Adoecer longe de casa: desafios psicossociais e coping
INTRODUÇÃO
O cancro da mama tem os níveis de incidência mais elevados na América do Norte
e os mais baixos na Ásia e em África.1 De ocorrência rara nos homens, é o
cancro mais frequente nas mulheres.2
Não obstante o percurso individualizado de cada doente, um diagnóstico de
cancro tem exigências transversais, como a necessidade de integrar o controlo
da doença nas atividades da vida diária, as expectativas do que pode acontecer
se esse controlo não for conseguido e as emoções que evoca.3
O conhecimento de quais os processos do curso da vida, objetivos e relações
pessoais que o cancro vem interromper é importante para promover, junto a cada
doente, o discernimento acerca dos problemas psicológicos que podem surgir em
resposta à doença.4-5
Um ajustamento adequado pressupõe um processo de adaptação que não é
instantâneo, mas que ocorre ao longo do tempo, em que o doente e a sua família
vão aprendendo a lidar com as mudanças desencadeadas pela doença.6 O médico
deve vigiar a resposta adaptativa à situação de doença de modo longitudinal e
gerir oportunidades para favorecer um registo de funcionamento, pessoal e
familiar, mais saudável.
O presente caso foi selecionado para apresentação por demonstrar:
• A distância geográfica entre o hospital em que a doente acede aos cuidados e
o seu mundo habitual amplifica as repercussões da doença e aumenta os desafios
psicossociais da adaptação requerida pela mesma;
• A “ressignificação” da doença que ocorre ao longo do tempo;
• O uso de um grande repertório de estratégias de coping utilizadas para lidar
com a situação, dependendo da (re)avaliação que a doente faz da situação, das
suas emoções, dos recursos de que dispõe, bem como da interação entre esses
fatores.
DESCRIÇÃO DO CASO
1. Dados demográficos, antecedentes familiares e contexto onde se insere
Gisela (nome fictício), 53 anos de idade, raça negra, católica, casada há 37
anos com Julião (nome fictício), tem nove anos de escolaridade e é empresária,
gerindo um complexo turístico em África, no seu país natal e de residência
habitual. Tem dois filhos, Bruno e Leonor (nomes fictícios) e três netos.
Percebe a sua família como não tendo disfunções e considera-se o pilar desse
bom funcionamento.
Bruno, 32 anos, casado, com um filho de 4 anos, trabalha na empresa dos pais.
Leonor, 30 anos, recentemente divorciada, com dois filhos, de 8 e 2 anos
respetivamente, frequenta um curso superior noutro país.
Gisela é a primeira filha de uma fratria de dez irmãos, sendo a única mulher.
Os sete irmãos mais novos já faleceram, três em contexto de guerra, um por
acidente de viação e os restantes devido a doenças infetocontagiosas. Os dois
irmãos vivos são saudáveis.
Gisela considera ter tido um bom relacionamento com os progenitores, mas refere
uma maior ligação com o pai, descrevendo-o como uma pessoa alegre e divertida.
A mãe faleceu há doze anos, com 60 anos de idade, no decorrer de uma
descompensação de diabetes tipo 2, e o pai teve morte súbita há cinco meses,
com 76 anos.
Não existem antecedentes familiares de doença oncológica.
Desde há vários anos, Gisela passava o Verão em Portugal, fazendo-se acompanhar
pelos netos, ficando todos hospedados em casa de familiares. Durante a estadia,
por maior confiança nos serviços de saúde portugueses, recorria à consulta da
médica de família, de nacionalidade portuguesa, em cuja lista de utentes a sua
família está inscrita, para vigilância do crescimento e desenvolvimento das
crianças, dos seus próprios problemas de saúde e para os procedimentos
preventivos indicados nos seus género e grupo etário.
Habita atualmente na casa da prima que a costuma acolher em Portugal. Foi o
diagnóstico de cancro da mama, no Verão de 2011, que a fez permanecer em
Portugal. Assim, a estrutura nuclear da família da prima, casada e com duas
filhas adolescentes, tornou-se alargada. Não obstante reconhecer o apoio que
estes familiares lhe proporcionam, acompanhando-a inclusive nas suas idas ao
hospital, Gisela preocupa-se com a interferência que a sua presença prolongada
causa no dia-a-dia da família, na qual não se sente completamente integrada.
