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EuPTCVHe1646-21222013000400007

National varietyEu
Year2013
SourceScielo

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Luxação trans-escafoperilunar Tratamento com abordagem dorsal e palmar

INTRODUÇÃO As luxações e fraturas-luxações perilunares representam um dos tipos de lesões mais devastadoras do carpo, com prognóstico reservado[1] e de tratamento extremamente difícil[2]. Embora relativamente raras, contribuem para cerca de 10% de todas as lesões do carpo[3]. As fraturas-luxações do semilunar combinam roturas ligamentares, avulsões ósseas e fraturas, sendo a mais frequente a luxação trans-escafoperilunar dorsal que corresponde a 96% das fraturas luxações perilunares dorsais e a 61% de todas as luxações e fraturas-luxações perilunares[3, 4, 5].

Numa avaliação inicial estas lesões podem passar despercebidas, no entanto é de extrema importância o seu reconhecimento e o tratamento precoce[2]. No caso das luxações trans-escafoperilunares, a viabilidade do polo proximal do escafoide e do semilunar está em risco, pois a diminuição do aporte sanguíneo pode resultar em pseudoartrose do escafoide, necrose avascular do semilunar ou do escafoide e subsequentemente instabilidade do carpo[6].

O tratamento cirúrgico aberto constitui o método de tratamento de eleição deste tipo de lesões[4].

Os autores reportam um caso pouco frequente de um paciente que sofreu uma luxação transescafoperilunar dorsal, tratada com redução aberta e fixação interna usando uma abordagem dorsal e palmar.

CASO CLÍNICO Jovem do sexo masculino com 17 anos de idade, estudante, dextro, admitido no serviço de urgência após queda de bicicleta com traumatismo do membro superior em extensão.

No exame objetivo, o punho direito encontravase edemaciado e qualquer tentativa de mobilização desencadeava dor. Neurologicamente não apresentava evidência de compressão nervosa ou compromisso vascular.

As radiografias de face e perfil do punho evidenciaram luxação dorsal dos ossos do carpo relativamente ao semilunar, que se mantinha na sua fosseta, com fratura do escafoide, tratando-se portanto de uma luxação trans-escafoperilunar dorsal (Figura_1).

A luxação foi prontamente reduzida segundo a manobra descrita por Tavernier e foi realizada uma imobilização gessada (Figura_2).

Para melhor caraterizar a lesão, realizou-se uma RM (Figura_3), permitindo a identificação de lesões ligamentares associadas, como disrupção do ligamento lunopiramidal.

No tratamento cirúrgico, foram utilizadas duas abordagens do punho: dorsal e palmar.

Através da abordagem dorsal, foi reduzida anatomicamente a articulação radiolunar e fixada temporariamente com um fio de Kirschner (Figura_4A). O ligamento escafo-lunar foi identificado, não se encontrando danificado. A osteossíntese do escafoide foi realizada com um parafuso tipo Herbert do polo proximal dorsal para o polo distal palmar. Procedeuse à redução da articulação lunopiramidal e reparação com mini-âncoras dos ligamentos lunopiramidal e radiolunar dorsal. As articulações lunopiramidal e médio-cárpica lunar foram estabilizadas com dois fios de Kirschner, do piramidal para o semilunar e do piramidal para o uncinado-capitato (Figura_4B) Através da exploração palmar, identificou-se rotura da cápsula palmar e foi avaliada a redução dos ossos do carpo (Figura_4C). O nervo mediano foi libertado e a cápsula palmar foi reparada. A pele foi encerrada, após colocação de um dreno, e o membro foi imobilizado com luva de escafoide.

O pós-operatório decorreu sem intercorrências (Figura_5). O paciente usou a imobilização gessada durante 6 semanas, altura em que passou a usar uma ortótese imobilizadora do punho e polegar, permitindo iniciar o tratamento fisiátrico às 8 semanas (Figura_6).

Os fios de Kirschner foram retirados 3 meses após a cirurgia, no entanto manteve a imobilização durante 6 meses devido ao aparecimento tardio de seguros sinais de consolidação do escafoide, mantendo-se o tratamento fisiátrico durante oito meses.

Aos oito meses após a cirurgia o paciente encontrava-se clinicamente sem dor, com mobilidades e capaz de realizar todas as atividades de vida diárias sem limitações (Quadro_I e Figura_7).

