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EuPTCVHe0872-07542012000300008

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-0754
Year2012
Issue0003
Article number00008

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Caso electroencefalográfico

CASO CLÍNICO Apresenta-se o caso de uma criança do sexo feminino, ob­servada na consulta com oito anos de idade, enviada por epi­sódios de paragem da actividade desde cerca de meio ano, tendo-se tornado progressivamente mais frequentes. Ocorriam, nesta altura, numa frequência superior a 10 vezes por dia, apa­rentemente mais vezes quando estava menos interessada no que estava a fazer, nas aulas e às refeições. Diziam que parecia hipnotizada e nunca tinham notado pestanejo, mastigação ou outras manifestações associadas. Recuperava rapidamente e retomava o que estava a fazer anteriormente.

Nos antecedentes pessoais, a referir parto eutócico às 38 semanas, com circular do cordão, mas índice de Apgar 9/10. Apresentava desenvolvimento psicomotor normal e não havia história de convulsões febris, infecção do sistema nervoso cen­tral ou traumatismo cranioencefálico. Sem antecedentes familiares de epilepsia. O exame objectivo era normal. A prova de hiperpneia realizada quando da primeira observação desenca­deou duas crises de paragem da prova: revirou os olhos, teve leve pestanejo e num teve pequena estremeção no final; dura­ção de segundos, retomando a prova.

A monitorização de electroencefalograma com vídeo mos­trou inscrição, no repouso vigil, sobretudo durante a hiperpneia, de surtos generalizados de ponta-onda regular a 3 Hz, com dura­ção de 5 a 8 segundos, com manifestações clínicas associadas (abertura e revulsão oculares, ligeiro desvio ocular lateral, mio­clonias palpebrais subtis) (Figura 1). No sono, surtos de pontas frontais bilaterais e polipontas-ondas, com duração inferior a 1 segundo.

(Figura 2).

Figura 1 EEG durante uma crise ocorrida na hiperpneia. Surto de pontas-ondas regulares a 3 Hz, generalizadas e síncronas, com duração de cerca de 8 segundos.

Figura 2 EEG intercrítico no sono I-II. Surtos de pontas e polipontas ou ponta- onda irregular a 3 Hz, generalizados, com duração de menos de 1 segundo.

Qual o seu diagnóstico?

DIAGNÓSTICO Epilepsia de ausências da infância Foi iniciada medicação com valproato na dose aproximada de 20 mg/kg/dia. Alguns dias depois de atingida a dose alvo, não foram observadas mais crises. Manteve- se sempre sem recor­rência e os EEGs de controlo foram normais. A dose não foi ajus­tada ao peso e foi posteriormente reduzida, com suspensão ao fim de três anos. Mantinha-se assintomática e com EEG normal na reavaliação feita seis meses depois.

DISCUSSÃO As ausências são um tipo de crises epilépticas generali­zadas relativamente comuns em idade pediátrica. Podem sur­gir nas epilepsias generalizadas idiopáticas, mas também nas sintomáticas. No primeiro grupo, como o do caso clínico apre­sentado, são denominadas ausências típicas: têm duração de alguns segundos e o padrão electroencefalogáfico característico de ponta-onda a 3-4 Hz.

Contrastam com as atípicas, que têm duração geralmente mais longa, início e fim menos abruptos e associam-se a ponta-onda lenta (1,5-2,5 Hz).1 As epilepsias generalizadas idiopáticas com ausências tí­picas incluem várias síndromas definidas pela Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE) em 2001: a epilepsia de ausências in­fantil (EAI), a epilepsia de ausências juvenil (EAJ) e a epilepsia mioclónica juvenil (EMJ).2 Outras síndromas com ausências típi­cas que não são oficialmente reconhecidos pela ILAE incluem as mioclonias palpebrais com ausências e as mioclonias periorais com ausências.3 O prognóstico destas síndromes epilépticas é diferentes, daí a importância de uma classificação sindromática o mais rigorosa possível de cada doente.

A incidência anual da epilepsia de ausências da criança va­ria entre 1,9 e 8 por 100.000 crianças1 e alguns estudos apontam uma prevalência de 10-12% das crianças e adolescentes com menos de 16 anos4. É mais frequente no sexo feminino (cerca de 2/3 dos casos).1,4

