Síndrome de Overlap entre colangite esclerosante primária e hepatite auto-
imune: um caso com apresentação sequencial ao longo dos anos
INTRODUÇÃO
A hepatite auto-imune (HAI) engloba 2-5% da doença hepática crónica em idade
pediátrica. É uma hepatopatia de origem inflamatória de etiologia desconhecida,
tipicamente caracterizada por enzimas hepáticas elevadas,
hipergamaglobulinemia, presença de autoanticorpos específicos, e
histologicamente por infiltrado celular mononuclear nos espaços porta com
hepatite de interface(1). O tratamento com prednisolona, associado ou não ao
uso de azatioprina, pode alterar o curso desta entidade clínica que, sem
tratamento atempado progride para cirrose(1).
Alguns pacientes com HAI apresentam características de doença colestática como
a colangite esclerosante primária (CEP) ou cirrose biliar primária (CBP). Estas
entidades clínicas são denominadas de síndromes de overlap (SO) e podem
manifestar-se de várias formas: apresentação concomitante de duas doenças
distintas; apresentação de uma doença com aspectos característicos de outras;
apresentação sequencial de duas doenças; e alguns autores consideram as SO como
uma entidade nosológica própria(2-5).
As características do overlap incluem aspectos clínicos, bioquímicos,
imunológicos e histológicos.
Na idade pediátrica é particularmente frequente o overlap HAI-CEP. Nestes casos
alguns autores usam a designação alternativa de Colangite esclerosante Auto-
imune (CAI)(6-8). Descrevemos um caso de overlap HAI-CEP com apresentação
sequencial ao longo de vários anos.
CASO CLÍNICO
Este doente de sexo masculino, caucasiano, nascido em 12/12/1992, era o único
filho de um casal saudável, não consanguíneo, e tinha uma avó paterna com
cirrose biliar primária diagnosticada aos 35 anos de idade; esta avó, medicada
com ácido ursodesoxicólico (AUDC), manteve doença hepática crónica estável por
mais de 30 anos, sem necessidade de transplante hepático, tendo falecido
recentemente de carcinoma hepatocelular.
O doente começou a ter prurido no 1º ano de vida, atribuído a alergias
alimentares. Apresentava xerose cutânea acentuada e os testes cutâneos a
alimentos revelaram uma positividade múltipla, por provável sensibilidade
cutânea, não alérgica. Foi-lhe recomendada a evicção de alimentos libertadores
de histamina.
A partir dos 4-5 anos de idade começou a ter surtos de prurido de maior
intensidade, na ausência de manifestações cutâneas, oculares, nasais ou
brônquicas. Nesta altura efectuou pela primeira vez análises que mostraram
elevação das enzimas hepáticas (AST ' 193 UI/L, ALT ' 309 UI/L, GGT ' 208 UI/
L). Efectuou investigação complementar (resultados não disponíveis) e foi
tratado com prednisolona durante cerca de um mês; esta terapêutica foi
abandonada por ausência de resposta, e nos anos seguintes o doente não
efectuou nem exames complementares nem tratamentos.
Foi admitido na consulta de Hepatologia do Hospital de Crianças Maria Pia aos
11 anos de idade. Mantinham-se os episódios recorrentes de prurido, sem
icterícia. O exame objectivo era sem particularidades, nomeadamente sem
estigmas de doença hepática crónica.
Efectuou investigação complementar da qual se destacam os seguintes resultados:
bilirrubina total ' 0,60 mg/dl, bilirrubina conjugada ' 0,20 mg/dl, AST ' 96
UI/L, ALT ' 165 UI/L, GGT ' 219 UI/L, FA- 577 UI/L, IgG ' 1440 mg/dl, ANA`s '
1/1280, anti-músculo liso ' 1/40, anti-mitocôndrias, anti-LKM, anti-SLA e anti-
LC1 ' negativos; Alfa-1-antitripsina e ceruloplasmina séricas, e doseamento de
cobre urinário de 24 horas normais; ecografia abdominal ' fígado com dimensões
e ecoestrutura normais, sem dilatação das vias biliares, cálculo vesicular
único de 7 mm; endoscopia digestiva alta ' sem varizes esofágicas ou gástricas;
histologia hepática ' alargamento de alguns espaços-porta por fibrose e
formação de septos finos inter-portais, infiltrado portal misto com linfócitos
e eosinófilos, sem hepatite de interface ou lobular, esboço de fibrose peri-
ductal e neoformação ductular; cobre hepático ' 46,7 microgramas/g/fígado seco.
