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EuPTCVHe2182-51732013000200007

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN2182-5173
Year2013
Issue0002
Article number00007

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Tratamento da exacerbação da asma na criança com inaladores pressurizados de dose controlada e câmara expansora: dose segura e eficaz de salbutamol

Introdução O objectivo do tratamento da asma é atingir e manter o seu controlo clínico. A terapêutica inalatória é a base do tratamento pelas suas características de eficácia e segurança. Os agonistas β2 de rápida acção constituem o tratamento de primeira linha nas crises de asma, sendo o salbutamol o fármaco mais usado no nosso país.1 O método habitual para administração da terapêutica inalatória de alívio no Serviço de Urgência (SU) tem sido a nebulização,1 no entanto são várias as desvantagens apontadas ao uso dos nebulizadores, nomeadamente o facto de serem pouco portáteis, ser necessária uma fonte de energia e de gás pressurizado, ser um tratamento demorado, ser necessária a limpeza do aparelho, haver risco de contaminação, existir variabilidade com diferentes aparelhos, ser dispendioso, entre outras.2 Comparativamente, a utilização de inaladores pressurizados de dose controlada (MDI) com câmara expansora tem diversas vantagens, nomeadamente a curta duração do tratamento, a menor possibilidade de contaminação e a elevada reprodutibilidade das doses.2,3 Vários estudos demonstraram a boa relação custo-eficácia da utilização de MDI com câmara expansora nas crises leves a moderadas de asma em crianças. Ploin e colaboradores4 efectuaram um estudo comparativo entre administração de salbutamol através de MDI com câmara expansora e através de nebulizador, concluindo que a eficácia dos dois tratamentos foi semelhante, apontando uma melhor tolerabilidade nos casos que utilizaram MDI com câmara expansora. Assim, de acordo com este e outros estudos semelhantes, a aerossoloterapia com salbutamol através de MDI com câmara expansora passou a ser o método de escolha segundo as principais Normas de Orientação Clínica (NOC) nacionais5 e internacionais,6-10 sendo o uso dos nebulizadores feito apenas a título excepcional e devidamente fundamentado.

Porém, não é consensual a equivalência de doses entre o salbutamol nebulizado e o administrado mediante MDI com câmara expansora. A dose mais habitual de salbutamol nebulizado é de 0,15 a 0,2 mg/kg/dose e diversos estudos defendem proporções muito díspares entre MDI e nebulização, com valores que vão dos 1: 2 a 1:10 (MDI:nebulização).4,11-16 A dose de salbutamol recomendada no resumo das características do medicamento, de 100 a 200 μg (um a dois puffs), poderá ser inadequada, uma vez que as actualizações das NOC internacionais apresentam recomendações com doses superiores. Contudo, parece haver alguma relutância por parte da classe médica em utilizar doses superiores, talvez por receio dos possíveis efeitos secundários, como taquicardia, trémulo, cefaleias, hipocaliémia, entre outros.17-19 Por outro lado, a exposição sistémica em indivíduos jovens pode ser menor do que a esperada por estes apresentarem uma deposição do fármaco nas vias aéreas superiores e uma clearance pulmonar aumentadas. Assim, as crianças mais novas parecem estar protegidas contra a exposição sistémica excessiva. A prática comum de reduzir a dose em crianças mais jovens com medo de exposição sistémica excessiva pode, desta forma, acarretar o uso de doses possivelmente sub- terapêuticas.20 Neste sentido, os autores propõem-se com este trabalho determinar a dose segura e eficaz de salbutamol a utilizar por MDI com câmara expansora no tratamento de crianças com exacerbações ligeiras a moderadas de asma.

Metodologia Realizou-se uma pesquisa de NOC, meta-análises, artigos de revisão e estudos originais, na Pubmed e em bases de dados online de Medicina Baseada na Evidência (TRIP Database, National Guideline Clearinghouse, Guidelines Finder, The Cochrane Library, DARE, Bandolier, MEDLINE), Índex de Revistas Médicas Portuguesas e referências bibliográficas dos artigos seleccionados. Para a pesquisa foram utilizados os termos Medical Subject Headings (MeSH), Asthma/ therapy e Albuterol/administration and dosage, ou as palavras-chave Asthma e Albuterol nas bases de dados que não suportam pesquisa por termos MeSH. No Índex de Revistas Médicas Portuguesas a pesquisa foi realizada com os termos Asma e Salbutamol.

