Doença de Dupuytren: Uma visão atual sobre a doença
INTRODUÇÃO
A doença de Dupuytren (DD) foi descrita há mais de 400 anos pelo médico suiço
Felix Plater[1], embora mais reconhecida a partir da descrição do anatomista e
cirurgião francês Baron Guillaume Dupuytre em 1831, o primeiro a descrever o
tratamento cirúrgico desta patologia[2]. Trata-se de um tumor desmóide/
fibromatose palmar resultante da fibroproliferação dos tecidos, podendo
conduzir à contração em flexão incapacitante da mão, impossibilitando o doente
de realizar as mais simples atividades da vida diária.
EPIDEMIOLOGIA
A prevalência da DD aumenta com a idade, sendo mais frequente a partir dos 40
anos, com o ratio homem/mulher podendo atingir o valor de 5,9:1. A prevalência
da DD é extremamente variável de acordo com a localização geográfica, sendo
superior no Norte da Europa (ficou conhecida como a "doença dos
Vikings") e incomum na Ásia e África. Os valores variam de 0,2% até 56%,
para o que pode contribuir fatores genéticos, ambientais ou uma combinação de
ambos[3,4,5].
ANATOMOPATOLOGIA
É fundamental compreender a complexa anatomia da fáscia palmar (Figura_1) para
a correta avaliação e tratamento da doença. A fáscia palmar dividese em três
partes - digital, palmodigital e palmar, dividindo-se esta última nas
aponevroses radial, cubital e central (a mais diretamente envolvida na doença).
Longitudinalmente, a aponevrose central organiza-se distalmente nas bandas pré-
tendinosas, que se bifurcam inserindo-se na derme, nas estruturas flexoras e
extensoras dos dedos, e em torno da articulação metacarpo-falângica profundas
aos feixes neuro-vasculares originando as bandas espirais que emergem
posicionando-se laterais aos feixes. Da aponevrose central, além das fibras
longitudinais, partem também fibras verticais - fibras de Grapow e septos
de Legueu e Juvara - e transversais - ligamento transverso superficial,
proximalmente e ligamentos natatórios, distalmente[6,7].
Na DD as bandas e ligamentos sãos, por fibroproliferação, transformam-se em
tecido doente, designado por nódulos e cordas.
No quadro_I são descritas as principais deformidades associadas a cada corda.
Os conhecimentos que se foram adquirindo até à data sobre a anatomia da fáscia
palmar têm implicações não só na compreensão da doença mas também no
aperfeiçoamento da técnica cirúrgica. O desenvolvimento das cordas,
nomeadamente das cordas espirais, pode deslocar os feixe neurovasculares para a
linha média do dedo, que assim pode ser lesado durante a incisão na pele na
ausência do conhecimento dessa possível posição anómala do feixe por parte do
cirurgião.
ETIOLOGIA
A DD resulta de uma simbiose entre fatores genéticos e ambientais.
Genética: Há uma clara predisposição genética para o desenvolvimento da DD.
Acredita-se que se trate de Transmissão Autossómica Dominante com Penetrância
Variável.
Inicialmente foi proposta uma associação ao cromossoma 16q, onde se localizarão
genes envolvidos na produção do colagénio. Pensa-se que na doença haja uma
superativação dos genes responsáveis pela produção de colagénio e inibição dos
genes responsáveis pela sua destruição[8]. Posteriormente, foram reportadas
alterações no número de cópias dos genes nas regiões cromossómicas 10q22,
16p12.1 e 17p12, associações com o alelo HLA-DRB1*15 e uma mutação no rRNA 16s.
Foram ainda demonstradas associações genéticas com os cromossomas 6 e 11
[5,9,10].
Embora ainda haja um longo caminho a percorrer no campo da genética na DD,
todas as associações estabelecidas contribuirão para uma via fisiopatológica
comum que em última análise resulta na fibroproliferação tecidular
caraterística da doença.
Ambiente
Tabaco e Álcool
Estudos demonstraram que o tabaco e o alcoolismo elevam o risco de desenvolver
a doença, com um odds ratios de 2,8:1 e 1,8:1 respetivamente[5,11,12].
Diabetes mellitus
Associações estatisticamente significativas foram também efetuadas entre a DD e
a Diabetes mellitus(DM), tipo I mais que a tipo II. Num estudo de Noble,
Heathcote and Cohen a incidência da doença nos diabéticos foi de 43%. A idade
de início e a duração da DM é significativa no desenvolvimento da DD. Após 20
anos, 67% dos diabéticos tipo I desenvolveram DD[5,11,12].
