Isquemia mesentérica «crónica agudizada»: a multidisciplinaridade subjacente ao
sucesso terapêutico?
Introdução
A isquemia mesentérica aguda é uma patologia cuja baixa frequência (cerca de
0,1% das admissões hospitalares)1está em contraponto com uma elevada taxa de
mortalidade (3065%)2. Os casos devidos a trombose arterial aguda ocorrem
geralmente em sobreposição com lesões ateroscleróticas graves da placa
visceral, correspondendo muitas vezes a quadros de agudização de um processo
patológico crónico. De facto, as formas «crónicas agudizadas» de isquemia
mesentérica não são incomuns e muitos doentes com um quadro agudo têm
história prévia de sintomas sugestivos de isquemia crónica3. As técnicas
endovasculares têm vindo a ganhar terreno na revascularização do território
visceral, sobretudo nos casos de isquemia crónica. No entanto, nas
apresentações agudas e com atingimento comprovado ou suspeito da viabilidade
intestinal, a revascularização cirúrgica convencional continua a ser a
abordagem preferencial. Os autores apresentam 2 casos de isquemia mesentérica
«crónica agudizada» tratados por via convencional com resultados positivos.
Caso clÃnico 1
Homem de 76 anos, hipertenso e com antecedentes de bypassaorto-bifemoral em
2007, com múltiplos internamentos em gastrenterologia por quadro insidioso de
desconforto abdominal, sobretudo nos quadrantes superiores, acompanhado de
vómitos biliosos sem relação com a ingestão alimentar e dejeções
diarreicas incaracterÃsticas ocasionais. Paralelamente apresentava história
de perda ponderal de 10 kg no espaço de 3 meses. Realizou endoscopia digestiva
alta que mostrou edema marcado da mucosa gástrica com múltiplas úlceras
serpiginosas profundas e de grandes dimensões (ï¬g._1). O exame histológico
foi compatÃvel com gastropatia isquémica. Realizou angiograï¬a por
tomograï¬a computorizada (angio-TC) que mostrou doença aterosclerótica
ostial da placa visceral, com estenose marcada do tronco celÃaco e seus ramos,
bem como trombo oclusivo na artéria mesentérica superior a cerca de 16 mm da
origem (ï¬gs._2-4). A avaliação funcional cardÃaca e respiratória não
revelou alterações de relevo. Submetido a revascularização cirúrgica
através de bypassprotésico-artéria hepática comum e bypassprotésico-
mesentérica superior com PTFE de 8 mm. Intraoperatoriamente constatou-se
necrose do Ãleo terminal e cego com abcesso para-cecal, pelo que se procedeu a
ressecção ileocólica direita com ileostomia terminal (a cerca de 180 cm do
ângulo de Treitz) e fÃstula mucosa. Ao 8.â¦dia de pós-operatório
desenvolveu quadro de hemoperitoneu com ponto de partida em laceração
esplénica, tendo sido efetuada esplenectomia de necessidade e conï¬rmada a
viabilidade do intestino remanescente. Pós-operatório complicado ainda de
sÃndroma de mal absorção com necessidade de alimentação parentérica. Alta
clinicamente bem ao 18.â¦dia de pós-operatório. A angio-TC realizada aos 3
meses mostra ambos os enxertos permeáveis (ï¬g._5).
Caso clÃnico 2
Doente do sexo feminino de 83 anos, com antecedentes de insuï¬ciência
cardÃaca, ï¬brilhação auricular e doença cerebrovascular, transferida de
hospital distrital por quadro de dor abdominal difusa e prostração com 24
horas de evolução. Teve episódio de vómitos, diarreia e prostração 15
dias antes do internamento, resolvidas com terapêutica sintomática.
Ao exame objetivo o abdómen era difusamente doloroso à palpação, com defesa
e dor à descompressão. Analiticamente apresentava neutroï¬lia sem
leucocitose e elevação da PCR e LDH, sem acidose metabólica ou
hiperlactacidemia. A angio-TC mostrou trombose do segmento proximal da artéria
mesentérica superior com reabitação a cerca de 5 cm da origem (ï¬gs._6e 7),
bem como distensão e espessamento de ansas de delgado e do cego, sem
pneumatose intestinal ou aeroportia. Submetida a bypassaorto-mesentérico
retrógrado com veia grande safena e ressecção ileocecal com anastomose
mecânica latero-lateral isoperistáltica. Pós-operatório sem
intercorrências, com restabelecimento do trânsito intestinal ao 3.â¦dia.
Transferida para o hospital de origem clinicamente bem ao 8.â¦dia de pós-
operatório.