Assim, sai diariamente, passeando e visitando outros familiares e amigos.
A estrutura familiar de Gisela já tinha sofrido alterações recentes devidas a
algumas crises - o divórcio da filha há cerca de um ano e a subsequente decisão
de retomar os estudos num país estrangeiro, no que foi encorajada pelos pais,
que assumiram cuidar dos netos durante as ausências prolongadas da mãe.
Gisela viveu vários outros acontecimentos stressantes, não normativos, ao longo
da vida, nomeadamente o processo de descolonização e independência, vários
golpes de estado e guerra civil no país natal, com repercussões na qualidade de
vida da população (insegurança percebida e períodos de escassez de alimentos e
outros bens). O último golpe de estado ocorreu durante a permanência de Gisela
em Portugal, por motivos de doença, tendo seguido à distância, com grande
ansiedade e preocupação, os acontecimentos e as suas repercussões no quotidiano
da sua família.
2. História biomédica pregressa
Gisela teve a menarca aos 11 anos e a menopausa aos 51 anos de idade, não tendo
feito terapia hormonal de substituição.
Teve duas gestações, a primeira aos 21 anos de idade, e dois partos eutócicos.
Amamentou ambos os filhos. Usou sempre métodos naturais como forma de
contraceção.
Era sedentária. Fazia uma alimentação com três refeições diárias, ricas em
gorduras saturadas e hidratos de carbono de absorção rápida. Não tinha hábitos
tabágicos. Ingeria bebidas alcoólicas de forma esporádica, socialmente.
Tinha uma mamografia, datada de 2009, com resultado normal.
Como problemas de saúde ativos apresentava: obesidade (índice de massa corporal
de 34,7), que se acentuou após a menopausa; hipertensão arterial, controlada
com dois fármacos, sem repercussões nos órgãos alvo; e gonartrose.
Não tinha antecedentes psiquiátricos.
3. Processo de adaptação face ao diagnóstico e tratamento de cancro da mama
Em 2011, dias após a sua chegada a Portugal, Gisela identificou uma massa
palpável na mama direita. Recorreu à consulta da médica de família nesse mesmo
dia, demonstrando medo e grande ansiedade. Foi-lhe dito que nem todas as massas
mamárias são malignas e que só os exames complementares de diagnóstico poderiam
esclarecer a natureza da lesão. Foram-lhe requisitadas mamografia e ecografia
mamária.
Quinze dias depois, Gisela voltou à consulta para mostrar o resultado dos
exames solicitados: mamografia BI-RADS 4 (anomalias suspeitas, segundo o
sistema padronizado utilizado para uniformizar os relatos de mamografia -
Breast Image Reporting and Data System); ecografia mamária revelando massa
arredondada com 1,7cm de diâmetro, heterogénea, mal definida e agrupamento de
calcificações pleomórficas no quadrante supero-externo da mama esquerda. Assim,
a doente foi referenciada a consulta de Senologia para caracterização
histológica da lesão. Ao tentar transmitir a informação de que só o exame
anatomopatológico daria o diagnóstico definitivo, a resposta de Gisela foi
hostil, insinuando que não poderia confiar por ter alimentado esperança de
resultado benigno após a última consulta e, afinal, o diagnóstico temido tinha
saído reforçado com a mamografia. Apresentava choro fácil, grande angústia,
sensação de injustiça por ter sido atingida pela doença, recusa de mutilação
mamária, ressentimento por uma doença que lhe “apertava” o futuro, medo de
morrer longe da família e de não poder criar os netos enquanto a filha
estudava, denotando uma sensação de completa perda de controlo sobre a sua
vida. Relatava fazer autopalpação de várias regiões corporais, múltiplas vezes
ao dia, à procura de metástases ou para verificar a evolução nas dimensões da
massa mamária.
Decorrido cerca de um mês, Gisela voltou novamente à consulta por impetigo num
dedo da mão, que atribuía a metastização da doença. A caracterização
histológica da lesão mamária confirmou o diagnóstico de cancro da mama.
