (n=114),7 na sua maioria normotensos e pré-hipertensos. Aguardamos com expectativa futuros trabalhos que testem os seus efeitos em populações maiores e nas diferentes fases do continuum que é a doença hipertensiva.

À luz do conhecimento atual parece sensato incluir o exercício de resistência nos programas de prevenção primária (e porventura secundária) da hipertensão. A sua eficácia na redução da PA em pessoas com hipertensão ainda carece de confirmação, mas a capacidade de influenciar favoravelmente a capacidade aeróbia, perfil lipídico e gordura (adiposidade) corporal tornam-no um complemento importante.8 Prescrição de EF no doente hipertenso Apesar dos reconhecidos benefícios no tratamento da hipertensão, o EF não é isento de riscos. Como tal, alguns indíviduos carecem de avaliação médica antes de iniciarem a atividade física. Os principais objetivos desta avaliação são: • Identificar contra-indicações absolutas ou relativas à prática de determinado tipo de atividade física/desporto.

• Adaptar, tanto quanto possível, o programa de exercício à condição clínica e preferência do indivíduo, de forma a minimizar as complicações e promover a compliance.

• Identificar doença cardiovascular (DCV) oculta.

• Identificar indivíduos com risco cardiovascular elevado, como aqueles com hipertensão não controlada, angina instável e diabetes descompensada. Estes devem ser estabilizados antes de iniciar o programa de exercício.

Obviamente a profundidade da avaliação pré-participação vai depender da intensidade planeada para o programa de exercício e do perfil de risco cardiovascular.9 O Quadro_IV apresenta as indicações para realização de prova de esforço. Um paciente assintomático incluído no grupo de risco A ou B, com PA < 180/110 mmHg e que pretenda participar em exercício de intensidade ligeira a moderada (<60% VO2 max) não necessita habitualmente de investigação diagnóstica adicional. os incluídos no grupo C, sem DCV ou TA >180/110mmHg, podem beneficiar de prova de esforço caso pretendam exercitar-se com intensidade moderada (40 a 60% VO2 max). A prova de esforço é indispensável para todos os pacientes com DCV documentada, independentemente do nível de intensidade pretendido. Para além disso, o exercício vigoroso nestes pacientes deve ser restrito a centros de reabilitação cardíaca.10-11

No que concerne à terapêutica farmacológica existem alguns cuidados a ter no doente ativo com hipertensão.10-11 Os fármacos escolhidos devem baixar a PA em repouso e durante o exercício, as resistências vasculares periféricas e preferencialmente não afetar a capacidade máxima de exercício. Por estas razões preferem-se os inibidores da enzima de conversão da angiotensina, antagonistas dos recetores da angiotensina e bloqueadores de canais de cálcio. Alguns aspetos particulares das classes farmacológicas habitualmente usadas devem ser tidos em conta: os bloqueadores de canais de cálcio, os vasodilatadores diretos e os bloqueadores alfa podem provocar uma resposta hipotensora (no pós- exercício imediato) exagerada, devendo aconselhar-se o prolongamento do período de arrefecimento; a utilização de tiazidas deve ser ponderada com cautela devido ao risco de hiper e hipocalcemia, hiponatremia, hipocaliemia e potenciais arritmias malignas; diuréticos e bloqueadores-beta podem afetar a termorregulação e aumentam o risco de hipoglicémias; os diuréticos de ansa podem causar depleção de volume; os bloqueadores-beta têm efeitos inotrópicos e cronotrópicos negativos. Os não seletivos podem provocar broncoconstrição e em doentes com doença arterial periférica podem agravar a claudicação intermitente. A utilização dos bloqueadores-beta em hipertensos ativos fisicamente deve ser restrita a casos excecionais.

O programa ideal para obter a redução da TA em doentes hipertensos ainda não foi estabelecido. No entanto, de acordo com a evidência mais recente e recorrendo ao FITT,9 propõe-se o seguinte: • Frequência: três a cinco vezes por semana para o exercício aeróbio.

• Intensidade: moderada (40% < VO2R < 60% ou 12-13 na escala de Borg). Em pacientes selecionados podem ser obtidos benefícios adicionais com intensidades superiores.9,11 • Tempo: 30 a 60 minutos por sessão de exercício continuado ou intermitente (mínimo de 10 minutos de cada vez).

• Tipo: O mais estudado é o exercício aeróbio, dentro do qual se podem recomendar as caminhadas, jogging, ciclismo, natação. A preferência individual deve ser tida em conta para maximizar a aderência.

O exercício de resistência integra a generalidade dos programas de prescrição de exercício na população geral e em subpopulações de pacientes com patologias diversas.11 No doente com hipertensão poderá ser recomendado em associação ao exercício aeróbio, a realizar duas a três vezes por semana, preferencialmente com intensidade > 60% de 1-RM e envolvendo os principais grupos musculares (cinturas escapular e pélvica, musculatura abdominal e dorsal, flexores e extensores dos membros superior e inferior).

Conclusão O aumento da atividade física é condição sine qua non para a adoção de um estilo de vida mais saudável. A capacidade do EF influenciar favoravelmente o perfil tensional ficou bem patente neste texto. Enquanto a evidência em relação ao exercício de endurance é robusta, o mesmo não se passa com o exercício de resistência. São necessários mais trabalhos que permitam caracterizar a resposta da PA ao exercício de resistência em pacientes hipertensos. Importa destacar que grande parte dos dados que apresentamos é extraída da meta-análise de Cornelissen et al7 e, portanto, a sua interpretação é condicionada pelas limitações da técnica meta-analítica e da literatura primária incluída. À primeira vista podem parecer resultados modestos, mas quando enquadrados na perspetiva de que a redução de 5mmHg na PAS é responsável por uma diminuição de 14% na mortalidade por AVC e 9% na mortalidade por doença coronária,4 certamente não fica essa impressão. Num trabalho que incluiu mais de 100.000 participantes, Kodama et al demonstraram que o aumento de apenas 1 MET na capacidade aeróbia está associado a reduções de, respetivamente, 13 e 15% na mortalidade global e por doença cardiovascular.12 Apesar disso, a adesão da população ao EF permanece reduzida. É imperioso apurar os motivos subjacentes a esta realidade e incentivar a comunidade médica a prescrever EF com base na atual evidência clínica.


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