Outras associações
Menos consistente é a associação da DD com a epilepsia/medicação antiepilética,
HIV e trabalho manual, com exceção no trabalho manual implicando vibração da
mão. Dois estudos apresentaram evidência de uma relação dose-resposta para a
associação com a exposição à vibração[5,11,12].
PATOFISIOLOGIA
Na DD o tecido da fáscia palmar apresenta um aumento na deposição de colagénio
tipo III relativamente ao colagénio tipo I (principal componente da fáscia
palmar saudável).
Foram descritos 3 estadios para a doença - proliferativo, involucional e
residual - que possui dois elementos fibróticos estruturalmente distintos: o
nódulo, altamente vascularizado e rico em miofibroblastos que expressam a α-
actina típica do músculo liso , e as cordas, mais avasculares, acelulares,
ricas em colagénio III e pobres em miofibroblastos. A expressão da α-actina
pode explicar a contratilidade observada na DD. Os nódulos podem transformar-se
em cordas com a progressão da doença. Inicialmente pensava-se que as cordas
seriam totalmente acelulares, estáticas e o produto final dos nódulos, contudo
estudos mais recentes demonstraram que os nódulos podem estar presente no seio
das cordas em graus variáveis, que possuem assim ainda alguma celularidade.
O miofibroblasto desempenha um papel central na DD, e partilha caraterísticas
com as células do músculo liso e os fibroblastos, conduzindo à contração e
deposição de colagénio III típicas da doença. Vários mediadores inflamatórios
estão aumentados nos tecidos da DD como o fator transformador de crescimento
(TGF- ß), fator de crescimento dos fibroblastos (FGF), fator de crescimento
derivado das plaquetas (PDGF), fator de crescimento epidérmico (EGF) e
interleucina-1 (IL-1), sinalizando a diferenciação e proliferação dos
miofibroblastos. Estes mediadores inflamatórios são libertados em resposta
radicais livres de oxigénio que por sua vez se originam devido a fenómenos
isquémicos secundários a uma angiopatia microvascular. Esta lesão microvascular
terá origem multifatorial, com contribuição de fatores genéticos, idade, sexo,
tabaco, álcool diabetes mellitus ou trauma[5,13,14,15]. Portanto segundo os
estudos mais recentes, todos os fatores etiológicos citados anteriormente
culminam numa via comum aqui descrita e resumida na Figura_2.
APRESENTAÇÃO CLÍNICA
Inicialmente há um espessamento e retração da pele, que adquire um aspeto
enrugado, com reentrâncias, o que não deve ser confundido com calosidades.
Posteriormente os doentes podem notar o surgimento de nódulos. Estes são
habitualmente distais à prega de flexão distal da palma e indolores, embora
alguns doentes refiram sensibilidade ao toque, sensação de prurido ou queimor.
Com o desenrolar da doença os nódulos podem progredir para cordas estáticas,
contraídas e fixas à pele subjacente podendo lembrar o aspeto de tendões
flexores, e nos estádios mais avançados da doença conduzir à flexão, por vezes
incapacitante, dos dedos[16]. O doente pode ser incapaz de colocar a mão reta
sobre uma mesa - "table top test"/teste de Hueston (Figura_3)
É importante não confundir os estádios mais precoces da DD com outras
patologias, por exemplo hiperqueratose, tenosinovite estenosante, entre outras
[17].
Por ordem decrescente de frequência, o dedo mais atingido é: anelar, 5º dedo,
3º dedo, 2º dedo, e por fim 1ºdedo. A flexão da articulação MCF normalmente
precede a flexão da articulação IFP. Geralmente a doença inicia-se na palma e
propaga-se para os dedos, mas é possível estar apenas na palma ou apenas nos
dedos ou em locais ectópicos como nódulos de Garrod IFP (dorsal) ou no punho[
(17].
Na maioria a doença progride lentamente, durante anos. Cerca de 50% dos doentes
com nódulos desenvolvem cordas, e destes apenas alguns necessitam de tratamento
cirúrgico. A bilateralidade está presente em aproximadamente 59% dos homens e
43% das mulheres com a doença. Em 5% dos indivíduos pode associar-se à
fibromatose plantar, doença de Ledderhose, e em 3% à fibromatose peniana,
doença de Peyroni[16,17].
TRATAMENTO
Observação
Tal como já referido anteriormente, a DD geralmente desenvolve-se lentamente ao
longo de vários anos e pode não progredir até ao seu máximo potencial. A chave
encontra-se na observação do doente até que eventualmente atinja alguma
limitação funcional requerendo uma intervenção mais agressiva[16].
Fisioterapia e Talas gessadas
Há referência na literatura ao uso de fisioterapia ou talas gessadas no
tratamento da doença, contudo os estudos realizados demonstraram que
isoladamente estas técnicas são ineficazes, podendo ser úteis contudo no
período pós-cirúrgico[18].