Foram pesquisados artigos publicados entre Janeiro de 2002 e Dezembro de 2012, em Inglês, Português, Castelhano e Francês.

Foram definidos os seguintes critérios de inclusão: População: crianças até aos 18 anos com diagnóstico de asma e com exacerbações ligeiras a moderadas; Intervenção: salbutamol por MDI com câmara expansora com doses acima do preconizado, isto é superiores a um ou dois puffs; Comparação: salbutamol por MDI com câmara expansora nas doses preconizadas, um a dois puffs; Outcome: melhoria clínica e ausência de efeitos laterais significativos.

Foram excluídas as crianças sem diagnóstico de asma prévio e as que se encontravam com exacerbações graves.

Para avaliação da qualidade dos estudos e atribuição da força de recomendação foi utilizada a escala Strenght of Recommendation Taxonomy (SORT) da American Family Physician (Quadro_I).

Resultados Foram encontrados 425 artigos, dos quais 108 artigos no TRIP Database, 16 na National Guideline Clearinghouse, 19 no The Cochrane Library, 53 no DARE, 211 na Pubmed e 18 artigos no Índex de Revistas Médicas Portuguesas. Foram excluídos os artigos repetidos, os não concordantes com os objectivos ou os que não cumpriam os critérios de inclusão, o que resultou numa selecção de 53 artigos para leitura.

Destes, foram seleccionados sete artigos para inclusão nesta revisão: cinco NOC e dois EC, porque os restantes 46 artigos lidos não preenchiam totalmente os critérios de inclusão.

Normas de Orientação Clínica As forças de recomendação atribuídas pelas cinco NOC analisadas foram convertidas para a taxonomia SORT.

A dose de salbutamol recomendada pelo GINA6 é de dois a quatro puffs a cada 20 minutos na primeira hora, seguida de repetições de dois a quatro puffs a cada 3-4 horas, na crise ligeira, ou seis a dez puffs a cada 1-2 horas, na crise moderada. Embora seja explicada a metodologia utilizada na elaboração desta NOC, no que diz respeito à dose de salbutamol, não é explícita a força de recomendação ou os estudos em que se baseia, pelo que os autores atribuíram uma força de recomendação C, correspondente a um consenso de peritos.

A British Thoracic Society (BTS)8 emitiu uma NOC para o tratamento da asma em crianças com idade superior a dois anos. Os autores recomendam o uso de dois a quatro puffs a cada 20 min, até um máximo de dez puffs por dose, com força de recomendação C, uma vez que não especifica que estudos lhe deram origem.

A recomendação emitida em 2009 pelo Department of Veteran Affairs, Va/DoD”,7 preconiza uma dose de dois a seis puffs a cada 20 minutos, para crianças com seis ou mais anos de idade. Mais uma vez não é especificada a força de recomendação relativa à dose de salbutamol a utilizar, pelo que os autores atribuem uma força de recomendação C a esta orientação.

O National Medical Research Council (Singapore Ministry of Health)9 recomenda uma dose de quatro a oito puffs ou 0,2-0,3 puffs/kg a cada 20 minutos (com um máximo de 10 puffs/dose), com uma força de recomendação A, que é compatível com a força de recomendação A da escala SORT, uma vez que esta sociedade afirma basear esta recomendação em estudos de elevada qualidade (meta-análises, revisões sistemáticas de ensaios clínicos controlados e aleatorizados e ensaios clínicos controlados e aleatorizados).

Em 2007, o National Heart, Lung, and Blood Institute10 emitiu a recomendação de utilização de quatro a oito puffs a cada 20 min na primeira hora. Os autores atribuíram uma força de recomendação C uma vez que não é clara a sustentação científica utilizada.

Ensaios clínicos Bønnelykke et al20 realizaram um ensaio clínico não aleatorizado com 65 crianças, dos três aos dezasseis anos, com asma leve a moderada. Todas as crianças fizeram uma inalação de quatro puffs de salbutamol através de um MDI com câmara expansora, independentemente da idade. Foi medido o valor sérico de salbutamol 20 minutos após a inalação constatando-se que, para doses semelhantes, a exposição sistémica é menor nas crianças mais novas. Concluíram então que a dose de salbutamol administrada através de MDI com câmara expansora deve ser ajustada à idade ou tamanho e não apenas ao peso pois tal causa redução da exposição em crianças mais novas com o risco correspondente de dosagem sub-óptima. Não foram relatados quaisquer efeitos laterais no estudo.