Evidenciava labilidade emocional e relatava insónia inicial e intermédia,
anorexia, perda de peso (menos 3kg no último mês), grande ansiedade, anedonia e
pensamentos intrusivos sobre a doença e o futuro. Para além da revolta e do
receio quanto ao desfecho da doença, da recusa da desfiguração que o tratamento
da mesma implicaria, preocupavam-na muitos outros aspetos relacionados com os
processos que o cancro vinha interromper - conjugais, profissionais,
financeiros, mas principalmente, tendo de permanecer em Portugal, como iria
poder continuar a assegurar a educação dos netos e permitir que a filha
prosseguisse o seu projeto de vida. A magnitude do que a doença veio pôr em
causa exacerbava as dificuldades de aceitação da doença, vivendo o que
descreveu como “uma descida aos infernos”(sic), o que levou a médica da
consulta de Senologia a referenciá-la a consulta de Psicologia e a prescrever-
lhe alprazolam (0,5mg, duas a três vezes/dia). Nesta consulta esclareceu-se a
natureza da lesão do dedo da mão, prescreveu-se a terapêutica indicada, tendo
sido ainda promovida a verbalização de sentimentos e a caracterização de
recursos, humanos e materiais, que poderia mobilizar para atenuar as
consequências da sua ausência no país natal.
Dois meses passados, Gisela reapareceu na consulta, agora sorridente,
referindo:
• No estudo para estadiamento da doença não tinham sido encontradas metástases,
tendo a cirurgia sido marcada para daí a uma semana;
• Tinha viajado até ao seu país, onde contratou uma ama para tratar dos netos e
verificou que o marido tinha assumido, competentemente, tarefas inerentes à
educação dos netos e à gestão do negócio;
• O marido, os filhos e os netos falavam com ela, por via telefónica, todos os
dias;
• Tinha aumentado a frequência com que ia à igreja - sempre que se sentia mais
ansiosa, entrava na igreja mais próxima e rezava, o que a acalmava;
• Reencontrou uma amiga, funcionária no hospital onde se está a tratar e com
neoplasia mamária diagnosticada há dois anos, a quem atribuía um papel
determinante no otimismo com que estava a encarar a evolução da doença; contou
que esta amiga a acompanhava a todas as consultas, fazendo sentir-se mais
segura no hospital, um mundo até agora para ela desconhecido; enviava-lhe,
diariamente, várias mensagens telefónicas com palavras de encorajamento e de
afeto; mostrou-lhe as mamas após reconstrução, afirmando serem mais bonitas do
que quando era jovem;
• Tendo já tido alta da consulta de Psicologia Clínica, reconhecia também os
benefícios da intervenção psicológica breve na recuperação do seu equilíbrio
emocional;
• Tendo obtido a informação de que a obesidade tem vindo a ser associada a uma
maior incidência de cancro da mama, estava determinada a fazer uma alimentação
mais equilibrada, autoculpabilizando-se por não o ter feito desde sempre e,
assim, ter contribuído para a sua situação atual;
• Continuava a tomar o ansiolítico prescrito pela médica hospitalar, não
excedendo a posologia mínima prescrita; o sono e o apetite tinham-se
normalizado e referia sentir-se mais tranquila.
Tendo a médica de família disponibilizado o telemóvel pessoal na fase de
choque, aquando da identificação da doença, Gisela enviou-lhe uma mensagem,
dias após a última consulta, que se transcreve: “A vida apresenta-nos milhares
de pessoas e cada uma delas vem cumprir um papel. Todas elas ficam na nossa
memória, muitas em nossas fotos, algumas nos nossos hábitos... Mas no nosso
coração ficam aquelas que são realmente especiais. Tudo isto para lhe dizer que
fui operada na sexta e que desde ontem já estou em casa, sentindo-me bastante
melhor. Obrigada por tudo.”