Injeção intralesional de Triancinolona
Trata-se de um corticoide, e o fundamento para a sua utilização advém dos bons
resultados observados com a injeção de Triancinolona em cicatrizes
hipertróficas e queloides (também ricos em colagénio) [19]. Ketchum e Donahue
[20], com 3,2 injeções por nódulo obtiveram regressão da doença em 97% dos
casos, contudo com 50% de recorrência 1 a 3 anos após a última injeção. O
benefício é superior nos estádios mais iniciais da doença - nódulos e
cordas ainda com pouca contração. Os principais efeitos laterais consistem na
atrofia da pele e despigmentação típicas dos corticoides, que normalmente
resolvem ao fim de 6 meses.
Injeção intralesional de Colagenase
Derivada do Clostridium histolyticum, promove a lise do principal componente
das cordas - colagénio (Figura_4). Em 2012Witthaut et al[21] analisaram a
eficácia da colagenase na DD em mais de 800 articulações, usando uma média de
1,2± 0.5 injeções por corda , e relataram sucesso clínico em 57% dos casos. O
sucesso foi superior quando a articulação atingida era a MCF comparativamente à
IFP (70% vs 37%). O benefício é superior nos estádios mais iniciais da doença.
A melhoria na contração foi de 55° na MCF e 25° na IFP. Outros estudos
realizados anteriormente demonstraram resultados semelhantes[22-30]. Faltavam
dados sobre a recorrência, contudo recentemente foi efetuado um estudo
avaliando mais de 1000 articulações[22]. Ao fim de 3 anos observou-se 35% de
recorrência nas articulações que haviam obtido uma contração de 0 a 5° após o
tratamento (27% MCF vs 56% IFP) comparativamente a uma recorrência de 50% nas
articulações com correção apenas parcial após o tratamento (também aqui a
recorrência foi superior nas articulações IFP relativamente às MCF).
A taxa de complicações foi baixa, com rutura de tendão inferior a 1%.
Fasciotomia Percutânea
A secção da corda com uma agulha de forma percutânea representa um método capaz
de proporcionar uma melhoria funcional significativa, sobretudo da articulação
MCF, com uma baixa taxa de complicações, contudo com uma elevada taxa de
recorrência. Rijssen et al. compararam os resultados da fasciotomia percutânea
com os da fasciectomia seletiva e obtiveram uma melhoria de 76% no défice de
extensão, semelhante ao resultado obtido com a fasciectomia seletiva. Num
follow-up de 5 anos houve recorrência em 85% dos casos tratados com a
fasciotomia percutânea versus uma recorrência de 24% na fasciectomia. Contudo a
fasciotomia percutânea pode ser uma opção nos casos iniciais da doença (<90%
défice extensão) e em doente com contraindicação cirúrgica[31,32].
Fasciotomia Percutânea associada à Triancinolona
Recentemente, em 2012, McMillan e Binhammer [33] compararam a associação de
injeções de triancinolona com a fasciotomia percutânea com o uso isolado da
fasciotomia percutânea, e obtiveram resultados estatisticamente significativos
com o primeiro grupo apresentando uma correção de 87% no défice total de
extensão ativa comparado com uma correção de 64% no segundo grupo.
Tratamento cirúrgico
Indicação cirúrgica
Embora alguns autores defendam o tratamento cirúrgico aquando do surgimento de
qualquer limitação funcional associada à doença, na literatura mais recente há
algum consenso quanto à indicação cirúrgica quando há contração em flexão da
articulação MCF ≥ 30º e qualquer grau de contração em flexão da articulação IFP
(embora usualmente aceitem a indicação cirúrgica a partir de 15º)[17].
Métodos cirúrgicos
Vários são os métodos descritos na literatura: fasciotomia, fasciectomia
segmentar, fasciectomia radical, fasciectomia seletiva, dermofasciectomia e nos
casos mais severos amputação/artrodese.
Poucos estudos existem comparando os diferentes métodos de tratamento
cirúrgico. O método selecionado deve ter em conta o doente e a experiência do
cirurgião com cada método.
Contudo vários avaliam o benefício do tratamento cirúrgico de uma forma global.
Em 2012 Werker et al[34] avaliaram 218 estudos, cada um deles com pelo menos 20
doentes. A principal dificuldade encontrada reside na multiplicidade de valores
usados para definir correção da contratura e recorrência da doença, sendo que
em muitos casos são usadas escalas qualitativas. A percentagem de doentes que
alcançou a correção da contratura variou de 15 a 96% para a fasciectomia. Essa
percentagem não foi determinada para a fasciotomia. A recorrência variou de 12
a 73% para a fasciectomia e de 33 a 100% para a fasciotomia.
