Unexplained Physical Complaints
COMENTÁRIOS
As queixas somáticas sem explicação médica são muito frequentes em crianças e
adolescentes e constituem um motivo regular de consultas e exames clínicos,
para além de poderem suscitar bastante stress nos pais e por vezes também nos
próprios médicos.
O propósito deste trabalho é rever os dados mais recentes que as pesquisas têm
revelado acerca das queixas físicas em crianças e adolescentes. São problemas
relativamente comuns que terão, na sua maioria, uma explicação fisiológica e
não derivam de uma doença médica reconhecível.
Estudos na população geral detectam que, nesta faixa etária, existe uma média
de dois sintomas somáticos muito presentes nas duas semanas prévias. Os mais
frequentes são cefaleias, fadiga, músculos doridos, náuseas e mal-estar
gástrico, dores nas costas e dores de estômago. Muitos destes sintomas são
ligeiros mas para uma minoria os problemas serão intensos e incapacitantes,
prejudicando o seu funcionamento no quotidiano, tal como se verifica no
absentismo escolar.
O modo como estas queixas vão ser encaradas depende da forma como vão ser
entendidas. Se os pais ficam preocupados ou mesmo angustiados, interpretando-as
como um sinal de doença, irão consultar o médico ou tentarão resolvê-las com os
seus conhecimentos caseiros. Se as encaram como temporárias, sem probabilidade
de significar doença, poderão atribuir-lhes uma causa inocente (do género, as
dores abdominais serão porque qualquer alimento não caiu bem) e ter uma
atitude mais expectante. Poderão mesmo arranjar motivos psicológicos quando as
queixas apresentam algum padrão repetitivo e previsível ' as dores de cabeça,
quando as exigências escolares desse dia são maiores ou quando se aproxima um
evento que é desagradável à criança. Nestas situações, as estratégias mais
eficazes serão minimizar a importância dos sintomas e confortar para poder
enfrentar a situação temida.
Mas existem quadros em que as queixas somáticas, pela sua intensidade e
sobretudo pela incapacidade funcional que provocam dão lugar a quadros
reconhecidos em que a somatização é o aspecto comum ' as perturbações
somatoformes, particularmente a perturbação de dor somatoforme, a perturbação
dissociativa/conversão ou o síndrome de fadiga crónica. Em todos estes quadros
existe alguma evidência de somatização, isto é, uma tendência para sentir e
comunicar o mal-estar através de sintomas somáticos. No entanto estes quadros
são relativamente raros, ao contrário da prevalência das queixas físicas
inexplicadas.
É importante referir que na somatização as queixas não são produzidas
intencionalmente, isto é, não existe simulação. Alguns pais podem desvalorizar
ou impacientar-se com as queixas dos filhos quando constatam que as queixas
cessam com as medidas tranquilizadoras, como a de ir buscar a criança à escola
ou a de ir a uma consulta médica. A teoria da aprendizagem salienta que a
criança com uma lesão ou doença aprende os benefícios do papel de doente ' a
solicitude parental e o evitamento de responsabilidades desagradáveis. Como
intervir então eficazmente e poder levar a criança ou jovem a encarar as
tarefas do crescimento e poder ultrapassar esses sinais incómodos que o seu
corpo lhe envia?
O consumo de actos médicos, a expectativa de um tratamento e frequentemente a
recusa de uma avaliação psiquiátrica, são problemas adicionais que se colocam
na abordagem destas situações. Os médicos poderão também recear que uma doença
possa não estar a ser reconhecida ou ter dificuldades em reconhecer a
interligação estreita entre sintomas psicológicos e físicos.
O artigo remete para um modelo biopsicossocial, em que se considere a
contribuição relativa dos factores biológicos, psicológicos e sociais na
contribuição e manutenção dos sintomas. Nem os sintomas físicos serão
totalmente explicados medicamente e do domínio exclusivo da pediatria, nem os
que medicamente não se conseguem explicar estarão fora desta e pertencem ao
domínio psiquiátrico. Por exemplo, é o que pode acontecer com a intensidade ou
incapacidade dos sintomas ' uma fractura do membro inferior e imobilização a
que se segue uma fraqueza muscular excessiva ou a ocorrência de pseudocrises
numa criança com epilepsia.
O reforço parental dos sintomas, através da sobreprotecção e fraco incentivo a
enfrentar os problemas e o papel de factores de stress, têm sido documentados
nas crianças que manifestam queixas físicas excessivas; estas foram também
caracterizadas como sendo sensíveis, inseguras e ansiosas, com baixas
competências sociais.
O tratamento deveria então incluir um interesse pela criança e seu contexto,
conduzir as investigações necessárias e discutir cuidadosamente com os pais que
a doença orgânica foi excluída; daqui avançar para a hipótese de outros
factores prejudiciais possíveis, como exigências escolares ou psicológicas
excessivas, ajudando a família a modificá-los. Explicar as ligações entre dor
física e psicológica, limitar a atenção dada aos sintomas, promover técnicas de
distracção e incentivar a participação nas rotinas diárias, são aspectos
fundamentais. Ouvir as preocupações parentais e discuti-las, pode ajudar os
pais a sentirem-se mais seguros e confiantes a lidar com as queixas dos filhos.
Algumas das características dos sintomas também podem ajudar a compreender a
sua natureza psicossomática(1): tendem a ser vagos, breves, não se detecta uma
base orgânica óbvia e ocorrem em contexto de stress. Ao contrário, sintomas bem
definidos e de duração superior a algumas semanas merecem uma avaliação mais
cuidada.
Para as famílias mais resistentes a aceitarem uma compreensão mais psicológica
dos problemas dos filhos pode ser útil utilizar uma estratégia de enfatizar a
importância da mente sobre o corpo: mesmo quando há problemas físicos, estes
podem piorar quando o estado emocional está mais fragilizado.(2)
O prognóstico estará dependente mais do que da intensidade e incapacidade dos
sintomas, dos problemas psicológicos associados (ansiedade, depressão), do
apoio familiar e dos acontecimentos de vida negativos.