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EuPTCVHe1646-21222014000400005

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN1646-2122
Year2014
Issue0004
Article number00005

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Deformidade em supinação na paralisia obstétrica do plexo braquial: Resultados do procedimento de Zancolli

INTRODUÇÃO A deformidade em supinação do antebraço pode ter como etiologia a paralisia obstétrica do plexo braquial (POPB), a poliomielite ou a tetraplegia traumática1-10.  Resulta de um desequilíbrio muscular entre agonistas e antagonistas com paralisia dos pronadores, o que condiciona limitação funcional e deformidade estética importantes4,10-12. No caso da POPB, torna-se evidente aquando da maturação neurológica.7,12 Smith et al.7 e Yam et al.12verificaram que antes dessa fase a incompetência dos supinadores e a rotação interna fixa do ombro levam a uma postura em pronação do antebraço.

Hoje em dia, a incidência da POPB é reduzida (0.4-2.6/1000 nados)4 e alguns desenvolvem a deformidade em supinação (grupos de Narakas II-IV)12, no entanto, o impacto da disfunção e estética não devem ser subvalorizados do ponto de visto socioeconómico.

Clinicamente, estas crianças apresentam diversas deformidades associadas no membro superior: subluxação posterior do ombro, rigidez em flexão do cotovelo, extensão e desvio em flexão cubital do punho, défice de extensão dos dedos e deformidade típica da mão de pedinte1,2,9-12. Com o crescimento, a criança desenvolve disfunção progressiva até à deformidade fixa devido à severa retração da membrana interóssea e abaulamento dos ossos do antebraço. Isto pode condicionar subluxação da articulação radiocubital distal ou luxação da cabeça radial, causadas pelo desequilíbrio muscular e tração antero-proximal do bíceps.1,12 Seringe e Dubousset5 descreveram 3 estadios progressivos: primeiro deformidade redutível, segundo contractura dos tecidos moles, e terceiro deformidade óssea.

A correção cirúrgica deve ser precoce, idealmente no primeiro estadio.

O tratamento cirúrgico da deformidade em supinação da POPB pode abranger diferentes procedimentos como transferências tendinosas ou correção do eixo de rotação com osteotomias desrotatórias.1-10,12-14 Em 1940, Blount18descreveu a osteoclasia do rádio e cúbito para crianças menores de 3 anos de idade e com boa mobilidade passiva1,2. Zaoussis14 em 1963 analisou os resultados da osteotomia desrotatória do rádio e, posteriormente, as opções de tratamento incluem o redireccionamento tendinoso lateral do bíceps ou a osteotomia do rádio, em associação ou não à libertação da membrana interóssea, e adicionalmente capsuloplastia da articulação radiocubital proximal e/ou ressecção da tacícula radial, se indicado. Atualmente é consensual que em casos com rigidez por perda completa de rotação do antebraço deve ser realizada a libertação da membrana interóssea.16 O procedimento de redireccionamento do tendão do bíceps foi descrito por Grilli15 em 1959 e modificado por Zancolli3em 1967 associando a libertação da membrana interóssea. Esta técnica cirúrgica visa restaurar a função e corrigir a deformidade. De facto, Zancolli3destacou algumas vantagens deste procedimento em relação à osteotomia radial clássica ou osteoclasia de ambos os ossos do antebraço: recidiva da deformidade e prevenção da luxação do rádio proximal durante o período de crescimento; restaurar a pronação ativa o que tem impacto na melhoria global da função da mão; permitir simultaneamente corrigir a luxação da articulação radiocubital ou ressecar a tacícula radial se indicado; e permitir um relacionamento mais anatómico do rádio e cúbito, de forma a desenvolver um antebraço esteticamente normal. O procedimento de Zancolli está contraindicado no caso de paralisia do tricípite, correndo o risco de desenvolver contractura em flexão do cotovelo. Também não é praticável quando a cabeça do rádio foi previamente removida.

Em 1980 Manske et al.17 descreveram o redireccionamento do bicípite associado a osteoclasia percutânea. O redireccionamento do tendão do braquiorradial associado à libertação da membrana interóssea é uma técnica alternativa de transferência tendinosa para obter pronação ativa do antebraço sem comprometer a função do cotovelo defendida por Ozkan et al.10. Contrariamente à técnica de Zancolli, esta pode ser realizada quando existe paralisia do tricípite e em doentes com ressecção prévia da tacícula radial mas requer que a articulação radiocubital proximal e distal sejam estáveis e congruentes.10 Atualmente, verifica-se controvérsia na literatura no tratamento destes doentes com POPB e deformidade em supinação. Existem escassos estudos sobre o assunto (Tabela_1) e os resultados do tratamento cirúrgico destes doentes apresentam melhoria inconsistente da pronação ativa (22º-88.5º). Verifica-se que os procedimentos ósseos corrigem a deformidade mas não ganham movimento ativo.

