Bezoar: patologia centenária com nova composição
INTRODUÇÃO
Os bezoares são descritos desde há vários séculos em homens e animais. O nome
deriva do latim "bazahr", que significa antídoto, e até ao século XIX
era usado como tal.1
O bezoar é uma coleção de material exógeno não digerido que se acumula no tubo
digestivo, sendo mais frequentemente encontrado no estômago. A sua formação
está associada a fatores como a mastigação deficiente, estados pós
gastrectomia, perturbações psiquiátricas e distúrbios da motilidade.1, 2
As fibras vegetais são o material que mais frequentemente constitui o bezoar
(fitobezoar). No entanto, bezoares constituídos por derivados do leite
(lactobezoares), medicamentos (farmacobezoares), pedras (litobezoares), cabelos
(tricobezoares) e metais (metalobezoares) também foram descritos.1
A forma de tratar esta patologia é variável, e muitas vezes influenciada pela
sua constituição. A terapêutica enzimática (celulase) é uma opção nos
fitobezoares. No entanto, a remoção via endoscópica ou cirúrgica é o tratamento
mais utilizado.1, 3
O presente artigo pretende apresentar um caso clínico de bezoar com composição
rara.
CASO CLÍNICO
Doente do sexo feminino com 43 anos, oligofrénica, sem outros antecedentes
conhecidos, é trazida ao serviço de urgência por dor abdominal e vómitos tipo
“borra de café” de início insidioso, com cheiro fétido. A doente apresentava
palidez mucocutânea e caquexia marcada. O abdómen encontrava-se difusamente
doloroso, timpanizado e os ruídos hidroaéreos de frequência diminuída, embora
com intensidade e timbre normais. A sonda nasogástrica mostrava 400 ml de
conteúdo negro.
Das análises efetuadas salientamos leucocitose (25x103 µL) com neutrofilia
(18x103 µL), hemoglobina de 14,1 g/dL e PCR de 174,7 mg/L. A radiografia
simples em decúbito com raios tangenciais e a tomografia computorizada (Figura
1) abdominais mostraram ar e líquido livre na cavidade abdominal.
Perante a evidência de perfuração de víscera oca, procedemos a laparotomia
exploradora, onde detetámos uma úlcera gástrica antral perfurada, com cerca de
20 mm de maior diâmetro (Figura_2). Ao explorar o conteúdo gástrico foram
retirados conglomerados de material plástico, luvas (inteiras) e folhas de
plástico (Figura_2) – plasticobezoar. Os bordos da úlcera foram excisados e foi
efetuada gastrorrafia.
A histologia mostrou úlcera gástrica crónica perfurada, com fenómenos de
serosite.
O pós-operatório da doente evoluiu favoravelmente, com resolução clínica e
analítica, tendo tido alta ao 9.º dia.
DISCUSSÃO
O tipo de material que constitui os bezoares é muito variado e o caso
apresentado é ilustrativo disso. A existência de uma entidade plasticobezoar
versuscorpo estranho é discutível. Tradicionalmente, o bezoar é definido como
uma coleção de material animal ou vegetal indigerível no trato
gastrointestinal. Tendo em linha de conta que para além dos formados por
material orgânico (trico e fitobezoares), foram descritos metalo, fármaco e
litobezoares1, 2, outras substâncias inorgânicas, como o plástico, podem ser
consideradas como componentes de bezoar.
Na literatura estão descritos quatro casos de plasticobezoar, sendo que todos
eles têm como fator predisponente a coexistência de alterações psiquiátricas. A
doente do presente caso apresenta, associada à oligofrenia, um distúrbio
denominado pica, que se manifesta pela ingestão de substâncias não
alimentares.1, 3, 4, 5
A localização mais frequente dos bezoares é gástrica, o que também se verificou
no presente caso.2
Os bezoares manifestam-se, mais frequentemente, por sintomas obstrutivos, sendo
nos casos de plasticobezoar descritos na literatura1, 3, 4, 5, a sintomatologia
predominante. O presente caso manifestou-se por perfuração de víscera oca. A
irritação crónica da mucosa explica a ulceração e consequente perfuração.1
O tratamento desta entidade é bastante diverso, estando descritas terapêuticas
endoscópica1 e cirúrgica por laparotomia e laparoscopia3. Fatores como a
localização do bezoar e a clínica do doente determinam qual a melhor abordagem
terapêutica. No presente caso, perante a evidência de perfuração de víscera
oca, a abordagem preferida foi a laparotómica.
Permitimo-nos comentar que, tratando-se de uma patologia centenária, a sua
composição e abordagem terapêutica tem acompanhado a evolução dos tempos.