Gisela voltou à consulta cerca de quatro meses após mastectomia, exérese de
gânglio sentinela e colocação de expansor de tecido, visando reconstrução
mamária futura. O exame histológico foi compatível com carcinoma ductal
invasivo, grau 2 (moderadamente diferenciado), com componente de carcinoma in
situ (20%). Estava a fazer quimioterapia, apresentando alopecia, sensação de
ardor e descamação cutânea a nível das mãos, alterações do paladar, bem como
episódios de náuseas e diarreia, tendo recorrido por duas vezes ao serviço de
urgência por vómitos incoercíveis com consequente desidratação. Depois de cada
curso de quimioterapia já conseguia prever os dias em que iria ter estes
últimos sintomas. A nível laboratorial apresentava sinais de depressão medular,
com anemia (10,6mg/dl de hemoglobina), leucopenia (2.582 leucócitos/mm3) e
trombocitopenia (85.000 plaquetas/mm3). Usava peruca, que considerava ficar-lhe
bem.
Confiante no resultado dos tratamentos, Gisela demonstrava espírito de luta em
relação à doença, afirmando “vou vencer o braço de ferro com a doença” (sic).
Continuava a falar diariamente, por telefone, com os familiares mais
significativos e recebia apoio de muitos amigos e familiares residentes em
várias regiões de Portugal, que se deslocavam para a visitar ou que ela
procurava. No entanto, continuava a considerar intrusiva a sua permanência em
casa da prima. Vinha à consulta pedir um relatório médico necessário para
candidatura a uma habitação social. Afirmava que, se conseguisse esse objetivo,
os seus netos viriam viver com ela, em Portugal.
Economicamente, encontrava-se em dificuldades. A ocorrência recente de um golpe
de estado no seu país paralisou a economia e o marido já não conseguia
disponibilizar-lhe as mesmas quantias de dinheiro. Tinha a informação de que,
após terminar esta série de sessões de quimioterapia, teria de ter consultas de
reavaliação da doença em cada três meses, não tendo disponibilidade financeira
para se deslocar entre os dois países várias vezes por ano.
Não apresentava sintomatologia compatível com o diagnóstico de depressão,
embora referisse que, por vezes, “apetece-me fechar-me no quarto e gritar”
(sic).
COMENTÁRIO
Gisela foi atingida por uma doença de baixa incidência na sua raça e na sua
região de proveniência. Para além do género, idade, menarca precoce, obesidade,
inatividade física e consumo excessivo de gorduras saturadas, não se verificam
outros fatores de risco para cancro da mama na sua história clínica, sendo que
é frágil a evidência da contribuição de alguns dos fatores mencionados para a
incidência desta doença.
1. Desafios psicossociais
O diagnóstico de uma doença grave gera ruturas no estilo de vida e um stress
agudo e severo.
No caso de Gisela, a distância do seu mundo habitual originou uma magnitude
inusitada das mudanças exigidas pelo adoecer e ampliou as perdas inerentes à
notícia da doença, condicionando uma reação inicial mais intensa do que é comum
e complicando o processo de adaptação à doença.
Também a ocorrência de outros acontecimentos de vida, antes e depois do
diagnóstico do cancro, contribuíram para níveis superiores de stress.
Associada à acumulação de stressores, a representação do cancro da mama, social
e da própria doente constituiu-se como uma barreira que contribuiu para a
empurrar para estratégias iniciais pouco adaptativas.
Num estudo coordenado por Villaverde Cabral,7 em que foram inquiridos 1.221
portugueses, 63% afirmaram ter medo de vir a ter cancro, enquanto apenas 7,7%
apontaram as doenças cardiovasculares, apesar destas constituírem a principal
causa de morte em Portugal. Estes resultados salientam a construção social que
se faz do cancro, o que afeta as experiências de doença e as atitudes do doente
e de quem com ele se relaciona. No caso do cancro da mama, a mulher sente-se
particularmente atingida, com sentimentos de perda e ameaça à imagem corporal
que toca a própria sexualidade. Burton e Watson,8 afirmam que a mama, sendo um
símbolo de feminilidade e de atrativo sexual, também está ligada, através do
aleitamento, ao princípio de vida. Assim, é a identidade da mulher que está em
causa quando a doença e tratamentos atingem esta região corporal. O grau desta
agressão dependerá, não só do tipo de relação que a mulher mantém com o seu
corpo e da forma como encara a alteração física a que foi submetida, mas também
do meio sociocultural onde se encontra inserida.8
No caso de Gisela, as baixas incidência e prevalência da doença no seu país de
residência habitual contribuíram para um maior desconhecimento e uma
representação ainda mais negativa do cancro da mama.
