Via anterior directa na artroplastia da anca: Técnica cirúrgica e resultados
preliminares
INTRODUÇÃO
A artroplastia total da anca é um procedimento validado e reprodutível no
tratamento da coxartrose primária, com bons resultados no alívio da dor e na
melhoria da função1,2. É também uma opção validada no tratamento da fractura do
colo femoral, com vantagens em relação a outras opções (redução e fixação
interna, hemiartroplastia bipolar ou hemiartroplastia unipolar) tais como na
função, no impacto na qualidade de vida e na necessidade de uma segunda
cirurgia3-5.
No entanto, a via de abordagem para a realização deste procedimento é ainda
hoje motivo de debate, com implicações directas na recuperação pós-operatória
precoce e tardia, na dor pós operatória, na estabilidade da marcha e na taxa de
luxações6-10. A cirurgia minimamente invasiva é atraente para o cirurgião
ortopédico pois tem como principais objectivos uma menor lesão dos tecidos
moles, da perda sanguínea, da dor pós operatória e do período de internamento,
acelerando a recuperação11-14. A abordagem anterior directa (AAD) foi descrita
primeiro por Judet em 194715. Consiste numa abordagem verdadeiramente
intermuscular e internervosa, usando a abordagem mais distal da abordagem de
Smith Petersen sem destacamento muscular, em que a incisão expondo o tensor da
fáscia lata permite a retracção medial dos músculos inervados pelo nervo
femoral e a retracção lateral do nervo glúteo superior14,16-18.
A grande vantagem apontada é a menor agressão cirúrgica, o que condiciona menos
dor após cirurgia e uma recuperação mais rápida da capacidade de marcha19-24.
Há menos perda de sangue e a reabilitação é mais rápida; a cicatriz é menor e o
tempo de internamento é encurtado, o que é importante neste procedimento cada
vez mais frequente em doentes jovens e activos11, 19, 22. Como desvantagens
estão descritas na literatura, entre outras, a relativamente longa curva de
aprendizagem24-26, fracturas periprotésicas intra-operatórias20, fracturas
trocantéricas e perfurações femorais26.
O presente estudo faz a revisão das primeiras 35 artroplastias totais da anca
implantadas pela via anterior directa pela mesma equipa cirúrgica no mesmo
centro.
MATERIAL E MÉTODOS
Avaliaram-se retrospectivamente 35 doentes submetidos a artroplastia total da
anca por AAD pela mesma equipa cirúrgica no Centro Hospitalar Vila Nova de
Gaia/Espinho entre Junho de 2011 e Janeiro de 2013, divididos entre 25
coxartroses primárias e 10 fracturas do colo do fémur. Todos os doentes
aceitaram fazer parte deste estudo. Das 25 coxartroses primárias, 16 (64%) eram
do sexo feminino e 9 (36%) eram do sexo masculino, com idades compreendidas
entre os 61 e 73 anos de idade. A média de idades neste grupo foi de 67,4 anos.
Das 10 fracturas do colo do fémur, 7 (70%) eram do sexo feminino e 3 (30%) eram
do sexo masculino, com idades compreendidas entre 68 e 80 anos de idade. A
média de idades neste grupo foi de 72,8 anos.
O tempo de seguimento médio no grupo das coxartroses primárias foi de 13,5
meses (6-24 meses) e no grupo das fracturas do colo do foi de 14,2 meses (7-21
meses).
Utilizaram-se como métodos de avaliação no grupo das coxartroses primárias o
Harris Hip Score (HHS) e o Western Ontario and McMaster Universities Arthritis
Indez (WOMAC) no pré-operatório, 1 e 6 meses pós-operatórios. Nas fracturas do
colo do fémur, os métodos de avaliação foram os mesmo excepto os scores no pré-
operatório. Foram ainda registados a duração do tempo cirúrgico, complicações
intraoperatórias como fracturas femorais ou acetabulares, lesão nervosa,
complicações cardiorrespiratórias, perda de sangue no intra-operatório e no
pós-operatório, episódios tromboembólicos e tempo de internamento.
A análise estatística foi realizada através do teste de chi-quadrado e teste
paramétrico de wilcoxon (software SPSS 13).
