Constrangimentos ao controlo da tuberculose no sistema prisional
A ocorrência de surtos em prisões na Europa de Leste e América é conhecida
desde os anos 901. Porém, somente em 1997 surgiu o alerta sobre a problemática
prisional por aquela que ficou conhecida como a Declaração de Baku (fig._1),
sublinhando a urgência epidémica que revestia a tuberculose (TB) prisional e a
sua associação com a infeção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) e com
a crescente farmacorresistência. Apelava ainda à necessidade premente de
melhores serviços médicos prisionais, melhores planos de controlo para a TB e
de maior comprometimento político, em parceria, entre os ministérios da Saúde,
do Interior e da Justiça.
No seguimento dessa declaração, em 19982 e 20003 surgiram as primeiras linhas
de orientação específicas para o controlo da TB em ambiente prisional, porém, a
sua implementação foi sempre lenta, incompleta e heterogénea face às
especificidades desse cenário4. Não obstante um ligeiro progresso, vários
obstáculos têm vindo a ser identificados e potenciados pelo paradigma do
subfinanciamento e da negligência política, contribuindo para que o parque
prisional represente ainda uma importante reserva para a TB4-6.
Desse conjunto de fatores serão abordados: a dimensão epidemiológica e
demográfica do problema, os fatores de risco específicos dos reclusos e o
"estilo de vida prisional", o problema da inadequação
infraestrutural penitenciária; os obstáculos específicos oferecidos aos
programas de tratamento, a repercussão da hierarquia reclusa paralela, a
permeabilidade epidemiológica e a questão tutelar da saúde prisional. Dados
recentes referentes à realidade portuguesa são também discutidos.
A inquietante realidade prisional
O aumento da população encarcerada tem sido reportado por todo o mundo.
Atualmente estima-se que mais de 9,8 milhões de indivíduos se encontrem detidos
em estabelecimentos prisionais (EP), centros de detenção, esquadras, asilos ou
campos de concentração de guerra7. Os Estados Unidos da América (EUA), China,
Federação Russa e Brasil respondem conjuntamente por mais de metade desse
contingente recluso atual. A taxa de encarceramento mundial foi em 2008 de 158/
105, tendo 71% dos países, incluindo 68% dos países europeus, incrementaram o
seu contingente recluso7.
Presentemente a maior taxa de encarceramento com 730/105 habitantes pertence
aos EUA8. A sua "carga" prisional de TB, em declínio desde 1992,
apresentou entre 2000-2007 um crescimento anual de 2,4%9. Em 2008 a taxa de
incidência reclusa de novos casos de TB ativa foi de 4,2/105 - um valor
6-10 vezes superior à da população livre - e a taxa de TB latente de
25%10,11.
No continente africano, um estudo realizado numa prisão zambiana12 encontrou
uma prevalência de TB entre 15-20%. Já no Botswana foi reportada uma
prevalência geral prisional estimada de 3.797 casos/105 reclusos, sem
existência de qualquer estratégia de rastreio13.
Num conjunto de 22 países europeus14 foi apurada uma taxa de notificação média
de TB prisional de 232/105 reclusos, tendo existido países com notificações
alarmantes de até 17.808 casos/105. O risco de um recluso desenvolver TB foi
até 83,6 vezes superior ao de um indivíduo na comunidade livre.
Relativamente a taxas de infeção, estudos em penitenciárias espanholas e
italianas detetaram taxas de 56%15,16 e 17,9%17, respetivamente.
Vários levantamentos epidemiológicos foram efetuados nos últimos anos em países
de alta prevalência da Europa de Leste18-20. Alguns encontraram taxas de
TB prisional entre os valores mais altos alguma vez registados em qualquer
outra população humana (tabela_1).
Na Federação Russa, durante a década de 90, a incidência e a mortalidade por TB
no sistema penal chegaram a atingir em algumas prisões os 7.000/105 e 485/105
reclusos, respetivamente, situação que só foi alterada após implementação
gradual dos conteúdos estratégicos Tratamento de Breve Duração sob Observação
Direta (DOTS) pela Organização Mundial de Saúde (OMS)21. Foram reportadas taxas
de mortalidade de 24%22, com metade das mortes ocorrendo no espaço prisional23.
No ano de 2002 as prisões russas apresentavam ainda uma incidência média de
novos casos de TB notificados de 2.028/105 reclusos21.
Já na população prisional brasileira alguns estudos mostraram taxas de
incidência anual média variando entre 1.073-3.137/10524-27. Em prisões do
Rio de Janeiro a incidência de novos casos foi de 3.532/105 em 2005, 35 vezes
superior à taxa da população geral28,29. Já estudos de Sánchez et al.19,30
encontraram prevalências de TB de 4,6-8,6% (ou seja 8.600/105). O estado de São
Paulo31 apresentou uma incidência prisional de 800/105 com uma prevalência
média de coinfecção TB/VIH de 49,9%25.
Genericamente, a ocorrência de grandes cadeias de transmissão intraprisional de
TB é favorecida pelas dificuldades de diagnóstico precoce, conjuntura
demográfico-estrutural desfavorável e elevada velocidade de renovação da
população prisional. O turnover para doença em reclusos pode atingir os 21%/ano
e um caso índice de tuberculose pulmonar (TP) pode acarretar exposição com
viragem tuberculínica em 13% do total de reclusos da instituição e a exposição
possível de outros 10%32.
O aumento da taxa de encarceramento relaciona-se diretamente com o aumento da
taxa de incidência nacional de TB33. Porém, apesar do número absoluto de
prisioneiros ser relevante para as diferenças na incidência de TB e TB
multirresistente (TB-MR), o determinante mais importante é mesmo o ritmo de
crescimento relativo da população prisional.
A TB, em grande medida potenciada pelo fenómeno do VIH, tem contribuído para a
maior farmacorresistência prisional. Estudos de genotipagem detetaram
prevalências alarmantes de estirpes altamente quimiorresistentes que tendem a
tornar-se dominantes em ambiente recluso1,34-36.
