Maturação de frutos e tratamento pré-germinativo na produção de mudas de mamão
Introdução
A propagação do mamão é realizada preferencialmente por meio de sementes.
Trata-se de um método rápido, econômico e prático (Tokuhisa et al., 2007). No
entanto, a germinação é considerada lenta e irregular devido a presença de
sarcotesta nas sementes e dormência associada a maturação e época de colheita
dos frutos (Yahiro, 1979; Reyes et al., 1980; Aroucha et al., 2005; Tokuhisa et
al., 2007; Tokuhisa et al., 2008; Rodriguéz et al., 2013).
O estabelecimento do momento adequado da colheita do fruto, em função do grau
de maturação, visando a extração de sementes, é uma etapa crucial para a
produção de mudas de várias espécies frutíferas, como a pitangueira (Antunes et
al., 2012), a cerejeira-do-mato e uvaia (Oro et al., 2012), o maracujazeiro
(Araújo et al., 2007; Battistus et al., 2014), a jabuticabeira (Alexandre et
al., 2006), o physalis (Carvalho et al., 2014; Sbrussi et al., 2014) e mamoeiro
(Lopes et al., 2009; Melo e Seleguini, 2013; Zanotti et al., 2014). Alterações
morfológicas relacionadas à coloração e textura no epicarpo podem ser
sugestivas para otimizar a colheita de frutos para a retirada de sementes com
alta qualidade (Carvalho e Nakagawa, 2012).
A embebição em água quente é um tratamento pré-germinativo recomendado para a
superação de dormência em sementes de tegumento duro e impermeável (Muhamadd e
Amusa, 2003; Souza et al., 2007; Zarchini et al., 2011; Dutra et al., 2013).
Além disso, pode ser utilizada com o objetivo de inativar ou lixiviar
substâncias inibidoras e retardantes da emergência e/ou desenvolvimento de
plântulas presentes no tegumento e controlar patógenos associados às sementes
(Marroni et al., 2009; Agusti-Brisach et al., 2012; Ding et al., 2013; Faruq et
al., 2015). No entanto, tal método deve ser investigado devido a possíveis
danos ao embrião.
Diante do exposto, o propósito deste trabalho foi determinar os efeitos do
estádio de maturação de frutos e de tratamentos pré-germinativos com água
quente na emergência e no crescimento de plântulas de mamoeiro.
Material e métodos
As sementes utilizadas foram extraídas de frutos hermafroditas de mamão, do
grupo Formosa, híbrido Tainung 01, nos estádios de maturação 3 (coloração
amarelada correspondendo a 50 % do epicarpo, presença de áreas em verde claro)
e 5 (mais de 75% da superfície externa com coloração amarelada), conforme
critérios estabelecidos por Tatagiba e Oliveira (2000) e adaptados de Basulto
et al. (2009) . As sementes foram removidas com auxílio de colher de inox, sem
excisão de resíduos da polpa em água corrente para evitar a retirada da
sarcotesta.
Para avaliar o efeito da combinação entre o estádio de maturação de frutos e a
temperatura da água na embebição de sementes de mamão, empregou-se o
delineamento inteiramente casualizado, com quatro repetições (24 sementes /
repetição), em esquema fatorial 2 x 4, sendo duas classes de maturação (classes
3 e 5) e quatro temperaturas de embebição (25 °C, 50 °C, 75 °C e 95 °C). As
sementes foram imersas em 50 mL de água inicialmente a essas temperaturas, por
cinco minutos, e colocadas para secar sobre papel, à temperatura ambiente, por
sete dias.
Posteriormente, realizou-se a semeadura em bandejas de isopor de 128 células
(40 cm3 porcélula), preenchidas com o substrato comercial Tropstrato®,
empregando-se uma semente por célula. A emergência de plântulas foi avaliada a
cada 2 dias, durante 30 dias após a semeadura, para cálculo do índice de
velocidade de emergência (Maguire, 1962).
Aos 45 dias após a semeadura procedeu-se análise de crescimento das mudas para
determinação de: massa de matéria fresca total (g planta-1); massa de matéria
seca total (mg planta-1); altura de parte aérea (cm planta-1) e comprimento
radicular (cm planta-1). Amostraram-se, de cada repetição, quatro mudas que
foram pesadas em balança analítica (precisão de 0,001 g) para obtenção de massa
de matéria fresca total. Posteriormente, as mudas foram acondicionadas em sacos
de papel e submetidas ao método estufa (60 °C, 72 horas) para determinação da
massa de matéria seca total (Benincasa, 2003). A altura de parte aérea e o
comprimento radicular foram obtidos por meio de régua graduada.
Os dados obtidos, primeiramente, foram submetidos aos testes de Liliefors
(Normalidade) e Barlett (Homogeneidade de variância) para verificar as
pressuposições da análise de variância. Todos estes requisitos foram atendidos
e, portanto, os dados não foram transformados.
A significância dos efeitos dos tratamentos foi determinada pelo Teste F, sendo
que para o fator "temperatura da água de embebição" foram ajustadas
regressões polinomiais. Para interação entre os fatores "maturação" e
"temperatura da água de embebição" empregou-se o Teste de Tukey e regressões
polinomiais.
Resultados e discussão
A emergência de plântulas iniciou-se aos 19 dias após a semeadura. As
interações entre os fatores (estádio de maturação x temperatura da água de
embebição) ocorreram para a percentagem de emergência de plântulas, índice de
velocidade de emergência e massa de matéria fresca total (Quadro_1). As demais
variáveis foram analisadas considerando os efeitos isolados de cada fator.
