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EuPTCVHe1646-21222014000100009

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN1646-2122
Year2014
Issue0001
Article number00009

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Hematoma epidural com paraplegia flácida: complicação de pós-operatório imediato

INTRODUÇÃO Os hematomas epidurais da coluna vertebral (HECV) sintomáticos são uma patologia rara. O primeiro diagnóstico clínico documentado desta entidade deve- se a Jackson1 com sucesso foi efetuado em 19112. Embora ocorram frequentemente após uma cirurgia raquidiana3, a grande maioria dos HECV são clinicamente assintomáticos4. Em raras ocasiões podem tornar-se sintomáticos por compressão da medula ou de raízes nervosas, sendo necessária a sua evacuação cirúrgica urgente5, sob pena de provocar consequências neurológicas graves6.

O HECV pós-operatório necessita de alto índice de suspeita para ser diagnosticado e deve ser investigado quando o doente apresenta queixas compatíveis com défice neurológico de novo após cirurgia ou quando desenvolve défices compatíveis com o síndrome da cauda equina7. O diagnóstico deve ser rápido e eficaz pois os resultados clínicos dependem da celeridade da evacuação cirúrgica7.

A sua incidência é estimada em 0,1% a 3%8.

Os autores apresentam um caso clínico e uma revisão sumária da literatura no que diz respeito a incidência, fatores de risco e tratamento.

CASO CLÍNICO Doente do sexo masculino com 70 anos de idade com antecedentes de hipertensão arterial e neoplasia maligna da próstata com metástase em L2 (Figura_1).

Apresentava clínica de dor axial e claudicação neurogénea progressiva com envolvimento de ambos os membros inferiores. Ao exame objetivo apresentava diminuição da mobilidade em extensão da coluna lombar, dor à palpação das apófises espinhosas de L2 e L3 e diminuição dos reflexos osteo-tendinosos nos membros inferiores.

Em Dezembro de 2011 o doente foi submetido a intervenção cirúrgica com laminectomia de L2 e artrodese postero-lateral instrumentada L1-L3 (Figura_2).

Não realizou profilaxia de trombo-embolismo pulmonar e foi colocado dreno subfascial no pós-operatório imediato.

Doze horas após a cirurgia iniciou dor lombar com irradiação para os membros inferiores tendo o dreno sido acidentalmente exteriorizado. 16 horas após a cirurgia iniciou um quadro de paraplegia flácida (grau A de Frankel) com abolição dos reflexos osteo-tendinosos.

Realizou Ressonância Magnética urgente que diagnosticou um hematoma epidural extenso com compressão medular severa no nível operado (Figura_3). Cinco horas após o início dos sintomas neurológicos foi submetido a nova intervenção cirúrgica com drenagem do hematoma (Figura_4).

Figura_3

No pós-operatório imediato o doente iniciou recuperação progressiva dos défices. Teve alta para uma unidade de medicina física e reabilitação e na consulta de seguimento aos 2 meses apresentava recuperação total dos défices neurológicos (Frankel E) e não apresentava dor axial.

DISCUSSÃO Existem dois grandes estudos retrospetivos com análise dos possíveis fatores de risco para o desenvolvimento de HECV no pós-operatório. O primeiro realizado em 2002 por Kou et al7 estudou retrospetivamente por um período de 10 anos aproximadamente 12000 doentes todos eles envolvendo laminectomia lombar.

Destes, 12 (0,1%) necessitaram de nova intervenção cirúrgica para drenagem de HECV. Foram então identificados como fatores de risco procedimentos a vários níveis (p=0,037) e doentes com coagulopatia no pré operatório (p<0,001). Não foram confirmados como fatores de risco a idade, o índice de massa corporal, a durotomia operatória ou o uso ou não de drenos no pós-operatório.