Fatores de risco: proveniência e vida prisional
Não constituindo uma fatia longitudinal da sociedade, a população prisional
apresenta uma larga proporção de indivíduos pobremente instruídos e
socioeconomicamente desfavorecidos, transportando já à entrada um alto risco de
infeção tuberculosa. Os reclusos tendem a desenvolver TB ativa não apenas
devido às pobres condições de vida prisionais, mas também devido ao seu
percurso de vida prévio à clausura. São, aliás, muito propensos a desenvolvê-la
ainda antes da sua chegada à prisão15,18,22,23.
A população reclusa é tendencialmente masculina37, constituída tipicamente por
jovens dos 15-45 anos provenientes de segmentos pobremente educados e
socioeconomicamente desfavorecidos. Pertencem muitas vezes a minorias já com
limitado acesso a cuidados médicos e com estilos de vida disruptivos para com a
adesão à terapêutica38-40. Geralmente apresentam baixa literacia,
reduzidos padrões de higiene, desnutrição, doença psiquiátrica,
toxicodependência, estatuto de sem-abrigo e maior prevalência de infeção VIH e
alcoolismo. Detêm habitualmente um vasto repertório de penas anteriores,
tendência a fácil reincidência criminal e uma grande proporção é oriunda de
países de alta endemia2,4,40,41. Muitos destes fatores dificultam a aplicação
de estratégias de controlo da TB ainda na comunidade livre42.
Relativamente ao triângulo epidemiológico da TB em meio prisional, são os
fatores do hospedeiro e a dimensão ambiental que merecem maior reflexão2. O
recluso, a um passado predisponente a doença, pela entrada na penitenciária faz
associar um risco ainda superior decorrente da insalubridade e das más
condições do estilo de vida prisional. Oficialmente, o espaço mínimo para cada
recluso segundo a Convenção de Proteção para os Direitos Humanos e Liberdades
Básicas21 é de 4m2, todavia, regulamentos sanitários e códigos penais em muitos
países recomendam espaços de 2m2 e, em largas regiões do mundo, tal legislação
é simplesmente desconhecida ou negligenciada. As prisões encontram-se
habitualmente sobrelotadas22,43,44. Os últimos dados disponibilizados pelo
Centro Internacional de Estudos Prisionais mostram taxas de ocupação, em alguns
países, a rondar os 300% da lotação oficial8.
Adicionalmente, em prisões desprovidas de um sistema eficaz de rastreio médico
à admissão existe a possibilidade de prisioneiros bacilíferos serem colocados
em celas coletivas. Por outro lado, durante o tempo de pena as reativações
tuberculosas são quase ubíquas entre a comunidade encarcerada35. As celas
habitacionais albergam grande número de detidos que se misturam durante o dia
com detidos de outras celas em espaços confinados, proporcionando um contacto
próximo e prolongado22,19,45. Além da sobrelotação, as celas ou camaratas são
insuficientemente ventiladas, sombrias e com alto valor de humidade21. Mesmo
quando existem janelas, os reclusos em países com invernos rigorosos podem
nunca abri-las devido à falta de aquecimento das celas35, o que promove a
viabilidade de partículas infeciosas aerossolizadas em suspensão22,32,44,46.
As condições de saneamento básico e instalações sanitárias são habitualmente
insuficientes e de escassa manutenção e, de modo geral, as práticas de higiene
são pobres. O "balde higiénico" em celas continua a existir em
muitas partes do mundo, tal como as frequentes interrupções no acesso a água
corrente ou aquecida21.
A desnutrição é um outro problema prevalente. Além da entrada de sujeitos
subnutridos no sistema, em prisões de países desfavorecidos a dieta fornecida é
frequentemente insuficiente, mal conservada e desequilibrada. A desnutrição
exercerá maior efeito deletério47 naqueles à partida mais suscetíveis à doença
nesse cenário ideal de contágio, ou seja, os mais fracos, os previamente
doentes e os de categoria hierárquica inferior35.
Além dos fatores de risco dos reclusos, Wong et al.43 apuraram como elementos
facilitadores da transmissão da TB a sobrelotação, a má ventilação e o alto
turnover de indivíduos. Já Lobacheva et al48 relacionaram o risco de
desenvolver TB com: o alto número de indivíduos por cela, a inexistência de
roupa da cama individual, o pouco tempo de recreio ao ar livre,
toxicodependência, más condições habitacionais prévias e baixo rendimento. O
grupo apontado como de maior risco é constituído pelos reclusos do sexo
masculino com idades superiores aos 30 anos, imigrantes, com escolaridade
inferior a 5 anos e encarcerados há menos de 2 anos17,36.
Em geral, as condições de vida diária na prisão promovem a doença. As
comorbilidades mais encontradas em prisões mundiais foram: doença mental,
hepatopatia, malária, diarreia crónica, escabiose, complexo relacionado com a
síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA), miocardiopatia, parasitoses,
sífilis e outras doenças sexualmente transmissíveis49-51. Apesar da facilitação
do processo de adoecimento, em alguns países é difícil obter uma taxa de
mortalidade prisional fidedigna dado o enviesamento gerado pela subnotificação
e pela libertação seletiva dos indivíduos mais gravemente doentes21.
O consumo de drogas ilegais é comum e o material injetável é utilizado em
condições de improvisamento e conspurcação. Os reclusos são vulneráveis não só
ao poder das autoridades oficiais, mas também às exigências de outros reclusos
mais agressivos ou poderosos. O contacto sexual pode ocorrer de forma forçada
ou voluntária, ou ainda sob a forma de favor2. Por outro lado, a
disponibilização de preservativos é limitada e o seu uso diminuto35. Sendo a
infeção VIH o mais importante fator de risco na progressão de infeção para
doença tuberculosa52, estudos em prisões americanas relataram já prevalências
de VIH de 2,1-18,0% em homens e de 2,7-26,3% em mulheres37,53,54. Porém,
percentagens assustadoramente superiores foram já relatadas em contexto de
surtos prisionais de TB55. A seroprevalência de VIH em prisões europeias e
brasileiras apresentou-se entre os 0,001-12,8%14 e os 4,8-7,2%,
respetivamente56.
A forte inter-relação entre condições prisionais inadequadas, TB e VIH complica
extraordinariamente o sucesso dos programas de controlo. Sob uma lógica
subsocietária de violência e dureza entre pares, onde a coação e o castigo
físico são comuns, as condições de stresse físico e mental promovem a
deterioração do estado de saúde e da competência imunitária dos reclusos,
facilitando a reativação de infeção latente ou suscetibilizando-os para
reinfeções2.