Tabela_1

O objetivo deste estudo foi avaliar a experiência do Serviço com o procedimento de Zancolli no tratamento da deformidade em supinação em doentes com POPB, rever a literatura e contribuir para a homogeneidade dos resultados desta técnica cirúrgica.

MATERIAL E MÉTODOS Foram avaliadas retrospectivamente 6 crianças com deformidade em supinação por POPB, submetidas a tratamento cirúrgico entre 2005 e 2011, pelo mesmo cirurgião (C.S.). Pré-operatoriamente verificou-se disfunção para atividades de vida diária como atingir a boca com a mão, comer, beber, cuidados de higiene, pentear ou vestir, e deformidade estética com mão de pedinte, consequente impacto social e ansiedade parental.

Todos os 6 doentes apresentavam rigidez do antebraço com perda completa da pronação ativa. A supinação média pré-operatória era 110°. O arco de mobilidade passiva variou entre 0º-110º (Tabela_2).

Tabela_2

As crianças apresentavam deformidades secundárias várias: um caso com fraca função do bicípite; um caso de insuficiência funcional severa da mão com reduzida capacidade de flexão;; um cotovelo rígido; e 2 doentes com desequilíbrio dos flexores/extensores do punho.

A cirurgia teve como objetivo corrigir a deformidade em supinação, melhorar a função global e proporcionar a satisfação estética. Foi realizada em média aos 4.5 anos (variação 3.5-6), sem deformidade óssea ou luxação/subluxação da cabeça radial.

A deformidade em supinação foi unilateral em todos os doentes. A média de seguimento foi de 3.3 anos (1-6). Quatro doentes haviam sido previamente submetidos a reconstrução do plexo braquial com enxerto de nervo sural, pelo mesmo cirurgião. Duas das crianças contavam com outras correções cirúrgicas prévias como transferências tendinosas do grande dorsal e redondo maior para o manguito rotador.

Técnica Cirúrgica Em todos os doentes associou-se ao procedimento de Zancolli a libertação da membrana interóssea (Figura_1). O músculo bicípite tornou-se pronador ativo após tenotomia tipo-Z com tensionamento controlado adequado que permitiu o redireccionamento do segmento distal de medial para lateral em torno da cabeça radial e preservação da inserção óssea.

Todas as crianças ficaram com imobilização gessada em pronação por 4 semanas. A reabilitação pós-operatória consistiu na pronação-supinação gradual ativa e reforço muscular.

Foram analisados os seguintes parâmetros: pronação e supinação ativa e passiva, e registo de complicações. O grau de satisfação foi aferido através de questionário aos pais sendo definido como "excelente", "muito bom" e "razoável".

RESULTADOS O arco de mobilidade passivo e ativo de pronação-supinação de todos os doentes está registado na Tabela_2. A correção cirúrgica obteve o ganho de pronação ativa em média de 70 graus.

Não foram registadas complicações. A melhoria da pronação manteve-se no período de seguimento excepto em 1 caso com perda de amplitude seguida de recidiva aos 6 anos após. Todas as crianças excepto 1 estão funcionalmente bem na última avaliação apresentando antebraço com postura funcional, arco de pronação- supinação ativo preservado, flexão para atingir a boca, força de flexão do cotovelo preservada, e uso apropriado da mão em atividades bimanuais.

A criança com recidiva foi submetida a osteotomia de ambos os ossos do antebraço.

O resultado estético (Figuras_2 e 3) foi avaliado clinicamente como postura funcional e correção da mão de pedinte, capacidade de levar a mão à boca e realizar pronação ativa. Os pais reportam que as crianças se tornaram mais interativas socialmente, com ganho de autoconfiança e, também por isso, estão satisfeitos (4 "excelente", 1 "bom" e 1 "razoável") e 100% decidiriam pelo tratamento cirúrgico outra vez.

DISCUSSÃO Intervir precocemente evita a progressão até rigidez e desenvolvimento de deformidades secundárias como óssea ou subluxação da cabeça radial.

