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EuPTCVHe1646-21222015000100004

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN1646-2122
Year2015
Issue0001
Article number00004

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Luxação unifacetária cervical: Um lado é suficiente

INTRODUÇÃO A luxação unifacetária cervical pode facilmente não ser diagnosticada no serviço de urgência.

Sabe-se que a história natural dos casos tratados conservadoramente é mais grave que a dos casos controle sem doença para a mesma idade e, provavelmente será pior que a dos tratados cirurgicamente, sobretudo a longo prazo1,2. É controversa a via de abordagem de eleição para o tratamento cirúrgico, anterior ou posterior, tendo ambas os seus argumentos favoráveis.

PACIENTES E MÉTODOS Apresenta-se uma série de oito pacientes com luxação ou fractura-luxação unifacetária cervical e radiculopatia clínica operados por abordagem posterior unilateral com fresagem da faceta superior da vértebra distal, libertação do recesso e instrumentação das massas laterais (7 com 2 parafusos e 1 com um parafuso proximal e um gancho distal). O seguimento foi de 9 anos (mínimo de um ano e máximo de 12).

As variáveis estudadas foram: demografia (idade, sexo, nível lado), clinicas (sintomatologia radicular, analgesia), radiológicas (listesis pré e pós- operatória, cifose pré e pós-operatória). A cifose mediu-se entre os muros posteriores dos corpos vertebrais e a listesis pela distância entre a perpendicular ao prato superior formada pelo ângulo postero-inferor do corpo vertebral e a linha que define o muro posterior do corpo vertebral.

RESULTADOS Idade: 44 anos (15-79), sexo: 6 sexo masculino e 2 sexo feminino; nível: C6C7 (n=7) e C4C5 (n=1); lado: 5 esquerdo e 3 direito; radiculopatia: pré-operatória 8/8, pós-operatória 0/8; analgesia: esquema de analgesia habitual do hospitalar (paracetamol e metamizol) sem necessidade de alteração; cifose: pré-operatória = 8,6º; pós-operatória = 6,4º; listesis: pré-operatória = 2mm; pós-operatória = 0,8 mm; período de internamento hospitalar: 5 dias (2 fim-de-semana em todos) No caso do paciente com montagem "parafuso e gancho" foi necessário proceder a re-intervenção por desvio secundário. Todos os outros (montagem com "2 parafusos") tiveram uma evolução satisfatória (Figura_1).

DISCUSSÃO A luxação unifacetária sendo uma lesão de difícil diagnóstico inicial, deve ser alvo de suspeita em face da existência de uma pequena listesis de um corpo vertebral e de uma alteração craneal no alinhamento dos maciços facetarios do nível lesado no Rx de perfil, sem evidente "cavalgamento" da facetas articulares ou desalinhamento das apófises espinhosas no AP. O diagnóstico definitivo deve ser obtido recorrendo a TAC 3D revelando esta a) a imagem axial de "pão de hambúrguer invertido" e a consequente ocupação do recesso assim como a rotação relativa dos corpos vertebrais proximal e distalmente à lesão e, b) as imagens sagitais mostrando a integridade de uma articulação e a lesão na articulação contralateral. Para completar o estudo deve realizar-se RMN cervical para obter a informação do estado do disco intervertebral e do complexo ligamentar posterior; Esses dados orientarão também a decisão cirúrgica2,3.

Os modelos experimentais demonstraram que não é necessário que os ligamentos inter e supra-espinhosos estejam lesados, nem sequer os ligamentos vertebrais longitudinais, basta a cápsula ipisilateral, o ligamento amarelo ipsilateral e o anel fibroso discal (nem sequer completo)4; por isso, nem todas as luxações unifacetarias apresentam uma lesão completa do complexo ligamentar posterior nem uma instabilidade intrínseca pela incompetência mecânica da dita estrutura.

No entanto, uma vez reduzido, o segmento é muito instável pelo que necessita de uma fixação mecanicamente competente5.

Parece estar provado que a qualidade de vida dos paciente não operados é pior que a dos casos controle da mesma idade e população sem lesão e provavelmente que a dos pacientes com uma luxação unifacetária operados, sobretudo a longo prazo2.

A redução de uma luxação unifacetária cervical não é fácil. Se não fractura associada à faceta articula fala-se de lesão "provavelmente instável".