O impacto da estratificação hierárquica reclusa
Conceptualmente a prisão é um espaço de confinamento forçado de grupos
desenquadrados que promove a demarcação primária de 2 grupos opostos: o
contingente de guardas e demais funcionários prisionais, e os reclusos. Como
sublinham Diuana et al45, aos primeiros cabe o papel restrição e manutenção da
ordem, enquanto os segundos tentam opor-se à restrição da sua liberdade e
proteger ao máximo a abrangência da sua esfera de decisão, dando espaço à
criação estereótipos hostis e uma aculturação de papéis binomial. Porém, a
dinâmica relacional numa prisão não é totalmente bipolarizada. Entre a massa de
reclusos ocorre também o estabelecimento de uma estratificação interna
conducente a uma organização em fações/grupos com subculturas distintas. Este
fenómeno acarreta a aceitação de um conjunto de códigos de conduta no seio
destes subgrupos e conduz a uma realidade de permanente equilíbrio instável
entre fações reclusas e entre estas e os guardas/administração prisional45.
Apesar de pequenas diferenças entre países, estas estruturas de poder paralelas
são um denominador comum à maioria das prisões, podendo até ser mais poderosas
do que a autoridade oficial. Podem mesmo ser fomentadas pela administração dado
que o efeito dissuasor exercido por uma fação reclusa dominante sobre as
restantes pode auxiliar na manutenção da ordem2,22. A própria distribuição
reclusa pelas unidades internas da instituição prisional obedece frequentemente
a filiações a grupos e fações criminosas existentes nas comunidades
exteriores19.
Coninx e Reyes6,22,57 são autores de vários trabalhos sobre a dinâmica e
estruturação destas hierarquias prisionais e sobre a sua repercussão potencial
sobre as estratégias de controlo da TB e cuidados de saúde prisionais. A
maioria dos estudos provém de populações prisionais da Europa de Leste e
caraterizam particularmente bem as hierarquias reclusas nesses países. A
dinâmica de poder organizacional é, ainda assim, muito semelhante entre prisões
de diferentes regiões da Europa. Do estudo de muitas prisões de repúblicas ex-
soviéticas sabe-se que os reclusos estão organizados num sistema subcultural de
castas. Os chefes (blatniye) representam a casta superior e são normalmente
criminosos profissionais. Segue-se uma maioria silenciosa (muzhiki) de
criminosos não-profissionais que não detêm poder e aceitam a supremacia da
classe anterior e o destacamento para a realização de tarefas obscuras. Na
cauda hierárquica encontra-se a "escória" (petukhi), constituída
pelos desprezados da sociedade prisional: homossexuais, violadores, pedófilos,
renegados dos outros grupos e quem tiver infringido as leis não-oficiais da
hierarquia prisional22. Esta última é a classe mais violentada, coagida e
despojada de direitos básicos. Além do sistema de castas, a organização pode
ainda obedecer a pressupostos raciais ou pertença a grupos delinquenciais
rivais.
Globalmente, provou-se que estas formas de hierarquia reclusa determinam
desigualdade no acesso aos cuidados de saúde2, com várias implicações diretas
na gestão da TB. O processo de seleção de reclusos para internamento e
tratamento pode ser deturpado por tentativas de alguns reclusos influentes
serem integrados em programas de tratamento, visando adquirir potenciais
"regalias" como dieta reforçada, melhores condições de acomodação,
menor nível de segurança, maior liberalização do direito a visitas, etc.2,22.
Foi reconhecido já o fornecimento de expetorações positivas provenientes de
outros colegas, transportadas na mão ou mesmo dentro da sua boca, quando não
lhes foi exigida a lavagem de mãos e exposição bucal prévias22. Por outro lado,
alguns prisioneiros com TB bem informados podem tentar evadir-se ou evitar ser
admitidos a programa terapêutico apresentando expetoração negativa de
prisioneiros saudáveis, temendo que o reconhecimento de TB ativa,
particularmente se multirresistente, possa adiar a sua libertação2, ou então
receando a estigmatização ou a passagem a regime de isolamento prolongado2,40.
Reyes alertou para o fato de elementos da equipa de saúde prisional,
frequentemente mal pagos e desmotivados, poderem tolerar trocas de amostras de
expetoração após recebidos subornos de "chefes" ou reclusos
abastados22. Ainda, o grupo de reclusos de cauda hierárquica pode ser coagido a
não se identificar como sintomático sob pena de ser violentado. Reconheceu-se
também dificuldade na distribuição dos reclusos nas enfermarias prisionais,
visto que a tentativa de misturar reclusos de diferente status ou fações nas
mesmas divisões é habitualmente infrutífera dada a forte tendência ao
reagrupamento hierárquico22.
Historicamente e em locais de maior escassez, paralelamente ao tráfico interno
de tabaco, droga ou outros bens, chegou a registar-se tráfico de medicação
antibacilar18,22 que seria mesmo usada em algumas prisões como unidade de
moeda2,59.
As equipas médicas que trabalham nas prisões têm graves dificuldades em levar a
cabo a toma supervisionada. Os enfermeiros prisionais são confrontados com
estratagemas forjados pelos reclusos para evitarem tomar a medicação, podendo a
coação exercida sobre eles atingir proporções nefastas2,18,22.
Atualmente, e em especial nas prisões dos países ocidentalizados com economias
de mercado e acesso facilitado a antibacilares, a situação não apresenta já
estes contornos. Contudo, a presença de hierarquias paralelas é omnipresente e,
invariavelmente, as prisões são realidades violentas onde regras não oficiais
são impostas e se fazem cumprir pela força. É importante, pois, a noção das
barreiras que a hierarquização entre os reclusos e as dialéticas de poder e
influência colocam à aplicação das políticas para a saúde neste meio18,22,58,
podendo interferir com decisões médico-administrativas, com o diagnóstico
atempado, com a admissão à enfermaria prisional, com a correta seleção de
reclusos para tratamento e com a efetividade terapêutica22.