Os componentes utilizados foram os mesmos que são usados nas artroplastias
efectuadas habitualmente no nosso serviço (acetábulos Stryker Trident® e Biomet
Exceed® e hastes Stryker ABG II® e Biomet Exceed®). Todos os doentes receberam
profilaxia antibiótica EV durante 48h e profilaxia de TVP (enoxaparina 40mg/SC
1id) nos dois meses pós-operatórios.
DESCRIÇÃO SUMÁRIA DO PROCEDIMENTO CIRÚRGICO
Planeamento pré-operatório
O planeamento pré-operatório ajuda na selecção de implantes de estilo e tamanho
adequados para a patologia da anca do paciente. A realização de radiografias da
bacia e perfil da anca pré-operatórias permite seleccionar a haste femoral
adequada, comprimento do colo, tamanho do componente acetabular ou a
localização correcta da osteotomia.
Posicionamento
O doente é colocado em decúbito dorsal numa mesa ortopédica que permite a
extensão selectiva ou simultânea dos membros inferiores, com atenção ao
paralelismo da bacia em relação à mesa operatória. Efectua-se a desinfecção
bilateral dos membros inferiores, deixando a espinha ilíaca anterio-superior
(EIAS) sempre acessível e palpável. Nesta preparação é importante deixar o
membro operado livre para mobilização para permitir a melhor exposição femoral
possível.
Exposição Acetabular
A EIAS é a principal referência para a incisão. O ponto mais proximal é marcado
2-3cm posterior e 1-2cm distalmente relação à EIAS e estende-se distalmente
numa linha imaginária em direcção à cabeça do perónio em cerca de 6-9cm (Figura
1). Esta localização mostra-nos a parte mais superficial do intervalo entre o
músculo sartorius (S) e o músculo tensor da fáscia lata (TFL). O ramo lateral
do nervo femurocutâneo lateral (RLFCL) inerva uma área de pele localizada
anterolateralmente na coxa superior e está protegido nesta abordagem.
A dissecção anatómica e a vista intra-operatória mostram as três marcas
anatómicas que identificam o tensor: músculo vermelho coberto pela sua fáscia
(tensor), uma fáscia mais forte e branca (banda iliotibial) que cobre o glúteo
médio e pelo menos um vaso perfurante na zona mais posterior do tensor. O
intervalo da AAD pode ser atingido através de dissecção romba com o dedo do
cirurgião.
A fáscia do TFL é aberta no seu ponto médio de medial para lateral; disseca-se
a fáscia das fibras musculares e a cápsula articular pode ser palpada com o
dedo do cirurgião.
O primeiro retractor é colocado lateral ou superiormente ao colo femoral e o
segundo retractor é colocado na área do grande trocanter, após afastamento
cuidadoso das partes moles com o dedo do cirurgião. Os ramos ascendentes da
artéria circunflexa lateral são identificados e coagulados nesta fase.
De seguida abre-se a fáscia entre o TFL e o músculo recto femoral (RF), que se
encontra profundamente ao S. Esta fáscia é formada principalmente pela camada
profunda da banda ilioinguinal e uma vez aberta permite a visualização da
gordura pré-capsular. A anca é flectida e palpa-se um "soft spot",
proximalmente ao músculo vasto lateral (VL). A dissecção romba permite
identificar o local adequado para a colocação do retractor medial, afastando o
S e o RF. Após libertar a forte fáscia inferiormente ao RF, pode-se usar uma
Cobb para preparar o espaço à volta do acetábulo; nesta fase a anca está
flectida. De seguida coloca-se o quarto retractor, à volta do rebordo ventral
acetabular (Figura_2). É possível a colocação de uma fonte de luz neste
rectractor, para permitir a melhor visualização acetabular. As lesões do nervo
femoral ou do feixe vascular podem ser evitadas se o retractor for colocado
perpendicularmente à banda ilioinguinal e inferiormente ao músculo psoas-
ilíaco.
Preparação da cápsula
Se necessário, a porção reflectida do RF pode ser aberta na sua inserção
capsular. A capsulotomia é realizada ao longo do colo femoral. A porção entre
as 11h e as 15h é removida (porção ventrolateral). De seguida procede-se à
limpeza cuidadosa da zona conhecida como "sela" entre o grande
trocanter e o colo pois é o ponto de partida para a osteotomia do colo femoral.