Cumpriu terapêutica imunossupressora durante seis meses (prednisolona 2 mg/kg/
dia 1 mês e depois em doses decrescentes + azatioprina 1,5 mg/kg/dia) sem
melhoria significativa dos parâmetros analíticos, pelo que se suspendeu e, nos
anos seguintes, pela hipótese de se tratar de uma colangite esclerosante
primária, o doente foi tratado apenas com AUDC 10-15 mg/kg/dia.
Aos 15 anos de idade começou a registar-se uma maior elevação das enzimas
hepáticas (Gráfico 1), e um ano mais tarde houve aparecimento de icterícia e
agravamento do prurido com os seguintes parâmetros analíticos: bilirrubina
total ' 3,34 mg/dl, bilirrubina conjugada ' 2,96 mg/dl, AST ' 194 UI/L, ALT '
543 UI/L, GGT ' 310 UI/L, FA- 388 UI/L, IgG ' 1700 mg/dl (vr: 793 ' 1590 mg/
dl), ANA`s ' 1/640, SMA ' 1/40, ANCA`s ' negativo. Nesta altura a histologia
hepática mostrava actividade necro-inflamatória de interface (Figura 1) e
intra-lobular focal (Figura 2), para além do infiltrado inflamatório
polimórfico nos espaços-porta e de fibrose portal moderada com formação de
septos e pontes porta-portais (Figura 3). Por cumprir critérios de diagnóstico
definitivo de HAI (Tabela I) iniciou tratamento imunossupressor (prednisolona 1
mg/kg/dia + azatioprina 1,5 mg/kg/dia) tendo sido posteriormente aumentada
também a dose de AUDC para 20 mg/kg/dia, com resposta francamente favorável
(desaparecimento do prurido, normalização completa das bilirrubinas e das
transaminases, e diminuição acentuada da GGT).
Gráfico 1 Elevação das enzimas hepáticas
Figuras 1 e 2 Histologia hepática (19/12/2008) evidenciando actividade necro-
inflamatória de interface e intra-lobular focal
Figura 3 Histologia hepática (19/12/2008) mostrando fibrose portal moderada com
formação de septos e pontes porta-portais
Tabela I Critérios de diagnóstico de HAI (Score validado4)
Em Fevereiro de 2010 (17 anos de idade) efectuou ColangioRM que mostrou ligeira
hepatomegalia sobretudo à custa do lobo esquerdo, globalmente homogénea, sem
alterações relevantes da morfologia ou calibre das vias biliares intra ou
extra-hepáticas, e cálculo vesicular único de 18 mm (Figuras 4 e 5).
Figuras 4 e 5 Ressonância magnética hepatobiliar (08/02/2010) - ligeira
hepatomegalia sobretudo à custa do lobo esquerdo, globalmente homogénea, sem
alterações relevantes da morfologia ou calibre das vias biliares intra ou
extrahepáticas; cálculo vesicular 18 mm
Concluímos estar perante um caso de overlap de apresentação sequencial (CEP de
pequenos ductos-HAI), situação alternativamente designada por alguns autores
como colangite esclerosante auto-imune(6-8).
DISCUSSÃO
O IAIHG sugere que os doentes com doença hepática auto-imune devem ser
classificados de acordo com as características predominantes de AIH, CBP, CEP
de grandes e de pequenos ductos, respectivamente, e que aqueles com
características de overlap não devem ser considerados como tendo entidades
nosológicas distintas(3). Apesar disso, pode haver necessidade de considerar
terapêuticas específicas para esses doentes(3).
O score do IAIHG(9-11) para o diagnóstico de HAI tem sido largamente utilizado
para diagnosticar as síndromes de overlap mas não foi concebido para esse
efeito e não está provado que para esses casos seja uma ferramenta útil.
Num doente com diagnóstico confirmado de CEP, a presença de características de
HAI associadas pode levar à classificação de síndrome de overlap CEP-HAI. Esta
condição parece ser particularmente frequente nas crianças onde tem sido
exaustivamente estudada(6-8,12-14). Estes doentes, ao contrário do que é
frequente nos adultos, podem beneficiar de tratamento imunossupressor(15).
Alguns autores introduziram a designação de Colangite esclerosante Auto-imune
(CAI) para designar o grupo de crianças com CEP que também apresentam
características sugestivas de HAI(6-8). Sugerem que nestes casos a HAI e a CEP
se encontram dentro do espectro da mesma doença, que designam por CAI(15). A
CAI parece ser a contrapartida na idade pediátrica da síndrome de overlap HAI-
CEP nos adultos, com a mesma prevalência da HAI tipo1(7).
Num estudo prospectivo de seguimento a longo prazo de 52 crianças com colangite
esclerosante primária, verificou-se que 35% (14/40 com biópsia) vieram a
cumprir critérios de HAI definitiva ou provável(14), tal como aconteceu no caso
que descrevemos.