Outros obstáculos encontrados
Para além do problema infraestrutural, do estilo de vida prisional e da
influência da hierarquia reclusa, outros obstáculos específicos condicionando a
implementação efetiva dos programas de controlo da TB têm sido
identificados18,21,34,37,59,60.
Nível geral inferior de cuidados
Os encarcerados têm direito a usufruir de um nível equivalente de cuidados ao
existente fora do sistema prisional2, porém, o paradigma da falta de
financiamento agudizado pela pressão demográfica prisional exerce um efeito
asfixiador sobre a qualidade dos serviços de saúde prisionais. Sob a habitual
tutela do Ministério da Justiça, a saúde prisional raramente consegue
implementar diretivas de saúde internacionais ou integrar estudos de
intervenções59. Soma-se ainda a dificuldade dos reclusos usufruírem de recursos
médicos especializados ou hospitalização civil, reconhecendo-se ainda alguma
resistência por parte de alguns prestadores de cuidados da comunidade em cuidar
de indivíduos percebidos como perigosos37.
Escassez de recursos e desmotivação das equipas de saúde prisional
As infraestruturas e os meios de diagnóstico para a TB são muitas vezes
inadequados e podem mesmo não se basear em larga escala na microscopia da
expectoração34. Adicionalmente, a escassez infraestrutural obsta a que se
consiga o isolamento respiratório dos casos suspeitos ou confirmados e a que
camas de internamento correcionais possam não funcionar como alas de saúde56.
Em algumas prisões os registos médicos são mínimos e não informatizados e o
corpo médico prisional é insuficiente, não raras vezes mal treinado e mal
remunerado - o subsídio de risco, quando existe, é irrisório. A
desmotivação é frequente entre a equipa de saúde, mais compreensível ainda por
a sua atividade ser exercida num ambiente hostil e imprivisível15,35.
Existe ainda muito pouca informação disponível sobre o ratio médico-recluso em
prisões63. Glaser37 alerta para a dificuldade do recrutamento de médicos face
ao montante remuneratório oferecido, ausência de benefícios, ambiente pouco
atrativo e localização extraurbana de muitas prisões. Todos estes fatores
contribuem para serviços de saúde ineficazes, potenciando os diagnósticos
tardios e casos indetetados15,35.
Auto e hetero subvalorização dos sintomas
Num quotidiano violento onde a preocupação primordial é de índole
sobrevivencial, a subvalorização de sinais e sintomas de doença tende a
verificar-se35. Outras vezes é o controlo exercido pela própria hierarquia
reclusa oficiosa que limita o acesso a cuidados clínicos a alguns detidos45.
Como sublinham Sanchez et al34, a subcultura prisional de afirmação pela dureza
e imagem de força define padrões de comportamento e expectativas entre pares,
sendo importante a proteção gerada pelo pertencimento grupal. O reconhecimento
de TB transporta a assunção de fragilidade ou de pouca robustez e o risco
sempre presente de estigmatização pelos elementos da sua fação. Isto propicia a
frequente ocultação de sintomas2,40.
O ambiente de tensão impele os guardas penitenciários a valorizarem
prioritariamente a problemática da sua segurança imediata acima das questões de
saúde dos detidos45. Por motivo de os reclusos poderem não apresentar
sintomatologia verificável ou por considerarem a saúde destes como um
"privilégio", os guardas de ala podem limitar o acesso aos serviços
de saúde favorecendo atrasos diagnósticos2,40,45.
Enviesamento da relação médico-doente e ação médica essencialmente prescritiva
O acesso a cuidados médicos apropriados em contexto prisional é restringido
devido ao imperativo de segurança e à natureza coerciva do sistema. Nesse meio,
onde a distinção de comportamento voluntário de involuntário é difícil, muitos
atos são de índole intimidatória ou coativa, sendo igualmente difícil garantir
a confidencialidade37.
Em muitos países os guardas prisionais atuam repressivamente obrigando, pela
força, a aceitação do tratamento. Isto, colidindo com o direito de exercício de
autonomia responsável para a saúde60, torna as ações de saúde eminentemente
prescritivas34,45.
Por outro lado, o vínculo de confiança entre o doente e o profissional de saúde
é dificultado desde logo pela ausência do direito à livre escolha de médico e
enfermeiro. Contrariamente, também o próprio médico é obrigado à prestação de
cuidados a todos os reclusos sem exceção. Assim, o primado da segurança e o
funcionalismo judiciário acabam por trazer uma "terceira dimensão à
habitual relação bilateral médico-doente"60.
Descontinuação terapêutica
A má adesão terapêutica é da maior relevância dentro do sistema penitenciário4.
Encarcerados durante longos períodos num espaço intrinsecamente hostil, os
reclusos não são facilmente persuadidos pelo argumento de saúde pública do
perigo da farmacorresistência2 e vários dos comportamentos já focados ameaçam
ainda mais a sua adesão terapêutica2,40. Adicionalmente, logo que ocorre
resolução sintomática verifica-se frequentemente uma quebra motivacional em
manter a toma de antibacilares em detrimento de preocupações mais imediatas2.
Outro problema reside na medicação autoprescrita ou trazida por familiares, que
propicia interações medicamentosas e efeitos adversos que poderão conduzir à
interrupção terapêutica4.
Insuficiente articulação com as entidades públicas de saúde
A relação entre os vários EP e entre estes e o Serviço Nacional de Saúde (SNS)
é de grande disparidade. Na necessidade de recorrer a urgências ou consultas
especializadas em unidades hospitalares públicas preside frequentemente uma
lógica de "desembaraço momentâneo"61. A descoordenação entre a
administração e serviços médicos prisionais e as unidades de saúde comunitárias
tem graves consequências. Por altura da libertação, quando se inicia o processo
de ligação ao dispensário de TB ou centro de saúde local, são frequentes as
faltas de comparência a consultas nessas unidades de saúde e a cedência de
moradas erradas propiciando cursos terapêuticos incompletos4,5. Num estudo,
apenas 26,3% dos reclusos libertados com TB ativa compareceram voluntariamente
junto dos dispensários para completarem o tratamento, tendo as principais
barreiras encontradas sido a falta de abrigo, o desemprego, o alcoolismo e a
toxicofilia62. Também a este nível Wong43 reportou taxas de cura no sistema
prisional 10-20% inferiores à homóloga para a população local, maioritariamente
resultantes da reduzida adesão terapêutica no período pós-libertação. Num
estudo com reclusos azeris recém-libertados 13% não completaram tratamento e
11% faleceram58.
