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EuPTCVHe2182-51732013000300007

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN2182-5173
Year2013
Issue0003
Article number00007

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Um caso típico de Síndrome de Sweet

INTRODUÇÃO A Síndrome de Sweet é uma dermatose neutrofílica caracterizada por início súbito de febre, leucocitose e lesões cutâneas eritemato-violáceas, com infiltrado dérmico por neutrófilos. uma predominância desta patologia no sexo feminino.1 A sua patogénese permanece desconhecida mas pensa-se que resulta de uma reacção de hipersensibilidade a um antigénio de origem tumoral, bacteriano ou viral.2 Associa-se, em 50% dos casos, a outras patologias como doenças infecciosas, inflamatórias, auto-imunes e, sobretudo, neoplásicas, podendo estar também associada a gravidez e a fármacos.3,4 Aproximadamente 20-25% dos doentes com esta patologia têm uma neoplasia associada (na maioria dos casos hematológica, mas também pode acompanhar o cancro da mama, gastrointestinal e genito- urinário).5,6 Esta síndrome pode manifestar-se em simultâneo com a neoplasia7, antecedê-la em até 11 anos2 ou sinalizar uma recorrência de uma doença em remissão.7 O objectivo desta apresentação é alertar o médico de família (MF) para esta patologia, enumerando os critérios necessários ao seu diagnóstico, facilitando a sua suspeição e encaminhando atempada e adequadamente o doente para confirmação diagnóstica.

DESCRIÇÃO DO CASO P.P., sexo feminino, 47 anos, raça caucasiana, casada mas em processo de divórcio, com o ano de escolaridade, desempregada 2 anos.

Quanto a antecedentes pessoais fisiológicos, tem uma alimentação variada, nega hábitos etílicos e tabágicos, faz caminhadas regulares, é normoponderal (IMC 22,5 kg/m2), teve a menarca aos 12 anos, IV Gesta II Para (interrupção voluntária da gravidez aos 18 anos, feto morto aos 23, nasceu a primeira filha aos 26 anos e a segunda aos 40 anos). Nega antecedentes pessoais patológicos relevantes, incluindo medicação crónica, alergias alimentares ou medicamentosas. Pertence a uma família alargada, altamente funcional de acordo com o Apgar familiar de Smilkstein, da classe média baixa de Graffar e sem critérios de risco familiar pelas escalas de Imperatori e Segovia-Dreyer.8 Recorre à consulta com febre (temperatura axilar: 38-39ºC), tosse seca e mialgias generalizadas com 5 dias de evolução. Dois dias após início do quadro febril surge subitamente rash cutâneo na face interna do braço direito (figura 1). Nega prurido e refere que a lesão cutânea é dolorosa ao toque digital e até com a própria roupa. Recorreu por iniciativa própria à farmácia e tem aplicado nos últimos três dias um corticóide tópico (0.1% valerato de dexametasona creme) que não surtiu efeito e foi descontinuado antes da primeira consulta.

Ao exame físico, não apresenta alterações na inspecção da cavidade oral, nem na auscultação cardiopulmonar. Observam-se duas erupções cutâneas em pápulas eritematosas, circulares, com uma descoloração amarelada central na face interna do braço direito. Uma lesão tem cerca de 1,5 cm e a outra aproximadamente 3 cm. A restante pele apresenta-se íntegra.

Foram colocadas as hipóteses diagnósticas do Quadro_I, pediram-se análises laboratoriais (hemograma com leucograma, velocidade de sedimentação, proteína C reactiva, ANCA Anticorpo anti-citoplasma do neutrófilo), referenciou-se a utente para a consulta de Dermatologia e deu-se indicação para fazer antipirético caso necessitasse.

Na consulta de seguimento, cerca de um mês e meio depois, não apresenta síndrome gripal.

Na consulta de Dermatologia foi efectuada biópsia da lesão cujo resultado histopatológico foi compatível com infiltração neutrofílica na derme, sem atingimento vascular. Ao exame objectivo, as lesões cutâneas praticamente desapareceram.

A utente trouxe o resultado da avaliação laboratorial requerida na primeira consulta e que foi colhida alguns dias após o inicio dos sintomas [(hemoglobina 11,5 mmol/L; leucócitos 16,6 G/L com 96% de polimorfonucleares; velocidade de sedimentação 20mm/h; anticorpo anti-citoplasma do neutrófilo (ANCA) negativo; proteína C reactiva 3,42 mg/dl].

