Formas clássicas
Formas clássicas
Teresa Borges1
1U. Endocrinologia Pediátrica, CH Porto
A Hiperplasia Supra-renal Congénita (HSRC) é uma patologia Autossómica
Recessiva caracterizada pela alteração da síntese do colesterol. Tem uma
incidência estimada de 1:10000 a 1:20000 recém-nascidos, com variações étnicas
e raciais importantes.
A forma mais comum de HSRC, responsável por cerca de 95% dos casos, é provocada
pela mutação / delecção do gene CYP1A2, que codifica para a enzima 21-
hidroxilase (P550C21). Esta enzima converte a 17-hidroxiprogesterona (17OHP) em
11-desoxicortisol e a progesterona em desoxicorticosterona, respectivamente, os
precursores do cortisol e da aldosterona. O bloqueio da síntese do colesterol
leva à estimulação do córtex da supra-renal, com acumulação dos precurssores do
cortisol que são desviados para a biossíntese das hormonas sexuais. Cerca de
75% das formas clássicas da HSC têm deficiência de aldosterona.
O gene que codifica para a 21-hidroxilase está localizado na região III do
complexo humano de histocompatibilidade, no cromossoma 6. Existem mais de 100
mutações conhecidas do CYP21A2. O estudo genético do gene permite detectar
cerca de 95% dos doentes afectados.
As formas Clássicas da HSRC dividem-se em formas Clássicas perdedoras de sal e
formas Clássicas virilizantes simples. Cerca de 75% dos doentes com HSRC forma
clássica têm deficiência de aldosterona ' forma perdedora de sal. A crise
adrenal surge nas 1ªs semanas de vida e os sinais típicos são:
hiporreactividade; reflexo de sucção débil, dificuldades alimentares,
hiperpigmentação, vómitos, hipotermia, hipotensão, desidratação e perda de
peso. Analiticamente é caracterizada por: hipoinatrémia; hipercaliémia;
hipoglicemia e acidose metabólia.
As formas Clássicas condicionam virilização no RN do sexo feminino,
constituindo a causa mais comum de ambiguidade sexual no feto geneticamente
feminino. O grau de virilização é muito variável, desde cliteromegalia simples
até ao aspecto de phalus. No feto do sexo masculino, os genitais externos não
estão afectados e na ausência da forma perdedora de sal, o diagnóstico é
protelado e condicionado pelo aparecimento de pêlo axilar e púbico, acne,
aceleração do crescimento e da idade óssea.
O diagnóstico assenta na Prova de ACTH (250 ug) com doseamentos hormonais da
Supra-renal, aos tempos 0 e 60 minutos. A actividade da renina plasmática, ou
melhor a relação desta com a aldosterona, permite diagnosticar a deficiência
mineralocorticóide. Outros exames que podem ser úteis para o diagnóstico são: o
inonograma sérico; a gasimetria; a ecografia abdominal e pélvica e o cariótipo
de sangue periférico.
A terapêutica engloba os glucocorticóide, os mineralocorticóide e os
suplementos de sódio, estes dois últimos na presença de deficiência
mineralocorticóide. Durante a fase de crescimento, o glucocoricóide indicado é
a hidrocortisona porque a sua semi-vida curta permite minimizar os efeitos
adversos dos glucocorticóides mais potentes e de acção mais prolongada,
principalmente ao nível da supressão do crescimento.
A monitorização da terapêutica inclui os doseamentos hormonais periódicos, a
avaliação do crescimento (velocidade de crescimento cada 6 a 12 meses) e
avaliação anual da idade óssea. O objectivo é evitar o hipercortisolismo e o
hiperandrogenismo e permitir o crescimento e desenvolvimento adequados com o
atingimento da estatura alvo.
Segundo os consensos mais recentes (2010) o rastreio universal dos recém-
nascidos está recomendado. Actualmente o rastreio endócrino-metabólico
Português não incluiu o rastreio da deficiência de 21-hidroxilase.
Dada a complexidade desta patrologia, estes doentes devem ser seguidos em
Centros de referência multidisciplinares que englobem cirurgiões pediátricos,
endocrinologistas pediátricos, pedopsiquiatras / psicólogos e geneticistas com
experiência na área.