A questão da tutela da saúde prisional
Na esmagadora maioria dos países o ministério responsável pelos serviços de
saúde prisionais não é o Ministério da Saúde, mas sim o Ministério da Justiça
ou da Administração Interna. Em regra, estes apresentam uma diferente conceção
de prioridades e menor experiência para a organização e resolução das
insuficiências dos serviços de saúde prisionais. Esta impreparação, somada a
restrições orçamentais, impede a implementação de políticas reformistas no
sistema de saúde prisional e promove uma inevitável priorização da segurança em
detrimento da saúde, resultante de um paradigma de ação claramente orientado
para a esfera jurídico-legal15,35.
Em países da União Europeia como a Inglaterra, França e Noruega a saúde
prisional encontra-se já tutelada pelo Ministério da Saúde. Nos restantes
países a coordenação dos serviços de saúde prisionais com as instituições
comunitárias e, nomeadamente, com o plano nacional de controlo da TB encontra-
se dificultada4. A transferência tutelar possibilita uma melhor resposta às
carências específicas dos reclusos no campo da assistência médica, bem como às
necessidades dos profissionais de saúde prisional59. Acrescidamente permitiria
o distanciamento deontológico entre médico e aparelho penitenciário e maior
facilidade em recrutar e fixar quadros técnicos para os serviços de saúde
prisionais59.
A permeabilidade do sistema prisional
As prisões são importantes tanto na origem como na transmissão da TB25.
Contrariamente ao expectável, existe uma grande dinâmica de fluxo tanto dentro
do próprio sistema prisional como entre este e a comunidade livre. Esta
permeabilidade traduz-se nos movimentos de transferência de reclusos entre
cadeias de detenção temporária para instituições penais, entre diferentes
prisões, entre prisões e tribunais, entre prisões e unidades hospitalares
prisionais ou civis, e mesmo entre os blocos de segurança de uma mesma
prisão15,35. Por altura da suspeita de um caso índice de TP frequentemente
muitos prisioneiros expostos já se movimentaram dentro da instituição ou foram
transferidos ou libertados durante o tempo estimado de infecciosidade. Essa
transmissão pode ocorrer em celas-dormitório, ginásios, oficinas, cantinas e
áreas de visitas11.
Além do potencial de eclosão dentro de uma prisão, é igualmente possível a
transmissão de TB à comunidade por parte de reclusos recém-libertados, conforme
o atestam numerosos estudos32,37,63-67. Um caso ilustrativo foi reportado
nas prisões do estado de Nova Iorque onde um grupo de 12 reclusos com TB-MR foi
transferido entre 20 prisões originando um perigoso surto5. Em alguns países
muitos doentes terminais, alguns com TB potencialmente MR, são libertados
através de decretos amnistiais68.
A vertente de oportunidade
O parque prisional é potencialmente um espaço metamorfósico para a TB visto
que, facilmente, é local do contágio, concentração, disseminação e potencial
exportação da doença4. Porém, o auditório recluso representa também uma
flagrante oportunidade para as políticas de controlo surtirem impacto
significativo em termos de saúde pública. Provindo a maioria dos reclusos de
segmentos populacionais com estilos de vida desajustados e que oferecem maiores
dificuldades de identificação e tratamento da TB na comunidade exterior, o
encarceramento permite circunscrever e visar terapeuticamente este grupo de
alto risco, sob um regime terapêutico supervisionado adjuvado, programas de
desintoxicação e de educação para a saúde6,34,37,38,69. Mais do que uma ameaça
de contrair doença, o tempo de reclusão deverá proporcionar a oportunidade de
diagnosticar e tratar estes indivíduos com benefício repartido para o sujeito e
comunidade em geral37,70.
Necessidades e medidas: as 2 faces
Como resposta às necessidades existentes, a OMS e o Comité Internacional da
Cruz Vermelha elaboraram diretivas para o controlo da TB em ambiente
prisional2. Também o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) renovou
recentemente linhas de orientação71 que, por escassez de ensaios controlados
sobre TB prisional, refletem maioritariamente recomendações de peritos assentes
na aplicação dos conteúdos DOTS e DOTS-Plus com inclusão de atividades
ajustadas a essa realidade específica71.
Atualmente, a operacionalização de estudos de intervenção em prisões permanece
difícil e o recurso a modelos matemáticos para simular a dinâmica da TB e
avaliar o impacto de determinadas medidas tem sido uma estratégia utilizada28.
Para o controlo da TB, assegurada a pêntade elementar DOTS2,71, o painel do CDC
defende a necessária adoção de um conjunto de medidas primordiais:
identificação precoce de reclusos com TB através de rastreio à entrada e com
caráter periódico, associada a um eficiente rastreio de contactos; tratamento
rigoroso e bem-sucedido da TB ativa e da infeção latente; uso apropriado de
secções de isolamento respiratório, medidas de engenharia para controlo
ambiental e material de proteção individual; plano de libertação coordenado com
entidades de saúde comunitárias locais; e avaliações programáticas regulares em
colaboração com os programas de controlo nacionais72.
Não obstante, a medida mais primordial passará, antes de mais, pelo
melhoramento geral das condições prisionais2. Os Ministérios da Justiça deverão
desencadear reformas prisionais focadas na resolução do problema da
sobrelotação, no melhoramento de condições higieno-sanitárias e das
infraestruturas dos serviços de saúde prisionais, assim como incentivar o
recrutamento de profissionais de saúde para a carreira prisional. Reconhecendo
a pouca sensibilidade governativa para as carências de saúde da população
reclusa, desde 1998 que o Conselho Europeu de Ministros recomendou o
fortalecimento do papel do Ministério da Saúde na área da saúde prisional72,
ainda que somente um grupo minoritário de países tenha procedido à
transferência tutelar dos cuidados de saúde prisionais.
