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EuPTCVHe0872-07542015000200009

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-0754
Year2015
Issue0002
Article number00009

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Caso electroencefalográfico

CASO CLÍNICO Descreve-se o caso de uma criança do sexo masculino, de cinco anos de idade, filho de casal saudável, não consanguíneo. Dos antecedentes pessoais, hérnia inguinal esquerda (herniorrafia aos 15 meses) e hipospádias (corrigida cirurgicamente aos 8 anos).

Referenciado à consulta por episódios, o primeiro aos quatro anos de idade e recorrendo com intervalos de vários meses, sempre relacionados com o sono, em que despertava, vomitava, ficando muito pálido e apático, com desvio cefálico e ocular para a esquerda. Estes episódios tinham a duração de 2 a 4 minutos, com resolução espontânea, após o que adormecia novamente.

O exame neurológico não revelou alterações.

Realizou electroencefalograma (EEG) que revelou actividade paroxística focal, parieto-occipital direita e também frontal direita, com acentuação no sono (figuras 1 e 2).

Qual é o seu diagnóstico? Diagnóstico Síndroma de Panayiotopoulos

EVOLUÇÃO A imagem cerebral por ressonância magnética não mostrou alterações.

Foi medicado com carbamazepina na dose aproximada de 10 mg/kg/dia. Teve nova crise dois meses depois, com a mesma fenomenologia e evolução para crise hemiclónica esquerda. Foi aumentada dose de carbamazepina, ajustada ao aumento ponderal. Não voltou a ter crises até aos nove anos de idade, altura em que teve uma crise após adormecer no automóvel; parecia não ver, pelo menos em parte do campo visual, referia náuseas e tentava vomitar. Este episódio durou mais de 15 minutos, após o que ficou com cefaleia difusa e sonolência. Foi aumentada a dose do antiepiléptico, sem recorrência subsequente.

Por apresentar dificuldades escolares e quadro compatível com perturbação de hiperactividade e défice de atenção, foi medicado com metilfenidato, com benefício.

Por se manter sem crises e com menos alterações no EEG, sugerindo epilepsia não activa, não foi ajustada dose ao aumento ponderal e depois fez suspensão gradual, sem recorrência de crises e com alta da consulta aos 14 anos de idade.

DISCUSSÃO A Síndroma de Panayiotopoulos é uma forma comum de epilepsia infantil idiopática reconhecida pela Liga Internacional contra a Epilepsia.1 É considerada uma manifestação mais precoce do espectro das epilepsias occipitais benignas ou autolimitadas da infância, sendo a síndroma de Gastaut uma manifestação mais tardia e com semiologia ictal diferente.2 Ocorre em crianças entre o 1 e os 14 anos, com um pico de incidência entre os 4-5 anos. A prevalência estimada de 13% em crianças com crises epilépticas apiréticas entre os três e os seis anos é provavelmente subestimada, dada a dificuldade diagnóstica, tendo em conta as características das crises.2,3 As crises manifestam-se essencialmente com sintomas autonómicos, sendo as náuseas e vómitos os sintomas mais comuns (em cerca de 80%). Podem surgir outras manifestações disautonómicas como palidez, midríase, alterações cardiorrespiratórias e termorreguladoras, incontinência de esfíncteres, hipersalivação e alterações da motilidade intestinal. O desvio ocular conjugado é muito frequente, podendo ocorrer em 60-80% dos casos. Em aproximadamente 20% dos casos progressão para crise hemiclónica ou tónico-clónica generalizada, sendo também relativamente comum a perda de consciência não associada a convulsão (síncope ictal). Caracteristicamente, as crises são prolongadas, tipicamente com uma duração entre cinco a 10 minutos, mas em quase metade dos casos podendo durar mais de 30 minutos (estado de mal epiléptico disautonómico). A maioria das crises ocorre durante o sono, podendo ser também diurnas.2,4,5 O diagnóstico é clínico e suportado pelo EEG, que deve incluir necessariamente período de sono. O traçado interictal pode mostrar ondas abruptas ou pontas com diferentes localizações, podendo ser normal. um predomínio das alterações em occipital (aproximadamente 70% dos doentes em pelo menos um exame), não sendo, contudo, um pré-requisito para o diagnóstico. As anomalias são mais frequentes durante o sono e, na vigília, é característico o bloqueio dos paroxismos com a abertura dos olhos. Podem ocorrer paroxismos nas regiões frontais ou centro- temporais, concomitantes com os occipitais ou de forma isolada.2,4 O tratamento profi com antiepilépticos está indicado num grande número de doentes, pela recorrência das crises e tendo em conta que estas são frequentemente muito prolongadas. Os fármacos mais utilizados são a carbamazepina e o valproato.

O prognóstico é geralmente bom, com remissão das crises e sem repercussão neurológica. Um terço dos doentes têm apenas uma crise e apenas 10% têm mais que 10 crises ao longo de todo o período de epilepsia activa, mas existem casos de difícil controlo.4 O risco de desenvolver epilepsia na idade adulta é igual ao da população geral. Raramente, as crises autonómicas podem ser potencialmente fatais, tendo em conta o risco de paragem cardio-respiratória.3 Nesta síndroma, as características das crises (com predomínio dos fenómenos autonómicos e mimetizando outras situações) atrasam muitas vezes o diagnóstico.3 O reconhecimento desta situação pelos profissionais de saúde é crucial que se trata de uma situação relativamente comum e geralmente com uma evolução favorável.


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