Como limitações, este estudo apresenta uma «disease oriented evidence» (DOE), pois avalia o valor sérico de salbutamol. No entanto, foi incluído na revisão, uma vez que um dos outcomes avaliados pelos autores é a ausência de efeitos laterais significativos com doses mais elevadas de salbutamol do que as preconizadas. Trata-se de um ensaio clínico não aleatorizado, com uma amostra reduzida, pelo que se atribuiu um nível de evidência 3.

Fernández et al21 realizou um ensaio clínico aleatorizado com dupla ocultação, que incluiu 324 crianças entre os 2 e os 14 anos, com diagnóstico prévio de asma, e que se dirigiram ao SU por uma exacerbação. Estabeleceram-se dois grupos de tratamento: um grupo de crianças recebeu um número de puffs equivalente a metade do seu peso e o outro grupo recebeu um número de puffs equivalente a um terço do seu peso (mínimo de cinco puffs e máximo de vinte puffs por dose administrada). As doses foram repetidas a cada 20 minutos até três vezes. Os efeitos avaliados foram o valor do Pulmonary Score, que consiste numa escala validada para avaliação de gravidade e tem como base critérios clínicos (frequência respiratória, alterações auscultatórias e uso de músculos acessórios da respiração) e a saturação de oxigénio por oximetria de pulso. Não se encontraram diferenças estatisticamente significativas em nenhum dos outcomes avaliados entre os dois grupos. Não foram descritos efeitos laterais significativos para ambas as doses. Trata-se de um ensaio clínico com bom desenho de estudo cuja amostra apresentava as mesmas características em ambos os grupos, tanto à chegada ao SU como após o tratamento. O estudo avaliou outcomes clínicos através de uma escala validada, sendo classificada com Nível de Evidência 1. De salientar que a dose mínima utilizada neste estudo foi de cinco puffs, sendo mais elevada do que as preconizadas nas NOC emitidas pela British Thoracic Society e GINA. Ver resumo dos resultados no Quadro_III.

Discussão/Conclusão Os estudos publicados até à data apontam para uma utilização de dois a oito puffs a cada 20 min na primeira hora. Esta heterogeneidade observa-se nos diversos estudos, com as NOC a sugerirem dois a quatro, dois a seis ou quatro a oito puffs. Os ensaios clínicos apontam para doses superiores, podendo atingir os 20 puffs por dose. É de realçar que os estudos de maior qualidade recomendam doses mais elevadas de salbutamol, mínimo de quatro a oito puffs.

Assim, os autores desta revisão consideram que existe segurança na administração de quatro a oito puffs por dose para o tratamento da exacerbação ligeira a moderada de asma em idade pediátrica com Força de Recomendação B.

Cada dose não deverá ultrapassar os 10 puffs (Força de Recomendação B). Em relação à regularidade das tomas, na primeira hora está descrita em todos os artigos a repetição a cada 20 minutos da mesma dose, período após o qual deverá ser administrado em intervalos de 1-4h.

Em relação aos efeitos adversos, todos os ensaios clínicos apresentaram ausência de efeitos laterais significativos com as doses instituídas.

Os estudos analisados possuem algumas limitações, nomeadamente escassez de estudos direccionados para a avaliação da dose mínima eficaz de salbutamol, curta duração e desenhos de estudo heterogéneos.

São necessários mais estudos controlados e aleatorizados, de longa duração e de elevada qualidade, sobre a determinação da dose e intervalo de repetição após a primeira hora assim como a dose máxima por dia. Carece também de estudo a determinação da dose a utilizar em crianças com menos de dois anos, visto nestas ser provavelmente necessária uma maior dose/kg devido à fisiologia inerente a esta faixa etária, o que acarreta o risco de dosagem sub- terapêutica. A área dos medicamentos administrados a crianças levanta questões éticas, o que poderá contribuir para a escassez de bibliografia.


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