Também os efeitos adversos ao longo dos ciclos de quimioterapia se constituem
como exigências que se têm de aprender a gerir, interferindo no modo como se
vivencia a doença e podendo mesmo requerer cuidados urgentes, como ocorreu no
caso de Gisela em dois episódios de vómitos incoercíveis. Contrariamente ao que
muitas vezes acontece, reagiu relativamente bem à alopecia.
2. Recursos pessoais
Relativamente aos recursos da doente, são de salientar:
• A resiliência de Gisela, com traços de personalidade como a sociabilidade, a
autoconfiança, o locus de controlo interno, a extroversão, o otimismo e a
capacidade de sonhar e fazer projetos;
• O padrão de funcionamento da família prévio à doença, caracterizado pela sua
coesão, grande adaptabilidade e comunicação adequada, o que tornou possível uma
negociação importante para efetuar mudanças necessárias às novas
circunstâncias;
• A experiência acumulada, da doente e da sua família, em gerir situações
stressoras de forma adaptada;
• A qualidade das estruturas de suporte social da doente e do tipo de suporte
prestado, não obstante não ter podido contar com a presença física das pessoas
mais significativas, que apenas puderam apoiá-la através de telefonemas;
• A sua religião, que constituiu um importante recurso para lidar com o stress
e com a adversidade;
• Os recursos materiais de que dispõe, apesar da sua quebra recente;
• A capacidade de procurar, obter e processar informação relativa ao tratamento
e prognóstico da doença e à resolução dos problemas dela decorrentes.
3. Coping
O coping tem múltiplas funções, incluindo a regulação do distress e a gestão
dos problemas que causam distress.
As estratégias de coping correspondem a atividades sobre as quais o indivíduo
está alerta ou consciente, distinguindo-se, assim, dos mecanismos de defesa
(inconscientes).9
O indivíduo pode usar diferentes tipos de estratégias de coping, em combinação
ou sequencialmente, dependendo das características da situação, da avaliação
que dela faz (dano, ameaça, desafio; modificável ou inalterável), dos recursos
de que dispõe, bem como da interação entre esses fatores.10
Segundo o modelo de autorregulação do comportamento de doença de Leventhal, as
respostas à doença seguem três etapas: interpretação, coping e ponderação.11-12
Na etapa da interpretação, ao ser confrontada com uma doença, a pessoa tenta
dar sentido ao problema, de acordo com as suas cognições sobre o mesmo. Estas
cognições organizam-se em várias dimensões (identidade, causa, duração,
consequências e cura/controlo) e acompanham-se de mudanças no estado emocional.
As cognições da doença e o estado emocional influenciam a segunda etapa, em que
a pessoa identifica e seleciona estratégias de coping que lhe permitam
readquirir a homeostasia ameaçada ou perdida.
A terceira etapa envolve a ponderação/avaliação sobre as estratégias de coping
utilizadas, de modo a adaptar-se à sua doença e respetivas consequências,
mantendo a qualidade de vida possível.
A autorregulação implica que os processos envolvidos nas três etapas do modelo
se inter-relacionem de um modo dinâmico, numa recursividade de retroações.
No caso de Gisela, as cognições iniciais da doença, sobretudo as relacionadas
com a identidade (etiqueta estigmatizante), as consequências e a
controlabilidade da doença, levaram-na a vivenciar o estímulo stressor como uma
enorme ameaça. Com o decorrer do tempo, a representação inicial muito negativa
da doença e das suas novas circunstâncias de vida foi sendo substituída por uma
ressignificação mais positiva, sendo patente a evolução de ameaça a desafio. A
diferença entre um estímulo stressor vivenciado como ameaça ou desafio é que a
avaliação produz emoções diferentes. Ambas mobilizam estratégias de confronto;
no entanto, no primeiro caso há dificuldades em lidar com a situação, que se
acompanha de preocupação, medo e ansiedade, enquanto no segundo o indivíduo
pensa poder superar a situação.