Genericamente, a deteção de casos de TB numa prisão pode fazer-se de forma
trimodal: por deteção à entrada através de rastreio, por investigação de
reclusos doentes reportadamente sintomáticos e por meio de rastreio ativo
periódico. O rastreio sistemático à admissão desempenha um importante papel na
deteção precoce de casos2,73. Num estudo europeu14, cerca de 90% dos 22 países
participantes afirmavam efetuar rastreio ativo dos reclusos à entrada nas suas
prisões, ao passo que 81,8% executavam investigações de contactos.
Relativamente à escolha metodológica há autores que defendem que o tipo de
rastreio deve depender da incidência local, exequibilidade e nível de custo-
efetividade74. A OMS preconiza atualmente a deteção contínua de prisioneiros
sintomáticos através de rastreio à entrada e em intervalos regulares,
utilizando inquérito clínico, radiografia de tórax e microscopia da
expectoração4. Já as recomendações do CDC71 fazem depender a metodologia de
rastreio à entrada do nível de risco do estabelecimento prisional ser
considerado "mínimo"/"não mínimo" (casos no ano
anterior, proporção de reclusos com fatores de risco e de reclusos imigrantes
de países endémicos). No primeiro caso, todos os novos reclusos devem ser
inquiridos sobre sintomas - tosse superior a 3 semanas, hemoptise, febre
com duração superior a um mês, perda ponderal no último trimestre, sudorese
noturna - e antecedentes de TB ativa. A presença de um destes deve
conduzir à alocação do recluso numa unidade de isolamento respiratório até
posterior investigação com intradermorreação (IDR) ou QuantiFERON®, microscopia
da expetoração e radiografia de tórax40. Por seu lado, em prisões de risco
"não-mínimo", todos os reclusos assintomáticos devem, além do
inquérito clínico-anamnésico, efetuar IDR, QuantiFERON® ou radiografia de
tórax24,70. Em infetados VIH deve ser sempre salvaguardada a realização de
radiografia71.
Muito debate decorreu relativamente à melhor metodologia a associar ao
inquérito clínico. Foi reconhecida a utilidade metodológica e custo-efetividade
da radiografia de tórax em ambientes prisionais de alta incidência4,75,76. Esta
consegue aumentar a deteção de casos de TP, porém, isoladamente não permite
identificar sujeitos com TB latente. A sua utilização deve ter lugar em
instituições prisionais que albergam grande número de indivíduos por períodos
curtos de tempo e com grande expressão de fatores de risco4. Contudo, a sua
aplicabilidade é condicionada pela disponibilidade de meios técnicos na
instituição, tempo de permanência dos reclusos e grau de prontidão na leitura
radiográfica. Todos os reclusos com alterações sugestivas devem ser alvo de
exames micobacteriológicos de expetoração.
Relativamente aos reclusos infetados por VIH, dada a alta taxa de falso
negativos da IDR e a possibilidade de radiografia negativa, devem sempre
submeter expetoração para baciloscopia72. Contrariamente, se a IDR ou o
QuantiFERON® forem escolhidos como método associado ao inquérito clínico, todo
o indivíduo assintomático com resultado positivo deve realizar radiograma de
tórax e submissão de expectoração71.
Relativamente ao rastreio periódico sistemático, foi provada a sua custo-
efetividade em prisões altamente endémicas, conseguindo nestes cenários
decréscimos mais rápidos da taxa de incidência24,72. Estudos de modelação
matemática mostraram que a associação de rastreio radiológico à entrada
associado a rastreio radiológico anual em massa surte impacto positivo na taxa
de prevalência prevista de TB devendo, como tal, ser considerada em prisões
altamente endémicas72. Todavia, dada a sua difícil generalização4,24, este
rastreio deve realizar-se com uma regularidade a definir localmente consoante
os meios técnicos e nível endémico existentes71.
Outra importante componente assenta na estratégia de investigação de contactos.
Esta visa interromper a cadeia de transmissão, através da identificação,
isolamento e tratamento de reclusos com TB ativa ou TB latente, contagiados a
partir de um caso índice71. Deve ser iniciada perante casos suspeitos/
confirmados de TP, laríngea ou pleural com baciloscopia positiva, nas quais se
decidiu iniciar terapêutica antibacilar. Os contactos identificados devem ser
estratificados em patamares de duração/intensidade da exposição, iniciando-se a
investigação pelos indivíduos em maior risco e todos os VIH seropositivos
recorrendo-se a entrevista sintomática e IDR, suspendendo-se a expansão da
investigação quando um grupo manifestar ausência de infeção71. Todos os
reclusos sintomáticos ou com QuantiFERON® ou IDR positiva devem realizar
radiografia. A averiguação de contactos pode ser agilizada pela colocação
imediata dos casos suspeitos em isolamento respiratório, colheita imediata de
expetoração com resultado da baciloscopia em 24 h, recurso a testes de
amplificação de ADN em todas as expetorações positivas, uso de meios de cultura
de crescimento rápido e início pronto de investigação em camadas de risco14.
Apesar das recomendações, as atividades de rastreio e investigação de contactos
continuam a não ser aplicadas em prisões de países de menores recursos77, assim
como na generalidade dos centros de detenção temporária devido à carência de
efetivos e ao alto turnover da população reclusa4.
As equipas de saúde prisionais devem ter acesso universal a uma rede de
laboratórios que assegurem microscopia de qualidade certificada4. Contudo, em
muitos locais a baciloscopia não é efetuada ou então é executada com má
qualidade. Foi recomendada a criação de uma rede de unidades com valência
técnica para microscopia da expetoração no interior das prisões centrais,
garantindo cobertura a prisões regionais. Em alternativa, poderão empreender-se
programas de colaboração entre laboratórios civis e as equipas de saúde
prisionais. Todo o processo de submissão de expetoração deve ser observado e
supervisionado2,4,40 em quarto de isolamento respiratório ou ao ar livre71.
A atuação terapêutica deve ser regida por profissionais de saúde adequadamente
formados, em estrita uniformidade com as orientações internacionais2. Ao
contrário da terapêutica universal da TB ativa, o tratamento de todos os
reclusos com TB latente é considerado uma estratégia inexequível em meios de
alta prevalência. Contudo, é invariavelmente preconizado para grupos de risco
principais como infetados VIH, contactos de casos bacilíferos e filhos de
reclusas infetadas2,38.
