Revascularização dos membros inferiores a partir da aorta ascendente: caso
clínico
Introdução
A realização de pontagens toraco-femorais, que permitem a revascularização
dos membros inferiores a partir da aorta torácica, apesar de tecnicamente
exequÃveis, representam uma opção técnica incomum.
Estes procedimentos podem ser realizados em doentes já submetidos a
revascularização a partir da aorta infrarrenal ou se existirem motivos que
diï¬cultem ou impeçam a abordagem da aorta infrarrenal por via trans ou
retroperitoneal.
O uso da aorta torácica ascendente (ATA) como fonte de inï¬owpara os membros
inferiores está, na prática clÃnica, frequentemente reservado aos doentes
que, além de doença obstrutiva periférica do setor aorto-ilÃaco, apresentam
patologia valvular ou coronária que exija cirurgia simultânea. Os autores
descrevem um caso clÃnico em que foi construÃda uma pontagem da ATA para
ambas as artérias femorais comuns.
Caso clÃnico
Tratava-se de um doente do sexo masculino, de 58 anos de idade, que se
encontrava internado no serviço de cirurgia cardiotorácica por
insuï¬ciência cardÃaca congestiva descompensada (classe III-IV da
classiï¬cação funcional da New York Heart Association). A sintomatologia
derivava da existência de estenose grave de válvula aórtica bicúspide
(velocidade máxima de ï¬uxo pela válvula aórtica [V max] de 4,34 m/s e
gradiente médio transvalvular aórtico de 52 mmHg). Consequentemente,
apresentava disfunção biventricular (ventrÃculo esquerdo dilatado com
hipocinesia difusa grave e fração de ejeção de 12%; dilatação e
hipertroï¬a do ventrÃculo direito com função sistólica comprometida);
hipertensão pulmonar (HTP) grave (pressão sistólica na artéria pulmonar de
72 mmHg), dilatação biauricular e ï¬brilação auricular (FA) permanente.
Simultaneamente, apresentava pequenas zonas de necrose nas extremidades distais
de D3, D4 e D5 do pé esquerdo, correspondendo a isquemia grau IV segundo a
classiï¬cação de Leriche-Fontaine. Não apresentava qualquer sintomatologia
adicional. Ao exame fÃsico era evidente a ausência de pulsos femorais,
poplÃteos ou distais palpáveis, bilateralmente.
Considerou-se que o quadro de isquemia teria uma origem multifatorial devido Ã
existência das seguintes patologias:
-coartação grave da aorta ao nÃvel do istmo (com lúmen permeável < 2 mm)
com dilatação pós-estenótica (50 mm de diâmetro máximo), nunca submetido
a qualquer tipo de tratamento cirúrgico prévio (ï¬g._1);
-disseção crónica da aorta tipo B, com inÃcio a jusante da coartação e
extensão até à ilÃaca primitiva esquerda. Os lúmenes são vascularizados
por circulação colateral derivada de ramos dos troncos supra-aórticos. Os
ramos viscerais originam-se do lúmen verdadeiro excetuando a artéria renal
esquerda que tem origem do falso lúmen. O doente nunca foi submetido a
qualquer tipo de tratamento cirúrgico prévio desta patologia (ï¬g._2);
-oclusão da artéria ilÃaca externa esquerda (ï¬g._3).
O doente não apresentava doença arterial periférica obstrutiva ou
aneurismática ao nÃvel do sector infrainguinal.
Para além das patologias já descritas, o doente apresentava também
insuï¬ciência renal crónica (IRC) estádio 3 (taxa de ï¬ltração
glomerular pré-operatória calculada de 58,17 ml/min) e doença pulmonar
obstrutiva crónica (DPOC) grave.
Assim, a coexistência das várias morbilidades descritas é responsável por
um muito elevado risco cirúrgico. O doente foi submetido a tratamento
cirúrgico com o objetivo de realizar, no mesmo tempo operatório, a
revascularização dos membros inferiores e a substituição da válvula
aórtica.
O procedimento foi iniciado pela realizaçãodeuma esternotomia mediana e
posterior abertura vertical do pericárdio para exposição da aorta
ascendente. Em seguida, foi efetuado o isolamento das artérias femorais
comuns, artérias femorais superï¬ciais e artérias femorais profundas.