Perceção de doença e coping são processos paralelos que se estreitam e se
influenciam, levando a evolução na perceção de doença à adoção de novas
estratégias de coping e vice-versa. De modo simultâneo ou sequencial foram
várias as estratégias de coping utilizadas por Gisela, que se sistematizam
segundo a caraterização de Moos e Sahaefer:13
• Focalizadas na avaliação, como evitamento cognitivo, na fase de diagnóstico
da doença; esforços mentais para tornar um evento aparentemente incontrolável
numa série de eventos controláveis; e redefinição cognitiva;
• Focalizadas no problema, como procura de informação e apoio, bem como
realização de ações de controlo/resolução de problemas, incluindo adesão ao
plano terapêutico;
• Focalizadas nas emoções, como expressão de sentimentos de revolta e
desespero; monitorização obsessiva do corpo para se certificar não haver mais
alterações, para além das identificadas; utilização de ansiolítico; refúgio
noutras atividades, como passeios ou conversas com familiares e amigos; procura
de conforto na religião; identificação e adoção do humor que a amiga utilizava
como estratégia para lidar com a doença; autoculpabilização, relacionada com a
obesidade; por fim, aceitação das coisas tal como estavam a acontecer.
Uma das estratégias utilizadas por Gisela, de recrutamento e uso de suporte
social, poderá ser caracterizada como mista.
No processo de ponderação/reavaliação sucessiva da situação terão sido
determinantes o conhecimento do estádio da sua doença e da possibilidade de
reconstrução mamária, os recursos pessoais e sociais da doente e a avaliação
que entretanto ela foi fazendo da adequação destes para fazer frente aos
desafios, bem como o resultado das estratégias de coping utilizadas na
resolução de problemas e na regulação das emoções.
O padrão de coping é considerado adaptativo se promove o crescimento e
amadurecimento pessoais ou disfuncional se favorece o declínio psicológico e a
deterioração. Esta avaliação tem de ter em atenção os propósitos que as
estratégias de coping estão a servir e a duração da sua utilização –
perturbações emocionais e de comportamento podem constituir fases evolutivas do
processo de aceitação da doença, como evidenciou o caso da Gisela e, só no caso
de instalação definitiva, serem considerados um padrão disfuncional.
4. Estádios da reação psicológica
No caminho percorrido por Gisela reconhecem-se as etapas de reação psicológica
face a perdas estudadas por Kübler-Ross em doentes terminais (negação, cólera,
negociação, depressão e aceitação).14 Muitas questões se põem ao longo de todas
as fases, como evidencia o caso da doente:
Negação
Durante o processo de diagnóstico, a resistência à possibilidade de cancro
levou a que a doente salientasse, no discurso da médica, a incerteza do
diagnóstico para legitimar a sua negação. Esta, numa fase inicial, tem uma
função adaptativa, servindo para controlar a absorção da informação traumática,
só resultando num ajustamento mal-adaptativo se permanecer ao longo do tempo.
Cólera
Aquando da confirmação do diagnóstico, a doente dirigiu, embora de modo
contido, alguma da sua zanga à médica, num mecanismo de defesa (deslocamento).
A mensagem telefónica enviada após cirurgia mostra como a hostilidade
demonstrada durante a consulta, em que veio mostrar o resultado da mamografia,
correspondeu apenas a uma fase, natural no processo de aceitação da doença, com
que o médico tem de saber lidar.
Negociação
A determinação da Gisela em alterar os seus hábitos alimentares integra-se na
etapa de negociação, sendo, no entanto, de encorajar. Para além dos benefícios
gerais, a perda de peso contribuirá para a melhoria de outros problemas de
saúde, nomeadamente a hipertensão arterial e a gonartrose.