Fez-se o diagnóstico definitivo de Síndrome de Sweet e foi prescrita metilprednisolona 40 mg/dia (toma única) na primeira semana, 30 mg na segunda semana, 20 mg na terceira semana e 10 mg nas duas semanas seguintes às 8 horas.

COMENTÁRIO O MF, sendo muitas vezes o primeiro contacto dos utentes com sistema de saúde, tem o papel de abordar inicialmente várias patologias. Daí a importância de conhecer as manifestações clínicas cardinais desta síndrome e que são: erupção cutânea, infiltrado neutrofílico dérmico sem atingimento vascular (verificado na biópsia); febre (40-80% dos doentes) e neutrofilia periférica.3,9 As lesões cutâneas são normalmente evocadoras da doença e consistem em pápulas ou placas eritematosas de coloração vermelho ou violeta com uma superfície irregular pseudovesicular e uma descoloração central, amarelada. As placas podem causar dor e/ou sensação de queimadura, mas não são pruriginosas. São mais frequentemente encontradas na face, pescoço e extremidades superiores, especialmente no dorso das mãos. Cerca de 3 a 30% dos pacientes apresentam lesão na cavidade oral, podendo apresentar-se como pústula e evoluir para úlcera mais tarde. Podem ser lesões múltiplas, generalizadas em qualquer parte do corpo, podendo também haver uma lesão localizada. Nas extremidades inferiores, as lesões são frequentemente confundidas com eritema nodoso, particularmente em doentes com a variante subcutânea rara de Síndrome de Sweet.10-12 Para além das características acima referidas, podem ocorrer: insuficiência renal aguda, osteomielite estéril, alveolite neutrofílica, patologia ocular (conjuntivite, episclerite e iridoclerite). Cerca de um terço dos doentes refere artralgia, mialgia e artite (poliarticular, assimétrica, inflamatória, não erosiva e de actividade paralela ao curso da doença). Todas estas manifestações respondem a corticoterapia sistémica.3,10,13,14 As alterações laboratoriais são inespecíficas, incluindo uma elevação da velocidade de sedimentação e da proteína C-reativa, neutrofilia periférica, diminuição ligeira da hemoglobina, elevações ligeiras da fosfatase alcalina sérica, da aspartato aminotransferase e da gama-glutamil transferase. Têm sido descritos auto-anticorpos contra citoplasma dos neutrófilos (ANCA) num padrão perinuclear, com padrão de fluorescência fraco e difuso.15 Para o diagnóstico de Síndrome de Sweet são necessários dois critérios major e dois minor (ver quadro_II).16

Caracteristicamente, à histopatologia são visíveis infiltrados nodulares neutrofílicos perivasculares, com cariorréxis neutrofílica. Embora não exista vasculite primária, os vasos sanguíneos podem ser secundariamente envolvidos na resposta imunológica, um achado infrequente.11,17-19 A Síndrome de Sweet faz diagnóstico diferencial com diversas lesões cutâneas (ver quadro_I) e pode estar associada a qualquer uma das patologias acima citadas.

A associação desta síndrome a neoplasia ocorre em 20-25% dos casos,7 podendo as manifestações cutâneas ocorrer em simultâneo com a neoplasia,7 antecedê-la em até 11 anos2 ou sinalizar uma recorrência de uma doença em remissão.7 Não existem no momento atual normas de orientação clínica ou documentos de consenso de sociedades científicas relativamente a doentes com primeira manifestação de Síndrome de Sweet, sem aparente patologia associada. A utente foi submetida a avaliação para exclusão de patologia neoplásica à luz das recomendações de Charles e Cohen,2 com resultados negativos. Segundo os autores, em pessoas assintomáticas sem antecedentes neplásicos conhecidos e com uma primeira manifestação de Síndrome de Sweet, recomenda-se um rastreio de doença neoplásica adequado à idade (os autores sugerem um rastreio guiado pelas recomendações da American Cancer Society, sendo que adaptámos as recomendações à nossa realidade e aplicámos as normas da Direção Geral de Saúde para esse efeito).2 Tendo em conta que 85% dos cancros associados a esta síndrome são hematológicos7, podendo suceder esta doença em muitos anos, a doente tem indicação para realização de hemograma com leucograma a cada 6-12 meses,2 encontrando-se programado esse exame.


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