Prevalência da cárie Dentária nas crianças observadas nas consultas de Exame
global de saúde dos 5/6 anos e fatores associados: Estudo DENTEX
CARTA À DIRECTORA
Prevalência da cárie Dentária nas crianças observadas nas consultas de Exame
global de saúde dos 5/6 anos e fatores associados - Estudo DENTEX
Prevalence of dental caries found on general examination of five and six year-
old children - The DENTEX Study
Inês Dias,* Ana Raquel Gonçalves,** Luís Caldeira,*** Daniel Almeida
Fernandes,*** João Portela Ribeiro*
*Médicos Internos de Medicina Geral e Familiar na USF + Carandá (Braga)
**Médica Interna de Medicina Geral e Familiar na UCSP Ponte da Barca
***Médicos Internos de Medicina Geral e Familiar na USF Aquae Flaviae (Chaves)
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Nos últimos 20 anos, Portugal tem desenvolvido programas de promoção da saúde e
prevenção das doenças orais, dirigidos prioritariamente à população infanto-
juvenil, e cuja monitorização tem sido feita pela Direcção-Geral da Saúde.
Estes programas baseiam-se numa estratégia global de intervenção que foca a
promoção da saúde ao longo do ciclo de vida, em contexto familiar e nos
ambientes específicos que as crianças frequentam, nomeadamente o jardim-de-
infância e a escola. Apesar de uma evolução favorável (a percentagem de
crianças livres de cárie dentária aos 6 anos passou de 10% em 1986 para 51% em
2006), existe ainda uma elevada prevalência de cárie. A meta estabelecida pela
Organização Mundial de Saúde para a Região Europeia em 2020 é de 80% de
crianças livres de cárie dentária aos 6 anos.1 Os hábitos alimentares e de
higiene oral, o nível socioeconómico familiar e a história clínica da criança
são fatores que podem influenciar a suscetibilidade para o desenvolvimento de
cáries.2 Deste modo, os conhecimentos corretos e os comportamentos adequados
são essenciais para reduzir estes riscos, já que a cárie e as doenças
periodontais traduzem-se em elevada vulnerabilidade e cuja prevenção se traduz
em custos económicos reduzidos e ganhos em saúde relevantes.1,2 O Médico de
Família (MF) desempenha um papel privilegiado na prevenção ativa da cárie
dentária, uma vez que há um acesso limitado às consultas de Estomatologia e
Medicina Dentária. Por ser um dos responsáveis pelas consultas de vigilância de
saúde infantil, o MF possui oportunidades de intervenção, que incluem a
divulgação sistemática de medidas de educação alimentar com o objetivo de
reduzir a exposição a fatores de cariogenicidade, a promoção de medidas de
higiene oral, a adequação terapêutica nas situações de medicação crónica, a
avaliação do risco individual de cárie e a orientação das lesões para
tratamento diferenciado.3,4
O estudo DENTEX teve como objetivo a quantificação da prevalência da cárie
dentária e a caraterização dos comportamentos em relação à saúde oral para
identificar os principais determinantes de cárie dentária da população
estudada. Consistiu num estudo transversal analítico, usando um questionário a
cuidadores de crianças nascidas em 2006 e da observação da dentição das
crianças e respetivos cuidadores de três Unidades de Saúde. Analisou-se a
percentagem de crianças livres de cárie na dentição decídua e definitiva. Para
a avaliação do estado da dentição utilizaram-se os índices de dentes cariados,
perdidos e obturados na dentição decídua (cpod) e definitiva (CPOD).
A prevalência da cárie dentária nas crianças de 5/6 anos na consulta de Exame
Global de Saúde na população estudada foi de 46,7% (53,3% livres de cárie
dentária). O índice cpod foi de 0,19. Nas dez crianças que apresentavam
dentição definitiva, o seu índice CPOD médio era de 0,02. A percentagem de
crianças livres de cárie foi ligeiramente inferior à nacional e ainda muito
abaixo da meta estabelecida pela OMS para 2020. Nesse sentido, as medidas
preventivas da cárie dentária e de incentivo à higiene oral, assim como a
observação dentária, devem ser sistematicamente reforçadas em todas as
consultas de vigilância.
Encontraram-se diferenças estatisticamente significativas entre a ida ao
dentista no último ano e maior prevalência de cárie, e entre o uso de fio
dentário pelo cuidador e a menor prevalência de cárie. Não foram encontrados
resultados estatisticamente significativos relativamente a outros hábitos de
higiene oral da criança e do seu cuidador, antecedentes clínicos da criança,
prevalência de cárie no cuidador e nível socioeconómico da família.
Mais do que respostas definitivas, este estudo reforça a importância da
observação, orientação, ensino de hábitos de higiene oral à criança e da
prevenção de cáries dentárias nesta faixa etária. As medidas preventivas da
cárie dentária e de incentivo à higiene oral devem ser reforçadas desde a
erupção dos primeiros dentes através do ensino dos hábitos de higiene oral
adequados a toda a família.
Apesar da limitação técnica da observação dentária em Cuidados de Saúde
Primários, esta deve estar presente em todas as consultas de vigilância, como
forma de motivação da manutenção da higiene oral e diagnóstico precoce de cárie
dentária. A utilização do cheque-dentista é um instrumento de articulação com a
Medicina Dentária, permitindo contornar as limitações de observação e
diagnóstico.
Será importante a realização de mais estudos, com uma população maior, para que
se obtenham resultados estatisticamente significativos no que concerne à
relação entre os determinantes da saúde oral e a prevalência de cárie dentária.