O estudo mais recente foi efetuado em 2005 por Awad et al4 e envolveu 14932 doentes durante um período de 18 anos. Destes, apenas 32 (0,2%) necessitaram de nova intervenção cirúrgica por HECV pós-operatório. A sua distribuição nos segmentos da coluna foi: 7 na cervical; 3 na torácica e 17 na lombar. Como fatores de risco no pré operatório foram encontrados o uso de anti- inflamatórios não esteroides antes da cirurgia (p=0,048), doentes com grupo sanguíneo Rh-positivo (p=0,044) e idade superior a 60 anos (p=0,05). Não foi encontrada relevância estatística para a hipertensão arterial ou para o uso de tabaco. Como fatores de risco intra-operatórios foram encontrados as intervenções cirúrgicas envolvendo mais de cinco níveis (p=0,048), hemoglobina<10g/dL (p=0,050) e perdas sanguíneas superiores a 1L (p=0,38) no ato cirúrgico. Foram assim excluídos a duração da cirurgia, a necessidade de transfusão de plasma ou de plaquetas e outros valores laboratoriais para além da hemoglobina. Como fator de risco pós-operatório apenas foi encontrado um International Normalised Ratio (INR) superior a 2.0 nas primeiras 48 horas após a cirurgia (p=0,043). Sem relevância estatística permaneceram a profilaxia de trombo-embolismo pulmonar e a ausência de dreno no pós-operatório imediato.

Embora seja uma complicação rara, o HECV pós-operatório pode provocar consequências neurológicas graves e permanentes. Kou et al7 considera que procedimentos cirúrgicos a vários níveis podem originar a rotura do complexo venoso de Batson aumentando assim o risco de HECV. Esta hipótese no entanto carece de validação científica4.

Tarlov et al 8-11 no seu estudo em cães considera que a recuperação neurológica após HECV dependerá tanto da magnitude como da duração da compressão.

Delamarter et al12 também num estudo em cães demonstrou que quando a compressão tem uma duração igual ou superior a 6 horas, a recuperação neurológica não se verifica com a agravante de necrose progressiva da medula. Vandermeulen et al13 demonstrou que os doentes submetidos a descompressão de um HECV pós-operatório num período inferior a 8 horas desde o início dos sintomas recuperam total ou parcialmente dos défices neurológicos.

Quanto ao caso clínico por nós apresentado, o doente foi submetido à segunda intervenção cirúrgica 9 horas após o início do quadro de dor lombar e 5 horas após o início da instalação do compromisso neurológico tendo recuperado totalmente dos défices.

Em relação aos fatores de risco descritos na literatura nos dois estudos apresentados, o doente do caso clínico apresentado não apresentava coagulopatia diagnosticada nem foi intervencionado em mais de 5 níveis. No entanto o seu grupo sanguíneo é Rh-positivo e tem mais de 60 anos. Não registos de Hb<10g/ dL nem de perdas superiores a 1L. O INR também não sofreu alterações. Estamos, no entanto perante duas situações a ponderar: a exteriorização do dreno e o quadro clínico do doente com neoplasia prostática com atingimento sistémico e local no caso da intervenção em L2 (vértebra metastizada). Não existe nenhum estudo na literatura que valorize estatisticamente o uso ou não de dreno como fator de risco para o HECV pós-operatório. Os autores encontraram, no entanto referências a HECV em doentes oncológicos com metástases vertebrais como sendo uma patologia pouco comum14. Existe um caso clínico descrito de um hematoma num doente com mieloma e vértebra metastizada15. A hemorragia terá sido desencadeada por fenómenos inflamatórios peridurais induzidos pelo tumor e por fragilidade intrínseca dos plexos venosos epidurais14, não podendo ser descartada a hipótese de hemorragia por microfratura. Não se encontra no entanto na literatura referência a HECV pós-operatório em doentes com metástases vertebrais.

Apesar da incidência de HECV sintomático no pós-operatório ser baixa, esta é uma complicação que pode provocar grande morbilidade neurológica. O diagnóstico clínico precoce é fundamental para o seu tratamento atempado e é necessário que o cirurgião considere a sua possível ocorrência no doente com défices neurológicos  de novo no pós-operatório da cirurgia raquidiana.

Os fatores de risco pré operatórios englobam uma grande parte da população, sendo aconselhável reduzir os riscos intra-operatórios dentro do possível.

O prognóstico depende do desenvolvimento dos sintomas, da precocidade da reintervenção, do nível envolvido e do grau de défice neurológico instalado.

São necessários mais estudos sendo certo que, sendo uma patologia rara, a possibilidade de estudos prospetivos é remota.

Do caso clínico descrito fica em aberto uma nova hipótese de fator de risco local e sistémico: a neoplasia.


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