Osteotomia e cabeça femoral
Após remoção do retractor supero-lateral, coloca-se um retractor
intracapsularmente, de forma a proteger a ponta do grande trocanter durante a
osteotomia. A osteotomia baseia-se no planeamento pré-operatório e a sela é o
seu ponto de partido. A remoção da cabeça femoral é facilitada pela tracção
gentil mas constante do membro inferior. A remoção prévia de osteófitos
acetabulares anteriores pode ser necessária para a remoção da cabeça femoral.
Exposição acetabular
O retractor ventral é mantido em posição; todos os outros são retirados.
Coloca-se um retractor no meio do acetábulo, orientado medialmente, indo ao
longo do rebordo acetabular até o posicionar definitivamente sobre o ligamento
transverso. Coloca-se outro retractor lateralmente ao acetábulo. Nesta fase,
antes de iniciar a preparação acetabular, deve-se retirar o remanescente do
labrum acetabular.
Preparação acetabular
Inicia-se por abrir a cápsula dorsal no meio do acetábulo e pela colocação de
um retractor acetabular próprio no rebordo dorsal do acetábulo. Na preparação
acetabular pode ser mais fácil inserir inicialmente o reamer e depois conectá-
lo ao punho com duplo offset, mas tal geralmente não é necessário. Depois de
provar, procede-se à impacção do componente definitivo com impactor curvo
apropriado, com atenção à orientação dos orifícios para parafusos, se
necessário (Figura_3). Por último coloca-se o liner escolhido.
Preparação da cápsula dorsolateral
Esta fase é o início da preparação femoral. Coloca-se um retractor na face
lateral do grande trocanter e, de seguida, o elevador do fémur, entre a cápsula
e os rotadores externos. O flap de cápsula lateral é fixo com um clamp, e por
electrocauterização separa-se a camada de tecido gordo entre a cápsula e o
grupo dorsal de músculos (piriforme, obturador, gemelli).
Posicionamento e orientação femoral
Removem-se todos os retractores e coloca-se a perna numa "posição de
4" (Figura_4), colocando um retractor medialmente e um lateralmente ao
fémur, apresentando o calcar, ainda coberto por tecido capsular. Colocando dois
retractores para melhor exposição do calcar, remove-se o restante tecido
capsular. Na nossa experiência, a libertação da cápsula dorsal e medial permite
uma rotação externa mais eficaz, o que em alguns doentes permite uma excelente
orientação do fémur mesmo sem ser colocado na "posição de 4".
Exposição femoral
Inicia-se por baixar a perneira do membro a ser operado 30º-40º. Coloca-se o
elevador do fémur posteriormente ao grande trocanter mas à frente do glúteo
médio. A colocação de um gancho de osso na zona do calcar permite a elevação
gradual e firme do fémur (poderão ser necessárias libertações adicionais,
nomeadamente posteriormente, para permitir a exposição femoral adequada). A
tracção do gancho de osso deve ser sempre combinada com o elevador do fémur
para permitir um movimento combinado, minimizando as forças sobre o grande
trocanter. A perna a ser operada é depois colocada na rotação externa máxima,
em extensão. Coloca-se de seguida um retractor na zona do calcar, proximalmente
ao tendão do psoas ilíaco.
Abertura e preparação do canal femoral
A abertura do canal femoral inicia-se com um instrumento curvo (por exemplo uma
cureta curva). O osso cortical que se observa lateralmente é o córtex do colo e
tem que ser removido para que se consiga atingir eficazmente a porção lateral
do trocanter.
A preparação do canal femoral é iniciada com a raspa mais pequeno, montado no
punho com duplo offset, alinhando-a perfeitamente com o canal e usando o
martelo apenas para o último centímetro de introdução. Na introdução manual, a
raspa tem tendência a ficar numa posição em varo; movimentos oscilatórios
permitem colocar o punho numa posição perfeitamente alinhada com o canal mora.
O punho da raspa deve estar sempre medial ao elevador do fémur.
Colocação do implante e encerramento
A haste definitiva é introduzida manualmente, com impacção gentil no canal.
Após colocação da cabeça definitiva, a anca é reduzida. Após colocação de
dreno, a fáscia é encerrada com sutura contínua com fio absorvível, e a pele
com agrafes.