O início das crises na EAI surge na grande maioria dos ca­sos entre os 4 e os 10 anos de idade, com um pico aos 6-7 anos. A epilepsia de ausências juvenil tem um pico de incidência aos 12-13 anos; contudo, pode haver sobreposição na idade de aparecimento entre estas duas entidades e a idade de início não é por si um critério. Na EAI as ausências são muito mais nu­merosas (dezenas por dia) e têm uma duração que varia entre os 4 e os 20 segundos (média de 10 segundos). Na EAJ são menos frequentes, mas a probabilidade de ocorrer uma crise tonico-clónica generalizada (TCG) é muito maior.4,5As crises de ausências ocorrem num terço dos doentes com EMJ, anos antes dos outros tipos de crises que fazem parte dos critérios de diag­nóstico desta síndroma, e são raras e breves. A idade de início pode ocorrer entre os 8 e os 26 anos, embora a maioria apresen­te a primeira crise entre os 12 e os 18 anos.4 Classicamente, os doentes têm abalos sobretudo dos membros superiores e axiais - crises mioclónicas - ao despertar (muitas vezes desvalorizadas pelo doente), culminando por vezes numa crise TCG, que é mui­tas vezes a que o leva a recorrer a cuidados médicos.

O principal diagnóstico diferencial é com a criança distraí­da, este facto mais vezes notado na escola do que em casa, mas também com casos de síndroma de hiperactividade com défice de atenção, sobretudo na sua variante desatenta.

Outros diag­nósticos diferenciais incluem as crises focais hipomotoras e as crises psicogéneas.1O exame neurológico é, por definição, nor­mal.4A hiperventilação durante pelo menos três minutos é a me­lhor forma de desencadear uma crise de ausência numa primeira abordagem meramente clínica da criança. Tipicamente, não percepção das crises pela criança, que pára e logo a seguir reto­ma a actividade que estava em curso; contudo, pode haver breve amnésia retrógrada.1,4 Noutras situações com ausências que não a EAI, a suspensão da consciência pode ser apenas parcial. Nas ausências típicas são admitidas mioclonias discretas das pál­pebras ou das sobrancelhas, pequeno componente atónico ou tónico, ligeiras clonias e automatismos, estes muito mais vezes simples do que complexos. Contudo, se estes componentes são exuberantes ou predominantes, devemos pensar noutro tipo de crises epilépticas. Não ocorre queda e a incontinência urinária é excepcional.4 O electroencefalograma (EEG) crítico caracteriza-se pela presença de descargas generalizadas, rítmicas, de ponta-onda (ou dupla ponta-onda, sendo permitido um máximo de três pon­tas no início do surto) a 3 Hz (não inferior a 2,7 Hz nem superior a 4 Hz), regular, com alta voltagem (maior nas regiões anteriores).

Tipicamente a frequência vai diminuindo gradualmente ao longo do surto. Na fase inicial (1-2 segundos) podem as pontas-ondas ser mais rápidas, irregulares e um pouco assíncronas.4,6 As alte­rações do EEG intercrítico ocorrem sobretudo no sono não REM, sob a forma de surtos de ponta-onda muito breves, menos re­gulares. A presença de fotossensibilidade no EEG, assim como a provocação de uma ausência típica de forma sistemática por estímulos luminosos é considerado um critério de exclusão de EAI.4Os critérios de diagnóstico de Loiseau e Panayiotopoulos encontram-se no Quadro I. Permitem definir com rigor o grupo de doentes com EAI e, assim, definir com melhor o prognósti­co. Contudo, sendo muito restritivos, muitos doentes que não se conseguem ser classificados como tal; o critério de exclusão mais vezes encontrado numa série de doentes chineses foi o de surtos de ponta-onda a 3-4 Hz com duração inferior a 4 segun­dos sem ou com suspensão apenas parcial da consciência.6

Quadro I' CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO DE EAI4(Loiseau e Panayiotopoulos, 2005)

Relativamente ao tratamento, os antiepilépticos de primeira linha são o valproato de sódio, a lamotrigina e a etossuximida (este não disponível nas farmácias comerciais no nosso país), em monoterapia ou em associação, com eficácia sobreponível5, sendo que a primeira escolha depende da acessibilidade ou fár­maco, da experiência pessoal e do perfil individual do doente. No caso apresentado houve uma resposta terapêutica imediata com valproato, o que nem sempre acontece e não implica necessaria­mente uma evolução menos favorável.

A taxa de remissão nos doentes com ausências típicas é muito variável, dependendo de vários factores, mas sobretudo da existência de outros tipos de crises. Na EAI a taxa de remis­são é de cerca de 80%.4, Como no caso apresentado, é possível suspender a medicação em idade pré-púbere. Contudo, segun­do alguns autores, cerca de 10% poderá desenvolver pelo me­nos uma crise tonico-clónica generalizada na adolescência ou idade adulta. O risco destas crises em idades é mais elevado na EAJ, que tem maior probabilidade de evolução crónica; contudo, alguns casos de sobreposição entre estas duas síndro­mas, quer em relação à idade de início, quer à evolução. na EMJ não medicada, o risco de recorrência de crises, nomeada­mente TCG, na idade adulta é de cerca de 90%.4


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