Neste estudo, a deformidade em supinação foi corrigida com sucesso em todos os doentes após o procedimento de Zancolli apesar de não ter sido alcançado um arco de mobilidade pronação-supinação completamente normal em todas as crianças. O ganho médio significativo de pronação ativa pós-operatória de 70° resulta da intervenção precoce comparativamente com a literatura (Tabela_1), e do curto período de imobilização que permite movimentos passivos precocemente após a cirurgia. Apesar de na literatura não estar definido qual o período óptimo de imobilização pós-operatória, as 4 semanas foram definidas pelos autores para minimizar o comprometimento da reabilitação funcional ao permitir mobilidade passiva controlada precoce.9,10,12-14 Consideramos que a reconstrução prévia do plexo braquial com enxerto de nervo sural entre os 4 e 6 meses de idade em 4 doentes também contribuiu para os resultados alcançados.

Paralelamente, a recuperação do antebraço funcional permite a melhoria significativa na função da mão com impacto na qualidade de vida.3,12 É fundamental assegurar uma tensão do bíceps adequada durante o procedimento de Zancolli de forma a permitir a extensão completa do cotovelo, por um lado, e não perder potência flexora, por outro.3 É consensual defender-se a correção prévia da deformidade do ombro7. a contractura em flexão do cotovelo ligeira ou moderada não contraindica o tratamento cirúrgico do antebraço nestes doentes.9 Atualmente, verifica-se uma baixa incidência da POPB e com resultados dos escassos estudos são inconsistentes (Tabela_1) pelo que não se verifica uniformidade nem consenso no tratamento.

Seringue e Dubousset5recomendam o redireccionamento do tendão do bíceps quando pré-operatoriamente for possível obter a correção passiva da pronação ou nos casos em que tal é possível após a libertação per-operatória da membrana interóssea. Também consideram que a deformidade óssea discreta não contraindica o procedimento desde que exista pronação passiva. Nos casos em que a deformidade óssea é marcada, com luxação anterior da tacícula radial e supinação fixa do antebraço, ambos defendem associar o redireccionamento do tendão do bíceps à libertação da membrana interóssea e combinar com osteotomia radial.

Bahm e Gilbert1publicaram um revisão com 40 casos a comparar osteoclasia, osteotomia radial e redireccionamento do tendão do bíceps. Verificaram que após o procedimento de Zancolli na idade média de 7 anos nenhuma criança desenvolveu deformidade óssea ou luxação proximal do rádio e registaram um ganho de pronação ativa comparativamente menor que o presente estudo, de 22°, que se pode relacionar com a idade superior e fase mais avançada.

Relativamente à melhoria da pronação ativa, neste estudo é elevada quando comparada com a mesma técnica na literatura (Tabela_1). Em relação à osteotomia do rádio, pode-se verificar que Allende e Gilbert9 e Yam et al.12 apresentam pronação ativa superior mas associada a elevada taxa de recidiva. Em análise comparativa com outros procedimentos dos tecidos moles como transferência tendinosa do braquial para o pronador quadrado segundo Bertelli13, com o objetivo de melhorar a pronação e minimizar a perda de supinação, ou redireccionamento do tendão do braquiorradial preconizado por Ozkan et al.10, o ganho de pronação ativa com a técnica de Zancolli no presente estudo é similar ou superior, com nenhuma ou mínima perda de supinação, excepto no único caso de recidiva. Neste caso, o doente apresentava POPB severa e provavelmente foi erradamente indicado para o procedimento cirúrgico de Zancolli. A criança apresentava um bíceps insuficiente e, por isso, inadequado para suportar um redireccionamento tendinoso pelo que consideramos que não deveria ter sido submetida a esta técnica cirúrgica.

Em todas as crianças operadas, a função do membro superior melhorou significativamente após o procedimento de Zancolli. Além disso, não se verificou deformidade óssea ou luxação da cabeça radial. A única recidiva que ocorreu apresentou franca melhoria após a osteotomia realizada.

Clinicamente, os bons resultados descritos atingem o objetivo do tratamento e não se verificou nenhum caso com flexão rígida do cotovelo.

Este estudo apresenta limitações: o caráter retrospectivo que inviabiliza a avaliação pré-operatória com scores funcionais, a reduzida amostra e a avaliação da satisfação através dos pais dos doentes.

CONCLUSÃO O procedimento de Zancolli é tecnicamente exigente e o resultado expectável é superior nos casos bem seleccionados.

O sucesso do tratamento destes doentes tem um impacto socioeconómico que não deve ser subestimado.

A POPB é rara pelo que a deformidade em supinação associada não é frequente mas a disfunção grave e deformidade estética são importantes. A detecção precoce é fundamental para permitir o tratamento adequado na fase inicial. O procedimento de Zancolli apresenta bons resultados funcionais e estéticos, com satisfação dos pais.


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