Caso dermatológico
Uma criança do sexo feminino, com cinco anos de idade e sem antecedentes
patológicos pessoais/familiares relevantes, foi referenciada à consulta de
dermatologia pediátrica por espessamento e coloração amarelada das unhas dos
háluxes, desde o primeiro mês de vida. Sem outros sinais ou sintomas
acompanhantes e sem história prévia de traumatismo.
Ao exame objectivo, observava-se o espessamento e desvio lateral das unhas de
ambos os háluxes, exibindo uma coloração amarelo-esverdeada e ainda a presença
de múltiplas estrias transversais (linhas de Beau), conferindo o aspecto
semelhante à casca de ostra (Figura 1).
Figura 1Desvio lateral, espessamento e coloração amarelo-esverdeada das unhas
de ambos os háluxes, conferindo o aspecto em casca de ostra
Foi realizado raspado subungueal para exame micológico directo e cultura, que
foram negativos.
Qual o seu diagnóstico?
DIAGNÓSTICO
Desvio congénito ungueal dos háluxes.
COMENTÁRIOS
O desvio congénito ungueal do hálux foi descrito como entidade nosológica em
1983, por Baran et al e caracteriza-se pelo desvio lateral do prato ungueal em
relação ao eixo longitudinal da falange distal (1). Outros achados clínicos
adicionais incluem: a coloração amarelo-esverdeada, a estriação ungueal
transversal (linhas de Beau) e o espessamento da unha, com distrofia. A
patogénese da doença não se encontra totalmente esclarecida, no entanto, tem
sido relacionada com a rotação lateral da matriz da unha, embora o desvio
medial também esteja descrito (2). Adicionalmente, factores ambientais como a
pressão intrauterina ou alterações vasculares durante a gestação, podem ter um
papel importante na sua patogénese (3). Pode ocorrer de forma esporádica, no
entanto, a existência de casos familiares sugere um padrão de transmissão
autossómico dominante (4).
Afecta igualmente ambos os sexos e geralmente está presente desde o
nascimento, podendo manifestar-se apenas unilateralmente ou atingir outras
unhas dos pés e mãos. O diagnóstico diferencial faz-se essencialmente com a
onicomicose (condição rara nestas idades) e com formas adquiridas de desvio do
prato ungueal, resultantes de traumatismos ou intervenções cirúrgicas.
Geralmente não são necessários exames complementares de diagnóstico, dado a
história clínica e o exame objectivo serem suficientes. Não obstante, poder-se-á
realizar o raspado subungueal para exame directo e cultura, com o intuito de
excluir a possibilidade de sobreinfecção fúngica, evitando assim a utilização
inapropriada de antifúngicos em idade pediátrica. A infecção e a unha encravada
são as principias complicações. Pode ocorrer resolução espontânea em cerca de
50% dos indivíduos antes dos 10 anos de idade. Em casos severos sugere-se o
tratamento cirúrgico, com aquisição de melhores resultados quando realizado
antes dos dois anos (3). Como terapêutica adjuvante, poderão ser utilizadas
formulações com ureia, diminuindo a espessura ungueal, o que resulta numa
melhor aparência.