A angio-TC realizada aos 6 meses demonstrou a permeabilidade do enxerto
(fig.8).
Discussão
Historicamente, a isquemia mesentérica aguda tem-se mantido como uma patologia
de elevada morbi-mortalidade devido em parte à diï¬culdade de diagnóstico e
aos desaï¬os terapêuticos que coloca. Mesmo as séries mais recentes
apresentam taxas de mortalidade na ordem dos 30%2,4, a que não será alheio o
facto de esta patologia atingir preferencialmente as faixas etárias mais
idosas e doentes com múltiplos fatores de risco cardiovascular. Com efeito, a
idade superior a 70 anos, a insuï¬ciência renal e a duração prolongada dos
sintomas demonstraram uma correlação direta com a taxa de mortalidade2,5.
Estes fatores assumem particular relevância nos casos de isquemia mesentérica
aguda por trombose arterial, que podem ser entendidos como agudizações de um
processo patológico crónico. Dependendo das séries, 20-40% dos doentes com
isquemia mesentérica aguda têm história prévia de dor abdominal pós-
prandial e perda ponderal3,5. Apesar de o estado nutricional frequentemente
deï¬citário, expresso através da perda ponderal e hipoalbuminemia, não ter
sido associado a uma maior morbi-mortalidade operatória, a idade avançada, a
evidência de aterosclerose generalizada e a duração dos sintomas são
recorrentemente citados na literatura como determinantes com impacto negativo
no prognóstico. Os casos apresentados referem-se precisamente a doentes com
mais de 70 anos de idade e vários fatores de risco cardiovascular cuja
apresentação clÃnica foi insidiosa e evoluiu para um compromisso instalado
da viabilidade intestinal.
As técnicas endovasculares surgiram como alternativa menos invasiva para a
revascularização do território visceral e sua aplicação tem ganho
importância na isquemia mesentérica crónica. Nos casos agudos a experiência
acumulada é ainda escassa, sendo a necessidade de avaliação da viabilidade
intestinal o principal entrave à utilização de uma abordagem minimamente
invasiva. Nas séries publicadas, entre 30-50% dos casos foram submetidos a
ressecção intestinal2,3,5, o que mostra quão frequentemente existe isquemia
irreversÃvel de alguns segmentos de intestino na avaliação inicial. Numa
revisão da experiência institucional em 5 anos6, todos os casos de isquemia
mesentérica aguda foram revascularizados por via convencional, com ressecção
intestinal em 50% dos doentes e uma mortalidade de 50% aos 30 dias. Arthurs et
al.4compararam o tratamento endovascular e a cirurgia convencional numa série
de doentes com isquemia mesentérica aguda. A maioria dos casos teve etiologia
trombótica e foram preferencialmente tratados por via endovascular. A
laparotomia foi evitada em 31% dos doentes e o sucesso técnico foi de 87%,
conduzindo a uma diminuição da extensão de intestino ressecado e da
mortalidade em comparação com a cirurgia convencional (de 50 para 36%). Estes
resultados podem impulsionar uma mudança de paradigma na abordagem da isquemia
mesentérica aguda.
Do ponto de vista cirúrgico, algumas particularidades merecem referência. A
vascularização do intestino é assegurada por uma extensa rede de colaterais
que conectam o tronco celÃaco e as artérias mesentérica superior,
mesentérica inferior e hipogástricas. A existência destas interligações
leva a que seja habitualmente necessária a presença de lesões
hemodinamicamente signiï¬cativas em 2 ou mais eixos vasculares para o
desenvolvimento de isquemia mesentérica sintomática (a artéria mesentérica
superior e o tronco celÃaco estão simultaneamente afetados em mais de 80% dos
casos de isquemia mesentérica crónica7). Estes pressupostos inï¬uenciam a
decisão sobre quantos e quais os eixos arteriais a revascularizar. Os
primeiros trabalhos indicavam que a revascularização visceral completa
garantia menor recorrência sintomática, melhor permeabilidade e maior
sobrevida, argumentando também que ofereceria maior proteção face Ã
eventual oclusão de um dos enxertos. Variados autores apresentaram resultados
comparáveis procedendo apenas a revascularização da mesentérica
superior7,8. Nos casos descritos, os principais fatores de decisão foram a
topograï¬a das lesões oclusivas, a sua repercussão clÃnica sobre os
órgãos-alvo e o estado geral do doente.