Pela fixação mecânica das vértebras com as facetas "engatilhadas" a redução fechada requer manobras complexas e de difícil realização6, em que mesmo com o paciente sedado e, segundo a minha experiência as probabilidades de êxito são escassas.

Por outo lado, se existe a referida fractura facetaria, a redução fechada que se consegue é altamente instável pela existência da mesma. Sendo assim parece ser recomendável proceder diretamente à redução cruenta. Contudo, que abordagem? A lesão é posterior mas a via por excelência na cirurgia cervical é a anterior, além de esta permitir a excisão do disco intervertebral que ao prolapsar-se durante a redução poderá provocar uma lesão medular.

Assim sendo, a abordagem anterior parece ser a via de eleição se existe uma importante protusão discal intracanalar ou, nos casos de fratura associada do prato superior do corpo vertebral3. De outro modo, sobretudo nas lesões por translação/rotação a via de eleição é uma abordagem posterior3. Favorecendo também a via posterior são os dados que apontam para até 26% de irredutibilidade por via anterior das luxações unifacetárias7.

Uma recente revisão sistemática conclui que resultados são semelhantes8 com mais complicações e re-intervenções nas vias anteriores e uma cifose entre e 6 º, com 13% de dor residual na posterior; contudo é pouco conclusiva: nível IV de evidencia e baseado em apenas 2 séries clinicas: (critérios de inclusión: Shapiro, J Neusosurg 1999 y Henriques, J Spine Disord Tech 2004, entre 41 estudos localizados). No mesmo sentido apontam os resultados de um trabalho prospetivo9: sem diferenças clinicas, com pros e contras num e noutro sentido, mas nenhum definitivo.

A via posterior é superior biomecanicamente face á anterior com montagens rígidas10,11 e, em minha opinião, permite além de uma melhor descompressão da raiz encarcerada no recesso "desengatilhar" as facetas. Ao contrario da fixação com parafusos ás massas laterais, nas montagens por meio de aramagens pode ser necessário fixar 3 vértebras.

No entanto, ainda mais importante é que a artrodese anterior pode atuar como pivô e facilitar a perda de redução conseguida.

De la Rua12,13 mostra-se partidário da via anterior pela maior taxa de infeções na via posterior e o risco neurológico de voltar o paciente, argumentando ainda que nos casos não reduzidos a distração do foramen lesado é suficiente para libertar a raiz.

Um argumento contra a via posterior é o o dano muscular infligido. Para obviar este fato, Wang14,15 descreve a inserção percutânea dos parafusos às massas laterais. Também com o intuito de minimizar esse dano muscular e, tendo em conta que o maciço facetário contralateral esta indemne não parece fazer sentido efetuar a disseção muscular contralateral e a fixação/artrodese de uma artriculação . Por outro lado a libertação direta da raiz comprometida é mais fácil e comprovável por via posterior e no caso de radiculopatia este é não um dos objetivos da cirurgia mas, talvez o prioritário.

Pode-se pensar que estando a massa lateral distal lesada a inserção do parafuso pode ser tecnicamente difícil. Na nossa experiência procuramos dirigi-lo menos proximalmente que na técnica convencional e assim encontramos espaço suficiente que a massa lateral é bastante grande. No mesmo sentido, teríamos que assinalar que no nível C6C7 o parafuso inferior é um parafuso pedicular, pelo que os problemas de "presa" desaparecem restando a dificuldade técnica da sua inserção, superior à do parafuso da massa lateral. E, de fato, na nossa série o nível mais frequentemente afetado foi o de C6C7.

É necessário deixar bem claro que esta técnica de bordagem posterior unilateral requer a integridade do maciço facetário contra-lateral assim como do complexo ligamentar posterior, com a evidente exceção da cápsula do lado luxado que se baseia no mesmo princípio de encerrar uma porta na sua moldura com um bloqueio, o que implica uma dobradiça estável em todas as direções menos a controlada pelo dito bloqueio.

CONCLUSÃO Em pacientes com uma luxação unifacetária cervical e radiculopatia isolada da raiz do nível lesado, sem significativa protusão discal no canal e com integridade do restante complexo capsulo-ligamentar posterior, a abordagem unilateral posterior com descompressão direta do recesso, redução e artrodese com instrumentação com dois parafusos às massas laterais ou pedículo, de um nível é suficiente.


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