As radiografias (Figura_8) realizadas 8 meses após a cirurgia evidenciavam consolidação do escafoide, sem evidência de necrose avascular do semilunar e sem instabilidade do carpo com um ângulo escafolunar de 45º e lunocapitato < 20º.

Quatro anos após a cirurgia, o doente encontravase assintomático e radiograficamente (Figura_9) sem evidência de artrose ou instabilidade cárpica com um ângulo escafolunar de 45º.

DISCUSSÃO As fraturas-luxações perilunares representam uma sub-categoria das instabilidades complexas do carpo que envolvem uma disrupção do alinhamento do carpo, entre a própria fileira e entre as fileiras proximal e distal.

As lesões ligamentares que ocorrem nas luxações perilunares seguem um padrão de instabilidade progressiva perilunar no distúrbio articular, como evidenciou Mayfield et al[7]. As luxações perilunares correspondem ao estadio IV, em que o capitato se encontra luxado dorsalmente e proximalmente, exercendo pressão na face dorsal do semilunar. Quando estão associadas fraturas nos ossos vizinhos do semilunar, este tipo de lesões subdivide-se em luxações perilunares do grande arco[4].

No caso descrito de luxação trans-escafoperilunar, verifica-se a existência de fratura com desvio do escafoide. O segmento distal do escafoide conjuntamente com a fileira distal do carpo encontram-se luxados dorsalmente relativamente ao semilunar.

Segundo Hertzberg et al[5] 25% das luxações perilunares podem não ser identificadas até às 6 semanas e, neste caso o prognóstico das lesões é mau, comparativamente com aquelas que são imediatamente identificadas e tratadas[6].

As luxações trans-escafoperilunares podem ser tratadas com redução fechada e imobilização gessada ou redução fechada e fixação percutânea, no entanto, estas opções de tratamento raramente estão recomendadas[4].

Assim, a primeira abordagem de tratamento consiste na redução incruenta, se possível, da luxação permitindo diminuir a pressão no nervo mediano[7]. A redução aberta anatómica e fixação interna constituem o método de eleição para o tratamento definitivo deste tipo de lesões[4,7].

No tratamento cirúrgico a abordagem pode ser dorsal, palmar ou combinada[8].

Apesar de alguns estudos evidenciarem resultados razoáveis usando uma abordagem única[2, 9], os autores optaram pela abordagem dorsal e palmar, uma vez que é essencial uma redução anatómica das várias estruturas, permitindo esta abordagem a identificação de algum fragmento osteocondral e a reparação de todas as estruturas ósseas e ligamentares[2,4,8,10]. Dependendo da localização da fratura do escafoide, esta pode ser fixada por via dorsal ou palmar[10]. A abordagem palmar permite libertar a fratura do escafoide de tecidos moles interpostos, reparar os ligamentos cárpicos volares que normalmente se encontram lesados neste tipo de lesões e avaliar a redução do carpo[2,10]. A fixação dos ossos do carpo com fios de Kirshner é fundamental para a cicatrização ligamentar, principalmente a estabilização da articulação lunopiramidal e lunocapitato[4].

Apesar das luxações trans-escafolunares causarem um desarranjo importante na organização dos ossos do carpo e o seu tratamento ser complexo, a abordagem combinada dorsal-volar pode ser usada de forma standardizada e eficaz no restabelecimento das relações do carpo e fixação das fraturas associadas.

Assim, evita-se que lesões associadas passem despercebidas com uma abordagem única, podendo o resultado final ser pior[2,8,10,11].

O resultado clínico e radiológico do caso apresentado foi bom, estando de acordo com resultados publicados na literatura[2,8,10,11,12]. A longo prazo não se verificaram complicações como necrose avascular do semilunar, instabilidade cárpica ou artrose.

CONCLUSÃO O tratamento instituído de imediato e a redução anatómica obtida, provavelmente contribuíram para o sucesso deste caso. Sendo consensual que o tratamento destas lesões é quase sempre cirúrgico, a opção pela combinação da abordagem dorsal e volar, com a reparação anatómica das estruturas lesadas proporciona resultados clínicos aceitáveis nestas lesões de alta energia do carpo.


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