Depressa e bem, há pouco quem
CARTA À DIRECTORA
Depressa e bem, há pouco quem…
Haste makes waste
Maria do Carmo Gonçalves*
*Assistente de Medicina Geral e Familiar, USF Porto Centro
Endereço_para_correspondência | Dirección_para_correspondencia | Correspondence
No editorial¹ do número de Setembro/Outubro de 2013 da Revista Portuguesa de
Medicina Geral e Familiar (RPMGF), Raquel Braga, numa reflexão sobre os
indicadores de saúde e a contratualização, expõe, de forma clara e sem falsos
pudores, a ferida aberta na prestação de cuidados de saúde primários:
possibilitar, do ponto de vista clinico, tempo na consulta que permita dirigir
a atenção ao fundamental: ouvir a pessoa que está diante de nós.
No mesmo texto, uns parágrafos mais adiante, e a propósito de actividades,
entre as quais a consulta de hipocoagulação oral, que têm vindo, e cito, a ser,
empurradas, para o âmbito da consulta de Medicina Geral e Familiar sob o
pretexto de minorar custos”, afirma, com convicção, que não se trata de um
problema de competências ou de falta delas e não se trata de um problema de
falta de vontade; trata-se apenas de não sobrar espaço nem tempo aos Médicos de
Família para abarcarem mais do que o muito que já os ocupa e que mais ninguém
pode ou deve fazer por eles.
Não sou génio, nem idiota. Gosto muito de trabalhar, mas não quero ser
escravizada por ideias (e não ideais) avulsas e descontextualizadas das
condições e solicitações da prática clínica de hoje. Ora subo, ora desço a
encosta, mas estou seguramente dentro da “distribuição normal” dos médicos de
Medicina Geral e Familiar (MGF). Tenho sentido crítico e sei, como já sabe há
muito tempo “o povo”, que depressa e bem, há pouco quem. Por isso não posso
deixar de manifestar publicamente a minha sintonia com as reflexões da Dra.
Raquel Braga.
Por coincidência cronológica, e também a propósito da intenção de transferir
para a consulta de MGF, em carteira básica de serviços, a consulta de
hipocoagulação, um grupo de profissionais, aos quais me associei, elaborou um
documento dirigido aos seus superiores hierárquicos. Do meu conhecimento, esse
documento não se encontra publicado, nem divulgado em sítio de internet. No
entanto, os seus promotores concordaram em partilhar o seu conteúdo com os
leitores da RPMGF. Assim, nesse documento foram colocadas 5 questões, que passo
a transcrever:
1. Qual o limite presente e futuro para a transferência de responsabilidades
assistenciais para os Cuidados de Saúde Primários, sobretudo a serem propostas
como carteira básica de serviços?
2. Qual o impacto, em carga horária, que a transferência de cuidados de
controlo de hipocoagulados com cumarínicos para o âmbito dos CSP implica?
3. Como garantir o melhor nível de cuidados ao utente hipocoagulado sem
comprometer as restantes actividades assistenciais?
4. Qual a garantia de que esta transferência de responsabilidades na área
urbana do Porto ofereça aos utentes o melhor nível de cuidados?
5. Qual o impacto em termos de custo-efectividade desta medida na área urbana
do Porto?
Não sendo objectivo da minha carta divulgar o conteúdo integral dessa
“interpelação”, não posso deixar de partilhar a argumentação para a primeira
questão:
Efectivamente, na última década, promovido pelo caracter generalista e de
proximidade dos CSP, muitas foram as responsabilidades assistenciais
transferidas, algumas das quais outrora asseguradas por outro nível de cuidados
de saúde. Por outro lado, numa perspectiva médica, os utentes/doentes em CSP
evoluíram para um grau de complexidade clínica muito exigente: maior
longevidade, mais co-morbilidades, maior complexidade do regime terapêutico e
maior exigência na articulação de cuidados de saúde e sociais. A este contexto
clínico-assistencial, têm-se sobreposto outras exigências como a velocidade
como se produzem novos conhecimentos e novas evidências, desafiando a forma
como os profissionais, no terreno, os gerem e incorporam na prática clínica.
Também, nos últimos anos, e bem, numa perspectiva de accountability, iniciou-se
a monitorização dessas dinâmicas, quer pela avaliação de indicadores de
desempenho, quer pelos processos de auditorias clínicas.
Essas complexidades, associadas a promoção de taxas de utilização mais
elevadas, modificaram o paradigma da prestação de cuidados de saúde primários.
Este tem repercussões na relação procura-oferta de cuidados, que vem sendo
assegurada, dizendo de uma forma simplificada, em fazer mais e melhor no mesmo
ou em tempos de consulta mais reduzidos.
Sobre a consulta de hipocoagulação, a Associação Nacional das Unidades Saúde
Familiar (USF-AN) emitiu, no final de 2013, o parecer jurídico 0099, onde
conclui que: a consulta de Hipocoagulação continua a ser, indubitavelmente,
carteira adicional de serviços.