Relativamente à completude do tratamento, sabe-se que reclusos não sentenciados
têm um tempo de custódia variável. Ocasionalmente poderá ser demasiado curto
para que seja completado o tratamento, devendo as autoridades assegurar que
este é cumprido quer o sujeito seja libertado ou sentenciado2,34. De outra
forma, se estiver em causa uma transferência de penitenciária, é fulcral que
pelo menos a fase inicial de tratamento seja completada antes de o recluso ser
transferido34.
Um dos pilares da extensão DOTS passa pela promoção de programas de colaboração
para tratamento da sindemia TB/VIH. Além da disponibilização universal de
testes de deteção, devem ser implementadas medidas como: sessões educativas,
oferta ininterrupta de preservativos, disponibilização e renovação de kits de
higiene pessoal, programas de troca de seringas e recrutamento para programas
de desintoxicação com terapêuticas de substituição supervisionadas2,38.
Ao nível do controlo ambiental do risco para TB preconiza-se a implementação de
um pacote de medidas. Administrativamente, passam pelo diagnóstico precoce e
isolamento dos casos infeciosos em condições de isolamento respiratório4 ou
transferência para unidade com essa dotação71. Existem atualmente publicações
técnicas77 para implementação de medidas de controlo ambiental assentes em
soluções de engenharia e planificação estrutural. A ventilação deve ser
concebida de forma a renovar e controlar fluxos de ar dos quartos direcionando-
os da entrada dos corredores para os quartos e destes para o exterior, através
de sistemas de pressão negativa que devem ser testados regularmente através de
testes de fumo. A depuração aérea de espaços infeciosos deve reger-se por
critérios técnicos publicados e recorrer a filtros de ar particulado de alta
eficiência ou a irradiação germicida com ultravioletas71. Na enfermaria do
hospital prisional devem existir janelas grandes com boa exposição solar e nos
quartos para colheita de expetoração e laboratórios as portas devem ser
mantidas fechadas e as janelas abertas2. Por último, as medidas de proteção
individual como luvas, batas e máscaras faciais com e sem viseira e com filtro
de ar particulado (modelo P1) devem ser usadas quando as medidas anteriores não
alcancem uma redução aceitável do risco infecioso78. As máscaras faciais
cirúrgicas (modelo N95/P2), reduzindo apenas parcialmente o risco de
contaminação, na carência de melhor solução devem ser utilizadas em todos os
casos suspeitos/confirmados de TB para qualquer deslocação intraprisional ou
exterior2.
Todos os casos intraprisionais de TB-MR devem ser corretamente identificados e
tratados de acordo com as orientações da OMS, com medicação aportada do Comité
de Luz Verde e dos Ministérios da Saúde. Sabe-se, no entanto, que em muitas
partes do mundo este tipo de medicação é utilizado por critério prescritivo
pessoal fora dos planos nacionais de TB2,4,79.
O sucesso da continuidade de cuidados passa incontornavelmente pela cooperação
com as entidades locais de saúde pública. A complementaridade entre programas
é, desde logo, facilitada por um sistema eficaz de notificação dos casos
prisionais para o Programa de Controlo Nacional, e uma base de registo comum
com o setor civil4. Tal evitaria os falíveis e retardatários canais de
comunicação da administração prisional central para o Ministério da Saúde e
agilizaria a investigação de contactos na comunidade71. Indispensavelmente, os
EP devem desenvolver planos de libertação de casos confirmados ou suspeitos de
TB, assim como de casos de infeção latente com alto risco de progressão para
doença. Objetando ao sucesso da reinserção, tais planos devem albergar
componentes como: programas de desintoxicação, diagnóstico/tratamento de doença
mental, formação profissional e prevenção de reincidência, informação pessoal
detalhada, prática da TOD, calendarização de consultas de atendimento na
comunidade com eventual atribuição de incentivos ou subsídios, e o envio dos
registos clínicos para o clínico que seguirá o doente na comunidade4,71,79.
Por último, o recrutamento de profissionais de saúde seria facilitado pelo
melhoramento salarial, atribuição de subsídios educacionais, salvaguarda de
tempo para dedicação ao ensino, programas de cuidado infantil, flexibilidade de
horário e desmistificação da ideia de sujeição permanente a risco de
integridade física34. Para fazer face à tendencial rejeição das carreiras em
saúde prisional, as escolas médicas deveriam ser envolvidas em experiências
educacionais na saúde prisional e deveriam ser implementados estágios no âmbito
do internato médico de algumas especialidades visando uma maior atratividade
pelo trabalho em saúde prisional75.
A realidade portuguesa
A taxa de incidência nacional foi de 21,6 x 105 habitantes em 2012, mantendo-se
Portugal como o único país de incidência intermédia na Europa Ocidental. A
prevalência de coinfecção por VIH mantém-se como uma das mais elevadas da União
Europeia (14,5%)80.
No final de 2012 o parque prisional português era constituído por 13.614
reclusos73, dos quais 19,1% eram imigrantes sobretudo de Cabo Verde, Brasil,
Angola e Guiné-Bissau. É globalmente uma população masculina (94%),
maioritariamente pertencente ao escalão etário dos 19-39 anos (14,5%)81, com
uma taxa de analfabetismo global de 3,6%. A prevalência global de VIH era de
10,2% em 200682,83 e tem vindo a diminuir84,85. Em 2003, aproximadamente 46%
dos reclusos eram usuários ativos de drogas61.
A lotação geral do parque prisional foi em 2012 de 112,7%, tendo a sobrelotação
atingido 40% dos estabelecimentos centrais e 74% dos estabelecimentos
regionais. Os mais destacados eram o EP de Setúbal (taxa de ocupação de 243%) e
o de Viana do Castelo (207%)86. O parque penitenciário português foi já
considerado como não tendo "unidades em número e lotação suficientes,
comportando alguns edifícios muito degradados e sem condições adequadas de
higiene e salubridade"87. Apesar da obrigatoriedade legal (Decreto-Lei
n.° 265/79) do regime de celas individuais, bem como a proibição de
superlotação, desde 1985 que a taxa de ocupação ultrapassou os 100%88. Segundo
Boaventura Sousa Santos, "os estados não têm entendido, como essencial, a
renovação e o melhoramento dos EP, mantendo em funcionamento estabelecimentos
desenhados e projetados para otimizar o desempenho da vertente de
encarceramento"89.
