Corpo estranho no bulbo duodenal
Corpo estranho no bulbo duodenal
Foreign body in the duodenal bulb
Joana Saiote, Pedro Duarte, Teresa Bentes
Centro Hospitalar Lisboa Central – Serviço de Gastrenterologia
Correspondência
Doente do sexo feminino de 57 anos, realizou endoscopia digestiva alta por dor
abdominal epigástrica, diurna e nocturna, vómitos alimentares pós-prandiais
precoces e tardios. Esta sintomatologia dolorosa estendeu-se, sem alívio,
durante seis meses.
O exame mostrou um corpo estranho com forma ovalada, bordos rombos com cerca de
20 mm de maior eixo no bulbo duodenal (Fig. 1). Após remoção com cesto de
Dormia, observou-se erosão no apex bulbar. Não existiam outras lesões,
nomeadamente na segunda porção do duodeno.
Fig. 1. Corpo estranho no bulbo duodenal. Protusão através do piloro.
A observação macroscópica após fragmentação, mostrou tratar-se de um caroço de
fruto (Fig. 2). A doente referiu a ingestão acidental de caroço de ameixa cerca
de 1 mês antes do início das queixas. Mantém-se assintomática desde o
procedimento.
Fig. 2. Corpo estranho: caroço de ameixa após fragmentação.
Dos corpos estranhos ingeridos 90% passam espontaneamente através do trato
gastrointestinal, 10 – 20% requerem a remoção endoscópica e 1% exigem cirurgia
1
.
Na população em geral, os corpos estranhos mais frequentemente encontrados são
ingeridos acidentalmente, como sejam ossos, espinhas ou caroços de fruta1,
2
.
A maioria fica alojada nas constrições fisiológicas do esófago ou em locais de
estreitamento anormal (estenoses, anéis ou tumores malignos). O bulbo duodenal
é uma localização reconhecida, mas rara de impactação dos corpos estranhos, com
incidência em estudos populacionais entre 0,5 e 4,6%
3
. Geralmente ocorre associada a patologia subjacente como ulcerosa,
inflamatória, neoplásica, diverticular, pancreática, entre outras.
O tempo decorrido entre a ingestão e início dos sinto mas é por vezes difícil
de estabelecer, visto que na maioria dos casos não há memória da ingestão do
corpo estranho.
A intervenção endoscópica é a técnica indicada na remoção de corpos estranhos,
sendo a eficácia dependente da forma, dimensões e localização dos mesmos,
variando a taxa de sucesso entre 90 e 100%.
Para objectos lisos e redondos, como o caroço mumificado, o cesto de Dormiaé
uma solução adequada
4
.
Apresentamos este caso clínico pela sua raridade, no que diz respeito à
localização do corpo estranho (bulbo duodenal sem patologia subjacente) e pelo
tempo de permanência do corpo estranho no tubo digestivo alto (6 meses) até à
sua remoção endoscópica. Na realidade, o caroço terá sido deglutido 1 mês antes
do início das queixas, mas a endoscopia só teve lugar seis meses após o início
da sintomatologia.