A escolha do conduto a utilizar é uma decisão que deve levar em conta
múltiplas variáveis, nomeadamente a durabilidade do enxerto, o grau de
contaminação peritoneal e a estabilidade clÃnica do doente. O enxerto
protésico é favorecido pelo melhor size-matche a maior resistência ao
kinking, com consequente vantagem em termos de permeabilidade, tendo como
limitação o maior risco de infeção. Deste modo, na presença de
contaminação abdominal evidente o enxerto venosoéaopção de escolha. Em
contexto de isquemia aguda, na impossibilidade de prever com exatidão a
evolução do intestino remanescente e considerando a idade da doente,
privilegiou-se a resistência à infeção em detrimento da permeabilidade a
longo prazo no segundo caso em apreço.
Um aspeto passÃvel de discussão é a não reexploração abdominal («second
look») em nenhum dos casos apresentados. A reavaliação da viabilidade
intestinal e a ressecção adicional foram consideradas determinantes para a
redução da mortalidade9. Porém, e embora reconhecendo a importância do
«second look», em nenhuma das séries publicadas foi adotada uma estratégia
de reexploração cirúrgica sistemática, sendo a decisão de reoperar
determinada pelos achados intraoperatórios na primeira cirurgia e pela
evolução clÃnica do doente. Esta foi a conduta adotada em ambos os casos
descritos, nos quais a ressecção intestinal foi considerada adequada e o
pós-operatório livre de sinais de isquemia residual. Foi necessário proceder
a nova laparotomia no primeiro doente, mas com o objetivo de solucionar uma
complicação hemorrágica, sendo a reavaliação da viabilidade intestinal uma
questão de oportunidade.
Conclusão
A isquemia mesentérica aguda continua a ser uma patologia com elevada
mortalidade e que afeta doentes com múltiplas comorbilidades. Apesar de as
técnicas endovasculares se mostrarem promissoras, a revascularização
cirúrgica convencional continua a ser uma opção válida no tratamento desta
entidade, mesmo em doentes de alto risco com isquemia avançada e pior
condição ï¬siológica.
Responsabilidades éticas
Proteção de pessoas e animais.Os autores declaram que para esta
investigação não se realizaram experiências em seres humanos e/ou animais.
Conï¬dencialidade dos dados.Os autores declaram ter seguido os protocolos do
seu centro de trabalho acerca da publicação dos dados de pacientes.
Direito à privacidade e consentimento escrito.Os autores declaram ter recebido
consentimento escrito dos pacientes e/ou sujeitos mencionados no artigo. O
autor para correspondência deve estar na posse deste documento.
Conï¬ito de interesses
Os autores declaram não haver conï¬ito de interesses.
Bibliograï¬a
1. Stoney RJ, Cunningham CG. Acute mesenteric ischemia. Surgery. 1993;114:89-
90.
2. Kougias P, Lau D, El Sayed HF, et al. Determinants of mortality and
treatment outcome following surgical interventions for acute mesenteric
ischemia. J Vasc Surgery. 2007;46:467-74.
3. Endean ED, Barnes SL, Kwolek CJ, et al. Surgical management of thrombotic
acute intestinal ischemia. Ann Surg. 2001;233:801-8.
4. Arthurs ZM, Titus J, Bannazadeh M, et al. A comparison of endovascular
revascularization with traditional therapy for the treatment of acute
mesenteric ischemia. J Vasc Surg. 2011;53:698-705.
5. Park WM, Gloviczki P, Cherry KJ Jr, et al. Contemporary management of acute
mesenteric ischemia: Factors associated with survival. J Vasc Surg. 2002;35:
445-52.
6. Martins P, Tiago J, Ministro A, et al. Isquemia mesentérica aguda cinco
anos de experiência institucional (2007-12). Angiol Cir Vasc. 2013;9:11-6.
7. Foley MI, Moneta GL, Abou-Zamzam AM Jr, et al. Revascularization of the
superior mesenteric artery alone for treatment of intestinal ischemia. J Vasc
Surg. 2000;32:37-47.
8. Gentile AT, Moneta GL, Taylor LM Jr, et al. Isolated bypass to the superior
mesenteric artery for intestinal ischemia. Arch Surg. 1994;129:926-31.
9. Ryer EJ, Kalra M, Oderich GS, et al. Revascularization for acute mesenteric
ischemia. J Vasc Surg. 2012;55:1682-9.
*Autor_para_correspondência:
Correio eletrónico: tiagojpferreira@gmail.com (T. Ferreira).
Notas:
*
Comunicação tipo poster no XIV Congresso da Sociedade Portuguesa de
Angiologia e Cirurgia Vascular, 19-21 de Junho de 2014.
Recebido a 25 de junho de 2014;
Aceite a 1 de novembro de 2014
DisponÃvel na Internet a 15 de janeiro de 2015