Rutura do tendão quadricipital, diagnóstico tardio
INTRODUÇÃO
A rutura do tendão quadricipital é uma lesão relativamente pouco frequente e
afeta predominantemente indivíduos depois da quinta década de vida.1,2,3,5
Geralmente é secundária a trauma, mas pode ocorrer de forma espontânea, por
vezes até bilateralmente, em doentes com situações predisponentes, tais como,
uso crónico de corticoides e fluoroquinolonas.1,3,5 Também a imobilização
prolongada e algumas doenças crónicas, como diabetes mellitus, insuficiência
renal crónica, doenças autoimunes ou metabólicas, entre outras, podem ser
também responsáveis por este tipo de lesão.1,2,3,4,5 A rutura ocorre mais
comummente 1-2cm acima do polo superior da rótula, a zona menos vascularizada
do tendão.1,4
O diagnóstico é baseado na história e exame clínico, embora exames de imagem,
como ecografia e ressonância magnética, possam ter indicação na sua
confirmação.1,2,3 Os sintomas clássicos são a dor súbita suprapatelar, perda de
extensão ativa do joelho e palpação de defeito suprapatelar.1,2,3
O tratamento é sempre cirúrgico e deve ser realizado o mais rapidamente
possível, pois após 72h há retração do tendão.1,3,4,5 Quando não diagnosticadas
em tempo, o resultado é menos satisfatório, e apesar da reparação do tendão ser
conseguida, no final, o défice na flexão é uma sequela comum.1,2,3,5
Dentro das várias técnicas cirúrgicas para o tratamento deste tipo de lesões, a
de Codivilla, descrita por Scuderi, é a mais preconizada, apesar de estar
associada um défice de extensão.2
Os autores descrevem o caso de um paciente com uma rutura traumática do tendão
quadricipital diagnosticado tardiamente.
CASO CLÍNICO
Doente de 71 anos, género masculino, caucasiano, com antecedentes de
hipertensão arterial e diabetes mellitus, vítima de queda com traumatismo de
joelho direito. Recorreu ao Serviço de Urgência, não tendo sido diagnosticada
qualquer lesão no aparelho extensor do joelho. Por manter dor e limitação
funcional do membro inferior direito recorre novamente ao Serviço de Urgência
passado um mês e meio. Clinicamente o exame era sugestivo de rutura de tendão
quadricipital, com dor ao nível do polo superior da rótula, incapacidade
funcional do membro e depressão supra-patelar palpável. Associava também edema
moderado e sinais inflamatórios do membro inferior direito. Realizou ecografia,
que descrevia rutura do tendão quadricipital. Concomitantemente foi
diagnosticada celulite do membro inferior. Internado para antibioterapia e
repouso.
Após 10 dias de antibioterapia e regressão dos sinais inflamatórios do membro
inferior, foi submetido a tratamento cirúrgico, tenorrafia do tendão
quadricipital pela técnica de Codivilla (corte em forma de V invertido na
região proximal do tendão, aproximação dos bordos, reforço da sutura com o flap
de tendão e sutura contínua da parte superior aberta do V). O período de pós-
operatório imediato decorreu sem intercorrências. Teve alta para o domicílio 1
semana após a cirurgia com indicação de manter imobilização com tala de Depuy e
deambulação com canadianas com carga parcial no membro durante 4 semanas.
Efetuou consulta de revisão no 1º mês pós-operatório, retirando imobilização e
iniciando programa de reabilitação funcional, com mobilização ativa assistida
do joelho e anca para ganho de amplitudes articulares, estiramento do
quadricípede e fortalecimento muscular isométrico que evoluiu para isotónico
concêntrico para ganho de massa e força muscular.
Observado ao 4º mês pós-operatório, sem dor, sem presença de solução de
continuidade no tendão, sem atrofia do músculo quadricipital. Faz carga total
sem claudicação. Força muscular 4+/5. Arco de mobilidade ativa do joelho
situada entre 10º e 95º. (Figura_1)
Consulta de revisão aos 6 meses, situação clínica idêntica ao descrito
anteriormente.
CONCLUSÃO
Doenças como diabetes mellitus, como no caso clínico descrito, causam lesões
vasculares e necrose do tecido fibroso do tendão com consequente
enfraquecimento, o que leva a que mesmo traumatismos de baixa energia provoquem
a rutura, especialmente em indivíduos com mais que 65 anos.3,4,6