Depressão
Gisela apresentou, embora transitoriamente, sintomas depressivos e perturbações
de ansiedade enquadráveis no contexto de uma reação emocional característica da
fase de diagnóstico, que entretanto se atenuaram. Estes sintomas não poderão
ser classificados de psicopatológicos, mas antes como parte integrante do
esforço de adaptação à situação. Face a situações de stress ocorridas no seu
passado, a doente demonstrou controlo emocional, com ausência de
psicopatologia, certamente pelos recursos adequados, pessoais e sociais, que
detém. No entanto, mesmo sendo expectável que a resposta à doença se processe
em coerência com a sua história, é necessário estar atento a sinais de
depressão de modo a assegurar, se for o caso, a sua deteção e tratamento
precoces.
Aceitação
Gisela acabou por aceitar a doença e por se acomodar às alterações das
circunstâncias da sua vida. Desenhou objetivos e aspirações nesse novo
contexto, por fim assumido, evidenciados, por exemplo, no plano de que lhe seja
atribuída uma habitação em Portugal.
5. Considerações finais
Bloom15 observa que, no final do tratamento oncológico, já não são necessárias
tantas idas ao hospital, o contacto com os técnicos é mais esporádico, podendo
a família e amigos percecionar que a doença pertence ao passado. O doente pode,
então, sentir que o suporte social começou a diminuir, experimentando
dificuldades em integrar essa quebra. Na ausência de oportunidade para falar
com os familiares e amigos da Gisela, alertei-a antecipadamente para essa
possibilidade.
As pessoas sob elevado nível destress tendencialmente percebem a sua saúde de
forma mais negativa, procurando ajuda para lidar com sintomas que provavelmente
ignorariam noutras circunstâncias. Outras pessoas, pelo contrário, concentrando
os seus esforços nas mudanças exigidas pelos acontecimentos de vida, ignoram os
sintomas ou outras necessidades de saúde. É este o caso de Gisela, que passou a
descurar os procedimentos de prevenção secundária relacionados com a
hipertensão arterial. Numa fase de maior estabilidade da doença, espera-se que
readquira a sua atitude pró-ativa relativamente a este tipo de cuidados, o que
já lhe foi lembrado.
Wheis e Reiss16 alertam para o risco de existir um ajustamento psicológico
pobre quando as exigências da doença são altas. Nestes casos é necessária a
intervenção de terceiros, como a do médico, de modo a facilitar a ativação
plena das competências da família. Não é bem essa a situação da Gisela. Ela
mostrou-se, afinal, uma mulher resiliente que, tal como a sua família, possui
as competências necessárias para resolver os seus problemas. Assim, para além
do papel inicial no processo de diagnóstico da doença, a médica de família pôde
circunscrever o seu papel ao dar “assistência em viagem” no que às repercussões
do cancro da mama diz respeito.
Concluindo:
A distância dos serviços de saúde condiciona: a capacidade individual de obter
os cuidados de que necessita; o número e a amplitude das mudanças exigidas pelo
adoecer; o grau de preservação dos papéis desempenhados habitualmente; o
suporte social efetivo de que o doente pode usufruir; os custos associados ao
acesso, como desembolsos com transporte e com estadia longe de casa, tempo
perdido no trabalho, quebra no rendimento, despesas acrescidas para contratar
terceiros que assegurem tarefas domésticas que antes o próprio realizava e
gastos com meios de comunicação.
A acumulação de stressores, decorrentes da ausência de proximidade entre locais
da residência e de prestação de cuidados, bem como da ocorrência de outros
acontecimentos de vida, influencia a avaliação da situação de doença. Esta é
ainda mais negativa se a doença for estigmatizante e se o tratamento gerar
desfiguração corporal e efeitos adversos que interferem com o bem-estar físico.
A pessoa vai conhecendo melhor a doença à medida que lida com ela, fazendo
reavaliações sucessivas da mesma. As avaliações da situação de doença e o
coping são processos intrinsecamente associados, evoluindo em paralelo ao longo
do tempo, podendo a mesma pessoa usar uma grande variedade de estratégias, em
combinação ou sequencialmente.
O médico de família tem uma relação de suporte prévia à doença e conhece o
doente e o seu contexto biopsicossocial, pelo que está numa posição
privilegiada para detetar problemas e favorecer a adaptação funcional ao longo
do tempo. A sua intervenção deve ser sistémica e incluir a gestão de emoções do
doente e as suas próprias.