A fasciotomia e a fasciectomia segmentar embora menos invasivas e permitindo
uma recuperação funcional precoce parecem estar associadas a maior taxa de
recorrência[35].
A fasciectomia radical, removendo tecido doente e tecido saudável,
potencialmente causador de recorrência, foi largamente abandonada pela elevada
taxa de complicações e percentagem de recorrência semelhante aos restantes
métodos menos invasivos[35].
A fasciectomia seletiva (Figura_5) é o método mais utilizado atualmente. Um
método semelhante mas envolvendo a remoção da pele adjacente é a
dermofasciectomia, pois alguns acreditam que possa prevenir a recorrência.
Contudo os estudos efetuados não demonstram vantagem deste método relativamente
aos em termos de recorrência[36].
Relativamente à articulação IFP, para a qual se defende tratamento cirúrgico
mais precoce, alguns autores defendem a remoção da cápsula da articulação,
contudo não existem dados apoiando ou rejeitando esta opção.
A DD pode conduzir limitação funcional severa e resistente ao tratamento
cirúrgico. Nestes casos e em casos de complicações, algumas pós-cirúrgicas, com
a lesão vascular pode estar indicada a artrodese ou mesmo a amputação.
Um estudo revelou que 39% das amputações eletivas de dedos da mão foram
secundárias a DD, todas ao nível do 4º e 5º raios, das quais 92% em recorrência
da doença. Demonstrou ainda que de todas as cirurgias efetuadas por DD, 2%
foram amputações eletivas[37,38].
Complicações
As principais complicações reportadas após a cirurgia são as dificuldades de
cicatrização (23% dos casos), dor (18%), lesão vascular (2%), lesão nervosa
(3%), infeção (2%)[17]. A taxa de complicações aumenta nos casos com contração
mais severa e nas reintervenções por recorrência[39].
Alguns pontos a ter em atenção de forma a evitar algumas complicações são o
isolamento e proteção do feixe vasculo-nervoso, que como referido anteriormente
pode encontra-se deslocado em direção à linha média do dedo, e a atenção com a
hemostase pois o hematoma pode ser uma complicação importante e causa de alguns
dos problemas acima mencionados.
Recorrência
Embora se defina geralmente recorrência como doença em local previamente
submetido a cirurgia, e extensão da doença como o seu surgimento em local
previamente são, na prática esta distinção é complexa.
Como já referido anteriormente a recorrência pós cirúrgica é considerável e os
doentes devem ser alertados que a cirurgia não representa uma cura para a
doença e que outras intervenções podem ser necessárias.
A disseção cirúrgica num local previamente intervencionado é mais complexa e
com percentagens de complicações mais elevadas, por vezes com lesão vascular
irreversível requerendo amputação. Alguns cirurgiões preferem a
dermofasciectomia, artrodese ou mais raramente amputação para a cirurgia por
recorrência da doença[40,41].
PROGNÓSTICO
Alguns fatores foram associados a pior prognóstico e maior risco de
recorrência: sexo masculino, surgimento da doença antes dos 50 anos de idade,
descendência norte europeia, um ou mais familiares afetados, bilateralidade da
doença, presença de Nódulos de Garrod (sobretudo ao nível da IFP dorsal) e
atingimento da articulação interfalângica proximal.
Quando todos estes fatores estão presentes o risco de recorrência é de 71%
comparativamente com risco de recorrência de 23% quando nenhum dos fatores está
presente[42].
CONCLUSÃO
Quando se fala da doença de Dupuytren fala-se de uma patologia comum e
potencialmente incapacitante, podendo impossibilitar o doente, muitas vezes
jovem, de realizar as mais simples tarefas da vida diária. Hoje sabe-se que há
uma clara predisposição genética para o desenvolvimento da doença, devendo o
doente ser alertado que os genes não se curam e que portanto é expectável a
recorrência da doença.
Embora a cirurgia não represente uma cura, tem notáveis benefícios funcionais,
mas tendo em conta que a doença pode evoluir durante décadas ou em alguns casos
jamais provocar limitação funcional, torna-se fundamental ponderar o melhor
momento para intervir. Há algum consenso quanto à indicação cirúrgica para uma
contração superior ou igual a 30º para a articulação MCF e 15º para a
articulação IFP. Quanto aos tratamentos não cirúrgicos, apesar das elevadas
taxas de recorrência a que parecem associarse, podem ter algum papel nos
estádios iniciais da doença, nos nos doentes com contraindicação cirúrgica ou
em associação a outros métodos cirúrgicos e não cirúrgicos. Apesar de descrita
há algumas centenas de séculos novos conhecimentos continuam a surgir sobre a
doença e várias são os caminhos em aberto para novas descobertas.