O estádio de maturação de frutos afetou a percentagem e velocidade de
emergência e, a acumulação de massa de matéria fresca nos tecidos de plântulas
de mamoeiro, fato também observado por Sangakkara (1995). Sementes oriundas de
frutos no estádio 3, quando comparadas as do estádio 5, propiciaram maior
percentagem e velocidade de emergência e, massa de matéria fresca de plântulas
(Quadro_1).
Zhou e Paull (2001) verificaram que o máximo desenvolvimento de sementes de
mamão, procedentes de frutos da cultivar Sunset (grupo Solo), ocorre antes da
completa maturação dos frutos. No estádio 3, as sementes provavelmente alcançam
o ponto de maturidade fisiológica, que representa o máximo potencial
fisiológico refletido na germinação e no vigor (Carvalho e Nakagawa, 2012;
Marcos Filho, 2005; Lopes et al., 2009).
O efeito da temperatura da água na embebição de sementes sobre a emergência e
massa de matéria fresca é dependente do estádio de maturação dos frutos (Quadro
1; Quadro_2). Verificou-se para sementes extraídas de frutos no estádio 3 que
temperaturas mais altas (95 ºC) incrementaram a percentagem e velocidade de
emergência assim como o acúmulo de água nos tecidos, atingindo o ponto de
máximo quando submetidas a 95 °C (Figura_1A,_1B,_1C; Quadro_2). Considerando-se
as sementes de frutos no estádio 5, a temperatura não propiciou nenhum efeito
(Figura_1A,_1B,_1C).
A composição química da sarcotesta pode explicar tal contraste. A substância
predominante nessa estrutura é o ácido p-hidroxibenzóico (Chow e Lin, 1991).
Este ácido é um composto fenólico derivado do ácido salicílico. Estes fenóis
são considerados pouco estáveis e facilmente oxidados por ação de luz, calor e
metais (Carvalho et al., 2004). O ácido salicílico além de ser mensageiro
central na resposta a infecções causadas por patógenos pode ser um inibidor de
crescimento, prejudicando a germinação e a emergência de plântulas (Sharafizad
et al., 2013). Assim, pode-se inferir que, em função da possível maturidade
fisiológica, as sementes de frutos no estádio 3 possuem maior quantidade de
compostos fenólicos na sarcotesta para impedir a viviparidade. Diante de tais
proposições, sugere-se que estudos sejam ampliados visando a caracterização da
composição da sarcotesta em função dos graus de maturação de frutos e sementes
de mamão.
Temperaturas mais altas foram mais eficientes pois promoveram alterações na
estrutura e composição da sarcotesta sem prejudicar o embrião, e,
consequentemente, a emergência de plântulas (Quadro_1). A água quente pode ter
favorecido a formação de microfraturas ao longo do tegumento, impulsionando a
embebição, como sugerido por Gray (1962). A imersão de sementes de Peltophorum
dubium (Sprengel) Taubert e Capsicum baccatum L. var. pendulum em água quente
propiciou maior germinação (Oliveira et al., 2003; Carneiro et al., 2010;
Seneme et al., 2012). No entanto, temperaturas elevadas podem ocasionar a
indução de dormência secundária e morte do embrião, prejudicando a germinação e
a emergência de plântulas (Albuquerque et al., 2007; Shimizu et al., 2011; Wang
et al., 2011; Xavier et al., 2012).
O fator estádio de maturação não afetou a acumulação de massa de matéria seca
total de plântulas de mamão, assim como a altura de parte aérea e o comprimento
radicular (Quadro_1). Assim, sementes oriundas de frutos do estádio 3, mesmo em
vantagem em relação ao maior conteúdo de matéria seca em função da possível
maturidade fisiológica, priorizaram o gasto metabólico no processo de
emergência, e, não, no desenvolvimento e crescimento posterior da plântula,
equiparando-se ao comportamento de sementes de frutos do estádio 5.
Temperaturas crescentes ocasionaram respostas quadráticas para as variáveis
altura de parte aérea e comprimento radicular, sem prejuízos à massa de matéria
seca total (Quadro_1). Choques térmicos causam a ativação de enzimas que atuam
em rotas metabólicas envolvidas no crescimento do hipocótilo (Áquila e Neto,
1988). Alves et al. (2004) observaram que a embebição de sementes de Bauhinia
divaricata L. em água a 70°C proporcionou as maiores acumulações de massa de
matéria seca. No entanto, Bruno et al. (2001) verificaram que a imersão de
sementes de Mimosa caesalpiniaefoliaBentham em água fervente ocasionou o menor
conteúdo de matéria seca nas plântulas. Desta forma, observa-se que o efeito do
uso da água quente para superação de dormência e/ou promoção na emergência e
crescimento de plântulas é dependente do genótipo, população, morfologia da
semente, maturação fisiológica da semente, tempo e temperatura de imersão
(Souza et al., 1994; Azeredo et al., 2010).
Conclusão
O estádio de maturação dos frutos de mamão é um fator essencial para a retirada
de sementes com alta qualidade visando a produção de mudas. O vigor das
sementes pode ser potencializado por meio de embebição com água quente (95 °C)
devido a redução dos efeitos deletérios decorrentes da composição química da
sarcotesta.