RESULTADOS
O tempo cirúrgico médio foi de 73,8 min no grupo das coxartroses (66-116) e de
68,6min no grupo das fracturas (67-109). O sangramento operatório médio foi de
297,4cc no grupo das coxartroses (200-487) e de 285,1cc no grupo das fracturas
(215-337). A drenagem pós-operatória foi de 260cc (160-420cc) no grupo das
coxartroses primárias e 247cc (180-400) no grupo das fracturas. A estadia
hospitalar foi de 4,2 dias (3-8) no grupo das coxartroses e 5,7 dias (4-9) no
grupo das fracturas.
Verificou-se uma melhoria significativa na avaliação pelos scores funcionais
entre o pré-operatório e o primeiro mês pós-operatório com uma evolução de 48,2
(42-60) para 86,2 (80-100) (p<0,001) no HHS e de 46,2 (40-60) para 88,4 (87-98)
(p<0,001) no score de WOMAC no grupo das coxartroses primárias (Gráfico_1).
Verificou-se uma melhoria ligeira do primeiro mês pós-operatório para os 6
meses pós-operatórios (86,2 para 90,8 no HHS e 88,4 para 92,2 no WOMAC).
No grupo das fracturas verificou-se uma melhoria no HHS médio de 84,4 no
primeiro mês pós-operatório (80-92) para 92,6 (88-96) ao 6º mês pós-operatório
(p<0,001), assim como uma melhoria no WOMAC médio de 86,8 no primeiro mês pós-
operatório (80-94) para 94,2 aos 6 meses pós-operatório (88-96) (p<0,001)
(Gráfico_2).
O ângulo de inclinação acetabular médio obtido foi de 46,4º (38-65) com um
ângulo componente cefálico diáfise de 136º (128-152) no grupo das coxartroses,
enquanto no grupo das fracturas os resultados foram, respectivamente, 44,4º
(38-60) e 130º (126-148).
Registaram-se como complicações uma fractura do calcar, uma luxação anterior
(por má orientação acetabular e com necessidade de revisão), uma neuropraxia do
nervo femorocutâneo lateral e uma complicação infecciosa profunda com
necessidade de extracção de componentes. Não se registaram perfurações
femorais, hematomas, complicações cardiorrespiratórias ou qualquer episódio
tromboembólico (Tabela_1).
DISCUSSÃO
Este estudo, apesar das suas limitações (estudo retrospectivo e série
relativamente baixa), confirma os bons resultados obtidos com a AAD para a
realização de artroplastia total da anca no tratamento tanto da coxartrose
primária como nas fracturas do colo do fémur. Não sendo um objectivo do estudo
a comparação entre diferentes abordagens, confirma-se a franca melhoria nos
scores funcionais utilizados quando se compara a avaliação pré-operatória e o
primeiro mês pós-operatório no grupo das coxartroses primárias, com melhoria
ligeira na avaliação aos seis meses pós-operatório. No grupo das fracturas do
colo do fémur, os resultados mostram scores mais baixos no primeiro mês pós-
operatório, o que nos parece relacionado com a natureza subjectiva dos scores
utilizados, em doentes autónomos e sem queixas previamente à fractura; no
entanto, na avaliação aos 6 meses, os resultados neste grupo aproximam-se do
grupo das coxartroses primárias (p<0,001).