O nosso doente apresentou-se na infância com um quadro clínico de doença
colestática associada a marcadores imunológicos positivos; sem anomalias
imagiológicas e com histologia mostrando infiltrado portal de linfócitos e
eosinófilos, e lesões dos ductos biliares (esboço de fibrose peri-ductal e
neoformação ductular), sugerindo o diagnóstico de CEP de pequenos ductos. Anos
mais tarde, na adolescência, registou-se uma alteração do padrão analítico
(alteração da relação FA/AST e elevação da IgG), seguida do aparecimento de
icterícia e mais uma vez agravamento do prurido; nesta altura a histologia
mostrava aspectos que poderiam sugerir HAI (hepatite de interface, mas com
infiltrado portal polimórfico) e o doente apresentava um score de diagnóstico
definitivo para HAI (Quadro 1).
A questão que se coloca é se estamos perante a associação de duas doenças
hepáticas auto-imunes sequencialmente no mesmo doente, ou se se trata de uma
mesma entidade apresentando-se com aspectos de uma doença (CEP) progredindo
para aspectos de outra doença (HAI), sendo mais adequada a designação proposta
por alguns autores de Colangite esclerosante Auto-imune (CAI)(6-8).
Outros investigadores têm classificado os doentes pediátricos como tendo
síndrome de overlap HAI-CEP, tal como nos adultos(8). Estes autores sugerem que
a expressão da CEP nas crianças se manifesta como uma apresentação hepatítica
em vez do perfil colestático dos adultos. Deste modo, a possibilidade de CEP
deve ser considerada em todas as crianças com HAI, e consequentemente deve ser
realizada uma colangiografia (ColangioRM ou CPRE). Publicamos previamente o
caso de outra doente com overlap HAI-CEP(16), que ilustra bem a importância
desta recomendação, sobretudo quando há aspectos que chamam à atenção para
lesão das vias biliares em concomitância. Neste caso o overlap manifestou-se
desde o início da apresentação clínica. A doente reunia um score de diagnóstico
para HAI provável (score = 15) e apesar da resposta bioquímica favorável à
terapêutica imunossupressora, como apresentava dilatação das vias biliares
intra-hepáticas (em ecografia), e a histologia incluía proliferação ductular,
foi realizada uma CPRE que confirmou a presença de aspectos sugestivos de CEP.
Nesse caso, tal como no que aqui descrevemos, estiveram presentes duas doenças
hepáticas auto-imunes com apresentação concomitante ou sequencial, uma doença
(HAI) com aspectos característicos de outra (CEP), ou uma entidade nosológica
diversa reunindo características de ambas (CAI)?
Os resultados do tratamento de doentes com características combinadas de HAI e
CEP são variáveis. Em algumas publicações mais antigas(13,17,18), num número
reduzido de doentes, observou-se uma melhoria clínica e bioquímica após
tratamento com corticoesteróides e azatioprina, por vezes em associação com
AUDC. Porém, mais recentemente foi observada doença progressiva em doentes com
características de HAI-CEP, apesar da terapêutica combinada de
imunossupressores com AUDC e melhoria bioquímica inicial(19).
O prognóstico dos doentes com síndrome de overlap HAI-CEP pode ser mais
favorável que o dos doentes com a CEP clássica, mas menos favorável que o dos
doentes com HAI isolada(19). A resposta à terapêutica imunossupressora parece
ser melhor em crianças com síndrome de overlap HAI-CEP (ou CAI) do que em
adultos(6,20).
As guidelines da EASL recomendam que os doentes com síndrome de overlap HAI-CEP
sejam tratados com AUDC e imunossupressores, mas destacam que esta recomendação
não é baseada na evidência(20). As guidelines da AASLD sobre a CEP também
recomendam o uso de corticoesteróides e de outros imunossupressores em doentes
com síndrome de overlap HAI-CEP(21).
O caso que descrevemos não respondeu inicialmente à terapêutica
imunossupressora (prednisolona + azatioprina) associada ao AUDC, mas anos mais
tarde, e quando apresentou aspectos característicos de HAI houve resposta
favorável à mesma terapêutica.
A litíase vesicular neste doente está em provável relação com a presença de
estase biliar associada à doença hepática crónica colestática, predispondo a
uma composição mais litogénica da bile (supersaturação em colesterol). A nossa
atitude tem sido expectante, dado tratar-se de um cálculo vesicular único num
doente sem sintomas associados(22).
Este caso de síndrome de overlap de doença hepática autoimune, inicialmente com
aspectos sugestivos de CEP de pequenos ductos, progredindo anos mais tarde para
HAI (apresentação de tipo sequencial), alerta-nos para a necessidade de manter
uma vigilância permanente no seguimento destes doentes, em termos de
reavaliação do seu diagnóstico e de eventuais intervenções terapêuticas.