A ATA foi clampada tangencialmente na sua face antero-externa e foi feita uma
arteriotomia vertical com cerca de 2-3 cm. Foi usada uma prótese de Dacron 10
mm bifurcada e realizada inicialmente a anastomose proximal. A tunelização da
prótese foi efetuada de modo a que esta passasse num plano entre a aponevrose
posterior e a face posterior dos músculos abdominais. As anastomoses femorais
foram realizadas em seguida (ï¬gs._4 e 5).
Posteriormente, o doente foi colocado em circulação extracorporal (com
canulação da ATA e do conduto protésico) e realizada a substituição
valvular aórtica (colocação de válvula biológica Carpentier Edwards
Perimount 25 mm). O tempo total de cirurgia foi de 340 minutos e o tempo de
circulação extracorporal de 98 minutos.
Após a cirurgia o doente evoluiu favoravelmente, sem intercorrências, tendo
alta hospitalar ao 13.â¦dia pós-operatório, encontrando-se atualmente em
seguimento. Apresenta aumento da capacidade funcional e cicatrização das
lesões existentes no membro inferior. O ecocardiograma realizado um mês após
a cirurgia revelava uma melhoria substancial da fração de ejeção em
relação ao perÃodo pré-operatório de 12 para 32%.
Discussão
A revascularização dos membros inferiores a partir da aorta ascendente
oferece as seguintes vantagens: 1) uma vez realizada a esternotomia e o
isolamento da aorta ascendente é um procedimento simples e relativamente
fácil de executar; 2) não exige uma abordagem intraperitoneal; 3) ao
contrário da pontagem axilo-bifemoral, a prótese é posicionada por trás dos
músculos abdominais e, portanto, não é visÃvel, palpável ou compressÃvel;
4) é possÃvel um tempo de internamento relativamente baixo e uma
recuperação pós-operatória rápida.
Na série publicada por Baird et al.1, a qual compreende 28 doentes submetidos
a pontagem aorta-ascendente-bifemoral, a taxa de permeabilidade a longo prazo
(aos 5 anos) foi de 70%. Este valor é bastante aceitável e substancialmente
superior à de uma pontagem axilo-bifemoral2,3.
Contudo, apesar das vantagens teóricas, é um procedimento raramente realizado
devido à invasibilidade inerente a uma esternotomia4. Assim, este procedimento
é, por norma, realizado apenas em alguns doentes com isquemia crÃtica dos MI
que simultaneamente apresentam necessidade de revascularização coronária ou
de correção valvular.
Conclusão
O presente trabalho pretende expor a associação peculiar entre estenose
aórtica, coartação da aorta, disseção tipo B e doença arterial
periférica. Esta situação clÃnica exigiu a realização de um procedimento
raro, complexo e que é um excelente exemplo dos benefÃcios da colaboração
multidisciplinar entre cirurgiões vasculares e cirurgiões cardiotorácicos.
Responsabilidades éticas
Proteção de pessoas e animais.Os autores declaram que para esta
investigação não se realizaram experiências em seres humanos e/ou animais.
Conï¬dencialidade dos dados.Os autores declaram ter seguido os protocolos do
seu centro de trabalho acerca da publicação dos dados de pacientes.
Direito à privacidade e consentimento escrito. Os auto-res declaram ter
recebido consentimento escrito dos pacientes e/ou sujeitos mencionados no
artigo. O autor para correspondência deve estar na posse deste documento.
Conï¬ito de interesses
Os autores declaram não haver conï¬ito de interesses.
Bibliograï¬a
1. Baird RJ, Suma H, Sato H, et al. Combined revascularization. of coronary and
femoral arteries: A proposed alternative. Ann Thorac Surg. 1989;48:434-6.
2. Maiza D, Berger L. Encyclopédie médico-chirurgicale, Remplacement aorto-
iliaque par pontages extra-anatomiques. Masson: Elsevier; 2009.
3. Jebara VA, Fabiani JN, Acar C, et al. Combined coronary and femoral
revascularization using an ascending aorta to bifemoral bypass. Arch Surg.
1994;129:275-9.
4. Jack L. Cronenwett and Wayne Johnston. In: Rutherfordâs Vascular Surgery.
7th Edition Saunders; 2010.
*Autor_para_correspondência:
Correio eletrónico:rferreirabreu@hotmail.com (R. Abreu).
Recebido a 25 de agosto de 2014;
Aceite a 9 de novembro de 2014
DisponÃvel na Internet a 9 de março de 2015