Estes resultados estão de acordo com diferentes séries que têm vindo a ser
publicadas. Siguier et al15 reportaram numa série de 1037 artroplastias totais
da anca por AAD que todos os pacientes eram capazes de carga total no espaço de
dois dias pós operatórios e que a maioria dos pacientes era capaz de
descontinuar o uso de canadianas entre os 8 dias e 3 semanas de cirurgia. Mayr
et al16 concluiram que a AAD promove uma melhoria na marcha em comparação com a
abordagem anterolateral, avaliando diferentes parâmetros de marcha (cadência,
tempo de passada, amplitude da passada, velocidade na marcha, flexão da anca no
apoio do pé e máxima flexão da anca). Alecci et al19, em 2011, comparando a AAD
com a abordagem lateral directa, observaram melhores resultados peri-
operatórios com a AAD. Nakata et al22 compararam a AAD e a mini-abordagem
posterior num dos poucos artigos comparando dois procedimentos minimamente
invasivos diferentes, e reportaram uma recuperação mais rápida na função da
anca e na capacidade de marcha com a AAD. Klausmeier et al23 compararam a AAD
com a abordagem anterolateral e com um grupo de controlo não operado com foco
na recuperação de curto prazo da força e amplitude de movimento da anca,
concluindo que a AAD foi associada a uma melhoria na velocidade da marcha e na
capacidade de flexão às 6 semanas. Num interessante estudo, Bergin et al25
compararam 29 doentes submetidos a artroplastia total da anca por AAD com 29
doentes operados por via posterior, observando que marcadores de inflamação,
creatina cinase sérica, proteína C-reactiva, interleucina-6, interleucina-1 e
factor de necrose tumoral alfa eram em geral mais baixos no grupo da AAD no
pós- operatório e que os níveis séricos de creatina cinase indicaram que a
abordagem AAD causa significativamente menos lesão muscular do que a abordagem
posterior. As vantagens observadas na recuperação inicial dos doentes têm
tendência a esbater-se com o tempo, tal como observou Barret et al29, quando
compararam a AAD com a abordagem posterolateral, confirmando os melhores
resultados no pós-operatório imediato mas não encontrando diferenças
significativas na comparação em fases mais tardias da recuperação.
Como todas as abordagens, não está isenta de complicações. Na nossa série foram
registadas 2 fracturas trocantéricas (5,7%), registadas durante os primeiros
procedimentos, com provável relação com a curva de aprendizagem; Schneider et
al17 relataram 3% de fracturas femorais no peri e pós-operatório. Registaram-se
1 hematomas (2,8%) e 1 infecção profunda (2,8%), com necessidade de extracção
dos compoentes. Não se detectaram luxações ou episódios tromboembólicos. Keggi
et al18 relatam numa série de mais de 3.000 cirurgias 0,2% de infecções e
episódios tromboembólicos em 0,7% das próteses primarias. Registou-se um caso
de neuropraxia do nervo femorocutâneo lateral (2,8%). Bhargava et al26 chamaram
a atenção para o risco de lesão deste nervo nesta abordagem. Não se registou
qualquer episódio de luxação de prótese, o que está de acordo com a literatura,
que aponta taxas muito baixas de luxação. Siguier et al15 observaram uma taxa
de luxaçãoo de 0,96% (10 de 1037 ancas), observando que preservando o potencial
muscular pode contribuir para a estabilização dinâmica da anca.
A AAD é uma abordagem universal, mas principalmente no início da curva de
aprendizagem, será útil identificar doentes com melhor perfil para esta
abordagem. Pacientes muito musculados poderão ser mais difíceis de operar. Um
índice de Massa Corporal (IMC) elevado não constitui uma contraindicação
relativa; de facto, a AAD explora uma área com menor camada muscular quando
comparada com as abordagens lateral ou posterior. Ancas varas poderão ser mais
difíceis de operar e um ângulo cervicodiafisário maior torna a cirurgia mais
fácil. Um colo femoral longo cria uma distância maior entre o fémur e o
acetábulo; nesses pacientes, os instrumentos podem ser introduzidos mais
facilmente. Uma pélvis larga (que se afasta lateralmente do centro de rotação
da anca) poderá ser mais difícil de operar, pela dificuldade na preparação
femoral (o que é minimizado pelo uso de instrumento com offset adequado).
A AAD é uma técnica talvez tecnicamente mais exigente que outras abordagens
devido à menor exposição, e em doentes obesos ou muito musculados, colo femoral
curto ou protusão acetabular podem surgir problemas particulares, pelo que o
treino do cirurgião é fundamental10, 11, 13, 14, 24, 30. Permite cirurgias de
revisão, tal como Mast et al27 relatam numa série de 51 doentes, apontando
vantagens tais como a melhor exposição acetabular.
CONCLUSÃO
A AAD constitui um procedimento seguro para todos os pacientes, com colocação
precisa dos componentes e baixas taxas de complicações. Nesta abordagem
intermuscular, o doente tem que recuperar apenas do procedimento cirúrgico, mas
não da abordagem, o que permite uma recuperação precoce sem restrição de
movimentos ou permissão de carga, com benefícios distintos para outcomes
directamente focados nos pacientes.