Em 2002 e 2006, a taxa de notificação de TB na população prisional foi de 275/
105 e 864/105, respetivamente14,82. O último valor representou um risco 20
vezes superior ao observado a nível nacional nesse ano. Em 2012, os 65 casos
verificados de TB na população reclusa traduziram uma subida acentuada face a
anos anteriores (fig._2) e correspondem a uma taxa de incidência prisional de
477 x 105, 22 vezes superior à da população geral80.
Genericamente, a prestação de cuidados de saúde é assegurada pelo Hospital
Prisional S. João Deus (HPSJD) e pelas unidades de saúde existentes nos EP,
existindo enfermarias em 7 EP conferindo alguma cobertura regional. O acesso ao
SNS ocorre apenas em última instância. Relativamente à capacidade de isolamento
respiratório, só recentemente e apenas no HPSJD foram instalados quartos com
pressão negativa90. Todos os EP têm assistência de clínica geral e enfermagem,
apesar do apoio médico ser feito por vezes em 2 períodos semanais. Em regra, a
equipa médica não integra a carreira prisional, sendo contratada por
intermediação de empresa de trabalho temporário91. Esta forma de paliação da
carência de profissionais conduz à menor probabilidade de serem promovidas
reformas nesses serviços e a problemas a nível dos pagamentos, não promovendo a
vinculação em continuidade ou níveis motivacionais positivos59. Conhecendo-se a
necessidade de maior número de médicos e enfermeiros92, foi já proposta a
criação de uma forma de medicina prisional como especialidade médica
distinta59.
Relativamente à dimensão higieno-sanitária, foi paradigmático que o recurso ao
balde higiénico no sistema prisional português apenas foi abolido em setembro
de 200992. Um outro aspeto já reprobatoriamente salientado prende-se com o
facto de, em alguns locais, a medicação ser ainda distribuída pelos guardas
prisionais ou outros elementos não pertencentes às equipas de saúde
prisionais61,92, o que pode comprometer a efetividade terapêutica dos programas
de TB. É também preocupante que haja EP em que são os guardas de ala a
vistoriarem a toma da medicação e a escrutinarem as queixas de saúde dos
reclusos numa forma de "pré-triagem"59,92.
Relativamente ao rastreio de TB, apesar das melhorias verificadas nos últimos
anos, constata-se que o rastreio admissional é por vezes protelado até 3
semanas após admissão93 e que o rastreio sistemático é realizado com
periodicidade não-uniforme e, por vezes, dirigido somente a grupos de risco61.
À semelhança de outros países, a existência de hierarquias não-oficiais
detentoras de poder assinalável no interior do sistema prisional português foi
já assumida por algumas autoridades, entre as quais a DGSP93,94, sendo que o
poder informal entre os reclusos parece encontrar-se adstrito a criminosos
profissionais com ligações ao narcotráfico95.
Recentemente, o grupo de trabalho para o Plano de Ação Nacional para Combate à
Propagação de Doenças Infecto-Contagiosas em Meio Prisional constatou existirem
programas de intervenção para toxicodependentes e disponibilização de
preservativos em todos os EP, embora geralmente a pedido. Igualmente, a
distribuição de lixívia para desinfeção de material para práticas de risco
ocorre em 92% dos EP. Sessões educativas sobre doenças infeciosas e
toxicodependência são empreendidas ocasionalmente, porém, o material
informativo é escasso e desadaptado ao meio prisional. Este grupo de trabalho
renovou recomendações para que se possibilite um acesso constitucional
equitativo à saúde, uma melhor dotação dos serviços de saúde prisionais e uma
definição de centros extraprisionais regionais de referência para
encaminhamento facilitado dos reclusos quando necessário. Foi igualmente
sublinhada a necessidade de formação contínua das equipes clínicas, de
implementação contínua de medidas de redução de risco infecioso, do acesso a
informação independente referente à situação sanitária em meio prisional e a
necessidade também de assegurar sempre o diagnóstico precoce e tratamento da
TB96.
O processo de intenção para a transferência da responsabilidade dos serviços de
saúde prisionais para a alçada do Ministério da Saúde até 2010 foi
anteriormente assumido pelas autoridades competentes, porém, sem reflexo
prático até à data. Tal medida seria imprescindível para o reenquadramento dos
reclusos no SNS92.
O estudo do espaço prisional português tem percorrido recentemente os primeiros
degraus, propulsionado pela opinião pública contestatária face ao
reconhecimento dos constrangimentos da vida prisional e à iniquidade no acesso
à saúde. O primeiro porta-voz institucional foi o Provedor de Justiça através
da publicação de 3 relatórios sobre o sistema prisional61,97,98. A Comissão de
Estudo e Debate da Reforma do Sistema Prisional (CEDERSP) defendeu que "o
problema do nosso sistema prisional continua a não ser, no essencial, um
problema de má legislação, mas antes um problema de falta de visão global da
estratégia adequada à execução das leis elaboradas, falta de vontade político-
administrativa, falta de organização e de meios humanos, técnicos e
financeiros, mas também falta de empenhamento da própria sociedade no seu
conjunto"87.
Conclusão
É urgente garantirem-se melhores serviços de saúde prisionais. Em vastas
regiões do mundo a saúde prisional é vista ainda como uma concessão da
administração penitenciária. A promoção da saúde, particularmente a luta contra
a TB nas prisões, implica uma reflexão conjunta dos atores sobre estratégias
adaptadas às especificidades inerentes a um meio altamente estigmatizante.
O aperfeiçoamento dos programas prisionais de controlo da TB deve focar
obrigatoriamente todos os aspetos da vida em prisão e merecem ser acompanhados
de uma reforma geral prisional59,61,87 e de um reenquadramento programático na
esfera da clínica geral e saúde pública37,71. Medidas fulcrais passam pelo
necessário reforço do financiamento, melhoria das condições de encarceramento,
melhores planos de coordenação com os serviços de saúde comunitários, uma
aproximação às escolas médicas e mais estudos epidemiológicos de intervenção
sobre a TB na população prisional4,19,37,71,74.